{"id":1904,"date":"2011-06-05T20:00:44","date_gmt":"2011-06-05T20:00:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1904"},"modified":"2016-05-28T14:13:05","modified_gmt":"2016-05-28T14:13:05","slug":"blanche-o-monstro-libidinoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/blanche-o-monstro-libidinoso\/","title":{"rendered":"Blanche, o monstro libidinoso"},"content":{"rendered":"<p>Antes que existisse uma biologia capaz de pensar a &#8220;vida&#8221; como fun\u00e7\u00e3o abstrata, lembra Foucault, havia apenas uma hist\u00f3ria natural interessada nos \u201cseres vivos\u201d, suas formas, suas tipologias. Ele completa: \u201cfazer a hist\u00f3ria de uma planta ou de um animal era tanto dizer quais s\u00e3o seus elementos ou seus \u00f3rg\u00e3os, quanto as semelhan\u00e7as que se lhe podem encontrar, as virtudes que se lhe atribuem, as lendas e as hist\u00f3rias com que se misturou\u201d (Foucault, <em>As palavras e as coisas<\/em>).<\/p>\n<p>O conhecimento consolidado buscava os tra\u00e7os e comportamentos m\u00e9dios que definiam as esp\u00e9cies. Mas podemos supor que essa mesma ci\u00eancia\u00a0nunca\u00a0deixou de ansiar pelos exemplares que fugissem aos padr\u00f5es, pois eram eles que motivavam as narrativas mais excitantes. As coisas n\u00e3o eram diferentes quando se tratava da nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie.\u00a0 Ao contr\u00e1rio, os desvios da forma humana permaneciam comoventes mesmo quando a ci\u00eancia moderna j\u00e1 se voltava essencialmente para a estrutura invis\u00edvel das coisas e dos organismos. Com seu realismo, a fotografia serviu de combust\u00edvel para a persist\u00eancia desse espet\u00e1culo de formas estranhas. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 linguagem sutil que d\u00ea conta das exce\u00e7\u00f5es: o \u201cmonstro\u201d \u00e9, na etimologia da palavra, aquilo que \u00e9 digno de ser \u201cmostrado\u201d. Foi assim que sobreviveu na medicina do s\u00e9culo XIX uma linha de pesquisa herdada daquilo que havia de mais fant\u00e1stico na velha hist\u00f3ria natural: a <em>teratologia<\/em>,\u00a0o estudo das aberra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Blanche Dumas \u00e9 um desses exemplares humanos raros que foi alvo da curiosidade m\u00e9dica. Nasceu em 1860, provavelmente na Martinica, e foi fotografada na inf\u00e2ncia, na adolesc\u00eancia e j\u00e1 adulta, com varia\u00e7\u00f5es de poses surpreendentemente cl\u00e1ssicas. Acostumada \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, ela sempre encarou a c\u00e2mera com desenvoltura.<\/p>\n<p>Nos hospitais, gabinetes de curiosidade ou nos circos, n\u00e3o era incomum ver todo tipo de acidente da natureza. Mas o que surpreendia no caso de Blanche era o fato de que uma transforma\u00e7\u00e3o parecia ocorrer diante do olhar que percorria seu corpo de cima a baixo: acima, um rosto belo e delicado, uma express\u00e3o serena, um par de seios exemplares, cabelos bem cuidados; abaixo, uma terceira perna mal formada que desestruturava seus quadris, bem ao lado de protuber\u00e2ncias que os cientistas explicavam como sendo outro par de seios. Destacando-se de seu corpo totalmente nu, as imagens exibiam ornamentos floridos no cabelo, suntuosos colares, e tr\u00eas botas pesadas que n\u00e3o deixavam d\u00favidas de que aquele membro era uma terceira perna.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil recompor sua biografia, mas \u00e9 poss\u00edvel intuir algumas hist\u00f3rias a partir das pr\u00f3prias imagens e dos relatos pretensamente cient\u00edficos que sempre a cercaram. Algumas de suas imagens apareceram pela primeira em 1869, ilustrando o artigo \u201cCaso de Teratologia\u201d, do Dr. Charles Robin, publicado na conceituada <em>Revue Photographique des H\u00f4pitaux de Paris<\/em>. O texto dizia: &#8220;a reprodu\u00e7\u00e3o das monstruosidades pela fotografia \u00e9 uma id\u00e9ia que merece ser encorajada, e que tornar\u00e1 mais f\u00e1cil o estudo daquilo que apenas se pode abordar em pequeno n\u00famero&#8221;.<\/p>\n<p>Outro artigo de 1877, escrito pelo Dr. \u00c9tienne-Fran\u00e7ois Maurice, intitulado \u201cNota sobre um monstro humano feminino com tr\u00eas membros p\u00e9lvicos\u201d, traz quatro imagens de Blanche em poses diversas, e relata a descoberta da menina em Li\u00e8ge, na B\u00e9lgica, quando foi examinada pela primeira vez por m\u00e9dicos, aos 6 anos de idade.<\/p>\n<p>Uma imagem de Blanche j\u00e1 adulta, com cerca de 25 anos, foi publicada nos <em>Annals of Gynecology<\/em> (Boston, 1887), no artigo \u201cUm monstro feminino, duas vulvas e vaginas completas e separadas, quatro mamas, tr\u00eas pernas\u201d.