{"id":2115,"date":"2011-07-05T06:04:57","date_gmt":"2011-07-05T06:04:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2115"},"modified":"2016-05-28T13:43:01","modified_gmt":"2016-05-28T13:43:01","slug":"o-processo-de-criacao-como-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-processo-de-criacao-como-memoria\/","title":{"rendered":"O processo de cria\u00e7\u00e3o como mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>A exposi\u00e7\u00e3o <em>Bom Retiro e Luz: um roteiro (1976 \u2013 2011)<\/em>, curadoria de Di\u00f3genes Moura, no Centro de Cultura Judaica, traz fotografias de Cristiano Mascaro, Bob Wolfenson, Marlene Bergamo e do Coletivo Cia de Foto. O projeto teve como ponto de partida um ensaio de Cristiano Mascaro, produzido em 1976, especialmente para ser exibido na Pinacoteca do Estado, \u00e0 \u00e9poca dirigida pela cr\u00edtica Aracy Amaral, que buscava aproximar comunidade e museu, e criar la\u00e7os de cultura e identidade.<\/p>\n<p>Gostaria de concentrar minha aten\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o da Cia de Foto \u2013 Pio Figueroa, Rafael Jacinto, Jo\u00e3o Kehl e Carol Lopes. Apesar de dispensar apresenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos deixar de destacar a atua\u00e7\u00e3o deste coletivo que, desde 2003, tem se firmado na produ\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica contempor\u00e2nea com uma coragem incomum, com singular criatividade e, acima de tudo, com procedimentos criativos que surpreendem a cada novo trabalho.<\/p>\n<div id=\"attachment_2118\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2118\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2118\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/01-original-487x320.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"320\" \/><p id=\"caption-attachment-2118\" class=\"wp-caption-text\">Cia de Foto, 2011<\/p><\/div>\n<p>A primeira vista pode parecer imposs\u00edvel, mas a Cia de Foto se instalou no mercado com a estimulante id\u00e9ia de cria\u00e7\u00e3o conjunta ao longo de todo o processo (em s\u00edntese, capta\u00e7\u00e3o, tratamento de imagens e distribui\u00e7\u00e3o), muita discuss\u00e3o e a busca permanente de novos modelos de representa\u00e7\u00e3o. As fotografias do coletivo s\u00e3o quase sempre pautadas pelo inc\u00f4modo, pela impertin\u00eancia, e at\u00e9 mesmo pelo posicionamento lim\u00edtrofe entre sonho e realidade, melancolia e \u00eaxtase.<\/p>\n<p>Foi assim com os ensaios \u201cAv.\u201d, \u201cGuerra\u201d, \u201cCarnaval\u201d, entre outros que me lembro de mem\u00f3ria. Neles, encontramos imagens \u2013 fotografias e v\u00eddeo \u2013 que provocam nossa percep\u00e7\u00e3o, seja desnaturalizando o referente, seja evidenciando uma estranheza que instiga nossa humana curiosidade. Confessaram-me que, para este trabalho, foi grande o desafio de criar, a partir do ensaio de Mascaro e da atual realidade dos bairros Bom Retiro e Luz, um conjunto de imagens que trouxesse um olhar renovado e inventivo. Uma aventura ambiciosa que, depois de longos passeios e grandes discuss\u00f5es, foi se abrindo para o conhecimento da produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica amadora realizada pelas fam\u00edlias no passado, quando de alguma forma a fotografia celebrava a vida com imagens de outra ordem.<\/p>\n<p>Inicialmente, a Cia de Foto tentou e procurou se deslocar nos bairros atrav\u00e9s do tempo. Os passeios se concentraram na arquitetura remanescente, nas Sinagogas, nos passeantes, enfim, naquilo que remetia \u00e0 origem daquele entorno comercial e habitacional, de predomin\u00e2ncia judaica. Desolados, descobriram que jamais encontrariam o que buscavam nesta atual configura\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a d\u00favida: como recuperar o movimento das pessoas que ali viveram e deixaram marcas culturais e simb\u00f3licas expressivas?<\/p>\n<p>Diante de tal impasse, foram pesquisar o acervo do Arquivo Hist\u00f3rico Judaico Brasileiro, que re\u00fane material iconogr\u00e1fico desde os anos vinte. L\u00e1 descobriram os referentes das fotografias criadas para o seu ensaio. E assumiram que \u201ca hist\u00f3ria que contamos parte dessa jornada virtual. N\u00f3s entramos no tema da mostra, tentando se deslocar pelo bairro atrav\u00e9s tempo\u201d. Aqui, mais uma vez, vemos emergir o ato criativo com total liberdade, pois a Cia buscava algo diferenciado, que n\u00e3o est\u00e1 mais presente naquele cotidiano, mas que brota espontaneamente de outras experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Atualmente, produzir imagens de certa forma est\u00e1 associado \u00e0 nossa necessidade de vivenciar uma atividade ficcional que pulsa dentro de n\u00f3s, de estabelecer narrativas inspiradas e distantes de qualquer reconhecimento imediato. Por mais que tenhamos a pretens\u00e3o de referendar o nosso cotidiano, a possibilidade de torn\u00e1-lo m\u00e1gico e mais experimental \u00e9 quase sempre mais imperiosa. Desenvolvemos artif\u00edcios para estender o prazer do ato criativo e nos afastar da tens\u00e3o da vida presente.