{"id":2656,"date":"2011-09-13T05:47:41","date_gmt":"2011-09-13T05:47:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2656"},"modified":"2022-12-04T11:45:33","modified_gmt":"2022-12-04T11:45:33","slug":"a-fotografia-e-seus-duplos-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-seus-duplos-parte-2\/","title":{"rendered":"A fotografia e seus duplos II"},"content":{"rendered":"<p>No duplo, a fotografia coloca-se diante de si mesma. Faz a invoca\u00e7\u00e3o de seus poderes, mas os resultados s\u00e3o incertos.<\/p>\n<p>H\u00e1 este <em>carte de visite<\/em> do Imperador do Brasil e seu duplo, feito por Carneiro &amp; Gaspar, em 1867. Nele, Dom Pedro II, aficionado e colecionador tenaz de fotografias, apesar da sobriedade da express\u00e3o, empresta sua real figura a uma anedota. O grande interesse de Sua Majestade pela t\u00e9cnica fotogr\u00e1fica pode t\u00ea-lo motivado a submeter-se a este \u201cexperimento\u201d (na mesma ocasi\u00e3o, tamb\u00e9m foi feita imagem similar da Imperatriz Teresa Cristina), mas \u00e9 imposs\u00edvel deixar de associar esta imagem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o taumat\u00fargica do car\u00e1ter duplo do corpo do Rei: um corpo humano, mundano e transit\u00f3rio, e outro corpo m\u00edstico, soberano e permanente. A \u201cpessoa f\u00edsica\u201d do monarca podia morrer, mas a sua \u201cpessoa jur\u00eddica\u201d era imortal.<\/p>\n<div id=\"attachment_2657\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Lissovsky-D-Pedro-II-Figura1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2657\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2657 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Lissovsky-D-Pedro-II-Figura-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2657\" class=\"wp-caption-text\">D. Pedro II, Imperador do Brasil. Carte de visite de Carneiro &amp; Gaspar, Rio de Janeiro, 1867.<\/p><\/div>\n<p>Mas aqui, nesta fotografia, a harmonia ente o corpo perene do Imperador e corpo passageiro de Pedro foi rompida. O Imperador mira Pedro. Pedro mira o Imperador. Ou, talvez: o Imperador mire o Imperador; e Pedro mire Pedro. Dif\u00edcil dizer. O que buscam um no olhar do outro? Que perguntas se fazem?<\/p>\n<p>Colecionadas em \u00e1lbuns, os <em>cartes de visite<\/em> eram a manifesta\u00e7\u00e3o de uma utopia pequeno-burguesa. Diante de uma experi\u00eancia cotidiana cada vez mais fragmentada e acelerada, onde os pertencimentos tradicionais come\u00e7avam a esvair-se, o homem-de-bem do s\u00e9culo XIX reconfortava-se no seu pequeno Novo Mundo de imagens, habitado n\u00e3o apenas por familiares pr\u00f3ximos e distantes, mas, em p\u00e9 de igualdade, por personalidades da pol\u00edtica, da literatura, da ci\u00eancia e da arte.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o honrado dos oitocentos deveria exercer um controle purgativo e disciplinado dos pr\u00f3prios v\u00edcios. Deste modo, o mundo das quimeras interiores, das ang\u00fastias do ser e dos desejos il\u00edcitos, permaneceria invis\u00edvel \u00e0 medida que o car\u00e1ter fosse sendo esculpido. Utopia da visibilidade que se ergue em contraste com a uma agenda oculta do indecoroso e do selvagem, o \u00e1lbum de retratos representava o sonho de que todos estes homens distintos formavam uma sociedade que, gra\u00e7as \u00e0 moral exemplar de seus membros, conduziria seguramente ao \u201cprogresso social\u201d. \u00a0\u00c9 por isso que as poses nos retratos do s\u00e9culo XIX s\u00e3o t\u00e3o repetitivas: elas visavam demonstrar