{"id":2133,"date":"2011-07-11T05:28:19","date_gmt":"2011-07-11T05:28:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2133"},"modified":"2016-05-28T14:12:42","modified_gmt":"2016-05-28T14:12:42","slug":"o-olhar-que-desconfiar-serenamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-olhar-que-desconfiar-serenamente\/","title":{"rendered":"O olhar que desconfia serenamente"},"content":{"rendered":"<p>Na ansiedade de afirmar seu car\u00e1ter h\u00edbrido e ficcional, a fotografia contempor\u00e2nea que busc\u00e1vamos nos anos 90 correu dois riscos: primeiro, de explorar suas possibilidades de experimenta\u00e7\u00e3o com extravag\u00e2ncia e certo didatismo, pois n\u00e3o bastava ter conquistado tal liberdade, era preciso anunci\u00e1-la; segundo, de enfatizar exageradamente, numa outra fotografia a que se opunha, um purismo e uma veracidade que nunca existiram. Esse tempo passou, espero.<\/p>\n<p>O que restou de todo esse esfor\u00e7o? Por um lado, aquela liberdade experimental p\u00f4de ser exercida de modo mais discreto, sem precisar anunciar-se sempre como uma causa. Por outro, aprendemos a enxergar a complexidade de outras estrat\u00e9gias que, um dia, nos pareceram t\u00e3o simples e ing\u00eanuas.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, faz pouco sentido perguntar que imagem \u00e9 essa que passamos a chamar de fotografia contempor\u00e2nea. N\u00e3o se trata mais de uma imagem, mas de uma postura, um modo de se colocar diante de qualquer imagem.<\/p>\n<p>Apaziguada a ansiedade das d\u00e9cadas anteriores, pudemos reconhecer que a mais escancarada fic\u00e7\u00e3o constitui tamb\u00e9m um documento, porque o pensamento que a constr\u00f3i e que lhe d\u00e1 coer\u00eancia n\u00e3o deixa de ser parte daquilo que chamamos de realidade.\u00a0 Poder\u00edamos ter aprendido isso h\u00e1 muito tempo com a literatura ou com o cinema.\u00a0E tamb\u00e9m o inverso disso: foi poss\u00edvel redescobrir o quanto h\u00e1 de inven\u00e7\u00e3o nos procedimentos que sempre chamamos de \u201cdocumental\u201d.\u00a0Dois trabalhos &#8211; extra\u00eddos da Mostra &#8220;Nafoto &#8211; 20 Anos&#8221; &#8211; ilustram bem essa passagem.<\/p>\n<div id=\"attachment_2134\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Museu-Goeldi1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2134\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2134\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Museu-Goeldi-487x639.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"639\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2134\" class=\"wp-caption-text\">Acervo do Museu Goeldi, Par\u00e1 (Mostra &quot;Nafoto - 20 anos&quot;)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, uma imagem como essa parecia revelar com objetividade a identidade do \u00edndio. O fot\u00f3grafo certamente sabia o quanto a fotografia podia se prestar \u00e0 estetiza\u00e7\u00e3o. Por isso, optou pela simplicidade. Ele diria, provavelmente, que numa foto como essa n\u00e3o existe cenografia, n\u00e3o existe pose, n\u00e3o existe interfer\u00eancia, n\u00e3o existe media\u00e7\u00e3o, existe apenas o \u00edndio. Sem d\u00favida, essa imagem segue um padr\u00e3o que visa garantir sua legibilidade, apoiado na tradi\u00e7\u00e3o consolidada da ci\u00eancia antropom\u00e9trica. Mas um bom positivista diria que padr\u00f5es desse tipo n\u00e3o foram criados, foram apreendidos da natureza. Trata-se modelos que pareciam t\u00e3o espont\u00e2neos quanto a pr\u00f3pria mec\u00e2nica da luz com a qual a c\u00e2mera opera.<\/p>\n<p>As \u00faltimas d\u00e9cadas representaram um momento de intensa desconstru\u00e7\u00e3o de todas as cren\u00e7as em torno do meio fotogr\u00e1fico. Depois desse processo, mesmo diante de um retrato, muito semelhante em sua estrat\u00e9gia aos retratos cient\u00edficos do s\u00e9culo XIX, n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o somos os mesmos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2135\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/jaqueline-joner1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2135\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2135\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/jaqueline-joner-487x476.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"476\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2135\" class=\"wp-caption-text\">Jacqueline Joner, Retrato de Casamento, 1990 (Mostra &quot;Nafoto - 20 anos&quot;)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo atr\u00e1s, dir\u00edamos que esta imagem n\u00e3o nos parece abusar da pose, da cenografia, dos ornamentos, dos recursos ret\u00f3ricos. Mas essa postura contempor\u00e2nea maculou definitivamente nosso olhar. Hoje, n\u00e3o vemos outra coisa ali que n\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o de dois personagens t\u00e3o idealizados, t\u00e3o abstratos: a encena\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo masculino, com sua autoridade, sua for\u00e7a, sua virilidade; a encena\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo feminino, com sua submiss\u00e3o, fragilidade, sua dedica\u00e7\u00e3o. Hoje, em sua aparente simplicidade, essa foto superexp\u00f5e as estrat\u00e9gias de seu discurso e os mecanismos de constru\u00e7\u00e3o desses tipos. Faz isso a tal ponto que se torna ir\u00f4nica, e permite ao olhar fazer o caminho inverso, desconstruir os personagens e tamb\u00e9m o funcionamento da imagem.<\/p>\n<p>Eu soube depois, que o rapaz era mesmo um policial e, a garota, sua mulher. Isso n\u00e3o invalida este racioc\u00ednio, ao contr\u00e1rio, apenas afirma a nova complexidade que podemos reconhecer na fotografia: nossa realidade social \u00e9 feita de pap\u00e9is que nos esfor\u00e7amos para representar. Ou seja, \u00e9 feita de imagens. A fotografia n\u00e3o \u00e9, portanto, apenas um registro dessa atua\u00e7\u00e3o, \u00e9 um de seus palcos.<\/p>\n<h5>[Esta \u00e9 a segunda parte da apresenta\u00e7\u00e3o que fiz no Seminario &#8220;Nafoto &#8211; 20 anos&#8221;. A primeira parte foi publicada num post anterior: <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2088\">Sentimentos em torno da fotografia contempor\u00e2nea<\/a>]<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ansiedade de afirmar seu car\u00e1ter h\u00edbrido e ficcional, a fotografia contempor\u00e2nea que busc\u00e1vamos nos anos 90 correu dois riscos: primeiro, de explorar suas possibilidades de experimenta\u00e7\u00e3o com extravag\u00e2ncia e certo didatismo, pois n\u00e3o bastava ter conquistado tal liberdade, era preciso anunci\u00e1-la; segundo, de enfatizar exageradamente, numa outra fotografia a que se opunha, um purismo e uma veracidade que nunca existiram. Esse tempo passou, espero. O que restou de todo esse esfor\u00e7o? Por um lado, aquela liberdade experimental p\u00f4de ser exercida de modo mais discreto, sem precisar anunciar-se sempre como uma causa. 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