{"id":2687,"date":"2011-09-26T17:03:36","date_gmt":"2011-09-26T17:03:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2687"},"modified":"2016-05-28T14:11:44","modified_gmt":"2016-05-28T14:11:44","slug":"o-olhar-como-performance","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-olhar-como-performance\/","title":{"rendered":"O olhar como performance"},"content":{"rendered":"<p>A atividade do olhar \u00e9 normalmente entendida como capta\u00e7\u00e3o discreta e passiva dos movimentos do mundo. Mas o pr\u00f3prio olhar \u00e9 movimento, como diz Alfredo Bosi, \u201ccom propriedades din\u00e2micas de energia e calor gra\u00e7as a seu enraizamento nos afetos e na vontade\u201d (&#8220;Fenomenologia do Olhar&#8221;, 1988. p. 77). Alguns artistas buscam reconhecer os momentos em que o olhar revela sua espessura, em que se torna por si mesmo uma performance, gesto que afeta tamb\u00e9m aquilo que \u00e9 visto. Quando o olhar se torna vis\u00edvel, seus vetores comp\u00f5em um enredo: o espa\u00e7o \u00e0 sua volta se torna uma esp\u00e9cie de palco e seus agentes se tornam personagens.<\/p>\n<p>Doisneau \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico. Ele construiu narrativas \u00e0 maneira das <em>gags<\/em> do cinema mudo, graciosas, rom\u00e2nticas, e que encontra no gesto do olhar seu recurso mais eloquente, capazes de constituir verdadeiros di\u00e1logos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2696\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Robert-Doisneau-Square-du-Vert-Galant-19501.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2696\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2696\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Robert-Doisneau-Square-du-Vert-Galant-19501-620x454.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"454\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2696\" class=\"wp-caption-text\">Robert Doisneau, Square du Vert-Galant, 1950<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_2702\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Robert-Doisneau-Le-Peintre-du-Pont-des-Arts-1953-e-Un-Regard-Oblique-19481.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2702\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2702\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Robert-Doisneau-Le-Peintre-du-Pont-des-Arts-1953-e-Un-Regard-Oblique-1948-620x295.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"295\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2702\" class=\"wp-caption-text\">Robert Doisneau, Le Peintre du Pont des Arts, 1953 \/ Un Regard Oblique,1948<\/p><\/div>\n<p>Num dado momento, pareceu-nos que Doisneau havia descoberto em Paris o lugar em que essas performances ocorriam de forma espont\u00e2nea. Hoje, sabemos que ele dirigiu seus atores e que essa Paris \u00e9, de certo modo, uma cenografia que ele ajudou a construir. Isso sugere que Doisneau n\u00e3o est\u00e1 fora da cena, seu olhar \u00e9 um dos vetores que demarcam esse palco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fabio Seixo \u00e9 um fot\u00f3grafo que percebeu igualmente que olhar constitui uma performance. Mas sua s\u00e9rie\u00a0<em>Photoland<\/em> revela um tempo e um lugar bastante distinto daquele de Doisneau: o agenciamento t\u00e9cnico do olhar se tornou evidente, primeiro porque, quase onipresentes, as c\u00e2meras assumiram o papel de protagonistas na cena e, segundo, suas porque as performances que registra se tornaram barrocas, algo rococ\u00f3 (repleta de \u201crocailles\u201d que tornam o gesto de fotografar um ornamento da paisagem).<\/p>\n<div id=\"attachment_2703\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/F\u0087bio-Seixo-Photoland-Wes-tmister-Bridge-London-011.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2703\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2703\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/F\u0087bio-Seixo-Photoland-Wes-tmister-Bridge-London-01-620x497.