{"id":2559,"date":"2011-09-05T09:24:04","date_gmt":"2011-09-05T09:24:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2559"},"modified":"2016-05-28T14:12:01","modified_gmt":"2016-05-28T14:12:01","slug":"sobre-pixels-e-cicatrizes-de-guerra-a-sobrevivencia-do-testemunho-na-fotografia-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/sobre-pixels-e-cicatrizes-de-guerra-a-sobrevivencia-do-testemunho-na-fotografia-digital\/","title":{"rendered":"Sobre pixels e cicatrizes de guerra: a sobreviv\u00eancia do testemunho na fotografia digital"},"content":{"rendered":"<p><strong>Onde a revolu\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o aconteceu<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 vinte anos, especul\u00e1vamos sobre os impactos das c\u00e2meras digitais que estavam para chegar ao mercado, tent\u00e1vamos entender a mudan\u00e7as no estatuto das imagens que elas produziriam, e prev\u00edamos uma crise em sua credibilidade pelas facilidades de manipula\u00e7\u00e3o.\u00a0Autores como Andr\u00e9 Rouill\u00e9 sugerem que estamos diante de uma imagem de natureza t\u00e3o distinta, que \u00e9 um equ\u00edvoco cham\u00e1-la ainda de fotografia (<em>A fotografia<\/em>, p. 16 e 452). Na pr\u00e1tica, creio que essa mudan\u00e7a na forma de inscri\u00e7\u00e3o da imagem tenha desdobrado em promessas e amea\u00e7as n\u00e3o se realizaram plenamente.\u00a0No fotojornalismo, lugar em que o debate assumiu um tom apocal\u00edptico, os profissionais trocaram seus equipamentos sem grandes sustos e os leitores continuaram acreditando no que viam quando abriam seus jornais durante o caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s possibilidades de manipula\u00e7\u00e3o, essa \u00e9 uma quest\u00e3o que transcende as tecnologias digitais. De um lado, o Photoshop n\u00e3o me parece ter incrementado significativamente os deslizes da ci\u00eancia ou do jornalismo: continuamos descobrindo, vez ou outra, e como sempre, imagens e relatos que conduzem de modo mal-intencionado a leituras amb\u00edguas ou equivocadas dos fatos. De outro, discutimos sempre com moralismo as possibilidades de\u00a0proje\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio sobre a realidade, essa nossa tend\u00eancia arcaica para a cria\u00e7\u00e3o de mitos, experi\u00eancia saud\u00e1vel e correlata \u00e0 nossa voca\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. \u00c0s vezes, \u00e9 preciso abandonar os fatos para buscar na realidade aquilo que pode faz\u00ea-la tocar outros tempos e lugares: a guerra de Tr\u00f3ia tornou-se uma s\u00edntese de nossa civiliza\u00e7\u00e3o mais pelas palavras de Homero do que pela sua suposta exist\u00eancia efetiva; nada conseguiu nos implicar tanto na Guerra Civil Espanhola quanto a encena\u00e7\u00e3o produzida por Robert Capa; ao inventar uma guerra, com toda evid\u00eancia de seu Photoshop, <a href=\"http:\/\/www.ciadefoto.com\/#1717860\/GUERRA\" target=\"_blank\">a Cia de Foto mostrou<\/a> onde ela realmente est\u00e1: aqui, bem do nosso lado.<\/p>\n<div id=\"attachment_2572\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/guerra-cia-de-foto.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2572\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2572\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/guerra-cia-de-foto-620x404.jpg\" width=\"620\" height=\"404\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2572\" class=\"wp-caption-text\">Cia de Foto, da s\u00e9rie &#8220;Guerra&#8221;, 2008<\/p><\/div>\n<p>Esse longo estado de alerta criado alimentado pela amea\u00e7a superdimensionada da fotografia digital tem algumas consequ\u00eancias problem\u00e1ticas. Podemos rever isso por meio de exemplos j\u00e1 bem conhecidos:<\/p>\n<p>Primeiro, essa tens\u00e3o nos coloca numa posi\u00e7\u00e3o demasiadamente defensiva, como demonstra a desclassifica\u00e7\u00e3o por \u201cexcesso de Photoshop\u201d, de <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=48\" target=\"_blank\">uma fotografia no concurso dinamarqu\u00eas \u201cA imagem do ano\u201d<\/a>. A satura\u00e7\u00e3o conseguida com o Photoshop \u00e9 t\u00e3o artificial quanto o &#8220;preto e branco&#8221; do fotojornalismo cl\u00e1ssico, t\u00e3o artificial quanto o &#8220;verde Fuji&#8221; ou o &#8220;verde Kodak&#8221;, como lembrava Flusser (<em>Filosofia da caixa preta<\/em>, p. 39-40).