{"id":2396,"date":"2011-08-08T05:21:32","date_gmt":"2011-08-08T05:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2396"},"modified":"2022-12-04T11:46:59","modified_gmt":"2022-12-04T11:46:59","slug":"a-fotografia-e-seus-duplos-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-seus-duplos-parte-1\/","title":{"rendered":"A fotografia e seus duplos I"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2397\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Gondim2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2397\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2397 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Gondim-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2397\" class=\"wp-caption-text\">Adenor Gondim. Cosme e Dami\u00e3o. Bahia, s\/d.<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 esta fotografia, de Adenor Gondim. Est\u00e1 em seu blog, chamado \u201cApenas Bahia. Apenas Fotografia\u201d. \u00a0Em um \u201cCaf\u00e9 Fotogr\u00e1fico\u201d que compartilhamos, em Salvador, em 07\/06\/2011, convidados pelo Jos\u00e9 Mamede, contou-nos sua hist\u00f3ria. Procurava um fundo para fotografar os santinhos que havia comprado para presentear o filho, mas nada o satisfazia. Percebeu, jogada em um canto, esse retrato feito em Bom Jesus da Lapa. Os santinhos encontraram a\u00ed, finalmente, o seu lugar.<\/p>\n<p>Os contrastes, as dualidades s\u00e3o aqui de diversas naturezas: de escala (entre pessoas e santinhos de cer\u00e2mica), de natureza (entre seres vivos e bonecos), de colorido (entre monocromia e policromia), entre m\u00eddias (fotografia e escultura) e, claro, entre sagrado e profano, pois os romeiros s\u00e3o sugados, por interm\u00e9dio da fotografia, para o \u201cnicho\u201d dos santos. O curioso orat\u00f3rio, no entanto, realiza ainda outra opera\u00e7\u00e3o, bem mais misteriosa. Os santinhos de barro ganham vida e humanizam-se, integrando-se \u00e0 fam\u00edlia de romeiros; e esta, a despeito da monocromia, revive ao ser refotografada, tomando emprestado para si um momento que \u00e9 o da atualidade de Cosme e Dami\u00e3o e do ato fotogr\u00e1fico que os re\u00fane.<\/p>\n<p>Antes de me defrontar com essa imagem de Gondim, jamais havia me perguntado pelo deus da fotografia ou por seu santo padroeiro. Poucos meses depois do an\u00fancio da inven\u00e7\u00e3o, em 1839, Nepomuc\u00e8ne Lemercier leu diante da Academia Francesa um poema aleg\u00f3rico em honra da \u201cdescoberta do engenhoso pintor do Diorama\u201d, intitulado \u201cLamp\u00e9lia e Daguerre\u201d. No poema, duas ninfas filhas de Apolo (o sol), Pir\u00f3fise (ninfa do calor) e Lamp\u00e9lia (ninfa da luz), disputam o amor de Daguerre. Enciumada da irm\u00e3, Pir\u00f3fise incendeia o Diorama \u2013 sinistro que de fato ocorreu, tamb\u00e9m em 1839. Nessa mitologia inventada, Apolo termina por consentir no casamento entre Daguerre e Lamp\u00e9lia, tendo o matrim\u00f4nio dado origem ao pequeno Daguerre\u00f3tipo.