{"id":2195,"date":"2011-07-25T12:44:50","date_gmt":"2011-07-25T12:44:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2195"},"modified":"2017-03-01T12:41:29","modified_gmt":"2017-03-01T12:41:29","slug":"fotografias-deserdadas-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fotografias-deserdadas-i\/","title":{"rendered":"Fotografias Deserdadas I"},"content":{"rendered":"<p>Entre o homem comum e a hist\u00f3ria h\u00e1 um abismo, muitas vezes inacess\u00edvel, incontorn\u00e1vel. Sim, isso particularmente me fascina, principalmente quando estou diante das fotografias que venho adquirindo e colecionando h\u00e1 mais de trinta anos. E \u00e9 exatamente esses retratos \u2013 perdidos, esquecidos, abandonados, jogados na lata do lixo da hist\u00f3ria e deslocados do seu universo de intimidade \u2013 que pretendo discutir um pouco neste primeiro texto. Como ser\u00e1 que podemos reintegr\u00e1-los dignamente \u00e0 cultura e \u00e0 cronologia da fotografia?<\/p>\n<div id=\"attachment_2196\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2196\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2196\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/japoneses-trio-net-487x255.jpg\" width=\"487\" height=\"255\" \/><p id=\"caption-attachment-2196\" class=\"wp-caption-text\">Est\u00fadio Foto Muito Bom,\u00a0Mar\u00edlia (SP)<\/p><\/div>\n<p>Semana passada, em minhas andan\u00e7as pela cidade, me deparei com um lote de 25 fotografias muito interessantes. Retratos de jovens japoneses realizados na d\u00e9cada de 1950 (ou de 1960, no m\u00e1ximo), na cidade de Mar\u00edlia, estado de S\u00e3o Paulo, num est\u00fadio denominado <strong>Foto Muito Bom<\/strong>, com carimbo sem identifica\u00e7\u00e3o do endere\u00e7o ou do fot\u00f3grafo. N\u00e3o resisti! Mesmo sabendo que seria dif\u00edcil a tarefa de identificar os jovens fotografados e at\u00e9 mesmo o est\u00fadio, me apropriei destas imagens para agrup\u00e1-las em minha pesquisa sobre \u201cfotografias deserdadas\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso exercitar nossa imagina\u00e7\u00e3o e ver que esses jovens de origem japonesa da cidade de Mar\u00edlia estavam se deixando fotografar como seus \u00eddolos do cinema \u2013 a doce Audrey Hepburn, o rebelde James Dean, o cadete Elvis Presley. Sabemos que na regi\u00e3o havia uma predomin\u00e2ncia de imigrantes japoneses que l\u00e1 se instalaram a partir das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, mas o interessante \u00e9 constatar que os sonhos e os desejos disseminados pela nascente cultura industrial j\u00e1 exerciam enorme influ\u00eancia. At\u00e9 mesmo esse fot\u00f3grafo desconhecido desenvolveu uma \u201cpegada\u201d para retratar os jovens como se fossem os grandes artistas dos est\u00fadios norte-americanos de cinema. Tenho d\u00favida se a origem do conjunto \u00e9 do pr\u00f3prio est\u00fadio ou de algum desses jovens que colecionou os retratos dos amigos. Mas \u00e9 esse mist\u00e9rio que enriquece qualquer discuss\u00e3o sobre aquilo que consideramos memor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quem me conhece, sabe que tenho enorme interesse (e pretens\u00e3o) de refletir e escrever sobre esta fotografia residual, que foi desalojada de seu ambiente origin\u00e1rio, ou seja, sobre a imagem que, desconectada de seus elos e entes queridos, tenta reencontrar outro percurso para se inserir numa nova rela\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-cultural. O que temos s\u00e3o fragmentos visuais coletados ao longo do tempo, que se tornaram praticamente desconhecidos \u2013 \u00a0silenciosos e an\u00f4nimos \u2013 mas que clamam para serem (re)significados e terem uma nova e merecida visibilidade. Acredito que exista uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica coletiva onde todos os rituais e celebra\u00e7\u00f5es est\u00e3o devidamente documentados e com o passar dos anos se transforma no espelho fiel da imagina\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Vil\u00e9m Flusser defende que a comunica\u00e7\u00e3o humana \u00e9 um processo artificial. N\u00f3s criamos a necessidade de nos comunicar porque temos medo da morte e da solid\u00e3o. Diante disso, se entendermos a fotografia como um produto dessa comunica\u00e7\u00e3o humana, \u00e9 poss\u00edvel perceber que fotografamos porque desejamos estender a vida dos fotografados para al\u00e9m da morte. Ou seja, que o Outro sobreviva no tempo com a beleza e a energia em que foi flagrado \u2013 e por isso valorizamos as fotografias, an\u00f4nimas ou n\u00e3o, que foram produzidas tamb\u00e9m para representar a cumplicidade entre os envolvidos no ato fotogr\u00e1fico.