<\/p>\n<div id=\"attachment_2562\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Klavs-Bo-Christensen1-300x40211.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2562\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2562\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Klavs-Bo-Christensen1-300x4021-620x202.jpg\" width=\"620\" height=\"202\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2562\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Klavs Bo Christensen rejeitada pelo concurso &#8220;Picture of the year&#8221; (e a imagem apontada como original).<\/p><\/div>\n<p>Segundo, obscurece o fato de que os abusos mais descarados continuam sendo cometidos com um recurso um tanto anal\u00f3gico: a encena\u00e7\u00e3o. Como exemplo, vemos abaixo que o rapaz resgatado dos escombros de um bombardeio no L\u00edbano <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/packages\/html\/world\/20060727_MIDEAST_FEATURE\/blocker.html\" target=\"_blank\">aparece em outras imagens do mesmo ensaio<\/a>, perfeitamente saud\u00e1vel, ajudando a salvar outras v\u00edtimas. <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2006\/08\/09\/pageoneplus\/corrections.html\" target=\"_blank\">A corre\u00e7\u00e3o feita pelo New York Times<\/a>\u00a0manteve a imagem, acrescentando na legenda a informa\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o havia se ferido durante os bombardeios, mas sim durante as opera\u00e7\u00f5es de resgate.<\/p>\n<div id=\"attachment_2563\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Tyler-Hicks-New-York-Time1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2563\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2563\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Tyler-Hicks-New-York-Time-620x190.jpg\" width=\"620\" height=\"190\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2563\" class=\"wp-caption-text\">Tyler Hicks \/ The New York Times, 2006<\/p><\/div>\n<p>Terceiro, esse estado de alerta nos impede de ver o quanto a presen\u00e7a do Photoshop, que parecia estranha \u00e0s pr\u00e1ticas fotogr\u00e1ficas, p\u00f4de ser bem assimilado por alguns rituais de comunica\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria que envolvem a fotografia. Hoje, podemos reconhecer com certa tranquilidade o Photoshop de alguns autores como uma esp\u00e9cie de assinatura, nada diferente de quando distingu\u00edamos a luz de Eugene Smith, a composi\u00e7\u00e3o de Cartier-Bresson, o enquadramento de William Klein, a cor de Miguel Rio Branco. Por exemplo, podemos identificar\u00a0o tratamento peculiar que <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/gui_mohallem\/\" target=\"_blank\">gUi Mohallem<\/a>\u00a0d\u00e1 \u00e0s suas imagens, atravessando indistintamente processos anal\u00f3gicos e digitais: ele exp\u00f5e e revela seus negativos de um modo tal que as cores quase desaparecem, para depois reconstitu\u00ed-las atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es na imagem digitalizada. Apesar de toda a manipula\u00e7\u00e3o que assume, seu trabalho n\u00e3o abandona o compromisso de traduzir a experi\u00eancia que teve com aquilo que estava diante de sua c\u00e2mera, isto \u00e9, n\u00e3o perde sua dimens\u00e3o de documento e mem\u00f3ria.