{"id":2439,"date":"2011-08-15T09:01:05","date_gmt":"2011-08-15T09:01:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2439"},"modified":"2017-03-01T12:31:16","modified_gmt":"2017-03-01T12:31:16","slug":"historia-do-surgimento-da-fotografia-lado-b","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/historia-do-surgimento-da-fotografia-lado-b\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria do surgimento da fotografia &#8211; lado B"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2441\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2441\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2441\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Garapa-Sao-Vito1.png\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"349\" \/><p id=\"caption-attachment-2441\" class=\"wp-caption-text\">Garapa, S\u00e3o Vito (Daguerre\u00f3tipo)<\/p><\/div>\n<p>Como parte do <a href=\"http:\/\/morar.tumblr.com\/\" target=\"_blank\">projeto <em>Morar<\/em>, o coletivo Garapa produziu uma s\u00e9rie de daguerre\u00f3tipos<\/a> de objetos que fazem refer\u00eancia ao Edif\u00edcio Merc\u00fario, recentemente demolido no centro de S\u00e3o Paulo. Para essa empreitada que durou uma semana, contaram com a ajuda do fot\u00f3grafo <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/fximiti\/\" target=\"_blank\">Fernando Schmitt<\/a>, e o <em>know-how<\/em> de Chico da Costa, maior especialista em daguerreotipia no Brasil. Eu apareci por l\u00e1 duas vezes para bisbilhotar.<\/p>\n<p>Achei que tinha uma boa id\u00e9ia de como a coisa funcionava, mas \u00e9 imposs\u00edvel supor as sutilezas do ritual que os daguerre\u00f3tipos exigem: al\u00e9m de um arsenal muito peculiar de apetrechos, alguns constru\u00eddos, outros adaptados, h\u00e1 um modo preciso de manipular as placas, passagens por vapores e banhos diversos numa sequ\u00eancia quase absurda, o controle da sensibiliza\u00e7\u00e3o pelas pequenas mudan\u00e7as de colora\u00e7\u00e3o, um modo de duvidar do fot\u00f4metro e intuir o tempo de exposi\u00e7\u00e3o na c\u00e2mera, a secagem diretamente sobre o fogo&#8230; Chico \u00e9 um cientista, tem forma\u00e7\u00e3o em qu\u00edmica. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um artista e, para tornar a din\u00e2mica mais emocionante, parece se guiar mais pelo desenho dos gestos do que pelas f\u00f3rmulas. Ele \u00e9 o cirurgi\u00e3o que sempre lembra de uma piada enquanto sutura uma art\u00e9ria coron\u00e1ria.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m ali disse que a daguerreotipia tem mais a ver com alquimia do que com ci\u00eancia. De fato, \u00e9 uma performance t\u00e3o improv\u00e1vel, que tive a sensa\u00e7\u00e3o s\u00fabita de que a hist\u00f3ria da fotografia estava em risco, de que por pouco ela poderia n\u00e3o ter acontecido, de que havia um elemento de acaso em seu surgimento.<\/p>\n<p>Uma lenda diz que Daguerre teria descoberto acidentalmente a \u201crevela\u00e7\u00e3o\u201d, quando notou em seu arm\u00e1rio que a imagem de uma placa mal exposta havia sido intensificada pelo vapor do merc\u00fario vazou de um term\u00f4metro quebrado. Al\u00e9m de ser uma hist\u00f3ria duvidosa, n\u00e3o \u00e9 desses acasos espetaculares que falo, mas de uma esp\u00e9cie de jogo, uma err\u00e2ncia nas experi\u00eancias e na vida desses pioneiros que pode ter colaborado para o surgimento da fotografia.<\/p>\n<p>Sabemos que todos os conhecimentos necess\u00e1rios \u00e0 fotografia j\u00e1 estavam dispon\u00edveis na virada para o s\u00e9culo XIX, e temos dito que aquela d\u00e9cada de 1830 era o momento em que ela tinha de acontecer. Isso explicaria porque v\u00e1rios pesquisadores chegaram simultaneamente a seus processos fotogr\u00e1ficos, de modo totalmente independente.<\/p>\n<p>As pe\u00e7as se encaixam bem, mas sempre corremos o risco de projetar nesses fatos uma vis\u00e3o excessivamente determinista. Acho rica a possibilidade de sentir a hist\u00f3ria como algo que permanece em risco: \u00e9 preciso fazer por merecer os acertos do passado, \u00e9 preciso n\u00e3o se tornar c\u00famplice dos erros cometidos. Experimentar um processo t\u00e3o incerto quanto um daguerre\u00f3tipo reproduz essa responsabilidade numa micro-escala: n\u00e3o se trata apenas de brincar de repetir o passado como mero simulacro, mas de atuar sobre as engrenagens que parecem encadear os fatos da hist\u00f3ria, mas exatamente onde nelas existe uma folga, um \u201cjogo\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso negar a tese sobre o quanto aquele momento do s\u00e9culo XIX era favor\u00e1vel \u00e0 fotografia. Havia ali um circula\u00e7\u00e3o intensa de conhecimentos diversos, mas havia tamb\u00e9m uma disponibilidade para o risco, para o erro, havia o \u00f3cio t\u00edpico daquela sociedade. Isso permitiu a esses cientistas emp\u00edricos, alguns deles amadores, a experimenta\u00e7\u00e3o de combina\u00e7\u00f5es improv\u00e1veis de t\u00e9cnicas e subst\u00e2ncias, algo \u00a0que, vez ou outra, resultava numa descoberta bem sucedida. A fotografia n\u00e3o foi a coloca\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica de um movimento j\u00e1 calculado. Foi o resultado de uma sucess\u00e3o gigantesca de tentativas e erros. Isso est\u00e1 bastante claro nas cartas trocadas entre Ni\u00e9pce e Daguerre. Por exemplo, depois de um resultado bem sucedido associando o iodo \u00e0 prata, por sugest\u00e3o de Daguerre, diz Ni\u00e9pce: \u201ceu n\u00e3o sei como e porque esse efeito ocorreu sem que eu pudesse vir a reproduzi-lo, procedendo da mesma maneira (&#8230;). E sobre instabilidade da imagem: \u201ce aqui, lamentando vivamente, eu lhe confesso ter tomado um caminho equivocado durante t\u00e3o longo tempo, e o que \u00e9 pior, t\u00e3o inutilmente\u201d (carta de 1831, in Adrien Metienne, <em>La d\u00e9couverte de la photographie <\/em>en 1839, 1841).<\/p>\n<p>E podemos fazer outras especula\u00e7\u00f5es: que diversidade de coisas Hercules Florence n\u00e3o deve ter utilizado para tentar fixar suas fotografias? A urina, que chegou a testar com esse prop\u00f3sito (Kossoy, 1980), funciona aqui como uma alegoria po\u00e9tica de sua ampla inventividade e de todos os descaminhos que soube enfrentar.<\/p>\n<div id=\"attachment_2440\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=2440\" rel=\"attachment wp-att-2440\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2440\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2440\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Pyr\u00e9olophore-360x245.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"245\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2440\" class=\"wp-caption-text\">Projeto do &quot;pyr\u00e9olophore&quot;, desenvolvido pelos irm\u00e3os Ni\u00e9pce<\/p><\/div>\n<p>Podemos pensar o papel dessas err\u00e2ncias n\u00e3o apenas no desenvolvimento das t\u00e9cnicas, mas tamb\u00e9m na biografia desses personagens. A grande quest\u00e3o que ficamos tentados a colocar sobre Florence \u00e9: como ele chegou \u00e0 fotografia mesmo distante da efervesc\u00eancia cient\u00edfica e cultural da Europa? Mas poder\u00edamos inverter essa coloca\u00e7\u00e3o e imaginar que ele s\u00f3 p\u00f4de chegar a fotografia pelas necessidades e surpresas que encontrou no Brasil. E, voltando \u00e0 Ni\u00e8pce, talvez sua dedicac\u00e3o \u00e0 heliografia tenha dependido de seu fracasso na divulga\u00e7\u00e3o e na comercializa\u00e7\u00e3o do <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Pyreolophore\" target=\"_blank\">Pyr\u00e9olophore<\/a><\/em>, projeto que desenvolveu com seu irm\u00e3o Claude daquele que \u00e9 considerado o primeiro motor a combust\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Daguerre era um pintor med\u00edocre e n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas foi uma figura fundamental. Sua genialidade foi a de saber agenciar oportunidades, conhecimentos e personagens que poderiam n\u00e3o ter se cruzado naquele momento, e de saber motivar seu s\u00f3cio nos momentos de fraqueza: \u201co senhor vislumbrou a quest\u00e3o de um modo menos desesperador, eu n\u00e3o pude hesitar em responder ao apelo que o senhor me fez\u201d (1831), disse a ele Ni\u00e9pce numa carta. E, mesmo com toda essa perspic\u00e1cia, Daguerre s\u00f3 se interessou em conhecer Ni\u00e9pce depois de alguma insist\u00eancia de Vincent Chevalier, o \u00f3tico parisiense que trabalhava para ambos. N\u00e3o conhe\u00e7o quase nada sobre os outros inventores.