{"id":1875,"date":"2011-05-23T14:12:19","date_gmt":"2011-05-23T14:12:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1875"},"modified":"2016-05-28T14:13:15","modified_gmt":"2016-05-28T14:13:15","slug":"ser-ou-nao-ser-fotografia-o-percurso-das-teorias-ontologicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/ser-ou-nao-ser-fotografia-o-percurso-das-teorias-ontologicas\/","title":{"rendered":"Ser ou n\u00e3o ser fotografia? O percurso das teorias ontol\u00f3gicas"},"content":{"rendered":"<p>Aparentemente, a voca\u00e7\u00e3o mais natural de toda teoria \u00e9 definir \u201co que \u00e9\u201d seu objeto de an\u00e1lise. Nossos debates acad\u00eamicos se consolidaram colocando uma quest\u00e3o dessa ordem: o que define a especificidade da fotografia? Chamamos essa perspectiva te\u00f3rica de \u201contol\u00f3gica\u201d.\u00a0 Ontologia \u00e9, em resumo, o campo da filosofia que se pergunta sobre o \u201cser das coisas\u201d ou, para dizer mais facilmente, \u201co que as coisas s\u00e3o, em sua ess\u00eancia\u201d (a ontologia cl\u00e1ssica fala em \u201csubst\u00e2ncia\u201d). Perguntar-se sobre o \u201cser\u201d da fotografia \u00e9 buscar aquilo que lhe concede uma identidade singular, aquilo sem que a distingue de outras linguagens, de outras imagens, aquilo sem o que algo n\u00e3o pode ser chamado de fotografia.<\/p>\n<p>Quase todos os escritos sobre fotografia, desde sua inven\u00e7\u00e3o, resvalam em quest\u00f5es semelhantes. Mas foi provavelmente Andr\u00e9 Bazin quem delineou mais claramente tal abordagem, com um artigo c\u00e9lebre de 1945: \u201cOntologia da Imagem Fotogr\u00e1fica\u201d. Os anos 60 e 70 viram surgir uma profus\u00e3o de trabalhos que seguiam nessa dire\u00e7\u00e3o, boa parte deles, ancorados nas possibilidades de aplica\u00e7\u00e3o das teorias ling\u00fc\u00edsticas de Saussure a outras formas de express\u00e3o (Barthes, Christian Metz, Ren\u00e9 Lindekens, Umberto Eco) e, um pouco depois, na difus\u00e3o do pensamento de Charles Sanders Peirce (Rosalind Krauss, tamb\u00e9m Eco, e ainda Philippe Dubois e Jean-Marie Schaeffer). A semiologia e a semi\u00f3tica derivadas desses autores emprestaram ao debate sobre a fotografia um vocabul\u00e1rio mais sistematico, e criaram par\u00e2metros para a distin\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios sistemas de signos.<\/p>\n<div id=\"attachment_1884\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/machado_dubois_schaeffer1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1884\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1884\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/machado_dubois_schaeffer-487x215.jpg\" alt=\"A Ilus\u00e3o Especular, de A. MAchado; O Ato Fotogr\u00e1fico, de Ph. Dubois; A Imagem Prec\u00e1ria, de J.-M. Schaeffer\" width=\"487\" height=\"215\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1884\" class=\"wp-caption-text\">A Ilus\u00e3o Especular, de A. MAchado; O Ato Fotogr\u00e1fico, de Ph. Dubois; A Imagem Prec\u00e1ria, de J.-M. Schaeffer<\/p><\/div>\n<p>Aqui no Brasil, quem quiser passear pelas diferentes respostas que esse debate produziu, pode se concentrar em tr\u00eas livros, todos eles empenhados em revisar as teorias fotogr\u00e1ficas a partir de um repert\u00f3rio peirceano: <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=227\" target=\"_blank\"><em>A Ilus\u00e3o Especular<\/em> (1984), de Arlindo Machado<\/a>, <em>O Ato Fotogr\u00e1fico<\/em> (1994), de Philippe Dubois e <em>A Imagem Prec\u00e1ria<\/em> (1996), de Jean-Marie Schaeffer. Barthes poderia entrar aqui no lugar do ent\u00e3o barthesiano Dubois, mas \u00e9 este \u00faltimo quem traduzir\u00e1 o vocabul\u00e1rio peculiar de <em>A C\u00e2mara Clara<\/em> (editada no pa\u00eds em 1984) nos termos mais recorrentes desse debate.