{"id":2538,"date":"2011-08-29T12:42:38","date_gmt":"2011-08-29T12:42:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2538"},"modified":"2016-05-28T13:22:52","modified_gmt":"2016-05-28T13:22:52","slug":"garcons-e-brisas-fotograficas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/garcons-e-brisas-fotograficas\/","title":{"rendered":"Gar\u00e7ons e brisas fotogr\u00e1ficas"},"content":{"rendered":"<p>Imagine que voc\u00ea tenha tido um encontro amoroso numa festa, talvez num bar. Noite alta, voc\u00eas j\u00e1 juntos, teriam pedido ao gar\u00e7om uma fotografia pelo celular. Em meio aos afazeres, a bandeja de lado. Entre voc\u00eas e aquele homem, uma eternidade. Entre a a\u00e7\u00e3o do dedo e a pausa, um sil\u00eancio instant\u00e2neo. Segurando o celular, o homem pensou no cansa\u00e7o, no patr\u00e3o, nas contas a pagar. Lembrou da mulher, da vizinha gostosa, da batata frita pedida pela mesa ao lado, do chope do cliente mal-educado esquentando no balc\u00e3o (por que ser\u00e1 que a maioria dos gar\u00e7ons est\u00e1 sempre disposta a exercer com tanta eloqu\u00eancia e alegria a tarefa de fotografar seus clientes?) O burburinho, os pensamentos, o dedo \u00e0 beira de pressionar o bot\u00e3o, o casal diante do aparelho, o sorriso, o entendimento m\u00fatuo de que, apesar da correria, as mem\u00f3rias (ah, as mem\u00f3rias&#8230;.); o dedo j\u00e1 apertando o bot\u00e3o, o tempo dilatado, a algazarra&#8230; De repente, um zumbido no ouvido, um sopro. Pronto: o dedo escorregou, o corte aconteceu. Sobre o fluxo cont\u00ednuo do tempo, manifestou-se o instante, ergueu-se a distin\u00e7\u00e3o: nasceu ali uma fotografia.<\/p>\n<p>O celular de volta ao bolso, o gar\u00e7om de volta ao sal\u00e3o. O tempo mec\u00e2nico de volta \u00e0 percep\u00e7\u00e3o. Que zumbido teria sido aquele que o gar\u00e7om mal reparou logo antes de o dedo escorregar?<\/p>\n<div id=\"attachment_2540\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=2540\" rel=\"attachment wp-att-2540\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2540\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2540\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Jean-Baptiste-Regnault-The-Genius-Of-France-Between-Liberty-And-Death-360x438.jpg\" width=\"360\" height=\"438\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2540\" class=\"wp-caption-text\">Anjo de Agamben: Jean Baptiste Regnault &#8211; The Genius Of France Between Liberty And Death<\/p><\/div>\n<p>Agamben sugeriu uma vez que o anjo da fotografia era o anjo do \u00faltimo dia, o anjo do ju\u00edzo final. No instante supremo, cada homem estaria entregue a seu gesto mais \u00ednfimo e cotidiano. No entanto, gra\u00e7as \u00e0 lente fotogr\u00e1fica, o gesto mais banal e ordin\u00e1rio apareceria carregado com o peso de uma vida inteira. Numa fotografia, qualquer atitude irrelevante e trivial, mesmo boba, resumiria em si o sentido de toda uma exist\u00eancia. O poder do gesto (de convocar e concentrar pot\u00eancias ang\u00e9licas) encontraria na foto seu lugar: seu l\u00f3cus, sua hora t\u00f3pica. Na foto, o anjo apocal\u00edptico imortalizaria a vida e faria da eterna repeti\u00e7\u00e3o da fotografia um modo de carregar de destino aquele gesto paralisado. Por isso a fotografia exigiria de n\u00f3s um acerto de contas: acerto com o \u00faltimo dia, num tempo mais atual e mais urgente do que qualquer tempo cronol\u00f3gico. Para Agamben, a exig\u00eancia com que nos interpela uma fotografia nada teria de est\u00e9tico: \u201cde tudo isso, a fotografia nos exige que nos recordemos; as fotos s\u00e3o testemunhas de todos esses nomes perdidos, semelhantes ao livro da vida que o novo anjo apocal\u00edptico \u2013\u00ad o anjo da fotografia \u2013 tem entre as m\u00e3os no final dos dias, ou seja, todos os dias\u201d (Agamben, 2005: 8).<\/p>\n<p>Teria sido o anjo do \u00faltimo dia que soprou no ouvido do gar\u00e7om?