{"id":2593,"date":"2011-09-08T02:21:47","date_gmt":"2011-09-08T02:21:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2593"},"modified":"2016-12-29T12:23:42","modified_gmt":"2016-12-29T12:23:42","slug":"apropriacoes-modos-de-transitar-pelo-excesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/apropriacoes-modos-de-transitar-pelo-excesso\/","title":{"rendered":"Apropria\u00e7\u00f5es: modos de transitar pelo excesso"},"content":{"rendered":"<p>O post anterior se encerrou com a seguinte quest\u00e3o: quais as formas de lidar com a nova escala de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de fotografias? A \u201cquantidade\u201d de imagens dispon\u00edvel na era da fotografia digital e da internet parece dar uma nova \u201cqualidade\u201d ao\u00a0problema, mas os sentimentos que temos diante disso n\u00e3o s\u00e3o propriamente novos, o deslumbramento e a desconfian\u00e7a s\u00e3o coisas inerentes \u00e0 qualquer mudan\u00e7a. Por exemplo, dizem que os pintores impressionistas se encantaram com o modo como o mundo se transformava quando visto de dentro de um trem, enquanto a ci\u00eancia estudava os poss\u00edveis danos que essa velocidade vertiginosa de 30 km\/h poderia causar \u00e0 sa\u00fade. De modo an\u00e1logo, quando Baudelaire falava da nova \u201cloucura\u201d que comovia \u201cas multid\u00f5es\u201d, \u00e9 muito prov\u00e1vel que j\u00e1 estivesse tamb\u00e9m incomodado com a quantidade de imagens que a fotografia despejava sobre os olhares do s\u00e9culo XIX (\u201cO p\u00fablico moderno e a fotografia\u201d, 1959). Mas, enfim, o problema parece adquirir um novo estatuto quando todas as pessoas acumulam em seus HDs um arsenal de imagens que parecem definitivamente condenadas \u00e0 invisibilidade dos dados.<\/p>\n<p>Sempre passando pela estrat\u00e9gia da apropria\u00e7\u00e3o, podemos intuir a exist\u00eancia de posturas diferentes que os artistas assumem\u00a0diante do excesso de imagens, sejam elas novas ou velhas, digitais ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Destrui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Muitos autores apontam hoje para a impossibilidade de uma imagem produzir sentido. No campo te\u00f3rico, Jean Baudrillard \u00e9 talvez o pensador que mais violentamente denunciou o modo como o real se apaga diante de sua hiperexposi\u00e7\u00e3o aos sentidos: &#8220;se o Real est\u00e1 desaparecendo, n\u00e3o \u00e9 por causa de sua aus\u00eancia \u2013 ao contr\u00e1rio, \u00e9 porque existe realidade demais. Este excesso de realidade provoca o fim da realidade, da mesma forma que o excesso de informa\u00e7\u00e3o p\u00f5e um fim na comunica\u00e7\u00e3o&#8221; (<em>A ilus\u00e3o vital<\/em>, p. 72).<\/p>\n<div id=\"attachment_2633\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Joachim-Shmid-Photogenetic-Draft-81.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2633\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2633 size-full\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Joachim-Shmid-Photogenetic-Draft-81.jpeg\" width=\"360\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Joachim-Shmid-Photogenetic-Draft-81.jpeg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Joachim-Shmid-Photogenetic-Draft-81-768x1066.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2633\" class=\"wp-caption-text\">Joachim Shmid, Photogenetic Draft #8, 1991<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, o trabalho do artista alem\u00e3o Joachim Schmid incorpora com ironia um vocabul\u00e1rio ecol\u00f3gico para denunciar esse excesso, o desperd\u00edcio gerado pela reprodu\u00e7\u00e3o ao infinito de certos modelos, de estere\u00f3tipos. Num primeiro momento, sugeriu a possibilidade de reciclagem das imagens j\u00e1 realizadas: \u201cnenhuma nova fotografia at\u00e9 que as antigas tenham sido utilizadas\u201d. Como repetimos as mesmas poses, n\u00e3o seria preciso produzir novamente as mesmas imagens, qualquer retrato estaria apto a representar qualquer pessoa. Para dar conta disso, Schmid fundou um tal \u201cInstituto para reprocessamento de fotografia usadas\u201d e, com o vasto material recebido, tem realizado v\u00e1rios de seus trabalhos. Causou algum desconforto com a s\u00e9rie <em><a href=\"http:\/\/schmid.wordpress.com\/works\/1991-photogenetic-drafts\/\" target=\"_blank\">Photogenic Drafts<\/a><\/em>, quando rasgou algumas dezenas de retratos para demonstrar atrav\u00e9s de montagens o modo como a fotografia constr\u00f3i sempre um personagem gen\u00e9rico.