a afinidade de car\u00e1ter da humanidade (ao menos, da parte branca e europ\u00e9ia dela)<\/p>\n<p>Por interm\u00e9dio da fotografia, Pedro II procurava participar desta sociedade progressista consubstanciada no \u00e1lbum de retratos. Tal como Lu\u00eds Bonaparte, na Fran\u00e7a, que fazia-se fotografar como um indiv\u00edduo de classe m\u00e9dia, tamb\u00e9m aqui o Imperador posava de \u201crei-cidad\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, neste surpreendente<em>\u00a0carte de visite, <\/em>uma simples trucagem fotogr\u00e1fica, restabelece a dualidade recalcada do monarca. Mais do que simplesmente exibir Sua Majestade em trajes e atitudes de cidad\u00e3o comum, a fotografia sugere que os dois corpos do rei s\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que reza a tradi\u00e7\u00e3o medieval, da mesma natureza: realiza\u00e7\u00e3o plena dos ideais do retrato burgu\u00eas e da voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da fotografia.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda outra coisa em jogo neste retrato. Pensemos no pr\u00f3prio Imperador, com esta pequena fotografia nas m\u00e3os, observando olhar-se a si pr\u00f3prio, indeciso a respeito de quem \u00e9 o corpo e quem \u00e9 o fantasma. Quem \u00e9 o soberano, quem \u00e9 o cidad\u00e3o-comum. Na condi\u00e7\u00e3o de \u00fanico rei das Am\u00e9ricas, Pedro talvez medite, diante de sua Imperial Dignidade, que desta vez, talvez seja a pessoa f\u00edsica do \u201cportador\u201d transit\u00f3rio da realeza que acabe por sobreviver \u00e0 pessoa jur\u00eddica transcendental do soberano. O Rei tinha esperan\u00e7as de que a cena de mimetismo burgu\u00eas que ele protagonizava no est\u00fadio do fot\u00f3grafo demonstrasse sua afinidade com os homens comuns, mas, na duplica\u00e7\u00e3o de seu corpo f\u00edsico, essa fotografia cont\u00e9m um adeus melanc\u00f3lico \u00e0 monarquia.<\/p>\n<p>Enquanto a fotomontagem do Imperador brasileiro d\u00e1 um curto-circuito na soberania, permitindo que o corpo m\u00edstico do rei se esfumace no jogo de espelhos do est\u00fadio burgu\u00eas, o mesmo recurso, agora utilizado em um retrato formal do governador do estado mexicano de Guerrero, pretende preservar, ou mesmo restabelecer, uma m\u00edstica revolucion\u00e1ria em risco de se esvair.<\/p>\n<div id=\"attachment_2659\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Salmeron-11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2659\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2659 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Salmeron-1-674x900.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2659\" class=\"wp-caption-text\">General Juli\u00e1n Blanco, governador de Guerrero, com seu secretariado. Armando Salmer\u00f3n. Chilapa, Mexico, 1915<\/p><\/div>\n<p><em>\u00a0<\/em>O governador \u00e9 o General Juli\u00e1n Blanco, sentado, ao centro, com seus colaboradores, em algum dia do in\u00edcio seu curto governo, em 1915.\u00a0 O autor da foto \u00e9 Armando Salmer\u00f3n, tido como o \u201cfot\u00f3grafo da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d no sul do M\u00e9xico. \u00a0O retrato que fez de Emiliano Zapata, em seu est\u00fadio, em Chilapa, \u00e9 uma pequena obra-prima. Conta-se que o Comandante, em agradecimento pelos servi\u00e7os prestados, presenteou Salmer\u00f3n com uma 30-30, c\u00e9lebre carabina dos revolucion\u00e1rios mexicanos. O fot\u00f3grafo aceitou-a, mas acrescentou que s\u00f3 sabia \u201cdisparar\u201d sua c\u00e2mera, e era apenas isso que pretendida continuar fazendo.