<\/p>\n<p>Como Aganbem, Walter Benjamin tamb\u00e9m via anjos por a\u00ed, pairando sobre as ruas, tomando forma nos quartos dos meninos e encarnando a tragicidade moderna. Os anjos povoam o pensamento de Benjamin, como t\u00e3o bem analisa Jeanne Marie Gangnebin, subvertendo a ideia de uma posi\u00e7\u00e3o est\u00e1vel, de uma p\u00e1tria definitivamente conquistada, de um enraizamento substancial, seja ele de ordem te\u00f3rica ou existencial, marxista ou judaica. N\u00e3o s\u00e3o mensageiros da vontade divina, arcanjos ou querubins. S\u00e3o anjos menores, ef\u00eameros, fr\u00e1geis. Vivem apenas o instante de seu hino para, em seguida, se desvanecer na sombra. A cada momento, anjos sempre novos, formam legi\u00f5es infinitas, criados para, depois de ter entoado seus mantras, deixar de existir, como cigarras. Os anjos de Benjamin s\u00e3o cigarras de zumbidos impercept\u00edveis a todos os ouvidos: cada cigarra-anjo encontra a orelha que lhe cabe, canta um zumbido \u00edntimo (embora faiscante como rel\u00e2mpago) e depois silencia, ca\u00eddo na noite. Aparecem na obra de Benjamin, \u00e0s vezes discretos, outras como clar\u00f5es, deitam-se na escurid\u00e3o t\u00e3o de repente quanto surgem: Benjamin os incorpora no texto absorvendo a temporalidade pr\u00f3pria desses seres de fronteira.<\/p>\n<div id=\"attachment_2541\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=2541\" rel=\"attachment wp-att-2541\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2541\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2541\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/actress-angel-lsc312-360x563.jpg\" width=\"360\" height=\"563\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2541\" class=\"wp-caption-text\">London Stereoscopic &amp; Photographic Co.,\u00a0Actress with angel, c. 1860<\/p><\/div>\n<p>Anjos-cigarras-vaga-lumes: entre o zumbido da cigarra e a lumin\u00e2ncia do vaga-lume, o anjo de Benjamin aparece como imagem de um tempo muito especial. O agudo de seu sopro desmonta a corrente do tempo encadeado por instantes id\u00eanticos e equivalentes. Reivindica uma \u201catualidade simultaneamente resplandecente e fr\u00e1gil, o tempo de cantar um hino e, em seguida, de se aniquilar\u201d (Gagnebin, 1997: 125). A presen\u00e7a \u201cestrangeira\/estranha\u201d dos anjos introduz, na cronologia linear, homog\u00eanea e sempre igual dos rel\u00f3gios, pequena cesura, uma fenda impercept\u00edvel, um barulho fr\u00e1gil, embora incisivo, que transforma o <em>continuum <\/em>temporal, \u201ct\u00e3o ocupado a se perpetuar a si mesmo\u201d, numa experi\u00eancia entrecortada, lacunar, fulgurante e evanescente. O sopro do anjo-cigarra-vaga-lume entalha no presente uma marca de atualidade, na brevidade do instante singular e ef\u00eamero, possibilitando uma experi\u00eancia de tempo sempre amea\u00e7ada (e possibilitada) pelo esquecimento. Depois do zumbido da cigarra, da entoa\u00e7\u00e3o de seu hino, o anjo de Benjamin abandona seu posto e deixa, sem rancor nem ressentimento, seu lugar ao pr\u00f3ximo anjo, simultaneamente semelhante e diferente (gagnebin, 1997: 135). \u201cNas \u2018interfer\u00eancias\u2019, nas cesuras do cont\u00ednuo hist\u00f3rico, ali onde o tempo para e onde retomamos f\u00f4lego, ali tamb\u00e9m, de repente, sopra um vento fresco, aquele no qual o Deus b\u00edblico gostava de se manifestar aos profetas, aquele que lembra aos homens a possibilidade e a urg\u00eancia da felicidade\u201d (Gagnebin, 1997: 134).<\/p>\n<p>O anjo-cigarra-vaga-lume \u00e9 o guardi\u00e3o do tempo do acontecimento e tamb\u00e9m da felicidade. Anjo guardi\u00e3o da dura\u00e7\u00e3o. Teria sido ele a soprar a brisa no ouvido do gar\u00e7om?<\/p>\n<div id=\"attachment_2539\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2539\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2539 \" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/I_Wait_by_Julia_Margaret_Cameron-360x459.jpg\" width=\"360\" height=\"459\" \/><p id=\"caption-attachment-2539\" class=\"wp-caption-text\">Julia Margaret Cameron, &#8220;I wait&#8221;, c. 1860.<\/p><\/div>\n<p>Provavelmente existem tantos anjos quantos n\u00f3s \u2013 desajeitados, incompetentes, de causas imposs\u00edveis, que fazem milagres como brotarem ip\u00eas no cerrado ou florescerem \u00e1rvores no inverno de Berlim. Anjos que riem, outros que meditam. Provavelmente tamb\u00e9m cada fotografia foi soprada pelo seu anjo: anjos benjaminianos, anjos-cigarras, anjos-vaga-lumes; guardi\u00f5es do \u00faltimo dia, guardi\u00f5es do esquecimento, anjos da lembran\u00e7a, guardi\u00f5es da mem\u00f3ria&#8230;. aparecem e desaparecem, brilham e cantam seus mantras na velocidade do pensamento. Ventam segredos infinitos, esp\u00edrito e corpo, naturais e t\u00e9cnicos, leves e pesados, humano e inumano.