<\/p>\n<div id=\"attachment_2603\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Statics-women\u2019s-fashion-catalogue-1999.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2603\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2603\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Statics-women\u2019s-fashion-catalogue-1999-360x270.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"270\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2603\" class=\"wp-caption-text\">Joachim Schmid, Statics: women\u2019s fashion catalogue, 1999<\/p><\/div>\n<p>Em <em><a href=\"http:\/\/schmid.wordpress.com\/works\/1995-2003-statics\/\" target=\"_blank\">Statics<\/a><\/em>, Schmid tamb\u00e9m destr\u00f3i imagens \u2013 agora numa m\u00e1quina fragmentadora de pap\u00e9is \u2013 para evidenciar aquilo a que supostamente elas j\u00e1 haviam se reduzido: ru\u00eddo, puro efeito visual. Resta para ele a constata\u00e7\u00e3o da inoper\u00e2ncia das imagens como representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Schmid nos convida a parar de fotografar, ou mesmo quando destr\u00f3i as imagens de seu acervo, creio que n\u00e3o devemos entender sua atitude t\u00e3o literalmente. N\u00e3o \u00e9 efetivamente um destino que apregoa para as imagens, \u00e9 antes um ato perform\u00e1tico que alegoriza seu ceticismo quanto \u00e0 possibilidade de religar essas fotografias \u00e0quilo que se tentou registrar ou guardar como mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>O gesto de deletar fotografias digitais certamente n\u00e3o soaria t\u00e3o provocativo, pela imaterialidade desse registro. Seria portanto menos emblem\u00e1tico e menos perform\u00e1tico, pois um \u00fanico gesto \u2013 uma tecla apertada \u2013 poderia fazer desaparecer quantas imagens se desejasse. Na verdade, convivemos com o fato de que, eventualmente, esses dados ser\u00e3o perdidos por conta de v\u00edrus, descuidos, porque um <em>pen drive<\/em> deixar\u00e1 de funcionar, porque n\u00e3o teremos mais leitores para as antigas m\u00eddias, ou porque os novos programas deixar\u00e3o de decodificar os arquivos antigos. Possivelmente, a quest\u00e3o se tornar\u00e1 mais concreta e vis\u00edvel \u2013 e potencialmente mais ritualizada e \u201cestetiz\u00e1vel\u201d \u2013 quando come\u00e7armos a herdar os HDs dos nossos av\u00f3s, para decidir se iremos preservar, deixar que se tornem espontaneamente ileg\u00edveis ou deletar os dados que eles acumularam.<\/p>\n<p><strong>Abstra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Diante do excesso, alguns artistas concluem que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel tratar as imagens em sua pr\u00f3pria exist\u00eancia massiva, sob a forma de grandes s\u00ednteses ou extensas paisagens de formas que se tornam id\u00eanticas. Na impossibilidade de olhar para cada uma delas, o que resta \u00e9 destacar da repeti\u00e7\u00e3o o modelo que as rege. Chamo aqui de abstra\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00e3o de produzir um olhar generalista sobre as imagens reduzindo-as a seus seus &#8220;denominadores comuns&#8221;, como fazem os indexadores ou \u00a0as &#8220;tags&#8221;. Esse parece ser o modo mais recorrente de tratamento das imagens quando se constata sua hiperabund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Estrat\u00e9gia semelhante pode ser convocada n\u00e3o por descren\u00e7a, mas como um m\u00e9todo anal\u00edtico: \u00e9 o que fazem <a href=\"http:\/\/www2.sescsp.org.br\/sesc\/videobrasil\/vbonline\/bd\/video.asp?st_arquivo=http:\/\/www2.sescsp.org.br\/sesc\/videobrasil\/up\/arquivos\/200001\/20000101_000000_14-14-Videos-INV_M18.mov&amp;st_obra=Poses+do+19&amp;st_legenda=Trecho+do+v%EDdeo+%27Poses+do+19%27%2C+de+Gavin+Adams%2C+Solange+Ferraz+de+Lima+e+V%E2nia+Carneiro+de+Carvalho\" target=\"_blank\">Gavin Adams, Solange Ferraz e V\u00e2nia Carneiro no v\u00eddeo \u201cPoses do XIX\u201d<\/a>, quando buscam