{"id":2512,"date":"2011-08-22T10:26:55","date_gmt":"2011-08-22T10:26:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2512"},"modified":"2017-03-01T12:35:00","modified_gmt":"2017-03-01T12:35:00","slug":"a-internacionalizacao-da-fotografia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-internacionalizacao-da-fotografia-brasileira\/","title":{"rendered":"A internacionaliza\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Na semana passada participei como convidado dos Encontros de Agosto, realizado em Fortaleza, iniciativa do F\u00f3rum da Fotografia \u2013 Cear\u00e1. A primeira edi\u00e7\u00e3o do evento teve como tema geral <em>Fotografia Contempor\u00e2nea \u2013 linguagem e pensamento<\/em> e contou com semin\u00e1rios, palestras, exposi\u00e7\u00f5es e workshops. Essas atividades buscaram refletir as quest\u00f5es pr\u00f3prias da fotografia, em particular sua inser\u00e7\u00e3o no campo das artes. Minha participa\u00e7\u00e3o se deu atrav\u00e9s de uma r\u00e1pida palestra denominada <em>A internacionaliza\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira<\/em>, a partir de uma provoca\u00e7\u00e3o feita por Tiago Santana.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, essa provoca\u00e7\u00e3o gestou um novo projeto, j\u00e1 em andamento, que ir\u00e1 tratar desse tema que se mostrou fascinante como investiga\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para melhor compreender a import\u00e2ncia da fotografia brasileira contempor\u00e2nea no panorama internacional. O lan\u00e7amento do livro de Tiago Santana na emblem\u00e1tica cole\u00e7\u00e3o francesa Photo Poche foi o ponto de partida para tentar problematizar a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa primeira investida, busquei olhar retrospectivamente para a nossa fotografia. Entendo o presente como um conjunto de a\u00e7\u00f5es e de for\u00e7as que pulsaram em diferentes momentos do passado. Como sabemos o novo gesta-se atrav\u00e9s das experi\u00eancias anteriores, e foi com essa compreens\u00e3o que materializamos a hist\u00f3ria da fotografia brasileira e sua reconhecida trajet\u00f3ria. Basta uma r\u00e1pida leitura diacr\u00f4nica para entendermos seus significativos marcos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>O tema proposto me permitiu olhar para 171 anos de fotografia brasileira e pensar os poss\u00edveis per\u00edodos em que nossa produ\u00e7\u00e3o de alguma forma reverberou em outros pa\u00edses. Claro que a cada per\u00edodo os interesses foram distintos mas, mesmo assim, n\u00e3o passou desapercebida a import\u00e2ncia da fotografia como t\u00e9cnica e documenta\u00e7\u00e3o, express\u00e3o e linguagem. Assumi inicialmente que essa internacionaliza\u00e7\u00e3o se deu em quatro diferentes per\u00edodos assim denominados:<\/p>\n<ol>\n<li>As exposi\u00e7\u00f5es universais \u2013 olhar o Brasil, mostrar o Brasil \u2013 1840 \u2013 1922<\/li>\n<li>A din\u00e2mica do fotoclube e a fotografia documental \u2013 1923 \u2013 1975<\/li>\n<li>O recome\u00e7o \u2013 a singularidade se imp\u00f5e \u2013 1976 \u2013 2000<\/li>\n<li>S\u00e9culo XXI \u2013 a globaliza\u00e7\u00e3o consolidada, um mundo sem fronteiras \u2013 2001 \u2013 2011<\/li>\n<\/ol>\n<div id=\"attachment_2525\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2525\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2525 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/pacheco-filhos-360x558.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"446\" \/><p id=\"caption-attachment-2525\" class=\"wp-caption-text\">Verso de Carte de Visite: Pacheco &amp; Filhos<\/p><\/div>\n<p>O <strong>primeiro per\u00edodo<\/strong> d\u00e1 import\u00e2ncia \u00e0s Exposi\u00e7\u00f5es Universais, que s\u00e3o hoje identificadas como a s\u00edntese da sociedade cosmopolita da \u00e9poca. As exposi\u00e7\u00f5es universais exibiam a grandeza do conhecimento humano nas \u00e1reas das ci\u00eancias, da agricultura, das atividades liberais, das artes industriais, das belas artes, entre outras. A fotografia foi uma forma de representa\u00e7\u00e3o da sociedade burguesa, que atrav\u00e9s das exposi\u00e7\u00f5es buscou disseminar um programa ideal de civiliza\u00e7\u00e3o e modernidade.