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"497\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2703\" class=\"wp-caption-text\">Fa\u0087bio Seixo, Photoland - Westmister Bridge, London<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_2704\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/F\u0087bio-Seixo-Photoland-Cristo-Redentor-Rio-de-Janeiro-021.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2704\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2704\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/F\u0087bio-Seixo-Photoland-Cristo-Redentor-Rio-de-Janeiro-02-620x497.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"497\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2704\" class=\"wp-caption-text\">Fa\u0087bio Seixo, Photoland - Cristo Redentor, Rio de Janeiro<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o se trata simplesmente de denunciar a falsidade daquilo que o olhar constr\u00f3i, como recentemente se fez \u00e0 respeito das fotografias de Doisneau. \u00c9 mais sutil que isso. Quando as c\u00e2meras se incorporam a certos rituais sociais, o repert\u00f3rio desse teatro se diluiu em nossa realidade cotidiana.<\/p>\n<p>Foi Cl\u00e1udia Linhares &#8211; nossa colega aqui do Ic\u00f4nica &#8211; quem percebeu essa caracter\u00edstica nesse trabalho:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFabio Seixo transforma a fotografia em paisagem \u2013 \u00e9 o pr\u00f3prio fotografar que cruza natureza e artif\u00edcio, alcan\u00e7ando a materialidade de um terreno e, simultaneamente, de uma vista. Nesse caso, \u00e9 a fotografia que ocupa o lugar da natureza: ela instaura-se como realidade f\u00edsica, como nosso meio geogr\u00e1fico, mundo que rodeia&#8221; (texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.fotorio.fot.br\/2011\/exposicoes.asp?cdt=3&amp;cdl=9\" target=\"_blank\">site do FotoRio 2011<\/a>).<\/p><\/blockquote>\n<p>Seixo trata especialmente do olhar do viajante, esse sujeito que costumava percorrer o mundo com olhos especialmente ativados, que sempre foi respons\u00e1vel por inventar aquilo que chamamos de paisagem, mas que agora n\u00e3o se presta mais a nenhuma surpresa, apenas \u00e0 sua pr\u00f3pria inser\u00e7\u00e3o nos postais j\u00e1 consolidados. Cl\u00e1udia Linhares prossegue:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Colocadas lado a lado, as fotografias das fotografias arquitetam um modo de existir da atualidade em que o estrangeiro n\u00e3o chega propriamente a se deparar com o estranho, mas reconhecer ele pr\u00f3prio em todos os cantos do planeta, promover o conhecido, demarcar o alisamento das diferen\u00e7as. Nesse mapa-mundi da fotografia contempor\u00e2nea o horizonte sem fim e infinitamente descortin\u00e1vel (que antes moveu viajantes e fez da fotografia um instrumento de revela\u00e7\u00e3o \u2013 e manuten\u00e7\u00e3o \u2013 do mist\u00e9rio) cede lugar a paisagem \u201cfoto-biogr\u00e1fica\u201d. Viajar n\u00e3o \u00e9 mais tanto desterritorializar-se, mas territorializar o mundo em eixos e orienta\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isis Gasparini \u00e9 uma jovem artista formada pela Faap que se interessa particularmente pela performance do olhar diante da obra de arte. Deparou-se com a quest\u00e3o ao se aproximar daquela que \u00e9 a mais visada de todas as pinturas da hist\u00f3ria (essa obra j\u00e1 havia aparecido numa das paisagens tur\u00edsticas de Fabio Seixo). Mas aqui, Isis n\u00e3o apenas deslocou seu ponto de vista para tornar vis\u00edvel a atua\u00e7\u00e3o do olhar, ela completou a volta para se defrontar diretamente com ele, colocando-se quase no lugar daquilo que \u00e9 visto. Essa invers\u00e3o \u00e9 semelhante \u00e0quela operada por <a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/velazquez-las-meninas.jpg\" target=\"_blank\">Vel\u00e1zquez, em\u00a0<em>Las Meninas<\/em><\/a>. Mas, se foi surpreendente ver o <em>backstage<\/em> em que se situava o pintor, o lugar e a performance dos olhares que vemos agora s\u00e3o t\u00e3o recorrentes e previs\u00edveis que sequer precisar\u00edamos dizer qual \u00e9 a obra que est\u00e1 sendo\u00a0registradas\u00a0pelas c\u00e2meras dos turistas.