<\/p>\n<div id=\"attachment_2442\" style=\"width: 167px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/talbotbotanicalspecimen1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2442\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2442    \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/talbotbotanicalspecimen-360x591.jpg\" alt=\"\" width=\"157\" height=\"259\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2442\" class=\"wp-caption-text\">W.F.Talbot, Photogenic Drawing, c. 1840<\/p><\/div>\n<p>O que posso lembrar agora sobre Fox Talbot n\u00e3o diz respeito a como chegou \u00e0 fotografia, mas para onde foi a partir dela: ao lado de John Herschel, Talbot era um dos mais \u201ccient\u00edficos\u201d dentre todos esses pioneiros, mas acabou por se tornar o que mais se esfor\u00e7ou para fazer da fotografia uma arte. Imaginava inicialmente que seus fotogramas, os <em>photogenic drawings<\/em>, o auxiliariam em suas pesquisas bot\u00e2nicas. Provavelmente, n\u00e3o serviram para muita coisa, mas eram realmente belos.<\/p>\n<p>Incomoda-me a id\u00e9ia de que o surgimento da fotografia j\u00e1 estava perfeitamente determinado pelo progresso de certas t\u00e9cnicas. Mas, uma vez que tenha surgido, a fotografia pode conter em si, em escala diminuta, todos os sentidos da modernidade. Ela comp\u00f5e aquilo que Walter Benjamin chamou de <em>estrutura monadol\u00f3gica<\/em>: \u201co objeto hist\u00f3rico encontra representado em seu interior sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria anterior e posterior\u201d (Passagens, N 10,3). A fotografia condensa em si a ci\u00eancia de sua \u00e9poca, a cren\u00e7a no progresso, mas tamb\u00e9m o seu fracasso, as incertezas, movimentos em falso, e uma disposi\u00e7\u00e3o contemplativa que tamb\u00e9m \u00e9 t\u00edpica de seu momento: uma <em>fl\u00e2nerie<\/em>, uma aventura t\u00e3o err\u00e1tica quanto criativa.<\/p>\n<p>E pode acontecer que mesmo um daguerre\u00f3tipo feito mais de 170 anos depois ainda revele os riscos que o constituem. Estava l\u00e1 o Chico da Costa, nosso colega daguerreotipista, muito bem assistido, com duas placas j\u00e1 colocadas dentro de chassis, prontas para exposi\u00e7\u00e3o em sua c\u00e2mera 4&#215;5. Uma seria destinada \u00e0 imagem de S\u00e3o Vito, a outra, \u00e0 uma boneca Hello Kitty (objetos emprestados \u00e0 Garapa pelos antigos moradores do edif\u00edcio demolido). Fernando Schmitt j\u00e1 contava o tempo de exposi\u00e7\u00e3o do segundo daguerre\u00f3tipo quando Chico retornou com o primeiro revelado: n\u00e3o havia nele nenhuma imagem. O que aconteceu, descobrimos em seguida: a outra placa estava sendo exposta pela segunda vez, promovendo esse encontro inusitado entre dois personagens de culto surgidos em eras muito distintas. E assim experimentamos amplamente a hist\u00f3ria da fotografia, em suas certezas e em suas surpresas.<\/p>\n<div id=\"attachment_2485\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/hello-vitto-21.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2485\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2485\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/hello-vitto-2-620x713.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"713\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2485\" class=\"wp-caption-text\">Garapa, Daguerre\u00f3tipo com dupla exposi\u00e7\u00e3o: Hello Kitty e S\u00e3o Vito, 2011<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como parte do projeto Morar, o coletivo Garapa produziu uma s\u00e9rie de daguerre\u00f3tipos de objetos que fazem refer\u00eancia ao Edif\u00edcio Merc\u00fario, recentemente demolido no centro de S\u00e3o Paulo. Para essa empreitada que durou uma semana, contaram com a ajuda do fot\u00f3grafo Fernando Schmitt, e o know-how de Chico da Costa, maior especialista em daguerreotipia no Brasil. Eu apareci por l\u00e1 duas vezes para bisbilhotar. Achei que tinha uma boa id\u00e9ia de como a coisa funcionava, mas \u00e9 imposs\u00edvel supor as sutilezas do ritual que os daguerre\u00f3tipos exigem: al\u00e9m de um arsenal muito peculiar de apetrechos, alguns constru\u00eddos, outros adaptados, h\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2440,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[827,821],"tags":[354,569,740],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2439"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2439"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2439\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6922,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2439\/revisions\/6922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2439"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2439"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2439"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}