<\/p>\n<p>Em 1851, o imperador D. Pedro II atribui o t\u00edtulo de \u201cPhotographo da Casa Imperial\u201d ao est\u00fadio Buvelot &amp; Pratt, tornando-se o primeiro monarca do mundo a criar esta denomina\u00e7\u00e3o (a Rainha Victoria da Inglaterra s\u00f3 o fez dois anos mais tarde). O Brasil propaga sua imagem: tanto a produzida pelos fot\u00f3grafos estrangeiros, cuja vis\u00e3o era pontuada pelo olhar etnoc\u00eantrico de uma Europa civilizada, quanto pelos fot\u00f3grafos que aqui se instalaram e decidiram assumir mostrar as singularidades de um pa\u00eds de futuro econ\u00f4mico promissor. Nas dezenas de exposi\u00e7\u00f5es realizadas em Londres, Paris, Viena, Filadelfia, Chicago, Buenos Aires, Amsterdam, Saint Louis, a fotografia brasileira colecionou pr\u00eamios, medalhas e outras honrarias. O Brasil realizou duas grandes exposi\u00e7\u00f5es universais, em 1908 e 1922 \u2013 Centen\u00e1rio da Abertura dos Portos e Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia, respectivamente, ambas na cidade do Rio de Janeiro. A realiza\u00e7\u00e3o dessas exposi\u00e7\u00f5es est\u00e1 associada ao trabalho, progresso, civiliza\u00e7\u00e3o e a invent\u00e1rios da grande fam\u00edlia humana.<\/p>\n<div id=\"attachment_2514\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2514\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2514   \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Salao-FCCB-360x525.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"302\" \/><p id=\"caption-attachment-2514\" class=\"wp-caption-text\">Sal\u00e3o Internacional de Arte Fotogr\u00e1fica, Foto Cine Clube Bandeirantes, 1952<\/p><\/div>\n<p>O <strong>segundo per\u00edodo<\/strong>, que caracteriza outra inser\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira na produ\u00e7\u00e3o mundial, se traduz pela presen\u00e7a dos fotoclubes na cena cultural da fotografia. Esse movimento se consolida atrav\u00e9s do PhotoClub Brasileiro, inaugurado em 1923, e do Foto Clube Bandeirante, inaugurado em 1939. Uma das premissas do movimento era estar inserido na ampla dissemina\u00e7\u00e3o da fotografia atrav\u00e9s dos sal\u00f5es internacionais. Para isso, uma fotografia ganhava tanto mais status quanto maior o n\u00famero de carimbos e selos que a c\u00f3pia adquiria em sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Podemos destacar por exemplo a atua\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Oiticica Filho que, at\u00e9 1954, j\u00e1 tinha participado de 429 sal\u00f5es internacionais e somado 921 aceita\u00e7\u00f5es nacionais. Quantitativamente atingiu o m\u00e1ximo e foi o fot\u00f3grafo brasileiro de maior destaque nessas competi\u00e7\u00f5es. Mas, para que tantos sal\u00f5es e tantas aceita\u00e7\u00f5es? Foi exatamente esse car\u00e1ter competitivo que afastou as melhores iniciativas de linguagem produzida pelo movimento a partir da segunda metade d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>Outro aspecto interessante desse per\u00edodo foi a presen\u00e7a de v\u00e1rios fot\u00f3grafos estrangeiros que se instalam no pa\u00eds na segunda metade da d\u00e9cada de 1940. Entre eles, destacamos Jean Manzon, Pierre Fatumbi Verger, Marcel Gautherot, cujos trabalhos foram publicados na revista <em>O Cruzeiro<\/em> e em livros bilingues (alguns deles publicados pela Kosmos) que objetivavam divulgar a imagem de um pa\u00eds em pleno florescimento. Mais tarde contamos com a presen\u00e7a de Maureen Bisilliat, Claudia Andujar, David Zingg, Lew Parrela, George Love, que v\u00e3o imprimir uma nova perspectiva para a fotografia brasileira. Em sentido contr\u00e1rio, destacamos a presen\u00e7a do paulista Otto Stupakoff na revista Haper\u2019s Bazaar, entre outras, tornando-se efetivamente o primeiro fot\u00f3grafo brasileiro a ganhar o mercado editorial internacional.<\/p>\n<div id=\"attachment_2515\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2515\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2515   \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/popular-photography-360x470.