<\/p>\n<p>Os anjos que sopram fotografias vivem no templo do tempo, entre o terreno e o celestial. Descem para c\u00e1 como insetos alados. De apar\u00eancia genericamente humana s\u00e3o, em simult\u00e2neo, corpos do n\u00e3o represent\u00e1vel, do n\u00e3o humano. De certo, devem gostar de fotografias porque materializam presen\u00e7a em modo de aus\u00eancia \u2013 como eles, fotografias s\u00e3o imagens de fronteiras. E o que torna poss\u00edvel a percep\u00e7\u00e3o de sua presen\u00e7a \u00e9 o sopro, a brisa. Ela nos obriga a levantar os olhos em sua dire\u00e7\u00e3o. O vento atravessa a lente, levanta os olhos da c\u00e2mera e por isso (porque quem \u00e9 olhado ou se julga olhado levanta os olhos) fazem tamb\u00e9m o gesto se voltar para a c\u00e2mera. As coisas que os anjos veem os veem como eles as veem, num breve piscar do obturador. Talvez por isso, sorrimos; e, \u00e0s vezes, tememos. Nosso olhar \u00e9 atra\u00eddo pelas lentes das c\u00e2meras, por mais breve que seja, porque vemos nelas os olhos incorp\u00f3reos dos anjos da dura\u00e7\u00e3o. Olhos que j\u00e1 viram futuro e passado, vis\u00f5es que ventam tempos simult\u00e2neos. Nos olhos desses anjos experimentamos nosso pr\u00f3prio futuro; sentimos a profundidade do passado, daquilo jamais retornar\u00e1 e, simultaneamente, estar\u00e1 sempre conosco.<\/p>\n<p>Mas por que soprar fotografias em vez de impedir que o menino que aprende a andar n\u00e3o machuque os dedinhos numa gaveta? Talvez porque a fotografia renove a esperan\u00e7a de fazer o tempo do instante (momento em que o anjo entoa seu zumbido) tocar o tempo celestial da dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Provavelmente saibam esses anjos que, diante de uma fotografia, estamos sempre diante de uma mat\u00e9ria imagin\u00e1ria (e real) do tempo.<\/p>\n<p>Assim, andam por a\u00ed os anjos menores, participam das hesita\u00e7\u00f5es, das d\u00favidas, dos desamparos do mundo profano, espreitam imagens sempre em vias de nascer e, quando finalmente sopram, nos retiram do presente cont\u00ednuo para fazer desse instante o presente perp\u00e9tuo, sempre diferente e o mesmo, composi\u00e7\u00e3o entre o esquecimento e a lembran\u00e7a, o vis\u00edvel e o invis\u00edvel, o n\u00edtido e o turvo. Assim, escolhem gar\u00e7ons como mensageiros de brisas fotogr\u00e1ficas e carregam de destino esses instant\u00e2neos.<\/p>\n<p>*****<\/p>\n<p>Este texto se apropria, provavelmente de modo indevido, de ideias que n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente minhas. Em primeiro lugar, uma homenagem ao professor Mauricio Lissovsky que, em suas aulas, me fez perceber pela primeira vez a brisa dos anjos fotogr\u00e1ficos. Tenho quase certeza de que foi ele quem disse que o tempo era o anjo da fotografia, ou talvez tenha sido eu mesma que, tomada de inspira\u00e7\u00e3o por sua irrever\u00eancia pensante, tenha imaginado e fixado como minha essa vis\u00e3o. Penso tamb\u00e9m com as palavras de Jeanne Marie Gagnebin, Giorgio Agamben e Walter Benjamin. No pr\u00f3ximo post continuamos a conversar sobre a fotografia daquele encontro amoroso.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n<p>Agamben, Giorgio. O dia do Juizo. In <em>Profana\u00e7\u00f5es<\/em>. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005.<\/p>\n<p>Gagnebin, Jeanne Marie. O hino, a brisa, a tempestade: dos anjos em Walter Benjamin. In: <em>Sete aulas sobre linguagem, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria<\/em>.<em> <\/em>Rio de Janeiro: Imago, 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine que voc\u00ea tenha tido um encontro amoroso numa festa, talvez num bar. Noite alta, voc\u00eas j\u00e1 juntos, teriam pedido ao gar\u00e7om uma fotografia pelo celular. Em meio aos afazeres, a bandeja de lado. Entre voc\u00eas e aquele homem, uma eternidade. Entre a a\u00e7\u00e3o do dedo e a pausa, um sil\u00eancio instant\u00e2neo. Segurando o celular, o homem pensou no cansa\u00e7o, no patr\u00e3o, nas contas a pagar. 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