<\/p>\n<div id=\"attachment_2691\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/gioconda31.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2691\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2691\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/gioconda3-620x413.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2691\" class=\"wp-caption-text\">Isis Gasparini, da s\u00e9rie &quot;Le Gioconde&quot;, 2010<\/p><\/div>\n<p>Pode-se constatar que um modo de olhar se torna mais facilmente vis\u00edvel em si mesmo quando o meio por onde deveria transitar se torna opaco e impenetr\u00e1vel, quando a imagem que produz n\u00e3o mais permite uma experi\u00eancia daquilo que \u00e9 visto. Nesse sentido, a pesquisa de Isis Gasparini come\u00e7ou por um lugar-limite: aquele em que o olhar parece ter se esgotado.<\/p>\n<p>Mas, percorrendo outros espa\u00e7os expositivos, ela recolocou sua quest\u00e3o em outras bases: j\u00e1 sabia como o olhar se anulava quando seu gesto se tornava mec\u00e2nico, passou ent\u00e3o a se interrogar o que ocorre com ele em seus lapsos, em seus desvios, em seus momentos de entrega, ou quando falha em responder ao papel\u00a0de espectador (ou de turista). Ao lado de seu trabalho como fot\u00f3grafa, e desde muito antes, Isis se dedica \u00e0 dan\u00e7a. \u00c9 nesse palco que tenta agora situar o olhar, como algo que pode se diluir\u00a0em todo o corpo, em gestos menos estereotipados. Em \u201cOlhar outro\u201d, segunda etapa da mesma pesquisa, buscou esse \u201colhar expandido\u201d numa presen\u00e7a corporal ainda mobilizada pelas obras, mesmo quando o olho propriamente dito se tornava coadjuvante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/29297210\" width=\"640\" height=\"472\" frameborder=\"0\" title=\"Olhar Outro\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Todas as imagens foram feitas dentro de museus ou galerias, diante de obras que n\u00e3o vemos, mas que s\u00e3o provavelmente menos consagradas, e que permitem uma resposta menos doutrin\u00e1ria que a Mona Lisa. O olhar segue sendo o principal objeto de suas fotografias, mas seus vetores j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claros: eles se cruzam de modo aleat\u00f3rio e a sobreposi\u00e7\u00e3o de imagens no v\u00eddeo dilui o sujeito desse olhar, que passa a existir apenas nas frestas que o movimento do v\u00eddeo permite, e que s\u00f3 ganha contorno preciso durante breves instantes. A passagem de um trabalho ao outro revela uma ponta de otimismo: quando a performance do olhar se esgota em movimentos tornados autom\u00e1ticos pela cultura, talvez reste buscar alguma vitalidade nos instantes em que seu comportamento se torna indefinido, ocioso, disposto \u00e0 aventura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Buscar a expressividade dessas performances do olhar \u00e9 reconhecer os artif\u00edcios de que ele disp\u00f5em para reinventar o mundo. Combinadas, as obras de Doisneau, de Fabio Seixo e de Isis Gasparini sublinham\u00a0aspectos\u00a0distintos e igualmente necess\u00e1rios dessa consci\u00eancia: a possibilidade de abrir o olhar \u00e0 fantasia, a necessidade de apontar seus focos de esgotamento, e a esperan\u00e7a de\u00a0reencontrar um lugar em que\u00a0seus movimentos permane\u00e7am livres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atividade do olhar \u00e9 normalmente entendida como capta\u00e7\u00e3o discreta e passiva dos movimentos do mundo. Mas o pr\u00f3prio olhar \u00e9 movimento, como diz Alfredo Bosi, \u201ccom propriedades din\u00e2micas de energia e calor gra\u00e7as a seu enraizamento nos afetos e na vontade\u201d (&#8220;Fenomenologia do Olhar&#8221;, 1988. p. 77). Alguns artistas buscam reconhecer os momentos em que o olhar revela sua espessura, em que se torna por si mesmo uma performance, gesto que afeta tamb\u00e9m aquilo que \u00e9 visto. 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