<\/p>\n<div id=\"attachment_2576\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/gui-mohallem-wolcome-home.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2576\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2576\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/gui-mohallem-wolcome-home-620x403.jpg\" width=\"620\" height=\"403\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2576\" class=\"wp-caption-text\">gUi Mohallem, da s\u00e9rie &#8220;Welcome Home&#8221;, 2010<\/p><\/div>\n<p>Podemos pensar uma experi\u00eancia mais amadora dentro dessa mesma perspectiva: um jovem ainda pode reconhecer numa foto feita com o celular, com alguma dose de nostalgia, a boa experi\u00eancia que teve neste \u00faltimo fim de semana, mesmo sabendo que todo aquele clima conseguido na imagem \u00e9 puro artif\u00edcio do <em>Instagram<\/em>.<\/p>\n<p>Como sempre,\u00a0as possibilidades de manipula\u00e7\u00e3o est\u00e3o a\u00ed e, como sempre, reconhecemos a fotografia como mem\u00f3ria. No final das contas, o testemunho tem menos a ver com a materialidade do registro do que com um valor que seguimos depositando na imagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Codifica\u00e7\u00e3o e testemunho<\/strong><\/p>\n<p>Com um pouco mais de sutileza do que Rouill\u00e9, Fontcuberta tamb\u00e9m se pergunta sobre o que resta da fotografia \u201cap\u00f3s a fotografia\u201d, isto \u00e9, ap\u00f3s a mudan\u00e7a dos paradigmas que moldaram o modo como a compreendemos (<em>La C\u00e1mara de Pandora<\/em>). Ele admite que a fotografia digital assume as antigas tarefas de comunica\u00e7\u00e3o e de mem\u00f3ria da fotografia anal\u00f3gica, e parece ver nisso certo anacronismo, j\u00e1 que tamb\u00e9m reconhece na fotografia digital uma mudan\u00e7a de \u201cnatureza\u201d, gerando sempre uma imagem \u201cretocada\u201d ou \u201cprocessada\u201d (pg. 12-13). E conclui: \u201ca fotografia anal\u00f3gica tende a significar fen\u00f4menos, a fotografia digital tende a significar conceitos\u201d (p. 14). <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1875\" target=\"_blank\">Por mais que tentemos encerrar o debate ontol\u00f3gico<\/a> (sobre uma &#8220;ess\u00eancia&#8221; peculiar a cada tipo de imagem), retornamos a ele. Decupando o sentido da t\u00e9cnica, Vil\u00e9m Flusser j\u00e1 havia dito sobre a fotografia anal\u00f3gica algo semelhante ao que Fontcuberta observa na fotografia digital. Para Flusser, nenhuma fotografia \u00e9 capaz de significar diretamente um fen\u00f4meno: o aparelho opera &#8220;teorias&#8221; sob a forma de um \u201cprograma\u201d e, com isso, \u201ctransforma conceitos em cenas\u201d (<em>Filosofia da Caixa Preta<\/em>, p. 39). A fotografia digital apenas escancara uma codifica\u00e7\u00e3o que, no caso da fotografia anal\u00f3gica, demoramos a intuir. Mas isso ainda n\u00e3o foi suficiente para revogar o papel que a imagem cumpre para a comunica\u00e7\u00e3o e para a mem\u00f3ria. Fontcuberta n\u00e3o \u00e9 alheio a isso. Mesmo com as premissas que assume, ele n\u00e3o busca simplesmente denunciar a fal\u00eancia de um antigo paradigma, ele manifesta ao longo das cr\u00f4nicas que apresenta nesse livro a esperan\u00e7a de seguir encontrando a fotografia nessa cultura p\u00f3s-fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo grande contradi\u00e7\u00e3o entre o uso da fotografia como documento e o reconhecimento de sua nova natureza escancaradamente codificada. Creio que os rituais sociais que definem o car\u00e1ter documental da fotografia foram perfeitamente capazes de assimilar n\u00e3o apenas o aspecto vol\u00e1til da nova imagem (o fato de que, na maior parte do tempo, ela \u00e9 apenas dados), mas tamb\u00e9m a presen\u00e7a expl\u00edcita de suas possibilidades de tratamento e manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De modo