{"id":1890,"date":"2011-05-30T09:35:23","date_gmt":"2011-05-30T09:35:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1890"},"modified":"2016-05-28T13:46:45","modified_gmt":"2016-05-28T13:46:45","slug":"o-que-vemos-e-o-que-nao-vemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-que-vemos-e-o-que-nao-vemos\/","title":{"rendered":"O que vemos e o que n\u00e3o vemos"},"content":{"rendered":"<p>A fotografia, ainda hoje, tem um poder de atra\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel. Nem sempre sabemos racionalizar aquilo que nos leva a destacar uma boa imagem entre milhares que vemos semanalmente. Na verdade, pretendo aqui refletir sobre uma fotografia que recentemente circulou pela m\u00eddia internacional mostrando a equipe de seguran\u00e7a norte-americana, capitaneada pelo presidente Barack Obama e seu vice, Joe Biden, que acompanhava a opera\u00e7\u00e3o dos Seals, no Paquist\u00e3o, que culminou com a morte de Bin Laden. De autoria de <a href=\"http:\/\/www.petesouza.com\" target=\"_blank\">Pete Souza<\/a>,\u00a0chefe oficial de fotografia da Casa Branca, e distribu\u00edda pelo <em>The New York Times<\/em>, a imagem registra provavelmente o momento exato em que os soldados americanos invadiam a casa e matava o inimigo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1892\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1892\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1892\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/1o-de-maio-487x324.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"324\" \/><p id=\"caption-attachment-1892\" class=\"wp-caption-text\">Pete Souza, Casa Branca, maio\/2011<\/p><\/div>\n<p>O que chama minha aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que nada vemos, mas estamos diante de um fato consumado. Os personagens da fotografia \u201carmada\u201d est\u00e3o atentos \u00e0 cena que talvez jamais veremos e, de algum modo, isso me perturba. Al\u00e9m disso, no site da Casa Branca, na legenda dessa fotografia h\u00e1, paradoxalmente, uma ressalva: \u201cum documento secreto que pode ser visto nesta fotografia foi manipulado\u201d. Ironias a parte, o que realmente eu vejo me inquieta. N\u00e3o pelo que efetivamente vejo, mas por aquilo que n\u00e3o vejo.<\/p>\n<p>Imagens assim parecem ser constitu\u00eddas de um c\u00f3digo espec\u00edfico, de alguma coisa que se destaca, mas que nem sempre \u00e9 vis\u00edvel. Por que h\u00e1 fotografias que nos chocam pela aus\u00eancia do referente que concretiza um fato de efeito global? Que poder tem essa imagem que n\u00e3o vemos mas que, de algum modo, sabemos que pulsa no interior desta fotografia? O que h\u00e1 exatamente naquilo que n\u00e3o vemos numa fotografia, mas que nos deixa, assim como os retratados, estarrecidos? S\u00e3o quest\u00f5es como estas que me fazem pensar sobre certas evid\u00eancias da imagem fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Claro que nem toda fotografia traz essa possibilidade. Mas me interessa refletir sobre como representar um fato atrav\u00e9s de uma constru\u00e7\u00e3o que evidencia o contexto do vis\u00edvel, mas ao operar na aus\u00eancia de uma imagem, desencadeia no leitor uma opera\u00e7\u00e3o da mais pura imagina\u00e7\u00e3o. Um espa\u00e7o de aus\u00eancia na imagem vis\u00edvel, mas suficientemente provocativo, capaz de desencadear uma sensa\u00e7\u00e3o que perturba demasiadamente o entendimento quase sempre direto da fotografia documental. Uma forma surpreendente de produzir fotografia que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, deve refletir o mundo vis\u00edvel e, nesse caso, reflete algo cujo significado se concretiza nos interst\u00edcios da imagem.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante constatar que, quase sempre, n\u00e3o \u00e9 uma fotografia que opera na espetaculariza\u00e7\u00e3o do acontecimento em si, mas concentra nosso olhar e nossa imagina\u00e7\u00e3o justamente naquilo que n\u00e3o vemos. \u00c9 preciso \u201ccriar\u201d uma imagem dentro dessas fotografias, aparentemente perform\u00e1ticas, que traga algo de irrefut\u00e1vel para nos convencer de que vemos algo realmente surpreendente. Encontramos nessas fotografias estranhos personagens olhando para acontecimentos que escapam \u00e0 percep\u00e7\u00e3o imediata. Uma fotografia constru\u00edda e quase teatralizada para nos convencer de que o invis\u00edvel \u00e9 demasiado importante. Uma fotografia que parece espont\u00e2nea, mas que abre um campo de possibilidades interpretativas para o espectador.<\/p>\n<div id=\"attachment_1898\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/vincent-carelli11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1898\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1898\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/vincent-carelli1-280x171.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"171\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1898\" class=\"wp-caption-text\">Vincent Carelli, c. 1980<\/p><\/div>\n<p>O que se manifesta nessas imagens e d\u00e1 eloqu\u00eancia a elas \u00e9 uma \u201cpresen\u00e7a\u201d quase minimalista de outra imagem que atrai a aten\u00e7\u00e3o dos atores do documento iconogr\u00e1fico. Outro exemplo \u00e9 o caso desta fotografia realizada no in\u00edcio dos anos 1980, de autoria de Vincent Carelli, fot\u00f3grafo e cineasta, na qual vemos um grupo de \u00edndios im\u00f3veis e catat\u00f4nicos diante de uma tela de televis\u00e3o. Aqui, entendemos a imagem como o registro de um choque entre culturas. Mas o que estaria exibindo esta tela que n\u00e3o vemos? Seria uma imagem qualquer, que assombra os retratados mais pelo aparato tecnol\u00f3gico do que pelo seu eventual conte\u00fado?