{"id":258,"date":"2009-11-06T08:49:58","date_gmt":"2009-11-06T08:49:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=258"},"modified":"2016-12-15T10:10:08","modified_gmt":"2016-12-15T10:10:08","slug":"a-fotografia-e-o-pensamento-selvagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-o-pensamento-selvagem\/","title":{"rendered":"A fotografia e o pensamento selvagem"},"content":{"rendered":"<p>O pensamento selvagem foi o primeiro livro de Levi-Strauss que li. E est\u00e1 entre aqueles poucos que nunca mais parei de ler. Tive tamb\u00e9m a sorte de ter um bom professor, Etienne Samain, que me ensinou quase tudo que eu sei sobre antropologia. Foi ele quem me explicou o grande salto que representava abandonar a id\u00e9ia de uma \u201cmente primitiva\u201d para propor a exist\u00eancia de um \u201cpensamento selvagem\u201d.<\/p>\n<p>Chegarei l\u00e1, mas antecipo que tive a sensa\u00e7\u00e3o de encontrar nesse livro algo que quase define a fotografia, pelo menos, uma certa fotografia.<\/p>\n<p>Para Levi-Strauss o \u00edndio n\u00e3o \u00e9 um ser limitado ou defasado em sua forma de pensar, tampouco est\u00e1 desprovido de um saber sistematizado, conforme concluiu a ci\u00eancia europ\u00e9ia. Ele tem sim um modo leg\u00edtimo de fazer ci\u00eancia, que chamou de \u201ca ci\u00eancia do concreto\u201d, t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo do livro.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c(&#8230;) \u00e9 que existem dois modos de pensamento cient\u00edfico, um e outro fun\u00e7\u00f5es, n\u00e3o certamente est\u00e1dios desiguais do desenvolvimento do esp\u00edrito humano, mas dois n\u00edveis estrat\u00e9gicos em que a natureza se deixa abordar pelo pensamento cient\u00edfico \u2013 um aproximadamente ajustado ao da percep\u00e7\u00e3o e ao da imagina\u00e7\u00e3o, e outro deslocado\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Enquanto a ci\u00eancia moderna optou por olhar de longe para as coisas, em outras palavras, operar por abstra\u00e7\u00f5es racionais, o \u00edndio produz seu conhecimento sempre rente \u00e0 natureza, a partir de experi\u00eancias sens\u00edveis e concretas que ir\u00e3o atuar na composi\u00e7\u00e3o do mitos. Enquanto traduzimos o mundo em conceitos, o \u00edndio observa as formas, movimentos, cores, sabores e, a partir disso, constr\u00f3i categorias que organizam o que est\u00e1 ao seu redor. Essa n\u00e3o \u00e9 uma maneira nem maior nem menor de fazer ci\u00eancia, \u00e9 diferente. O mito n\u00e3o \u00e9 uma fabula\u00e7\u00e3o que d\u00e1 as costas \u00e0 realidade, mas uma narrativa que organiza e transmite fragmentos dessa experi\u00eancia com a natureza. \u00c9 a\u00ed que surge uma met\u00e1fora fundamental constru\u00edda por L\u00e9vi-Strauss: enquanto nossos cientistas operam como um engenheiro, o\u00a0 \u00edndio opera como um <em>bricoleur<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_262\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-262\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-262\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/Cheval1-487x188.jpg\" alt=\"Pal\u00e1cio Ideal, constru\u00eddo pelo carteiro franc\u00eas Ferdinand Cheval ao longo de 33 anos, com pedras que recolhia no caminho ao longo de seu trabalho. \u00c9 um exemplo de bricoleur citado por L\u00e9vi-Strauss.\" width=\"487\" height=\"188\" \/><p id=\"caption-attachment-262\" class=\"wp-caption-text\">Pal\u00e1cio Ideal:\u00a0constru\u00eddo in\u00edcio do s\u00e9culo XX\u00a0pelo carteiro franc\u00eas Ferdinand Cheval ao longo de 33 anos, com pedras que recolhia no caminho durante seu trabalho. \u00c9 um exemplo de bricoleur citado por L\u00e9vi-Strauss.