<\/p>\n<p>Esta eventual ancestralidade pag\u00e3 da fotografia n\u00e3o prosperou. Afinal, conv\u00e9m ressaltar, Joseph Nic\u00e9phore Ni\u00e8pce, inventor da \u201cheliografia\u201d, deve seu nome de batismo a S\u00e3o Nic\u00e9foro, Patriarca de Constantinopla (806-815), canonizado em virtude de sua inquebrant\u00e1vel defesa das imagens sagradas diante dos ataques de poderosos iconoclastas bizantinos. A despeito da feliz coincid\u00eancia, S\u00e3o Nic\u00e9foro de Constantinopla n\u00e3o foi escolhido padroeiro da fotografia ou dos fot\u00f3grafos. Consultei alguns profissionais a respeito da exist\u00eancia de um santo protetor de seu of\u00edcio. Os poucos que arriscaram uma reposta estavam quase seguros que \u201cdeveria\u201d ser Santa Luzia. Mas a resposta correta \u00e9 Ver\u00f4nica, aquela que ao enxugar o rosto do Cristo, durante a Paix\u00e3o, imprimiu no v\u00e9u os tra\u00e7os da Santa Face. O \u201cV\u00e9u de Ver\u00f4nica\u201d, supostamente origin\u00e1rio da Biz\u00e2ncio de S\u00e3o Nic\u00e9foro, foi um dos objetos de culto mais reverenciados durante a Idade M\u00e9dia. Suas exibi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas encerraram-se no s\u00e9culo XVII, quando, segundo alguns, teria \u201cdesaparecido\u201d do Vaticano (ou, segundo outros, desbotou at\u00e9 n\u00e3o poder mais ser discernida qualquer imagem).<\/p>\n<p>A Ver\u00f4nica e o Sud\u00e1rio s\u00e3o, por assim dizer, os objetos paradigm\u00e1ticos da \u201caura\u201d, tal como Walter Benjamin a formulou, na \u201cPequena Hist\u00f3ria da Fotografia\u201d: a apari\u00e7\u00e3o de algo como distante, por mais pr\u00f3ximo que esteja. A Fotografia, a Ver\u00f4nica e o Sud\u00e1rio t\u00eam em comum o fato de serem imagens <em>aquiropo\u00e9ticas<\/em>, isto \u00e9 criadas sem o aux\u00edlio da m\u00e3o humana. \u00a0E \u00e9 not\u00f3rio que a fotografia desempenhou um papel importante no culto moderno destas rel\u00edquias. Georges Didi-Huberman argumenta, por exemplo, que depois de fotografado por Secondo Pia, em 1892, o Santo Sud\u00e1rio adquiriu uma import\u00e2ncia teol\u00f3gica e lit\u00fargica que nunca havia tido antes. N\u00e3o apenas o \u201cnegativo\u201d de Secondo teria permitido ver ali um corpo e um rosto, como a pr\u00f3pria fotografia tornou-se uma chave para a compreens\u00e3o destes objetos, que teriam tocado \u201ca luz e o corpo de Nosso Senhor\u201d.<\/p>\n<p>Ver\u00f4nica, portanto, fora a primeira fot\u00f3grafa e nada mais natural que o Vaticano encarreg\u00e1-la da prote\u00e7\u00e3o do of\u00edcio. A quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 mais complexa, pois a mesma santa acumula tamb\u00e9m a prote\u00e7\u00e3o dos \u201cempregados das lavanderias\u201d. \u00a0A elei\u00e7\u00e3o de Ver\u00f4nica para esta fun\u00e7\u00e3o provavelmente decorre de um gesto lit\u00fargico: a <em>ostens\u00e3o<\/em>, que consiste em erguer um objeto sagrado nas m\u00e3os e exibi-lo \u00e0 vista de todos. \u00c9 <em>em ostens\u00e3o <\/em>do v\u00e9u que Ver\u00f4nica \u00e9 sempre representada, e \u00e9 tamb\u00e9m <em>em ostens\u00e3o<\/em> que s\u00e3o apresentados os resultados de uma roupa bem lavada.<\/p>\n<div id=\"attachment_2400\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/ostensao4.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2400\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2400 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/ostensao-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2400\" class=\"wp-caption-text\">Ver\u00f4nica \/ Omo<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil perceber que h\u00e1 outra ordem de semelhan\u00e7a operando sob os ausp\u00edcios da santa. \u00c9 o banho da c\u00f3pia, pois sem ele, sem a media\u00e7\u00e3o das for\u00e7as invis\u00edveis da visibilidade que agem durante este mergulho, a imagem \u2013 em toda a sua pureza \u2013 