<\/p>\n<div id=\"attachment_1896\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Maracan\u00e3-Jos\u00e9-Medeiros-1950.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1896\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1896\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Maracan\u00e3-Jos\u00e9-Medeiros-1950-280x297.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"297\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1896\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Medeiros, Maracan\u00e3, 1950<\/p><\/div>\n<p>Outra fotografia que me veio \u00e0 mem\u00f3ria foi a de Jos\u00e9 Medeiros, rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico da revista <em>O Cruzeiro<\/em>. Por ocasi\u00e3o da Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, fomos derrotados no jogo final pelo time do Uruguai. Medeiros construiu o drama da derrota atrav\u00e9s de fragmentos visuais e pontuou seu ensaio com uma imagem emblem\u00e1tica dos fot\u00f3grafos que apontam suas c\u00e2meras para uma mesma dire\u00e7\u00e3o. No que consistiria esse olhar coletivo que provoca uma enorme inquietude para o espectador que participa da experi\u00eancia, mas nada v\u00ea?<\/p>\n<p>A fotografia, que se tornou um paradigma da paisagem cultural contempor\u00e2nea, tem o poder de transformar o cotidiano em coisas extraordin\u00e1rias. Os exemplos que encontrei para comentar nesta primeira reflex\u00e3o sobre o que n\u00e3o vemos numa fotografia foram produzidos em \u00e9pocas diferentes, mas s\u00e3o conceitualmente muito parecidos. Claro, apesar de sua ilus\u00f3ria objetividade factual, seus conte\u00fados se diferenciam, porque a carga visual dram\u00e1tica de cada uma delas \u00e9 distinta. A primeira \u00e9 dram\u00e1tica porque pressup\u00f5e o exato momento do assassinato de Bin Laden. A segunda \u00e9 dram\u00e1tica porque evidencia um choque cultural, onde o aparato tecnol\u00f3gico se sobrep\u00f5e para desestabilizar a identidade do outro. E finalmente a terceira, de Jos\u00e9 Medeiros, que narra o drama da derrota do time brasileiro. Fugindo da cena principal, ele flagra os fot\u00f3grafos apontando suas c\u00e2meras para o que n\u00e3o vemos, sugerindo e mistificando algum acontecimento.<\/p>\n<p>Em todas as fotografias h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o imperativa dos olhares que se fixam numa \u00e1rea que n\u00f3s, espectadores, somos induzidos a imaginar, um jogo inteligente institu\u00eddo pelo fot\u00f3grafo entre o espet\u00e1culo invis\u00edvel e o espectador. Cabe ao fot\u00f3grafo estimular nossa imagina\u00e7\u00e3o, e as imagens aqui comentadas mostram que a representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas no espet\u00e1culo n\u00e3o visto, mas principalmente na intencionalidade do olhar do criador, que real\u00e7a significa\u00e7\u00f5es para instigar nossa intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o \u00e9 recorrente na hist\u00f3ria das artes visuais. Diego Vel\u00e1zquez, em 1656, em sua cl\u00e1ssica tela <em>Las Meninas<\/em>, potencializa o olhar do espectador e cria a expectativa de olhares indagadores das personagens sobre alguma coisa que n\u00e3o vemos. No livro <em>As palavras e as coisas, <\/em>de Michel Foucault, h\u00e1 um ensaio sobre esta obra, em que podemos observar algumas aproxima\u00e7\u00f5es com estas fotografias aqui comentadas. Ao discutir as in\u00fameras possibilidades de olhar, esta pintura salienta que \u201cO primeiro olhar lan\u00e7ado ao quadro nos ensinou de que \u00e9 constitu\u00eddo esse espet\u00e1culo de olhares.\u201d<\/p>\n<p>E conclui: \u201cTalvez haja, neste quadro de Vel\u00e1zquez, como que a representa\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e a defini\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o que ela abre. Com efeito, ela intenta representar-se a si mesma em todos os seus elementos, com suas imagens, os olhares aos quais ela se oferece, os rostos que torna vis\u00edveis, os gestos que a fazem nascer. Mas a\u00ed, nessa dispers\u00e3o que ela re\u00fane e exibe em conjunto, por todas as partes um vazio essencial \u00e9 imperiosamente indicado: o desaparecimento necess\u00e1rio daquilo que a funda \u2013 daquele a quem ela se assemelha e daquele a cujos olhos ela n\u00e3o passa de semelhan\u00e7a. Esse sujeito mesmo \u2013 que \u00e9 o mesmo \u2013 foi elidido. E livre, enfim, dessa rela\u00e7\u00e3o que a acorrentava, a representa\u00e7\u00e3o\u00a0 pode se dar como pura representa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fotografia, ainda hoje, tem um poder de atra\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel. Nem sempre sabemos racionalizar aquilo que nos leva a destacar uma boa imagem entre milhares que vemos semanalmente. Na verdade, pretendo aqui refletir sobre uma fotografia que recentemente circulou pela m\u00eddia internacional mostrando a equipe de seguran\u00e7a norte-americana, capitaneada pelo presidente Barack Obama e seu vice, Joe Biden, que acompanhava a opera\u00e7\u00e3o dos Seals, no Paquist\u00e3o, que culminou com a morte de Bin Laden. 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