evidenciar uma estrutura comum aos\u00a0 retratos feitos por Milit\u00e3o Augusto de Azevedo, definida por elementos formais como a pose e a disposi\u00e7\u00e3o de objetos cenogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Mas, com frequ\u00eancia, a a\u00e7\u00e3o de superexpor as imagens est\u00e1 marcada pela desconfian\u00e7a de que elas tendem a se apagar e se esvaziar de sentido diante de sua prolifera\u00e7\u00e3o. Encontramos v\u00e1rios exemplos que tomam essa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na s\u00e9rie \u201cPhoto Opportunities\u201d, <a href=\"http:\/\/www.corinnevionnet.com\/\" target=\"_blank\">Corinne Vionnet<\/a> sobrep\u00f5e conjuntos de fotografias feitas em locais tur\u00edsticos para mostrar que a s\u00edntese de olhares j\u00e1 est\u00e1 dada pelas pr\u00f3prias escolhas repetitivas dos fot\u00f3grafos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2608\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/corinnevionnet_photoopportunities21.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2608\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2608\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/corinnevionnet_photoopportunities21-360x270.jpeg\" width=\"674\" height=\"505\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2608\" class=\"wp-caption-text\">Corinne Vionnet,\u00a0Photo Opportunities, 2009.<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.penelopeumbrico.net\/index.html\" target=\"_blank\">Penelope Umbrico<\/a> (que dar\u00e1 um <a href=\"http:\/\/paratyemfoco.com\/evento\/_penelope-umbrico\/\" target=\"_blank\">workshop no Paraty em Foco<\/a> deste ano) desdobra em grandes extens\u00f5es as imagens semelhantes que encontra no Flickr, no e-Bay ou em outras redes de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_2609\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Suns_brisbane.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2609\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2609 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Suns_brisbane-674x248.jpeg\" width=\"674\" height=\"248\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2609\" class=\"wp-caption-text\">Penelope Umbrico, Suns, 2006 (trabalho em processo).<\/p><\/div>\n<p>Essa quest\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 presente em toda a trajet\u00f3ria de Joachim Schmid. Percorrendo o Flickr, ele realizou recentemente uma exaustiva curadoria que resultou na s\u00e9rie de 96 livros chamados \u201cFotografias de outras pessoas\u201d, a partir de temas banais como \u201cazul\u201d, \u201cvermelho\u201d, \u201ccomida de avi\u00e3o\u201d, \u201crostos em buracos\u201d, \u201clego\u201d, \u201cMickey\u201d, \u201cTr\u00f3pico de Capric\u00f3rnio\u201d, \u201cquartos de hotel\u201d, \u201cporta de geladeira\u201d, \u201cpizza\u201d, \u201csombras\u201d e outros tantos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2610\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Screen-shot-2011-09-06-at-14.43.161.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2610\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2610 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Screen-shot-2011-09-06-at-14.43.16-674x336.png\" width=\"674\" height=\"336\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2610\" class=\"wp-caption-text\">Joachim Schmid,\u00a0Other People Photographs, 2008-2011<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_2611\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Screen-shot-2011-09-06-at-14.44.361.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2611\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2611 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Screen-shot-2011-09-06-at-14.44.36-674x338.png\" width=\"674\" height=\"338\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2611\" class=\"wp-caption-text\">Joachim Schmid,\u00a0Other People Photographs, 2008-2011<\/p><\/div>\n<p><strong>Singulariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Parece cada vez mais remota a possibilidade de perceber numa imagem a singularidade do fato que lhe deu origem. De modo geral, j\u00e1 tem sido dif\u00edcil fazer isso com nossas pr\u00f3prias fotografias. Mas, com uma estrat\u00e9gia l\u00fadica, \u00e9 poss\u00edvel\u00a0encontrar experi\u00eancias que percorrem as redes para destacar fragmentos de visualidade sobre os quais o olhar possa se deter.