mais amplo, o valor documental que um objeto pode assumir n\u00e3o tem a ver com aus\u00eancia de codifica\u00e7\u00e3o, ou com a ignor\u00e2ncia da codifica\u00e7\u00e3o, mas com aceita\u00e7\u00e3o coletiva dos c\u00f3digos em quest\u00e3o. Por exemplo, o caixa do supermercado pede minha carteira de identidade para constatar que n\u00e3o estou usando o cheque de outra pessoa, n\u00e3o porque acredite que meu RG seja grafado com meu pr\u00f3prio sangue, mas porque confia na autoridade que relaciona aquele peda\u00e7o de papel a mim. Podemos falsificar carteiras de identidade, como podemos forjar fatos usando o Photoshop mas, na m\u00e9dia de nossas experi\u00eancias, ainda h\u00e1 raz\u00f5es para acreditar que eu estava l\u00e1 quando aquele n\u00famero de RG foi atribu\u00eddo, ou que eu estava l\u00e1 quando aquela foto digital foi feita. Ficamos expostos a riscos quando a autoridade que define o valor desses documentos nos parece natural, e \u00e9 preciso sim haver consci\u00eancia cr\u00edtica esses processos de legitima\u00e7\u00e3o de um procedimento t\u00e9cnico. Mas \u00e9 in\u00fatil denunciar o papel codificador de um aparelho (seja o aparelho judicial, seja o fotogr\u00e1fico) supondo haver, em algum lugar, um estado puro e n\u00e3o-ideol\u00f3gico das coisas.<\/p>\n<p>Outra analogia: uma marca deixada pela realidade pode ser gerida por c\u00f3digos culturais, sem que isso inviabilize seu poder de testemunho. N\u00e3o h\u00e1 incompatibilidade alguma entre esses estatutos m\u00faltiplos que a imagem pode assumir. Imagine um ferimento de guerra, mem\u00f3ria intensa porque inscrita no corpo, mas tamb\u00e9m comovente porque ligada \u00e0 causa pela qual se lutou. Foi o desrespeito a uma regra de conviv\u00eancia (uma fronteira geopol\u00edtica, um tratado econ\u00f4mico, os direitos humanos&#8230;) que fez esse homem se expor como alvo ao seu oponente, assim como foi um universo de conven\u00e7\u00f5es que fizeram do seu ferimento motivo de orgulho. A cicatriz trazida da guerra est\u00e1 inserida num regime de significa\u00e7\u00e3o muito diferente daquele que rege, por exemplo, a cicatriz deixada por uma cirurgia de ap\u00eandice, que esse mesmo corpo pode exibir. Isso significa que a fotografia anal\u00f3gica, entendida como marca deixada pela realidade, ainda depende de conven\u00e7\u00f5es que confirmem seu sentido e garantam sua legibilidade.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 diferente com a fotografia digital, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 em seus pixels o mesmo peso de &#8220;inscri\u00e7\u00e3o f\u00edsica&#8221; que era produzida sobre os gr\u00e3os de prata?<\/p>\n<p>Imagine que esse her\u00f3i de guerra n\u00e3o tenha levado um tiro. Mas ele foi capturado pelo inimigo e feito prisioneiro. Sofreu todo tipo de tortura psicol\u00f3gica, foi humilhado, abusado, dormia e comia em condi\u00e7\u00f5es sub-humanas. Liberto, ele retorna para casa com todos os traumas que uma guerra pode causar, mas sem nenhuma cicatriz inscrita no corpo. Para quem o ouve, a guerra \u00e9 apenas uma informa\u00e7\u00e3o que ele traduz em imagens. Ser\u00e1 que por isso seu testemunho \u00e9 menos leg\u00edtimo? Se acreditamos que ele esteve na guerra, seu relato pode ser t\u00e3o intenso quanto a impress\u00e3o gerada por uma cicatriz. Seu trauma faz de toda sua exist\u00eancia uma cicatriz. Claro, seu relato e seus sintomas podem ser forjados. Mas tamb\u00e9m a cicatriz da cirurgia de ap\u00eandice tamb\u00e9m poderia se fazer passar por uma marca de guerra.<\/p>\n<p>A fotografia ainda serve \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e \u00e0 mem\u00f3ria n\u00e3o apesar de seus c\u00f3digos, mas exatamente por meio deles. Est\u00e3o previstos esses c\u00f3digos as condi\u00e7\u00f5es de credibilidade que permitir\u00e3o que tal imagem ganhe a legitimidade de um\u00a0testemunho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Onde est\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o digital?