<\/p>\n<div id=\"attachment_2200\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2200\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2200\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/mulher-Colecao_Rubens_Fernandes_Jr-487x307.jpg\" width=\"487\" height=\"307\" \/><p id=\"caption-attachment-2200\" class=\"wp-caption-text\">Autoria desconhecida<\/p><\/div>\n<p>O jogo e a encena\u00e7\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prios da fotografia amadora (e talvez de quase toda a fotografia), seja porque sempre tem a inten\u00e7\u00e3o de registrar um momento especial, seja porque fotografar exige certa rever\u00eancia fantasiosa e, ao mesmo tempo, uma forte ruptura com o cotidiano. Sempre estamos preparados para ser fotografados e isso significa que nada \u00e9 espont\u00e2neo nessa intera\u00e7\u00e3o. Por exemplo, a mulher ao lado que me olha hoje atrav\u00e9s do espelho, teve seus olhos voltados somente para o fot\u00f3grafo. Que rela\u00e7\u00e3o \u00e9 essa que aflora atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica?<\/p>\n<p>Dar visibilidade a estas imagens que se repetem \u00e0 exaust\u00e3o, entendidas tamb\u00e9m como fotografia vernacular, \u00e9 evidenciar n\u00e3o apenas a necessidade que o ser humano tem de exibir-se, mas refor\u00e7ar a id\u00e9ia de como o universo cultural criado pela fotografia tornou-se natural, quase habitual. Por isso, ao nos depararmos com um conjunto de fotografias \u2013 um \u00e1lbum familiar ou uma s\u00e9rie de retratos \u2013 sentimo-nos parte dele, pois n\u00e3o temos grandes certezas do que ele representa, mas h\u00e1 uma visibilidade que traz um nexo de poss\u00edvel proximidade com os envolvidos. Nesses retratos, quase sempre as pessoas nos s\u00e3o muito familiares, pois o inconsciente coletivo atomiza nosso olhar amoroso sobre esses desconhecidos \u00edntimos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2199\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2199\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2199\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/anao-Colecao_Rubens_Fernandes_Jr-280x427.jpg\" width=\"280\" height=\"427\" \/><p id=\"caption-attachment-2199\" class=\"wp-caption-text\">Zezinho, Est\u00fadio Reis, Bauru (SP)<\/p><\/div>\n<p>O que me encanta nessas fotografias que venho colecionando \u00e9 a propriedade que elas t\u00eam para desencadear no observador m\u00faltiplas e diferentes conex\u00f5es. \u00c9 como se tiv\u00e9ssemos a capacidade de retirar as diversas camadas que cobrem a verdadeira identidade do retratado e com isso tentar desvendar alguns dos artif\u00edcios do fot\u00f3grafo. Qual \u00e9 o valor\u00a0de uma imagem fotogr\u00e1fica sen\u00e3o sua capacidade imensa e singular de ficcionalizar o cotidiano? Este estranho retrato do an\u00e3o Z\u00e9zinho, realizado no <strong>Est\u00fadio Reis<\/strong> da cidade de Bauru, em 1949 (\u00fanicas inscri\u00e7\u00f5es anotadas no verso), gera uma inquietante d\u00favida: que import\u00e2ncia tem a fotografia como documento e mem\u00f3ria? Que mensagem evoca essa imagem que vacila entre a m\u00e1scara da trag\u00e9dia e a realidade de um cen\u00e1rio indiferente?<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, queremos atribuir import\u00e2ncia a profissionais ainda desconhecidos e que de alguma forma a qualidade de sua produ\u00e7\u00e3o os aproxima de um fazer extraordin\u00e1rio. Acredito que muita gente tem perseguido essas quest\u00f5es, mas \u00e9 interessante tamb\u00e9m pressupor como a mais simples das fotografias pode ser desconcertante e entender como seu fazer e sua cultura foram incorporados pelos amplos setores populares. A fotografia trouxe para todos os cidad\u00e3os a experi\u00eancia da representa\u00e7\u00e3o, pois apesar de sua permanente luta entre a objetividade documental e a sua pot\u00eancia ficcional, ela \u00e9 naturalmente mobilizada para esta \u00faltima.<\/p>\n<p>A fotografia materializada permite um espa\u00e7o de liberdade interpretativa que revoluciona nossa imagina\u00e7\u00e3o. Meu interesse tamb\u00e9m se fixa sobre os motivos que levam essas fotografias a serem progressivamente \u201cdeserdadas\u201d; serem exclu\u00eddas do seu fluxo natural. Cada vez mais, as pessoas simplesmente descartam as imagens porque j\u00e1 n\u00e3o percebem nelas as poss\u00edveis conex\u00f5es com essas figuras fantasmag\u00f3ricas impressas no papel, que j\u00e1 n\u00e3o dizem nada para as novas gera\u00e7\u00f5es. Impregnadas de mem\u00f3rias, em minha opini\u00e3o, elas s\u00e3o descartadas porque s\u00e3o amea\u00e7adoras, pois a qualquer momento podem fazer emergir fatos e rela\u00e7\u00f5es indesejados, desencadear lembran\u00e7as que dever\u00e3o ser apagadas.<\/p>\n<p>Para finalizar o primeiro texto desta s\u00e9rie, registro um pequeno e sincero pensamento do pintor e gravador Iber\u00ea Camargo: \u201ca realidade \u00e9 um enigma que o tempo n\u00e3o banaliza e o homem n\u00e3o decifra. Ela \u00e9 a esfinge que nos devora\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o homem comum e a hist\u00f3ria h\u00e1 um abismo, muitas vezes inacess\u00edvel, incontorn\u00e1vel. Sim, isso particularmente me fascina, principalmente quando estou diante das fotografias que venho adquirindo e colecionando h\u00e1 mais de trinta anos. E \u00e9 exatamente esses retratos \u2013 perdidos, esquecidos, abandonados, jogados na lata do lixo da hist\u00f3ria e deslocados do seu universo de intimidade \u2013 que pretendo discutir um pouco neste primeiro texto. 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