{"id":246,"date":"2009-11-03T07:20:31","date_gmt":"2009-11-03T07:20:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=246"},"modified":"2017-03-01T12:29:06","modified_gmt":"2017-03-01T12:29:06","slug":"doisneau-publicitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/doisneau-publicitario\/","title":{"rendered":"Doisneau publicit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 surpreendente encontrar o nome de um t\u00edpico \u201cfot\u00f3grafo de rua\u201d ligado ao acervo de imagens publicit\u00e1rias e institucionais de uma grande ind\u00fastria. \u00c9 isso que nos mostra a exposi\u00e7\u00e3o <em>A Renault de Doisneau<\/em> (assim mesmo, com rima), que passou por Curitiba e agora est\u00e1 em cartaz na Fiesp, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mas temos sempre que desconfiar daquilo que chamamos de \u201ct\u00edpico\u201d.<\/p>\n<p>Eu mesmo sempre tive a sensa\u00e7\u00e3o de que Doisneau foi um fot\u00f3grafo tipicamente franc\u00eas. Por que isso? Talvez porque o tradicional <em>Cours de langue et de civilisation fran\u00e7aises<\/em><em>, <\/em>de<em> <\/em>G. Mauger, \u00a0m\u00e9todo usado por muitos professores e escolas desde o tempo da palmat\u00f3ria, era ilustrado com fotografias dele. Talvez porque, enquanto vimos mestres como Kert\u00e9sz, Capa ou Cartier-Bresson se deslocando pelo mundo, o trabalho de Doisneau parece ter se concentrado nos h\u00e1bitos e paisagens urbanas da Fran\u00e7a. Talvez ainda porque, em qualquer lugar do mundo, todo Caf\u00e9 que deseja ganhar um clima parisiense e simp\u00e1tico coloca na parede algumas de suas fotos.<\/p>\n<div id=\"attachment_250\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-250\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-250\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/doisneau_02-280x221.jpg\" alt=\"Doisneau. O Beijo do Hotel de Ville, 1950.\" width=\"280\" height=\"221\" \/><p id=\"caption-attachment-250\" class=\"wp-caption-text\">Doisneau. O Beijo do Hotel de Ville, 1950.<\/p><\/div>\n<p>Na pr\u00e1tica, esse \u201ctipicamente franc\u00eas\u201d se refere a elementos de nosso imagin\u00e1rio que est\u00e3o representados em suas fotos: o franc\u00eas rom\u00e2ntico, elegante, erudito, tamb\u00e9m com uma dose de mal\u00edcia, de sedu\u00e7\u00e3o, de bom-humor sem jamais perder a formalidade e a polidez.<\/p>\n<p>A famosa foto do \u201cBeijo\u201d, que tanto nos fez sofrer ao se revelar encenada, parece ser uma chave para responder a isso. Doisneau certamente n\u00e3o se rendeu ingenuamente a um estere\u00f3tipo. Ao contr\u00e1rio: com muita habilidade, ele ajudou a construir aquilo que nosso imagin\u00e1rio reconhece como Fran\u00e7a, sobretudo por Paris.<\/p>\n<p>Sendo assim, mesmo na rua, Doisneau sempre foi um bom publicit\u00e1rio, sem nenhum preconceito quanto ao termo: refiro-me aqui a algu\u00e9m que tem plena consci\u00eancia das imagens que constr\u00f3i e da leitura que delas se poder\u00e1 fazer.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se esquivou de mostrar a Fran\u00e7a quando a vida j\u00e1 n\u00e3o parecia t\u00e3o leve: n\u00e3o s\u00e3o as mais famosas, mas conhecemos as imagens que ele fez durante a guerra, a ocupa\u00e7\u00e3o nazista e as atividades de resist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\nAs fotos da Renault<\/strong><\/p>\n<p>Doisneau praticamente iniciou sua carreira de fot\u00f3grafo, aos 22 anos, trabalhando para essa f\u00e1brica de autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>Os resultados s\u00e3o sempre bons, mesmo em situa\u00e7\u00f5es muito diversas: ao ar livre ou em espa\u00e7os fechados, mostrando m\u00e1quinas, paisagens, arquitetura ou pessoas, em tom publicit\u00e1rio ou documental, o que vemos \u00e9 um grande dom\u00ednio da t\u00e9cnica, da luz, da composi\u00e7\u00e3o e, num dado momento, tamb\u00e9m da cor e daquilo que me pareceu ser um flash. Quanto \u00e0s pessoas, \u00e0s vezes as poses s\u00e3o evidentes, \u00e0s vezes, n\u00e3o. Mas como saber? \u00c9 poss\u00edvel ver ao longo do tempo coberto pela exposi\u00e7\u00e3o o modo como ele aprimora sua capacidade de dirigir seus modelos de modo convincente, seja em poses extravagantes da fotografia de moda, seja na encena\u00e7\u00e3o do espont\u00e2neo, como no \u201cBeijo\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_252\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-252\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-252\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/doisneau_1-280x214.jpg\" alt=\"Doisneau, 1935.\" width=\"280\" height=\"214\" \/><p id=\"caption-attachment-252\" class=\"wp-caption-text\">Doisneau, 1935.