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"271\" \/><p id=\"caption-attachment-2515\" class=\"wp-caption-text\">Revista Popular Photography, com reportagem sobre Hercules Florence<\/p><\/div>\n<p>Caracterizamos como o in\u00edcio <strong>terceiro per\u00edodo<\/strong> o ano de 1976, pois foi neste ano que Gilberto Ferrez realizou com Weston Naef uma exposi\u00e7\u00e3o com sua cole\u00e7\u00e3o de fotografias brasileiras do s\u00e9culo XIX na cidade de Nova York. No mesmo ano, Boris Kossoy anunciou as experi\u00eancias de Hercules Florence, inserindo o Brasil como um dos pa\u00edses presentes na descoberta da fotografia e isso teve resson\u00e2ncia internacional, sendo publicado nas principais revistas e jornais do mundo. Mais tarde, temos a presen\u00e7a do carioca Al\u00e9cio de Andrade na Ag\u00eancia Magnum.<\/p>\n<p>No final dos anos setenta, a fotografia brasileira se fortaleceu com o aparecimento do N\u00facleo de Fotografia da Funarte, futuro Instituto Nacional da Fotografia. Na d\u00e9cada seguinte, realiza as semanas nacionais e a fotografia brasileira \u00e9 destacada nas revistas Clich\u00e9s, European Photography, Zoom, Popular Photography, Photo, entre outras. \u00c9 nesse per\u00edodo que nossa singularidade se imp\u00f5e e ganha espa\u00e7o nos eventos internacionais \u2013 Mois de la Photo, em Paris e FotoFest, em Houston, entre outros.<\/p>\n<p>Em 1991 \u00e9 criado a Cole\u00e7\u00e3o Pirelli-Masp de Fotografia e o NaFOTO \u2013 N\u00facleo dos Amigos da Fotografia, que assume naquele momento, entre suas v\u00e1rias proposi\u00e7\u00f5es, a internacionaliza\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira, ou seja, divulgar, valorizar e inserir sua produ\u00e7\u00e3o no circuito internacional de exibi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m entre 1996 e 2000 \u00e9 realizada a Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba. No final desse per\u00edodo a fotografia brasileira se consolida principalmente atrav\u00e9s dos trabalhos expressivos de Mario Cravo Neto, Miguel Rio Branco, Carlos Freire, Sebasti\u00e3o Salgado, Ros\u00e2ngela Renn\u00f3, Cl\u00e1udia Andujar, Alair Gomes, entre outros.<\/p>\n<p>Finalmente, chegamos ao <strong>quarto per\u00edodo<\/strong>: S\u00e9culo XXI \u2013 a globaliza\u00e7\u00e3o consolidada, um mundo sem fronteiras. Em s\u00edntese, podemos afirmar que as feiras internacionais, como por exemplo,\u00a0 a London Art; a Arco, de Madrid; o Paris Photo; Ipad \u2013International Photographers Art Dealers, a Art Basel, de Miami, s\u00e3o parcialmente respons\u00e1veis pelo interesse despertado e pela presen\u00e7a da fotografia brasileira em museus e galerias de todo o mundo. Al\u00e9m disso, vale destacar a criatividade da nossa fotografia que somadas \u00e0 a\u00e7\u00e3o de curadores e galeristas brasileiros, despertam um enorme interesse pela nossa produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, os quatro per\u00edodos representam e sintetizam o processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira. Agora, o desafio \u00e9 preencher as lacunas e aprofundar a reflex\u00e3o sobre a quest\u00e3o. Tenho certeza que teremos uma nova vis\u00e3o da hist\u00f3ria da fotografia a partir desse recorte que busca compreender a trajet\u00f3ria atrav\u00e9s da aceita\u00e7\u00e3o da sua produ\u00e7\u00e3o no plano internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada participei como convidado dos Encontros de Agosto, realizado em Fortaleza, iniciativa do F\u00f3rum da Fotografia \u2013 Cear\u00e1. A primeira edi\u00e7\u00e3o do evento teve como tema geral Fotografia Contempor\u00e2nea \u2013 linguagem e pensamento e contou com semin\u00e1rios, palestras, exposi\u00e7\u00f5es e workshops. Essas atividades buscaram refletir as quest\u00f5es pr\u00f3prias da fotografia, em particular sua inser\u00e7\u00e3o no campo das artes. Minha participa\u00e7\u00e3o se deu atrav\u00e9s de uma r\u00e1pida palestra denominada A internacionaliza\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira, a partir de uma provoca\u00e7\u00e3o feita por Tiago Santana. 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