{"id":2669,"date":"2011-09-19T04:54:07","date_gmt":"2011-09-19T04:54:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2669"},"modified":"2017-03-01T12:26:31","modified_gmt":"2017-03-01T12:26:31","slug":"fotografias-deserdadas-ii-vivian-maier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fotografias-deserdadas-ii-vivian-maier\/","title":{"rendered":"Fotografias deserdadas II &#8211; Vivian Maier"},"content":{"rendered":"<p>Quem me conhece sabe que tenho apre\u00e7o especial pela fotografia que por algum motivo n\u00e3o ganhou visibilidade p\u00fablica. Algumas vezes, nem privada, atrav\u00e9s dos \u00e1lbuns ou das caixas de sapato. E \u00e9 essa exatamente a hist\u00f3ria rec\u00e9m descoberta da norte-americana Vivian Maier (1926 \u2013 2009). De m\u00e3e francesa e pai austr\u00edaco, ela trabalhou como bab\u00e1 por mais de quarenta anos, mas sempre fotografou \u2013 no come\u00e7o com uma Kodak Brownie e, a partir de 1952, com uma Rolleiflex, quando sua produ\u00e7\u00e3o teve uma radical transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 incr\u00edvel. Vivian, que fotografou por mais de meio s\u00e9culo, nunca teve casa pr\u00f3pria e no final da vida teve que adequar-se a um pequeno espa\u00e7o e, para isso, deixou seu arquivo e seu equipamento num dep\u00f3sito. H\u00e1 alguns anos, o locador se apropriou desse acervo para quitar parcialmente a d\u00edvida adquirida por ela com o aluguel. Na mesma ocasi\u00e3o, em 2007, John Maloof, corretor imobili\u00e1rio e historiador amador, buscava informa\u00e7\u00f5es e imagens sobre determinada regi\u00e3o de Chicago para escrever um pequeno livro. Ele se deparou com algumas caixas de negativos de Vivian numa casa de leil\u00e3o da cidade e, pouco a pouco, descobriu um tesouro. Encantado, acabou adquirindo posteriormente o restante do material, <a href=\"http:\/\/www.vivianmaier.com\" target=\"_blank\">ampliando seu acervo para cerca de cem mil negativos, algumas c\u00f3pias vintage, filmes 16 mm e grava\u00e7\u00f5es em \u00e1udio, produzidos entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1990<\/a>\u00a0.<\/p>\n<div id=\"attachment_2670\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2670\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2670\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Vivian31.jpg\" width=\"298\" height=\"298\" \/><p id=\"caption-attachment-2670\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Maier, autorretrato, Nova York, 1955<\/p><\/div>\n<p>O nome Vivian Maier foi encontrado escrito a l\u00e1pis num dos envelopes de negativos. Maloof pesquisava refer\u00eancias sobre a fot\u00f3grafa quando, em 2009, soube de seu falecimento atrav\u00e9s dos obtu\u00e1rios publicados em jornais. Ao mesmo tempo em que o mist\u00e9rio ganhou complexidade, mais densidade dram\u00e1tica foi adquirindo a cole\u00e7\u00e3o de fotografias at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida. Maloof foi organizando, revelando e mostrando o material. Sem d\u00favida, estava diante de uma grande fot\u00f3grafa que registrou com regularidade as cidades de Nova York e Chicago, entre outras. Atualmente, com livro publicado, galerias comercializando o trabalho e exposi\u00e7\u00f5es circulando pelo mundo o nome \u00e9 uma novidade para a hist\u00f3ria da fotografia.<\/p>\n<p>Uma d\u00favida me persegue: Vivian simplesmente abandonou suas fotografias? Quis renunciar ao abandon\u00e1-las? Pelo hist\u00f3rico dispon\u00edvel, sua situa\u00e7\u00e3o financeira nos \u00faltimos anos parece ter se tornado realmente lim\u00edtrofe, e isso provavelmente a obrigou a tomar esta decis\u00e3o. As fotografias foram deserdadas mas, de qualquer modo, os deuses da luz conspiraram a favor da sua perman\u00eancia e conseguiram um guardi\u00e3o que tornou p\u00fablica uma hist\u00f3ria de intensa paix\u00e3o pela fotografia.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma pertin\u00eancia e um interesse contempor\u00e2neo em descobrir fotografias antigas. Isso se d\u00e1 principalmente atrav\u00e9s da enorme procura pela fotografia vernacular, do cotidiano, e de autoria desconhecida. Esse n\u00e3o \u00e9 o caso de Vivian Maier cujas fotografias celebram a vida e exploram com emo\u00e7\u00e3o o dia a dia do cidad\u00e3o an\u00f4nimo que dinamiza e movimenta a cidade. Mas, nesse caso, as fotografias tem uma diferen\u00e7a: requerem um olhar mais demorado, mais afetivo.<\/p>\n<div id=\"attachment_2672\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2672\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2672\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Vivian4-620x620.jpg\" width=\"620\" height=\"620\" \/><p id=\"caption-attachment-2672\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Maier, Nova York, 1959<\/p><\/div>\n<p>Ela desenvolve um g\u00eanero narrativo espont\u00e2neo, culturalmente associado \u00e0s suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, dramas e inquieta\u00e7\u00f5es pessoais. Para Vivian, a fotografia \u00e9 como uma manifesta\u00e7\u00e3o essencial no processo de constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, que mostra sua import\u00e2ncia quando exige um olhar mobilizado, ou seja, um olhar interessado em enfrentar a ampla rede de conex\u00f5es evocada pelo fot\u00f3grafo. Essa representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da experi\u00eancia humana foi constru\u00edda a partir de uma percep\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da id\u00e9ia do sagrado no cotidiano.