<\/p>\n<p>O General Blanco havia liderado a insurrei\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o e somente no in\u00edcio de 1914 aceitou subordinar-se ao comandante do \u201cEx\u00e9rcito Libertador do Sul\u201d, isto \u00e9, a Zapata, que ele antes combatera. Na complexa e frequentemente an\u00e1rquica luta de fac\u00e7\u00f5es das for\u00e7as revolucion\u00e1rias mexicanas \u2013 o pa\u00eds chegou a ter um presidente cujo mandato durou apenas 40 minutos! \u2013 Blanco logo romper\u00e1 sua alian\u00e7a com Zapata, sendo nomeado governador provis\u00f3rio de Guerrero pelo Presidente \u201cconstitucionalista\u201d Carranza.<\/p>\n<p>Esta fotografia foi provavelmente tirada na \u00e9poca da posse. Uma foto convencional, de um chefe pol\u00edtico local e sua equipe, tomada com toda a formalidade que caracteriza o g\u00eanero, n\u00e3o fosse pela curiosa figura em p\u00e9, junto \u00e0 margem direita do quadro. Trata-se da apari\u00e7\u00e3o espectral do duplo do governador, de 30-30 na m\u00e3o, pistola na cinta e bandoleiras cruzadas sobre o peito. O veterano general, envolvido em sedi\u00e7\u00f5es e rebeli\u00f5es desde 1893, agora \u00e9 um homem da Constitui\u00e7\u00e3o, mas desconfia que os novos trajes e a investidura que lhe confere o presidente n\u00e3o sejam suficientes para garantir-lhe a autoridade. Como se houvesse sido invocado por esta assembl\u00e9ia, o esp\u00edrito da Revolu\u00e7\u00e3o comparece no ato solene da institui\u00e7\u00e3o do novo governo estadual.<\/p>\n<p>Para infort\u00fanio do General Blanco, no entanto, o espectro de si mesmo como revolucion\u00e1rio n\u00e3o foi suficiente para garantir-lhe a devida prote\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s oito meses de mandato, perseguido pelo comandante das tropas que lhe deveriam prestar obedi\u00eancia, refugia-se em Acapulco, onde \u00e9 assassinado junto com o filho Bonif\u00e1cio. Os correligion\u00e1rios que o tra\u00edram mandaram dizer ao Presidente Carranza que o governador havia matado o pr\u00f3prio filho e se suicidado. O motivo do gesto tresloucado est\u00e1 ironicamente relacionado a esta fotografia. Descobrira-se que apesar de sua aparente lealdade ao Presidente, o governador nomeado de Guerrero permanecera ocultamente fiel ao zapatismo.<\/p>\n<p>Estes dois retratos em tudo op\u00f5em-se um ao outro. O duplo do Imperador convoca o Homem Comum; o duplo do General, o Incomum. Pedro procura assimilar-se; Juli\u00e1n, destacar-se. Enquanto o rei-cidad\u00e3o despe sua m\u00edstica; o governador-revolucion\u00e1rio traveste-se com a sua. Uma arrepiante semelhan\u00e7a, por\u00e9m, atravessa estas imagens. Em ambas o retratado dissocia-se para vigiar-se a si mesmo. Pedro II aferra-se ao presente, na reciprocidade do pr\u00f3prio olhar; Juli\u00e1n Blanco reverencia a sombra de seu passado.<\/p>\n<p>No entanto, o que cada um destes duplos acaba por inscrever nas fotografias \u00e9 o futuro tr\u00e1gico dos respectivos governos. Foram ambos atropelados por eles: o duplo do Imperador Pedro II proclamou-lhe a Rep\u00fablica; o duplo do General Juli\u00e1n Blanco perpetuou-lhe a Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 este carte de visite do Imperador do Brasil e seu duplo, feito por Carneiro &#038; Gaspar, em 1867. Nele, Dom Pedro II, aficionado e colecionador tenaz de fotografias, apesar da sobriedade da express\u00e3o, empresta sua real figura a uma anedota. 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