<\/p><\/div>\n<p>Talvez a bricolagem n\u00e3o nos seja algo muito familiar. Trata-se de\u00a0uma atividade em parte funcional, em parte l\u00fadica, que consiste em colecionar de tudo um pouco com o princ\u00edpio de que &#8220;isso poder\u00e1 servir&#8221;. Diz L\u00e9vi-Strauss sobre o bricoleur:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cseu universo instrumental \u00e9 fechado, e a regra de seu jogo \u00e9 sempre arranjar-se com os \u201cmeios-limites\u201d, isto \u00e9, um conjunto sempre finito de utens\u00edlios e de materiais bastante heter\u00f3clitos, porque a composi\u00e7\u00e3o do conjunto n\u00e3o est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular mas \u00e9 o resultado contingente de todas as oportunidades que se paresentam (&#8230;)\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>No momento em que precisa de algo, o bricoleur revira seu acervo de achados para encontrar ali uma pe\u00e7a que pode se encaixar na nova fun\u00e7\u00e3o, sem no entanto esconder ou apagar as marcas de sua origem. \u00c9 como improvisar um cabo de vassoura para recompor o p\u00e9 de uma mesa, ou um chap\u00e9u para fazer um abajur.<\/p>\n<p>Enquanto o engenheiro, com seu projeto, parte de uma estrutura (uma saber ordenador)\u00a0para chegar a um evento (o fen\u00f4meno constitu\u00eddo), o bricoleur parte de um acontecimento para chegar a uma estrutura.<\/p>\n<p>Quando me deparei com essa id\u00e9ia, pensei: \u00e9 a fotografia.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nA fotografia como bricolagem<\/strong><\/p>\n<p>Quando o fot\u00f3grafo est\u00e1 na rua, ele n\u00e3o trabalha como o pintor ou o escultor. O mundo vis\u00edvel n\u00e3o \u00e9 uma mat\u00e9ria t\u00e3o &#8220;prima&#8221; como \u00e9 a tinta na paleta ou um monte de argila que aguarda que uma ordem lhe seja oferecida pela autoridade do artista. O mundo com que lida o fot\u00f3grafo est\u00e1 pr\u00e9-organizado por um universo de raz\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o as do fot\u00f3grafo. Um pr\u00e9dio, as pessoas, e todas as coisas enquadradas n\u00e3o est\u00e3o ali para compor sua imagem, apenas podem lhe servir. E o fot\u00f3grafo n\u00e3o deixa de observar todas as coisas, como o bricoleur n\u00e3o deixaria de recolh\u00ea-las. E pode ali encontrar os elementos de que precisa, n\u00e3o porque os produziu, mas porque soube aproveitar suas qualidade para coloc\u00e1-los dentro de uma nova ordem.<\/p>\n<p>Comparar a fotografia com a bricolagem me parece resolver um antigo problema. A imagem n\u00e3o \u00e9 o mundo em si, n\u00e3o \u00e9 seu duplo, sua reprodu\u00e7\u00e3o. Estamos mais do que de acordo que a fotografia transforma o mundo. Mas a imagem n\u00e3o \u00e9 algo totalmente afastado e independente desse mundo, a ponto de n\u00e3o podermos mais reconhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O que vemos na imagem s\u00e3o como pe\u00e7as que o bricoleur toma emprestado para dar-lhes um novo sentido, ao mesmo tempo em que seu sentido original ainda permanece vis\u00edvel. Ele n\u00e3o aceita de modo neutro aquilo que lhe chega, mas tamb\u00e9m n\u00e3o o renega, n\u00e3o o esconde.<\/p>\n<p>O sentido da fotografia, como toda bricolagem, \u00e9 uma negocia\u00e7\u00e3o entre uma necessidade de um pensamento e uma disponibilidade do mundo (no nosso caso, uma necessidade est\u00e9tica, n\u00e3o propriamente utilit\u00e1ria).<\/p>\n<p>Essa sempre me pareceu uma bela maneira de pensar a fotografia, porque nos permite evitar os extemos:\u00a0 um conteudismo que s\u00f3 \u00e9 capaz de buscar na imagem aquilo que o mundo era antes de ser fotografado; \u00a0ou \u00a0um formalismo que trata o mundo fotografado como uma mat\u00e9ria prima a ser manipulada do zero pelo artista. O fot\u00f3grafo, como o bricoleur, n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m produz o que precisa, mas sabe fazer sua busca dialogar intensamente com aquilo que encontra. Em certa medida, sabe redefinir sua busca a partir dos seus achados.<\/p>\n<p>Talvez isso pare\u00e7a valer apenas para uma fotografia antiquada, aquela feita pelo \u201cfot\u00f3grafo ca\u00e7ador\u201d, que ignora as quest\u00f5es propostas pelas novas imagens de simula\u00e7\u00e3o (imagens constru\u00eddas pelo m\u00e9todo do &#8220;engenheiro&#8221;). Mas creio ser poss\u00edvel ampliar um pouco o espectro coberto pela id\u00e9ia de bricolagem. Imagino que, mesmo um fot\u00f3grafo de moda, tenha que adequar suas necessidades ao potencial do corpo que est\u00e1 diante de sua c\u00e2mera, isto \u00e9, inventar um novo corpo a partir de fragmentos de um corpo que preexiste. Ou, quem teve a oprotunidade de ouvir Joel Peter Witkin falando de seu trabalho\u00a0recentemente, percebeu que, para ele, coletar e produzir n\u00e3o s\u00e3o experi\u00eancias distanciadas. Ainda que suas imagens sejam totalmente encenadas, lembro de ouvi-lo dizer: \u201cquando encontrei tal coisa\u201d&#8230; \u201ctal personagem\u201d&#8230; \u201ctal objeto\u201d.