{"id":2088,"date":"2011-06-28T10:42:24","date_gmt":"2011-06-28T10:42:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2088"},"modified":"2014-03-30T14:54:20","modified_gmt":"2014-03-30T14:54:20","slug":"sentimentos-em-torno-da-fotografia-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/sentimentos-em-torno-da-fotografia-contemporanea\/","title":{"rendered":"Sentimentos em torno da fotografia contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a primeira parte da apresenta\u00e7\u00e3o que fiz na mesa &#8220;A Cena Cultural e a Fotografia Contempor\u00e2nea&#8221;, ao lado de Ge\u00f3rgia Quintas e Pio Figueiroa, na programa\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio Nafoto<\/em>, dia 18\/06\/11, na Caixa Cultural S\u00e9, em S. Paulo.<\/p>\n<div id=\"attachment_2664\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/mesa_nafoto1.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2664\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2664\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/mesa_nafoto1-620x113.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"113\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2664\" class=\"wp-caption-text\">Mesa &quot;A cena cultural e a fotografia contempor\u00e2nea&quot;. Fotos: Pedro Palhares.<\/p><\/div>\n<p><strong>Ser e sentir-se contempor\u00e2neo<\/strong><\/p>\n<p>Ernest Gombrich disse uma vez que a arte moderna demorou 50 anos para se tornar contempor\u00e2nea. Isto significa que os olhares em torno dela precisaram desse tempo para reconhec\u00ea-la como uma arte do seu tempo presente. Com a fotografia contempor\u00e2nea ocorreu algo semelhante, exatamente ao longo desses 20 anos representados pela exposi\u00e7\u00e3o do Nafoto.<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que vivemos esse processo de tr\u00eas modos: houve uma fase de ansiedade, uma fase de nega\u00e7\u00e3o e uma fase de liberdade. N\u00e3o se trata aqui de reconstituir os fatos, mas mapear alguma representa\u00e7\u00f5es que produzimos sobre a id\u00e9ia de uma fotografia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>Ansiedade<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, intu\u00edamos a chegada iminente de certa fotografia experimental, muito distinta da m\u00e9dia de nossas pr\u00e1ticas mais consagradas, e que come\u00e7ava demarcar sua presen\u00e7a nas galerias e bienais de arte pelo mundo. Foi curioso o modo como vivemos esse processo: fal\u00e1vamos em \u201cfotografia contempor\u00e2nea\u201d como se fosse uma entidade metaf\u00edsica e poderosa que estava por vir. Especul\u00e1vamos muito, mas ningu\u00e9m sabia descrev\u00ea-la com clareza.<\/p>\n<p>Digo \u201cmetaf\u00edsica\u201d porque ela sempre nos parecia distante, seja no espa\u00e7o, uma fotografia feita nos grandes centros (por isso, nesse per\u00edodo, temos falado muito em \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d da arte), seja no tempo, j\u00e1 que para n\u00f3s existia como uma promessa. Portanto, ainda n\u00e3o sent\u00edamos essa produ\u00e7\u00e3o como contempor\u00e2nea, por mais que levasse esse nome.<\/p>\n<p>Pesa sobre isso o fato de que n\u00f3s sempre tivemos uma forma\u00e7\u00e3o purista, em dois sentidos, pelo menos. Primeiro, por uma esp\u00e9cie de ressentimento hist\u00f3rico: como os fot\u00f3grafos n\u00e3o foram reconhecidos como artistas, constru\u00edram ent\u00e3o seu pr\u00f3prio espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o, seus procedimentos est\u00e9ticos exclusivos e uma hist\u00f3ria separada das outras artes. Por exemplo, quando come\u00e7amos e nos deparar com tais experimenta\u00e7\u00f5es, ainda se colocavam de modo veemente as mesmas cobran\u00e7as que reca\u00edram sob o pictorialismo: \u201cmas isso \u00e9 fotografia?