\u00a0Na foto que analisa (\u00faltima abaixo), dois pontos pretos parecem ter sido pintados para que a protuber\u00e2ncia entre suas pernas fossem mais claramente caracterizadas como um par de seios.\u00a0O autor do artigo (e supostamente da foto), o m\u00e9dico austr\u00edaco Joseph Bechtinger, naquele momento radicado no estado do Par\u00e1, no Brasil, explicava por meio dessa anatomia at\u00edpica seu excesso de disposi\u00e7\u00e3o sexual. J\u00e1 o editor da revista, apresentava o artigo nos seguintes termos: \u201c\u00c9 com\u00a0grande satisfa\u00e7\u00e3o que\u00a0observamos\u00a0entre\u00a0os nossos\u00a0assinantes\u00a0e correspondentes um profundo interesse\u00a0pelo tema da\u00a0teratologia.\u00a0N\u00e3o se deve mais dizer que a pr\u00e1tica desta profiss\u00e3o na Am\u00e9rica n\u00e3o est\u00e1 interessada em assuntos\u00a0puramente cient\u00edficos\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_5086\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/Blanche-Dumas-desconhecido-Liebert-Petit-Bechtinger11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5086\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5086\" alt=\"Blanche Dumas: 1. atribu\u00eddo ao Dr. Adrien Delahaye, c. 1868 (publicada invertida); 2. A. Liebert, s\/d; 3. P. Petit, s\/d; 3. atribu\u00eddo a J. Bechtinger, c. 1885\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/Blanche-Dumas-desconhecido-Liebert-Petit-Bechtinger1-620x228.jpg\" width=\"620\" height=\"228\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5086\" class=\"wp-caption-text\">Blanche Dumas: 1. atribu\u00eddo ao Dr. Adrien Delahaye, c. 1868 (publicada invertida); 2. A. Liebert, s\/d; 3. P. Petit, s\/d; 4. atribu\u00eddo a J. Bechtinger, c. 1885<\/p><\/div>\n<p>Um desenho (feito possivelmente a partir da foto de Bechtinger) foi publicado no livro <em>Anomalias e Curiosidades da Medicina<\/em>, de 1886, pelos m\u00e9dicos norte-americanos George M. Gould and Walter L. Pyle. O texto oferece ao leitor detalhes sobre sua anatomia e algumas fantasias a respeito de sua biografia: \u201cBlanche tinha tamb\u00e9m duas vaginas e duas vulvas bem formadas e, conforme relatos, ambas igualmente com desenvolvida sensibilidade. Conforme se dizia, ela possu\u00eda um acentuado apetite sexual. Ficou conhecida por ter muitos admiradores masculinos e por poder entret\u00ea-los com suas duas vaginas. Com tal libido, Blanche passou algumas vezes por Paris, onde se tornou cortes\u00e3. Al\u00e9m disso, ao ouvir que Jean Baptista dos Santos, um homem com tr\u00eas pernas e dupla genit\u00e1lia esteve em Paris quando fazia um tour pela Europa, expressou um desejo sincero de fazer sexo com ele. Embora n\u00e3o haja evid\u00eancia de que os dois tiveram encontros, h\u00e1 forte rumor sobre um breve affair\u201d. Jean dos Santos (provavelmente Jo\u00e3o) era portugu\u00eas. Uma foto que destaca seus dois p\u00eanis, feita por C. D. Fredericks (c. 1865), tamb\u00e9m se tornou bastante difundida.<\/p>\n<p>Talvez toda linguagem construa em certa medida o mundo que descreve. Aprendemos que assim ocorre com a fotografia, e assim ocorre tamb\u00e9m com a ci\u00eancia. Isso fica ainda mais evidente quando ambas est\u00e3o assim aliadas. Ao explorar sua beleza e especular sobre a sexualidade exacerbada de Blanche, os textos determinaram-lhe uma voca\u00e7\u00e3o e operaram como uma esp\u00e9cie de profecia. As poses da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia, em que aparece\u00a0nua com seus ornamentos, encarando-nos com seguran\u00e7a ou, ainda, deitada como uma pequena odalisca, j\u00e1 parecem querer anunciar a cortes\u00e3 que ela se tornaria. Foi assim que, com o apoio da ci\u00eancia, Blanche escapou dos circos de aberra\u00e7\u00f5es para se destacar nos bord\u00e9is da Paris.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes que existisse uma biologia capaz de pensar a &#8220;vida&#8221; como fun\u00e7\u00e3o abstrata, lembra Foucault, havia apenas uma hist\u00f3ria natural interessada nos \u201cseres vivos\u201d, suas formas, suas tipologias. Ele completa: \u201cfazer a hist\u00f3ria de uma planta ou de um animal era tanto dizer quais s\u00e3o seus elementos ou seus \u00f3rg\u00e3os, quanto as semelhan\u00e7as que se lhe podem encontrar, as virtudes que se lhe atribuem, as lendas e as hist\u00f3rias com que se misturou\u201d (Foucault, As palavras e as coisas). O conhecimento consolidado buscava os tra\u00e7os e comportamentos m\u00e9dios que definiam as esp\u00e9cies. 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