<\/p>\n<div id=\"attachment_2671\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2671\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2671\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Vivian-Maier-620x306.jpg\" width=\"620\" height=\"306\" \/><p id=\"caption-attachment-2671\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Maier, Fl\u00f3rida, 1957 \/ Nova York, 1954<\/p><\/div>\n<p>Vivian desenvolve um racioc\u00ednio fotogr\u00e1fico complexo que ainda n\u00e3o posso avaliar com muita precis\u00e3o. Ora as fotografias me parecem excepcionais (talvez pelo fato de terem permanecido por tanto tempo in\u00e9ditas); ora elas me parecem padronizadas demais (justamente porque est\u00e3o em plena sintonia com os trabalhos de alguns fot\u00f3grafos atuantes no per\u00edodo). Esse paradoxo que surge ao tentar compreender sua fotografia est\u00e1 em plena harmonia com a ambiguidade vivida pela modernidade: de um lado, a necessidade de ruptura e, de outro, o desejo de afirmar algumas conquistas. Ali\u00e1s, como em suas imagens, que oscilam entre a racionalidade pragm\u00e1tica da composi\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica e a emo\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea do fluxo cont\u00ednuo da vida no espa\u00e7o urbano. Uma singularidade dif\u00edcil de alcan\u00e7ar, mas que fica expl\u00edcita parcialmente nas fotografias agora dispon\u00edveis de Vivian Maier.<\/p>\n<p>Como vemos, sua inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 o Homem em sua ess\u00eancia e naturalidade. Como se buscasse indagar o porqu\u00ea da sua exist\u00eancia, Vivian documenta a cidade e os seus grandes vazios com a presen\u00e7a humana que iconiza sua quest\u00e3o mais transcendental: afinal, qual \u00e9 o prop\u00f3sito da vida? Ela investe sua fotografia de algumas particularidades que buscam traduzir uma espessura temporal extremamente significativa.<\/p>\n<p>Como foi poss\u00edvel esconder estas fotografias por tanto tempo? Que destino teriam essas fotografias se Maloof n\u00e3o estivesse procurando informa\u00e7\u00f5es sobre a hist\u00f3ria da cidade de Chicago? Enfim, para mim \u00e9 importante destacar cada a\u00e7\u00e3o que valoriza a imagem t\u00e9cnica, particularmente a fotogr\u00e1fica, seja ela produzida em qualquer tempo. Interessa-me sempre inscrever imagens na hist\u00f3ria e ampliar sua circula\u00e7\u00e3o. Podemos compreender melhor o presente se nos confrontarmos com o passado.<\/p>\n<p>Para encerrar essa nova incurs\u00e3o sobre \u201cfotografias deserdadas\u201d, quero lembrar que a produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de imagens na contemporaneidade \u00e9 de outra ordem \u2013 principalmente quanto ao aspecto quantitativo. Talvez a fotografia seja a m\u00eddia que mais mudou nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Quero lembrar que o filme, o suporte fotogr\u00e1fico, a m\u00eddia impressa que viabilizou a circula\u00e7\u00e3o, tudo isso est\u00e1 materializado e confinado num espa\u00e7o finito, que garante de certo modo uma recupera\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, como foi feito com o trabalho de Vivian Maier. J\u00e1 quanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica contempor\u00e2nea, em que a matriz \u00e9 digital e a circula\u00e7\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s de arquivos imateriais no espa\u00e7o infinito da rede, como ser\u00e1 poss\u00edvel recuperar uma hist\u00f3ria daqui a 60 anos?<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 assunto para outra reflex\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem me conhece sabe que tenho apre\u00e7o especial pela fotografia que por algum motivo n\u00e3o ganhou visibilidade p\u00fablica. Algumas vezes, nem privada, atrav\u00e9s dos \u00e1lbuns ou das caixas de sapato. E \u00e9 essa exatamente a hist\u00f3ria rec\u00e9m descoberta da norte-americana Vivian Maier (1926 \u2013 2009). De m\u00e3e francesa e pai austr\u00edaco, ela trabalhou como bab\u00e1 por mais de quarenta anos, mas sempre fotografou \u2013 no come\u00e7o com uma Kodak Brownie e, a partir de 1952, com uma Rolleiflex, quando sua produ\u00e7\u00e3o teve uma radical transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":7725,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[60,838],"tags":[339,341,450,793],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2669"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2669"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2669\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7422,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2669\/revisions\/7422"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}