\u201d. Segundo que, na Am\u00e9rica Latina, a tradi\u00e7\u00e3o documental e fotojornal\u00edstica era bastante forte. Vivemos processos hist\u00f3ricos duros de repress\u00e3o pol\u00edtica e degrada\u00e7\u00e3o social, e toda experimenta\u00e7\u00e3o parecia superficial diante da realidade que havia para denunciar. Tal purismo deu a essa promessa de fotografia um aspecto mais grandioso do que deveria, \u00e0s vezes her\u00f3ico, \u00e0s vezes monstruoso.<\/p>\n<p><strong>Nega\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ocorreu que, ao longo dos anos 90, muitos fot\u00f3grafos se sentiram de fato estimulados \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o, em pelo menos duas dire\u00e7\u00f5es: a ficcionaliza\u00e7\u00e3o e a hibridiza\u00e7\u00e3o de linguagens, iniciativas que se colocavam claramente em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o documental e purista da fotografia. Apesar do ar de novidade dessa experi\u00eancia, fot\u00f3grafos, curadores e pesquisadores come\u00e7aram a descobrir e resgatar trabalhos que n\u00e3o necessariamente eram recentes, mas que permaneceram sem voz diante da hegemonia da fotojornalismo. Paralelamente a tudo isso, refer\u00eancias internacionais dessa nova fotografia come\u00e7aram a circular cada vez mais em exposi\u00e7\u00f5es no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Eis que ao longo dos anos 90, sent\u00edamos que j\u00e1 t\u00ednhamos uma fotografia contempor\u00e2nea. Mas nossa ansiedade n\u00e3o estava totalmente resolvida. N\u00e3o bastava sentir sua proximidade, ainda precis\u00e1vamos explicar, definir e descrever essa fotografia contempor\u00e2nea, porque esse momento de renova\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m marcado pela amplia\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de debate seja por meio dos eventos internacionais (<em>M\u00eas Internacional da Fotografia<\/em>, <em>Panoramas da Imagem<\/em>), seja por meio dos novos espa\u00e7os acad\u00eamicos dedicados \u00e0 fotografia.<\/p>\n<p>Ainda com certa inseguran\u00e7a, afirmar uma fotografia contempor\u00e2nea significou negar uma outra fotografia que parecia n\u00e3o s\u00ea-la. Como \u00e9 natural em todo processo de transforma\u00e7\u00e3o que ocorre com intensidade e rapidez, \u00e9 preciso eleger um inimigo. Fazer fotografia contempor\u00e2nea n\u00e3o era apenas abrir-se \u00e0s experimenta\u00e7\u00f5es, era tamb\u00e9m afastar-se da tradi\u00e7\u00e3o da fotografia documental. Termos como objetividade, mimesis e realismo foram expulsos de nosso vocabul\u00e1rio. Tamb\u00e9m soava conservador fazer uma fotografia que parecesse apenas fotografia.<\/p>\n<p>Assim, a fotografia contempor\u00e2nea foi, durante essa d\u00e9cada, uma experi\u00eancia tensa, demasiadamente preocupada com sua auto-afirma\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, as v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es do <em>M\u00eas Internacionais da Fotografia<\/em> tiveram\u00a0 o m\u00e9rito de trazer e estimular essa produ\u00e7\u00e3o experimental, sem negligenciar a hist\u00f3ria e a tradi\u00e7\u00e3o da fotografia.<\/p>\n<p><strong>Liberdade<\/strong><\/p>\n<p>Passado o furor dessa descoberta, o espa\u00e7o para a experimenta\u00e7\u00e3o parece ter se tornado definitivo. N\u00e3o era mais preciso empunhar uma bandeira e colocar o dedo em riste contra a tradi\u00e7\u00e3o para ser ficcional ou ser h\u00edbrido. Os espa\u00e7os estavam conquistados. \u00c9 nesse momento que podemos dizer que a fotografia contempor\u00e2nea se tornou contempor\u00e2nea. Ela n\u00e3o \u00e9 uma promessa, tampouco soa como uma a\u00e7\u00e3o de \u201cavant-guard\u201d . Ela existe, e pertence a seu tempo.