{"id":1861,"date":"2011-05-16T16:13:32","date_gmt":"2011-05-16T16:13:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1861"},"modified":"2016-05-28T14:13:24","modified_gmt":"2016-05-28T14:13:24","slug":"rodrigo-braga-num-sentido-extra-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/rodrigo-braga-num-sentido-extra-moral\/","title":{"rendered":"Rodrigo Braga num sentido extra-moral"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1865\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Mais-for\u00e7a-que-o-necess\u00e1rio-20101.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1865\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1865 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Mais-for\u00e7a-que-o-necess\u00e1rio-2010-487x324.png\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"259\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1865\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Braga, Mais for\u00e7a que o necess\u00e1rio, 2010<\/p><\/div>\n<p>Na semana passada, Rodrigo Braga realizou uma palestra sobre seu trabalho em S\u00e3o Paulo. Uma fala calma, l\u00facida, em busca das palavras certas, que destoa da erup\u00e7\u00e3o de formas violentas que encontramos em seu trabalho. Isso foi uma surpresa? N\u00e3o propriamente, mas evidenciou certa ansiedade que sua presen\u00e7a desperta.<\/p>\n<p>A maioria de n\u00f3s estava ali porque gosta de seu trabalho. Para alguns, gostar engloba tamb\u00e9m o reconhecimento de uma \u201cverdade\u201d: sabemos que a viol\u00eancia que fere nossos olhos, passou antes pelo corpo dele pr\u00f3prio. Naquele momento, esse mesmo corpo estava presente para expor uma suposta totalidade de sua performance, algo que as fotos n\u00e3o d\u00e3o conta de mostrar. \u00c9 sobre essa expectativa que quero falar.\u00a0Existe uma cr\u00edtica de arte dedicada \u00e0s obras, existe tamb\u00e9m uma critica institucional, uma cr\u00edtica de processo. O que fa\u00e7o aqui \u00e9 algo como uma cr\u00edtica de recep\u00e7\u00e3o, da rela\u00e7\u00e3o que um p\u00fablico desenvolve com a obra e com o artista. Portanto, em certa medida, trata-se tamb\u00e9m de uma auto-cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Rodrigo Braga \u00e9 um artista. N\u00e3o \u00e9 um daqueles insanos que, segundo Foucault, o p\u00fablico pagava para ver dentro de jaulas, aos domingos, nos hospitais psiqui\u00e1tricos da Fran\u00e7a. \u00a0E, ali, ele era um artista convidado para uma palestra, n\u00e3o para uma performance.\u00a0Ele apresentou seu trabalho, falou de seu processo criativo, de sua forma\u00e7\u00e3o, de como pensa a fotografia no contexto da arte contempor\u00e2nea. Foi sempre comedido ao apresentar os conceitos em que se apoia, tanto quanto ao revelar o que de biogr\u00e1fico aparece em sua obra. Resistiu o quanto p\u00f4de (mas acabou vencido) \u00e0 curiosidade sobre \u201co que o artista quer dizer\u201d, e \u00e0s demandas pelos \u201ccausos\u201d dos bastidores. \u201cO trabalho est\u00e1 a\u00ed\u201d, lembrou ele algumas vezes, apontando para a proje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1864\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Comunh\u00e3o-200611.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1864\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1864 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Comunh\u00e3o-20061-487x324.png\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"259\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1864\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Braga. Comunh\u00e3o, 2006<\/p><\/div>\n<p>A hist\u00f3ria da arte nos ensinou a ler nas pistas deixadas pelas obras de g\u00eanios como Goya, Van Gogh ou Bispo do Ros\u00e1rio um pouco de suas alucina\u00e7\u00f5es cotidianas. Numa apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo de Rodrigo Braga, ter\u00edamos a oportunidade de assistir ao filme inteiro do qual seu trabalho seria apenas um trailer, poder\u00edamos enxergar o extraquadro que as molduras acabam recortando. Como ele vive? Onde ele mora? O que ele come? Com quem ele anda? \u00a0Perguntas assim surgem inevitavelmente, afinal, se reconhecemos a sinceridade de suas imagens, tem de haver alguma continuidade entre o que est\u00e1 dentro e o que est\u00e1 fora delas.<\/p>\n<p>Rodrigo Braga \u00e9 um artista e lida com representa\u00e7\u00f5es. Ele usou algumas vezes a express\u00e3o <em>trompe l\u2019oeil<\/em> que, tradicionalmente, se refere \u00e0 capacidade que algumas pinturas t\u00eam de pregar pe\u00e7as no olho. Ent\u00e3o, trata-se de uma mentira? Mesmo historicamente, \u00e9 algo mais complexo que isso: nenhuma pintura explorou e ao mesmo tempo exp\u00f4s com tanta evid\u00eancia (e, \u00e0s vezes, didatismo) os artif\u00edcios da representa\u00e7\u00e3o quanto aquela que foi chamada de <em>trompe l\u2019oeil<\/em>. De modo geral, \u00e9 uma pena que no\u00e7\u00f5es t\u00e3o caras \u00e0 arte como representa\u00e7\u00e3o, mimesis ou ilus\u00e3o se confundam com uma concep\u00e7\u00e3o moral de mentira, totalmente alheia ao ju\u00edzo est\u00e9tico.