<\/p>\n<p>Sendo o mais amplo acervo de paisagens urbanas do planeta, o <em>Google Street View<\/em> \u00e9 emblem\u00e1tico da disponibilidade contempor\u00e2nea de imagens. Lembra aquele \u201cmapa do imp\u00e9rio que tinha o tamanho do imp\u00e9rio e coincidia pontualmente com ele\u201d, \u00a0conforme falava Borges (<em>Del rigor de la ciencia<\/em>). O fot\u00f3grafo <em><a href=\"http:\/\/www.photomichaelwolf.com\/intro\/index.html\" target=\"_blank\">Michael Wolf<\/a><\/em> percebeu a possibilidade de destacar dessa paisagem cont\u00ednua fatos incidentais que podem ser convertidos em enquadramentos fotogr\u00e1ficos. Na verdade, o que faz Wolf \u00e9 reproduzir \u2013 de um modo \u00e0s vezes par\u00f3dico \u2013 a atitude do \u201cfot\u00f3grafo de rua\u201d que sai \u00e0 ca\u00e7a de seus \u201cmomentos decisivos\u201d, aqui registrados acidentalmente. Eventualmente, joga-se tamb\u00e9m com os elementos gr\u00e1ficos do aplicativo. Mas, essencialmente, o que Wolf\u00a0faz \u00e9 emular o olhar cl\u00e1ssico do fotojornalismo e da fotografia documental, incluindo uma vers\u00e3o do \u201cBeijo\u201d, de Robert Doisneau. De todo modo, esse trabalho tem o m\u00e9rito de demonstrar que \u00e9 poss\u00edvel reencontrar &#8220;focos de intensidades&#8221; nesse olhar ub\u00edquo, neutro e dilu\u00eddo representado pelas c\u00e2meras que se espalham pelo planeta.<\/p>\n<div id=\"attachment_2618\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Wolf_Michael_Street_View1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2618\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2618 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Wolf_Michael_Street_View-674x420.jpg\" width=\"674\" height=\"420\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2618\" class=\"wp-caption-text\">Michael Wolf, Paris: Street View, 2009 \/\u00a0Street View:a series of unfortunate events, 2010.<\/p><\/div>\n<p>Quando a hist\u00f3ria de cada imagem se perde, a ficcionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um artif\u00edcio que permite restituir sua singularidade. A escritora e curadora Kate Armstrong criou em 2007, sob a forma de um aplicativo para o Facebook (hoje indispon\u00edvel), uma <em>graphic novel<\/em> chamada <em><a href=\"http:\/\/www.katearmstrong.com\/artwork\/dolls.php\" target=\"_blank\">Porque algumas bonecas s\u00e3o m\u00e1s<\/a><\/em>. Por meio desse aplicativo, o usu\u00e1rio podia navegar por uma sequ\u00eancia rand\u00f4mica de p\u00e1ginas que associava fragmentos de uma narrativa a imagens coletadas do Flickr, a partir de correspond\u00eancias verificadas com suas \u201ctags\u201d. O resultado era propositalmente ca\u00f3tico mas tamb\u00e9m l\u00fadico e surpreendente.<\/p>\n<div id=\"attachment_2612\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/dolls1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2612\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2612 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/dolls-674x313.jpg\" width=\"674\" height=\"313\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2612\" class=\"wp-caption-text\">Kate Armstrong,\u00a0Why some dolls are bad, 2007<\/p><\/div>\n<p>Sem a devida dist\u00e2ncia no tempo, ainda n\u00e3o encontramos trabalhos que investigam seriamente os modos de sobreviv\u00eancia da mem\u00f3ria nessa nova condi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o das imagens.Como disse no post anterior, acredito no potencial de testemunho de uma imagem digital. Mas vivemos hoje um hiato curioso: confiando no fato de que os registros est\u00e3o mais dispon\u00edveis do que nunca, n\u00e3o sentimos grande necessidade de retornar a eles. Ser\u00e1 preciso sentir que esses documentos est\u00e3o em risco para que o olhar se vincule novamente a eles. De fato, a mem\u00f3ria sempre requer a proximidade do esquecimento.