<\/p>\n<p>Aqui existe um paradoxo curioso: a fotografia contempor\u00e2nea era uma promessa libert\u00e1ria que nos chegou de modo t\u00e3o tenso, que se desdobrou numa \u201cobriga\u00e7\u00e3o de ser livre\u201d: havia um universo de condi\u00e7\u00f5es impostas a uma fotografia que quisesse ser chamada de contempor\u00e2nea. Dissipada essa tens\u00e3o, nos colocamos diante da \u201cliberdade de ser livre\u201d. Isso significa a liberdade de experimentar, mas tamb\u00e9m a liberdade de voltar a dialogar com a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa nova condi\u00e7\u00e3o de liberdade, os artistas podem se lan\u00e7ar a todo tipo transgress\u00e3o, mas tamb\u00e9m fazer uma fotografia que seja apenas fotografia, e retomar conceitos que pareciam arcaicos. Mesmo uma fotografia h\u00edbrida e experimental tem a\u00ed a oportunidade de reassumir seu interesse pela realidade e pela mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Outro paradoxo: a fotografia contempor\u00e2nea se torna verdadeiramente contempor\u00e2nea quando ela deixa de se perguntar se \u00e9 ou n\u00e3o contempor\u00e2nea. Isso significa que finalmente o termo se tornou, sen\u00e3o natural, pelo menos mais confort\u00e1vel. Ela \u00e9 a fotografia do presente. Essa fase de liberdade representa, portanto, uma fase de sincroniza\u00e7\u00e3o (do contempor\u00e2neo consigo mesmo).<\/p>\n<p>Tudo pode ser feito em termos de t\u00e9cnicas, de procedimentos, de linguagem. Apenas um dado \u00e9 irrevog\u00e1vel: a consci\u00eancia desse tempo presente, e de algumas de suas conquistas. N\u00e3o \u00e9 mais cab\u00edvel mistificar o meio, desconhecer seu sentido cultural, seu modo de funcionamento. Uma fotografia pode voltar a ser documental, pode abordar a realidade e a mem\u00f3ria, mas deve estar ciente da interven\u00e7\u00e3o gerada pelo dispositivo. Entenda-se como dispositivo n\u00e3o apenas o aparelho, mas os comportamentos e os rituais que ele gera, as din\u00e2micas de seu mercado, as formas de di\u00e1logo com outras linguagens, seus meios de difus\u00e3o, suas formas de recep\u00e7\u00e3o. Portanto, a fotografia contempor\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 um tipo de imagem, mas uma postura que se pode ter diante de qualquer imagem.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Neste s\u00e1bado, dia 02\/07\/2011, o Nafoto lan\u00e7a o Cat\u00e1logo\u00a0Raisonn\u00e9 <strong>20 Anos Nafoto<\/strong>, com informa\u00e7\u00f5es sobre as exposi\u00e7\u00f5es e atividades realizadas pelo grupo, dentre elas, as oito edi\u00e7\u00f5es do M\u00eas Internacional da Fotografia. A distribui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 gratuita: Caixa Cultural S\u00e9, Pra\u00e7a da S\u00e9, 111 &#8211; Centro &#8211; S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/007.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-2102\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/007-487x200.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"200\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a primeira parte da apresenta\u00e7\u00e3o que fiz na mesa &#8220;A Cena Cultural e a Fotografia Contempor\u00e2nea&#8221;, ao lado de Ge\u00f3rgia Quintas e Pio Figueiroa, na programa\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio Nafoto, dia 18\/06\/11, na Caixa Cultural S\u00e9, em S. Paulo. Ser e sentir-se contempor\u00e2neo Ernest Gombrich disse uma vez que a arte moderna demorou 50 anos para se tornar contempor\u00e2nea. Isto significa que os olhares em torno dela precisaram desse tempo para reconhec\u00ea-la como uma arte do seu tempo presente. Com a fotografia contempor\u00e2nea ocorreu algo semelhante, exatamente ao longo desses 20 anos representados pela exposi\u00e7\u00e3o do Nafoto. 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