<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas livros comp\u00f5em um panorama bastante did\u00e1tico das posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mais evidentes desse momento. Destacando aquilo que faz da fotografia uma forma codificada de representa\u00e7\u00e3o (um s\u00edmbolo, no vocabul\u00e1rio peircenao), Arlindo Machado se op\u00f5e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o assumida por autores \u201crealistas\u201d como Barthes. Sem negar a exist\u00eancias desses c\u00f3digos, mas retomando Barthes, Dubois se concentra num aspecto pontual que permite \u00e0 fotografia operar como \u201cmarca do real\u201d (como o \u00edndice peirceano). Por fim, considerando parcialmente as conclus\u00f5es de Dubois, Schaeffer opta por retomar, mas de modo muito cuidadoso, a velha no\u00e7\u00e3o da fotografia como imagem an\u00e1loga ao mundo vis\u00edvel (como o \u00edcone peirceano).<\/p>\n<p>Se nos anos 80 esse debate ontol\u00f3gico estava restrito ao ambiente acad\u00eamico, ao final dos 90, j\u00e1 encontr\u00e1vamos fot\u00f3grafos em rodas informais de conversa se perguntando se a fotografia era \u201cessencialmente\u201d \u00edcone, \u00edndice ou s\u00edmbolo. Mas essa discuss\u00e3o se esgotou antes de esbo\u00e7ar qualquer tipo consenso. Assumir uma ou outra posi\u00e7\u00e3o exigia tantas desculpas, que as exce\u00e7\u00f5es se mostravam muito mais interessantes que qualquer identidade priorit\u00e1ria que se quisesse afirmar para a fotografia.<\/p>\n<p>Eis que, em algum momento entre o final do s\u00e9culo XX e o in\u00edcio do XXI, as abordagens ontol\u00f3gicas se tornaram ran\u00e7osas e desinteressantes.<\/p>\n<p>De um lado, elas pressup\u00f5em uma \u201cfotografia ideal\u201d (ideal no sentido plat\u00f4nico, um \u201cfotogr\u00e1fico\u201d em estado puro e definitivo). Esse debate foi muito prazeroso, mas parecia tratar de uma fotografia metaf\u00edsica, pouco vinculada \u00e0s din\u00e2micas efetivas que essas imagens assumem no mundo. Quando nos coloc\u00e1vamos diante de uma foto, ela pareceria sempre complexa e impura. Foi assim que nos sentimos convidados a pensar essa imagem em sua diversidade, em sua ambival\u00eancia, com suas m\u00faltiplas formas de significa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais em sua unidade ideal.<\/p>\n<p>De outro lado, enquanto ainda nos pergunt\u00e1vamos sobre o que distingue a fotografia de outras imagens, os artistas passaram a ignorar essas fronteiras e a experimentar todo tipo de intera\u00e7\u00e3o. Para dar conta disso, passamos a falar numa imagem h\u00edbrida, numa fotografia contaminada, numa fotografia expandida (<a href=\"http:\/\/www.faap.br\/revista_faap\/revista_facom\/facom_16\/rubens.pdf\" target=\"_blank\">Fotografia Expandida<\/a> \u00e9 o titulo da tese de doutorado do meu colega Rubens Fernandes). Instigado por tais possibilidades, muitos pensadores\u00a0 se interessaram mais pelas brechas que ligam a fotografia a outras formas de express\u00e3o, do que por aquilo que lhe define uma identidade exclusiva. Mas \u00e9 verdade que houve resist\u00eancias: nos debates entre fot\u00f3grafos, ainda hoje, ouvimos acusa\u00e7\u00f5es em tom corporativista: \u201cisso n\u00e3o \u00e9 fotografia!