{"id":2169,"date":"2011-07-18T05:23:29","date_gmt":"2011-07-18T05:23:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2169"},"modified":"2016-05-28T14:12:25","modified_gmt":"2016-05-28T14:12:25","slug":"palavra-sobre-fotografia-um-minuto-para-uma-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/palavra-sobre-fotografia-um-minuto-para-uma-imagem\/","title":{"rendered":"Palavra sobre fotografia: um minuto para uma imagem"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 certo que o sentido de uma fotografia n\u00e3o cabe na fra\u00e7\u00e3o de segundo de que foi tomada. Por isso, ficamos sempre tentados a devolver-lhe certa fluidez por meio da palavra. Associar a imagem a uma narrativa \u00e9, segundo Mauricio Lissovsky, uma pr\u00e1tica antiga que a ret\u00f3rica cl\u00e1ssica chamava de\u00a0 \u201cekphrasis\u201d (Lissovsky, <em>M\u00e1quina de Esperar<\/em>). Como ele sugere, na dificuldade de reconhecer uma temporalidade pr\u00f3pria a essa imagem, tendemos a associ\u00e1-la com algo que pare\u00e7a se desenvolver mais claramenteno tempo, como \u00e9 o caso da linguagem verbal.<\/p>\n<p>Descrever uma imagem \u00e9 algo reconfortante, mas obviamente arriscado quando confunde o tempo latente e complexo da fotografia com o percurso bem encadeado de uma descri\u00e7\u00e3o, que vez ou outra deseja lhe impor uma legibilidade mais segura. \u00c9 tanto mais interessante quando esse confronto entre imagem e palavra se assume como montagem, com desencaixes, lacunas, como uma esp\u00e9cie de jogo. Nesses casos, a palavra n\u00e3o tenta reconstituir a temporalidade do fato, mas conectar a imagem a uma experi\u00eancia anacr\u00f4nica daquele que fala.<\/p>\n<div id=\"attachment_2176\" style=\"width: 270px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Agn\u00e8s-Varda-16-works-and-two-documentaries-RS-links.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2176\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-2176 \" src=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Agn\u00e8s-Varda-16-works-and-two-documentaries-RS-links.jpeg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Agn\u00e8s-Varda-16-works-and-two-documentaries-RS-links.jpeg 260w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Agn\u00e8s-Varda-16-works-and-two-documentaries-RS-links-768x886.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2176\" class=\"wp-caption-text\">Agn\u00e8s Varda com uma das fotos comentadas, de Marc Garanger.<\/p><\/div>\n<p>Em 1993, a cineasta belga Agn\u00e8s Varda dirigiu para um canal de televis\u00e3o franc\u00eas uma s\u00e9rie de vinhetas di\u00e1rias chamada \u201cUm minuto para uma imagem\u201d, com o apoio de Robert Delpire, ent\u00e3o diretor do Centre National de la Photographie (CNP). Em cada uma delas, algu\u00e9m (um convidado ou a pr\u00f3pria diretora) comenta uma fotografia escolhida. A imagem e o texto eram tamb\u00e9m publicados no jornal franc\u00eas Lib\u00e9ration, no dia seguinte \u00e0 sua exibi\u00e7\u00e3o na TV.<\/p>\n<p>Num DVD dedicado aos curtas de Varda, ainda in\u00e9dito no Brasil, encontrei um pequeno depoimento em que ela pr\u00f3pria apresenta o projeto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/26572536\" width=\"608\" height=\"456\" frameborder=\"0\" title=\"Um minuto para uma imagem: apresenta&ccedil;&atilde;o - Agn&egrave;s Varda\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Dos epis\u00f3dios que consegui ver, seja em v\u00eddeo ou na forma de texto, alguns s\u00e3o realmente problem\u00e1ticos, porque s\u00e3o inseguros ou porque s\u00e3o autorit\u00e1rios, ou melhor, porque s\u00e3o inseguros no desejo de impor uma autoridade sobre o que se v\u00ea na imagem.<\/p>\n<p>Rosalind Krauss v\u00ea na diversidade de leituras estimuladas pela \u201cvitrine fotogr\u00e1fica de Varda&#8221; um desejo de situar a fotografia como arte democr\u00e1tica (Krauss, \u201cNota sobre a fotografia e o simulacro\u201d). Segundo ela, isso reafirma a tese de Pierre Bourdieu, que v\u00ea na fotografia uma \u201carte m\u00e9dia\u201d, nos v\u00e1rios sentidos que o termo pode adquirir: acess\u00edvel \u00e0 m\u00e9dia estat\u00edstica da popula\u00e7\u00e3o, situada entre o popular e o erudito, ligada \u00e0 classe m\u00e9dia, em \u00faltima inst\u00e2ncia, apesar dos cuidados do autor, algo med\u00edocre (Bourdieu, <em>Uma arte m\u00e9dia<\/em>). Rosalind Krauss sugere que esse modo de abordar a imagem, sempre baseado na afirma\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 tal coisa\u201d, representa um modo simplista de querer tocar o objeto fotogr\u00e1fico, tornando a imagem transparente. Vale dizer que essa \u201cdemocracia&#8221; \u00e9 composta tamb\u00e9m de personagens eruditos, e Krauss n\u00e3o poupa de sua cr\u00edtica os coment\u00e1rios feitos por figuras intelectualizadas que participaram da s\u00e9rie de Varda, como Martine Frank ou Marguerite Duras.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Krauss \u00e9 bastante dura, mesmo que pertinente quando consideramos a \u201cm\u00e9dia\u201d dos epis\u00f3dios, e a inten\u00e7\u00e3o manifestada pela diretora de dar express\u00e3o \u00e0 diversidade de leituras que a imagem fotogr\u00e1fica suscita. Mas h\u00e1 entre os v\u00eddeos algumas boas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Particularmente, gosto das vinhetas conduzidas pela voz da pr\u00f3pria diretora (que s\u00e3o, na verdade, a maior parte daquelas que permanecem acess\u00edveis). Gosto sobretudo porque Varda assume seus coment\u00e1rios como uma proje\u00e7\u00e3o desconexa de fantasias sobre a foto. Tamb\u00e9m porque, talvez pela viv\u00eancia que tem no cinema, sua fala chega sempre carregada de visualidade. Trata-se mais de sobrepor imagens do que de visar o objeto. Um exemplo, a partir da foto de um velho conhecido nosso, que ela revelar\u00e1 ao final.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/26573704\" width=\"616\" height=\"376\" frameborder=\"0\" title=\"Um minuto para uma imagem - Agn&egrave;s Varda\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 certo que o sentido de uma fotografia n\u00e3o cabe na fra\u00e7\u00e3o de segundo de que foi tomada. Por isso, ficamos sempre tentados a devolver-lhe certa fluidez por meio da palavra. Associar a imagem a uma narrativa \u00e9, segundo Mauricio Lissovsky, uma pr\u00e1tica antiga que a ret\u00f3rica cl\u00e1ssica chamava de\u00a0 \u201cekphrasis\u201d (Lissovsky, M\u00e1quina de Esperar). 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