<\/p><\/div>\n<p>Mesmo trabalhando com encomendas, ainda h\u00e1 leveza e romantismo no conjunto que vemos. \u00c9 muito bom que a Renault tenha preservado e mostrado esse material. Mas me incomoda notar que a empresa, numa exposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, adota ainda hoje um tom propagand\u00edstico. No texto do folheto distribu\u00eddo na exposi\u00e7\u00e3o, a conservadora da cole\u00e7\u00e3o fala numa \u201cempresa m\u00edtica\u201d, \u201c\u00e0 frente de seu tempo\u201d. Diz ainda, que Doisneau est\u00e1 ali \u201cpromovendo a eleg\u00e2ncia dos autom\u00f3veis da Renault\u201d quando, na verdade, ele est\u00e1 exatamente construindo essa eleg\u00e2ncia atrav\u00e9s de suas fotografias. Por fim, fala do \u201corgulho dos trabalhadores\u201d da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que Doisneau \u00e9, ele pr\u00f3prio, um desses trabalhadores. Ele n\u00e3o est\u00e1 ali para fazer den\u00fancia, n\u00e3o \u00e9 essa sua voca\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que parece buscar o que existe de mais digno nas pessoas que poderiam muito bem desaparecer naquele ambiente escuro, com seu maquin\u00e1rio pesado e gigantesco. \u00c9 natural que olhemos para a f\u00e1brica quase com certa nostalgia: as ferramentas, as pe\u00e7as, engrenagens, manivelas s\u00e3o coisas de um tempo em que o trabalho na ind\u00fastria ainda respondia a uma performance humana, ou seja, s\u00e3o de um tempo em que os produtos ainda eram feitos por algu\u00e9m. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a ind\u00fastria francesa quase sucumbiu por excesso de humanismo (\u00e0s vezes, de sindicalismo), sendo mais lenta na ades\u00e3o de modelos que garantem produtividade.<\/p>\n<p>O momento em que Doisneau chega a essa empresa coincide com aquele em que o mundo todo se esfor\u00e7a para contornar os efeitos da crise de 1929. A resposta de Louis Renault \u00e9 eficiente: ao mesmo tempo em luta pela diminui\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ira e pela melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito, investe em publicidade.\u00a0O sucesso da Renault desse per\u00edodo tem a ver tamb\u00e9m com uma\u00a0pol\u00edtica\u00a0de redu\u00e7\u00e3o dos custos, garantida pela renova\u00e7\u00e3o das linhas de montagem segundo os modelos que observa nos EUA, que incluem a cronometragem do trabalho e rigorosas metas de produtividade.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0s fotografias, e ao modo como os trabalhadores aparecem nelas, vemos que h\u00e1 momentos de descontra\u00e7\u00e3o, de aprendizado, h\u00e1 intervalos, e h\u00e1 tamb\u00e9m muitas poses, seja pelo compromisso institucional, seja porque as baixas luzes assim exigiam. Mas nem todas as express\u00f5es esbanjam felicidade e orgulho de estar ali. Com um pouco de aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel ver tamb\u00e9m o esfor\u00e7o, o cansa\u00e7o e os corpos sujos de graxa.<\/p>\n<div id=\"attachment_253\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-253\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-253\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/doisneau_21-280x299.jpg\" alt=\"Doisneau,1935.\" width=\"280\" height=\"299\" \/><p id=\"caption-attachment-253\" class=\"wp-caption-text\">Doisneau,1935.<\/p><\/div>\n<p>Isso fica ainda mais evidente quando comparado ao glamour do outro lado da exposi\u00e7\u00e3o: os belos carros, as paisagens exuberantes, grupos de pessoas se divertindo, os vestidos caros, as mulheres (n\u00e3o necessariamente lindas, mas charmosas e seguras, muitas vezes dirigindo os pr\u00f3prios carros). Tamb\u00e9m os \u201cconcursos de eleg\u00e2ncia\u201d, dos quais o autom\u00f3vel \u00e9 sempre um componente.<\/p>\n<p>Mesmo a servi\u00e7o da empresa, Doisneau soube n\u00e3o confundir o esfor\u00e7o de venda dos carros \u2013 as imagens usadas como propaganda \u2013 com o esfor\u00e7o exigido para sua fabrica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o pr\u00f3prio texto de abertura da exposi\u00e7\u00e3o que nos informa que os registros dedicados aos trabalhadores resultavam de uma iniciativa pessoal do fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso levar \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o uma bandeira marxista. N\u00e3o \u00e9 preciso interrogar Doisneau a respeito de sua ideologia ou buscar ali um protesto contra o car\u00e1ter alienante de toda ind\u00fastria. As imagens est\u00e3o acima disso. Mas tamb\u00e9m seria um desperd\u00edcio n\u00e3o reconhecer a amplitude de experi\u00eancias que o fot\u00f3grafo soube mostrar, quando a ind\u00fastria automobil\u00edstica se colocou como tema de suas fotos. Em outras palavras, \u00e9 preciso enxergar Doisneau para al\u00e9m do cronista das pequenas alegrias cotidianas.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente pela possibilidade de nos reconhecemos em algum ponto dessa amplitude de experi\u00eancias que suas imagens t\u00eam algo de universal. Se n\u00e3o fosse assim, estar\u00edamos simplesmente diante do ex\u00f3tico (do glamour, das paisagens europ\u00e9ias, dos vestidos pomposos, dos trejeitos chiques que podemos admirar sem propriamente nos identificar com eles).\u00a0\u00c9 isso que faz de Doisneau um fot\u00f3grafo humanista e n\u00e3o apenas tipicamente franc\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 surpreendente encontrar o nome de um t\u00edpico \u201cfot\u00f3grafo de rua\u201d ligado ao acervo de imagens publicit\u00e1rias e institucionais de uma grande ind\u00fastria. \u00c9 isso que nos mostra a exposi\u00e7\u00e3o A Renault de Doisneau (assim mesmo, com rima), que passou por Curitiba e agora est\u00e1 em cartaz na Fiesp, em S\u00e3o Paulo. Mas temos sempre que desconfiar daquilo que chamamos de \u201ct\u00edpico\u201d. Eu mesmo sempre tive a sensa\u00e7\u00e3o de que Doisneau foi um fot\u00f3grafo tipicamente franc\u00eas. Por que isso? 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