\u201d<\/p>\n<p>Como exemplo dessas novas abordagens, podemos tomar o livro <em>Entre-Imagens <\/em>(1997), de Raymond Bellour e, ainda, os trabalhos posteriores de Arlindo Machado e Philippe Dubois. Alguns poderiam observar que esses autores j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais interessados em fotografia, mas a quest\u00e3o \u00e9 exatamente essa: se n\u00e3o buscamos a especificidade das linguagens, podemos muito bem reconhecer a fotografia em suas discuss\u00f5es sobre o cinema, \u00a0o v\u00eddeo ou a infografia (igualmente tratados como linguagens experimentais e impuras). Essa perspectiva anti-ontol\u00f3gica tamb\u00e9m \u00e9 claramente reivindicada por obras mais ou menos recentes, como <em>A fotografia<\/em>, de Andr\u00e9 Rouill\u00e9 (em especial, num cap\u00edtulo chamado \u201cMis\u00e9ria Ontol\u00f3gica\u201d).<\/p>\n<p>A busca por uma \u201cess\u00eancia\u201d da fotografia perdeu seu sentido e o redirecionamento de nossas linhas de pesquisa se tornou urgente no final dos anos 90. Mas, resolvidas as tens\u00f5es dessa passagem, creio que podemos retirar alguns cl\u00e1ssicos de nosso \u201c\u00edndex\u201d (a lista de t\u00edtulos proibidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o). N\u00e3o se trata apenas de reconhecer a import\u00e2ncia hist\u00f3rica desses textos. Pessoalmente, acho que aquele \u00faltimo Barthes e aquele primeiro Arlindo Machado ainda podem nos surpreender. Em nossa rela\u00e7\u00e3o complexa a fotografia, estamos em condi\u00e7\u00f5es de reconhecer em suas teses, contradit\u00f3rias entre si, din\u00e2micas que convivem numa imagem que se demonstrou igualmente complexa. Ainda precisamos do tom politizado de Machado para perceber o que sempre h\u00e1 de ideol\u00f3gico numa fotografia, ainda podemos nos abandonar ao tom afetivo de Barthes quando somos fisgados por uma presen\u00e7a que reconhecemos como singular. Pensar qual dessas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 mais verdadeira \u00e9 mais ou menos como interrogar se somos mais essencialmente um corpo ou um esp\u00edrito.<\/p>\n<p>O maior problema desses textos \u00e9 que ficamos presos a uma meia d\u00fazia de frases que se tornaram emblem\u00e1ticas das inten\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas. \u00c9 sempre importante considerar o momento da hist\u00f3ria do pensamento em que uma resposta foi esbo\u00e7ada. Mais importante ainda \u00e9 aprender a reformular as perguntas que lan\u00e7amos aos textos do passado. Sem isso, jamais reconheceremos os cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aparentemente, a voca\u00e7\u00e3o mais natural de toda teoria \u00e9 definir \u201co que \u00e9\u201d seu objeto de an\u00e1lise. Nossos debates acad\u00eamicos se consolidaram colocando uma quest\u00e3o dessa ordem: o que define a especificidade da fotografia? Chamamos essa perspectiva te\u00f3rica de \u201contol\u00f3gica\u201d.\u00a0 Ontologia \u00e9, em resumo, o campo da filosofia que se pergunta sobre o \u201cser das coisas\u201d ou, para dizer mais facilmente, \u201co que as coisas s\u00e3o, em sua ess\u00eancia\u201d (a ontologia cl\u00e1ssica fala em \u201csubst\u00e2ncia\u201d). 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