n\u00e3o surgiria magicamente sobre o papel.Podemos supor que, com a difus\u00e3o da tecnologia digital, a semelhan\u00e7a que um dia existiu entre os fot\u00f3grafos e as lavadeiras venha a ser esquecida. Neste dia, estou seguro que seus novos padroeiros h\u00e3o de ser Cosme e Dami\u00e3o, como na Bahia j\u00e1 se sabe h\u00e1 muito tempo. Na Bahia e na Nig\u00e9ria, pois na tradi\u00e7\u00e3o Yorub\u00e1, assim como em muitas culturas africanas, o nascimento dos g\u00eameos \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o para a fam\u00edlia. S\u00e3o chamados Ibeji (\u201cnascer dois\u201d) Na Nig\u00e9ria, a fotografia de g\u00eameos pode substituir as pequenas estatuazinhas pelas quais Ibeji \u00e9 representado.<\/p>\n<div id=\"attachment_2399\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Taiwo1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2399\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2399 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Taiwo-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2399\" class=\"wp-caption-text\">Stephen Sprague. Taiwo ostenta um ibeji fotogr\u00e1fico. Nig\u00e9ria, c. 1970<\/p><\/div>\n<p>Mas pode acontecer de um dos g\u00eameos morrer antes de haver sido fotografado. Nesse caso, caberia \u00e0 pr\u00f3pria fotografia restabelecer o duplo prematuramente rompido.\u00a0 Foi o que aconteceu com Taiwo, que vemos abaixo segurando o retrato duplicado de si mesma, quando beb\u00ea, representando a si e sua irm\u00e3 g\u00eamea, falecida antes que uma fotografia das duas juntas fosse tirada. Quando os g\u00eameos eram de sexos diferentes, n\u00e3o era incomum que a crian\u00e7a sobrevivente fosse vestida com as roupas do sexo oposto para ser fotografada e assim recompor o duplo faltante.<\/p>\n<p>O que me interessa sublinhar nas montagens fotogr\u00e1ficas nigerianas \u00e9 que elas n\u00e3o restabelecem apenas a mem\u00f3ria familiar, mas reativam a pot\u00eancia do duplo. Por isso s\u00e3o capazes de gerar tantos benef\u00edcios quanto a fotografia de aut\u00eanticos g\u00eameos.\u00a0 Quando Stephen Sprague \u2013 pioneiro na pesquisa da fotografia africana \u2013 pediu que a pequena Taiwo <em>ostentasse<\/em> o Ibeji que sua m\u00e3e fez com duas c\u00f3pias do mesmo retrato, colocou-nos frente a frente com o mist\u00e9rio e a pot\u00eancia da fotografia. Pot\u00eancia sempre em vias de se perder, sempre em vias de se banalizar. A mesma pot\u00eancia que Gondim buscava evocar com seu pequeno altar fotogr\u00e1fico dedicado a Cosme e Dami\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A s\u00e9rie que hoje come\u00e7o a publicar, no Ic\u00f4nica, ser\u00e1 dedicada aos Duplos Fotogr\u00e1ficos, pois estou convencido que toda a vez que uma fotografia procura o duplo, coloca perguntas sobre si mesma, sobre os significados que engendra e sobre as rela\u00e7\u00f5es sociais das quais participa.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia dos duplos nunca foi t\u00e3o clara quanto agora, quando as fotografias deixaram de tomar banho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 esta fotografia, de Adenor Gondim. Est\u00e1 em seu blog, chamado \u201cApenas Bahia. Apenas Fotografia\u201d.  Em um \u201cCaf\u00e9 Fotogr\u00e1fico\u201d que compartilhamos, em Salvador, em 07\/06\/2011, convidados pelo Jos\u00e9 Mamede, contou-nos sua hist\u00f3ria. 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