<\/p>\n<p>\u00c9 o que vimos acontecer com os arquivos tradicionais. Quando recorrem \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de imagens alheias, artistas como Christian Boltanski e Rosangela Renn\u00f3 alternam entre a constata\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter inevit\u00e1vel do esquecimento e o desejo reencontrar os sujeitos dessa pretensa mem\u00f3ria. Em Boltanski, \u00e9 clara a passagem entre a atitude ir\u00f4nica de seus primeiros trabalhos (bastante afim \u00e0 id\u00e9ia de abstra\u00e7\u00e3o) e outra mais melanc\u00f3lica que suas obras mais recentes assumem. Isso se torna particularmente evidente quando ele revisita a grande paisagem de fotos que criou em \u201cRetratos dos alunos do\u00a0C.E.S.\u00a0de Lentill\u00e8res\u201d (1973)\u00a0para destacar esses personagens em \u201cAs crian\u00e7as de Dijon\u201d (1985), um de seus tantos monumentos dedicados \u00e0 mem\u00f3ria desses sujeitos que se tornaram an\u00f4nimos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2594\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Portraits-des-\u00e9l\u00e8ves-du-C.E.S.-des-Lentill\u00e8res-1973-Les-enfants-de-Dijon-19851.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2594\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2594 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Portraits-des-\u00e9l\u00e8ves-du-C.E.S.-des-Lentill\u00e8res-1973-Les-enfants-de-Dijon-1985-674x300.jpg\" width=\"674\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2594\" class=\"wp-caption-text\">Christian Boltanski: Portraits des \u00e9l\u00e8ves du C.E.S. des Lentill\u00e8res, 1973 \/ Les enfants de Dijon, 1985<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o trabalhos que se voltam para os retratos publicados nas grandes redes de compartilhamento para reivindicar a possibilidade de sobreviv\u00eancia de seus personagens como indiv\u00edduos.\u00a0Por ora, a constata\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica do quanto essas identidades se tornam abstratas parece ser o tom que prevalece entre os artistas que olham para essa massa de imagens. A quest\u00e3o surgir\u00e1 tamb\u00e9m sob uma forma mais dram\u00e1tica quando essas fotografias se desprenderem definitivamente dos &#8220;perfis&#8221; que as acompanham, quando esses retratos se tornarem efetivamente an\u00f4nimos, quando alguma dessas grandes redes de compartilhamento ficarem abandonadas como arquivos mortos ou cidades fantasmas, quando algum de seus backups for encontrado por acaso numa lata de lixo.<\/p>\n<p>Para aqueles que n\u00e3o confundem a mem\u00f3ria com os relatos hegem\u00f4nicos, todas essas imagens t\u00eam alguma chance, todas elas s\u00e3o potencialmente hist\u00f3ricas. N\u00e3o daremos conta de muitas delas, mas talvez valha a pena corresponder ao olhar que elas lan\u00e7ar\u00e3o sobre n\u00f3s quando, por acaso, cruzarem nosso caminho. Provavelmente, n\u00e3o saberemos como desvendar o seu tempo, mas elas saber\u00e3o o que dizer sobre o nosso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O post anterior se encerrou com a seguinte quest\u00e3o: quais as formas de lidar com a nova escala de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de fotografias? A \u201cquantidade\u201d de imagens dispon\u00edvel na era da fotografia digital e da internet parece dar uma nova \u201cqualidade\u201d ao\u00a0problema, mas os sentimentos que temos diante disso n\u00e3o s\u00e3o propriamente novos, o deslumbramento e a desconfian\u00e7a s\u00e3o coisas inerentes \u00e0 qualquer mudan\u00e7a. Por exemplo, dizem que os pintores impressionistas se encantaram com o modo como o mundo se transformava quando visto de dentro de um trem, enquanto a ci\u00eancia estudava os poss\u00edveis danos que essa velocidade vertiginosa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11227,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[825,827,903],"tags":[442,536,607,655],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2593"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2593"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2593\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11053,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2593\/revisions\/11053"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11227"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}