<\/p>\n<p>De certo modo, isso moveu a Cia de Foto. Ao n\u00e3o reencontrar naquele espa\u00e7o a identidade pretendida, trabalhou por apropria\u00e7\u00e3o de imagens, resignificando-as com uma concis\u00e3o t\u00e3o transformadora que estamos diante de um raro e consistente ensaio fotogr\u00e1fico. Desafiador do ponto de vista da cria\u00e7\u00e3o e inquietante pela releitura de um arquivo que re\u00fane a mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica de fam\u00edlias de origem judaica.<\/p>\n<p>Afinal, como devemos entender essa radical fragmenta\u00e7\u00e3o da imagem geradora que me leva a duvidar da sua realidade? \u00c9 necess\u00e1rio recuperar a composi\u00e7\u00e3o primeira para entender a decomposi\u00e7\u00e3o evidenciada no ensaio? Ao mergulharmos no universo do processo criativo, nos deparamos com uma rede de interrela\u00e7\u00f5es e de conex\u00f5es, da qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel detectar com muita precis\u00e3o o exato momento que detonou a escolha do detalhe que vemos exuberante na imagem finalizada. Encontramo-nos quase sempre no meio do caminho dessa complexa trama inventiva da qual nunca acessamos o verdadeiro percurso da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_2119\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2119\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2119\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/01-487x194.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"194\" \/><p id=\"caption-attachment-2119\" class=\"wp-caption-text\">Cia de Foto, 2011<\/p><\/div>\n<p>Olhando as imagens originais, \u00e9 poss\u00edvel recriar alguns dos passos elaborados que se tornaram portadores do processo criativo. Mas o universo do fazer art\u00edstico continua parcialmente desconhecido, pois guarda segredos que aos olhos do observador comum, diante do trabalho pronto e exibido, nunca ser\u00e3o revelados. A palavra retiro \u00e9 o mote do ensaio: fragmentos retirados de um arquivo de fotografias de um bairro chamado Bom Retiro. O ensaio \u00e9, na verdade, outro percurso daquele lugar, feito no tempo presente olhando para imagens de um tempo passado.<\/p>\n<div id=\"attachment_2121\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2121\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2121\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/02-487x194.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"194\" \/><p id=\"caption-attachment-2121\" class=\"wp-caption-text\">Cia de Foto, 2011<\/p><\/div>\n<p>Essa trama de grande complexidade \u00e9 que d\u00e1 as evid\u00eancias de que o processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente g\u00eanese. A fotografia finalizada \u00e9 apenas a evid\u00eancia de que h\u00e1 v\u00e1rias inst\u00e2ncias processuais que nos levam a muitas indaga\u00e7\u00f5es. Que luz recortada \u00e9 essa sinalizada nas fotografias? Que personagens s\u00e3o estes que invadem a cena como se fossem atores de um instant\u00e2neo presenciado? Que significados geram esses documentos fotogr\u00e1ficos?<\/p>\n<p>Ficam em aberto as quest\u00f5es. E cito Marcel Duchamp, de um texto publicado em 1957, <em>O Processo Criador<\/em>, quando esclarece que \u201co artista nunca tem plena consci\u00eancia de sua obra: entre as suas inten\u00e7\u00f5es e sua realiza\u00e7\u00e3o, entre o que <em>quer<\/em> dizer e o que a obra <em>diz<\/em>, h\u00e1 uma diferen\u00e7a\u201d. Essa diferen\u00e7a \u00e9 a obra. Sem ela \u00e9 imposs\u00edvel despertar a imagina\u00e7\u00e3o do espectador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A exposi\u00e7\u00e3o Bom Retiro e Luz: um roteiro (1976 \u2013 2011), curadoria de Di\u00f3genes Moura, no Centro de Cultura Judaica, traz fotografias de Cristiano Mascaro, Bob Wolfenson, Marlene Bergamo e do Coletivo Cia de Foto. O projeto teve como ponto de partida um ensaio de Cristiano Mascaro, produzido em 1976, especialmente para ser exibido na Pinacoteca do Estado, \u00e0 \u00e9poca dirigida pela cr\u00edtica Aracy Amaral, que buscava aproximar comunidade e museu, e criar la\u00e7os de cultura e identidade. Gostaria de concentrar minha aten\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o da Cia de Foto \u2013 Pio Figueroa, Rafael Jacinto, Jo\u00e3o Kehl e Carol Lopes. 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