<\/strong><\/p>\n<p>A fotografia digital produziu sim sua revolu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o exatamente onde esper\u00e1vamos: o acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de imagens e seu poder de circula\u00e7\u00e3o s\u00e3o, de fato, a grande novidade. Nesse sentido, o iPhone \u00e9 mais importante que a Nikon, e o Flickr \u00e9 mais importante que o Getty Images.\u00a0Aqui est\u00e1 o desdobramento mais impactante da fotografia digital: hoje, todos fotografam com seus celulares e todas as imagens produzidas atravessam o planeta de modo informal pelas redes. \u00c9 not\u00e1vel como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.gettyimages.com\/Creative\/Frontdoor\/FlickrPhotos\" target=\"_blank\">o Getty Images se rendeu \u00e0s imagens amadoras do Flickr<\/a>\u00a0(&#8220;a vida como ela acontece&#8221;, diz o site), e como a sagrada Nikon trabalhou r\u00e1pido para permitir que suas c\u00e2meras coubessem no \u201cbolso\u201d das massas, em todos os sentidos (e n\u00e3o ser\u00e1 estranho se, em breve, essas pequenas Nikon fizerem tamb\u00e9m liga\u00e7\u00f5es, do mesmo modo que o telefone N90 da Nokia j\u00e1 faz fotos com as legend\u00e1rias lentes Carl Zeiss).<\/p>\n<p>Ou seja, a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o da fotografia digital n\u00e3o foi operada pela ind\u00fastria fotogr\u00e1fica ou pelos fot\u00f3grafos profissionais, mesmo que estes tenham sido os primeiros a debat\u00ea-la e a tentar geri-la. Talvez essa surpresa tenha ocorrido exatamente porque todo o planejamento e todas as previs\u00f5es visavam, no fundo, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o conquistado. Tratava-se, portanto, de uma posi\u00e7\u00e3o conservadora, avessa a qualquer possibilidade de revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema mais importante que se coloca para a comunica\u00e7\u00e3o e para a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 o fato de que essas imagens s\u00e3o produzidas, armazenadas e veiculadas sob uma codifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica totalmente diferente. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o fato de que est\u00e3o sujeitas \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o. As not\u00edcias, os registros cient\u00edficos, os \u00e1lbuns familiares continuam existindo, com a mesma promessa de dar conta de relatar os fatos, de transmitir conhecimentos e de garantir nossa mem\u00f3ria.\u00a0O problema que essa nova situa\u00e7\u00e3o desencadeia \u00e9: as imagens est\u00e3o mais dispon\u00edveis do que nunca mas, diante de tal prolifera\u00e7\u00e3o, nunca olhamos t\u00e3o pouco para nossas fotografias. Quais as formas de lidar com essa nova escala de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de imagens?<\/p>\n<p>Algumas intui\u00e7\u00f5es tem sido apontadas pelos artistas. Tratarei disso na continua\u00e7\u00e3o deste post, ainda nesta semana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onde a revolu\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o aconteceu H\u00e1 vinte anos, especul\u00e1vamos sobre os impactos das c\u00e2meras digitais que estavam para chegar ao mercado, tent\u00e1vamos entender a mudan\u00e7as no estatuto das imagens que elas produziriam, e prev\u00edamos uma crise em sua credibilidade pelas facilidades de manipula\u00e7\u00e3o.\u00a0Autores como Andr\u00e9 Rouill\u00e9 sugerem que estamos diante de uma imagem de natureza t\u00e3o distinta, que \u00e9 um equ\u00edvoco cham\u00e1-la ainda de fotografia (A fotografia, p. 16 e 452). 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