\u00a0Na pr\u00e1tica, toda arte tem um toque de bricolagem porque, um pouco ao contr\u00e1rio do que pode parecer, mesmo a tinta na paleta ou a argila n\u00e3o s\u00e3o mat\u00e9rias t\u00e3o inertes assim. Est\u00e3o menos ordenadas que o mundo diante da c\u00e2mera, mas certamente determinam a cria\u00e7\u00e3o, imp\u00f5em suas\u00a0pr\u00f3prias\u00a0qualidades.<\/p>\n<div id=\"attachment_260\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-260\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-260\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/gardner-280x373.jpg\" alt=\"Retrato de Lewis Payne por Alexander Gardner, 1865.\" width=\"280\" height=\"373\" \/><p id=\"caption-attachment-260\" class=\"wp-caption-text\">Retrato de Lewis Payne por Alexander Gardner, 1865.<\/p><\/div>\n<p>Talvez seja poss\u00edvel ir um pouco al\u00e9m. O tempo que resulta da fotografia \u00e9 uma esp\u00e9cie de tempo m\u00edtico: quando um ritual encena o mito, o passado \u00e9 vivenciado como se fosse ocorresse agora. O ritual n\u00e3o relata algo que est\u00e1 dado, como faz o historiador, ele coloca uma origem em jogo no presente. \u00c9 assim que entendo o \u201cisso foi\u201d da <em>C\u00e2mara Clara<\/em>, de Barthes. N\u00e3o como um movimento em dire\u00e7\u00e3o ao passado que se imp\u00f5e ao olhar diante da imagem, mas como uma esp\u00e9cie de curto-circuito temporal que d\u00e1 virtualidade a esse passado e permite a ele ser sentido no presente. Como diz Barthes (tamb\u00e9m ele leitor e companheiro de estruturalismo de L\u00e9vi-Strauss): \u201cisso ser\u00e1 e isso foi\u201d. Algo que repete a respeito do assassino de Lincoln condenado \u00e0 morte, visto na foto de Alexander Gardner: \u201cele est\u00e1 morto e vai morrer\u201d.<\/p>\n<p>Na fotografia, como na bricolagem, vemos esse tempo complexo, uma sobreposi\u00e7\u00e3o entre aquilo que foi e uma potencialidade. Trata-se da possibilidade de produzir uma narrativa pr\u00f3pria a partir dos fragmentos do mundo, em outras palavras, de produzir um saber que n\u00e3o abnega a natureza tal e qual ela se oferece aos sentidos, como s\u00f3 o pensamento selvagem \u00e9 capaz de fazer.<\/p>\n<p>Para ser sincero, essa rela\u00e7\u00e3o entre bricolagem e fotografia \u00e9 uma id\u00e9ia que foi recusada no exame de qualifica\u00e7\u00e3o de meu mestrado porque, de fato, resultava mais em rebarbas do que em encaixes. Mas a id\u00e9ia de bricolagem virou para mim quase um valor que reconhe\u00e7o em muitas das coisas de que gosto.<\/p>\n<p>\u00c9 uma id\u00e9ia imprecisa que, se n\u00e3o coube na disserta\u00e7\u00e3o, talvez possa ser compartilhada neste blog de modo informal, tamb\u00e9m como a homenagem poss\u00edvel que posso deixar a L\u00e9vi-Strauss.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pensamento selvagem foi o primeiro livro de Levi-Strauss que li. E est\u00e1 entre aqueles poucos que nunca mais parei de ler. Tive tamb\u00e9m a sorte de ter um bom professor, Etienne Samain, que me ensinou quase tudo que eu sei sobre antropologia. Foi ele quem me explicou o grande salto que representava abandonar a id\u00e9ia de uma \u201cmente primitiva\u201d para propor a exist\u00eancia de um \u201cpensamento selvagem\u201d. Chegarei l\u00e1, mas antecipo que tive a sensa\u00e7\u00e3o de encontrar nesse livro algo que quase define a fotografia, pelo menos, uma certa fotografia. Para Levi-Strauss o \u00edndio n\u00e3o \u00e9 um ser limitado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11073,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[64,885],"tags":[479,613,1037],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=258"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11074,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258\/revisions\/11074"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11073"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}