<\/p>\n<p>O trabalho de Rodrigo Braga dialoga sim com elementos de sua vida: conforme contou, ele cresceu em meio \u00e0s pesquisas de seus pais bi\u00f3logos, j\u00e1 experimentou momentos de angustia extrema, \u00e0s vezes se cansa da rotina da cidade. Tudo isso aparece nas imagens. Mas existe tamb\u00e9m uma t\u00e9cnica: ele pesquisa seus materiais, escolhe suas loca\u00e7\u00f5es, negocia as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, inventa t\u00edtulos t\u00e3o po\u00e9ticos quanto densos, e d\u00e1 palestras. O que s\u00e3o ent\u00e3o aqueles momentos que vemos nas fotografias? Como disse, ele vivencia a for\u00e7a da natureza, incorpora os elementos que utiliza, sente prazer e dor. Mas tamb\u00e9m comp\u00f5e o ambiente, dirige a cena, e opera o controle remoto da c\u00e2mera. Parece contradit\u00f3rio? S\u00e3o coisas que a representa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica comporta.<\/p>\n<p>Se a arte tem algo de verdadeiro, \u00e9 exatamente o fato de assumir-se como representa\u00e7\u00e3o. Segundo Nietzsche, o conhecimento &#8211; mesmo o da ci\u00eancia &#8211; opera igualmente ilus\u00f5es, s\u00f3 que lhes imp\u00f5e regras de conduta e, portanto, um sentido moral que permite cham\u00e1-las de &#8220;verdade&#8221;: \u201cas verdades s\u00e3o ilus\u00f5es das quais se esqueceu que o s\u00e3o, met\u00e1foras que se tornam gastas e sem for\u00e7a sens\u00edvel\u201d. Tem a ver com uma \u201cobriga\u00e7\u00e3o de mentir segundo uma conven\u00e7\u00e3o s\u00f3lida, mentir em rebanho, em estilo obrigat\u00f3rio para todos\u201d (Sobre verdade e mentira num sentido extra-moral, 1873). Quando o artista perturba essa ordem, h\u00e1 que se respeitar seu lugar, n\u00e3o se pode cobrar dele que transforme em regra de conduta ou em h\u00e1bito rotineiro a experi\u00eancia livre que constr\u00f3i.<\/p>\n<p>O maior problema aqui n\u00e3o \u00e9 duvidar, mas acreditar demais. Quando n\u00f3s, que tanto gostamos de seu trabalho, celebramos essa \u201cverdade (num sentido moral), acabamos nos colocando ao lado daqueles que, tamb\u00e9m por acreditar demais, reclamam da sujeira, da dor e dos maus-tratos contra os animais.<\/p>\n<p>O processo criativo de Rodrigo Braga implica, ao mesmo tempo, constru\u00e7\u00e3o de analogias (met\u00e1foras) e transbordamentos (meton\u00edmias) daquilo que ele \u00e9. N\u00e3o daquilo que ele \u00e9 no dia a dia, mas de suas pot\u00eancias, aquilo que j\u00e1 lhe pertence e que s\u00f3 a arte pode revelar.\u00a0N\u00e3o se trata de \u201csublima\u00e7\u00e3o\u201d. Para a psican\u00e1lise tradicional, a arte constitui uma forma de canalizar as puls\u00f5es para uma via de express\u00e3o socialmente aceit\u00e1vel (uma vers\u00e3o inconsciente do \u201ceu podia estar matando, podia estar roubando, mas estou fazendo arte\u201d). Suas representa\u00e7\u00f5es n\u00e3o fazem esse tipo de concess\u00e3o ao \u201csocialmente aceit\u00e1vel\u201d. Leituras psicanal\u00edticas dedicadas \u00e0s performances j\u00e1 acusaram os artistas de terem perdido essa boa medida da sublima\u00e7\u00e3o, em outras palavras, de terem passado da \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d ao \u201cato\u201d. De fato, o que Rodrigo Braga faz n\u00e3o \u00e9 encenar aquilo que a sociedade n\u00e3o nos permite ser, mas revelar aquilo que invariavelmente tamb\u00e9m somos: mat\u00e9ria, corpo, carne, flu\u00eddos, natureza.<\/p>\n<div id=\"attachment_1862\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Desejo-Eremita-20091.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1862\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1862 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/Desejo-Eremita-2009-487x326.png\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"261\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1862\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Braga, Desejo Eremita, 2009<\/p><\/div>\n<p>O que ele registra com sua c\u00e2mera tem a for\u00e7a de um ritual. E a narrativa mais leg\u00edtima que se desprende dali n\u00e3o tem a ver com as hist\u00f3rias reais dos bastidores, nem com suas estrat\u00e9gias de fingimento. Tem a ver com uma mitologia constru\u00edda pelas pr\u00f3prias imagens. <em>Desejo Eremita<\/em> n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria de um artista cansado da cidade. \u00c9 o mito de um homem que se confronta com a natureza em estado estranho, cru, f\u00e9tido, viscoso, ca\u00f3tico (nada a ver com natureza doce e redentora dos ecologistas, que plantam \u00e1rvores para salvar o planeta). Mitos s\u00e3o essa forma arcaica, sentida e poderosa de dar conta da realidade, diante da qual nossa moral tamb\u00e9m v\u00ea hoje duas possibilidades: ou os explica conforme as conven\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia ou os despreza como sin\u00f4nimo de mentira.<\/p>\n<p>A palestra terminou com o v\u00eddeo <em>Mentira Repetida<\/em>: num canto da floresta amaz\u00f4nica, Rodrigo Braga liga sua c\u00e2mera de v\u00eddeo, coloca-se diante dela, e se p\u00f5e a gritar repetidas vezes, at\u00e9 perder a voz e quase desfalecer. \u201cMentira repetida\u201d e um titulo perigoso, porque remete \u00e0 frase de Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler (\u201cuma mentira repetida mil vezes torna-se verdade\u201d). Ora, a constata\u00e7\u00e3o de Goebbels \u00e9 precisa, mas desvela tarde demais o m\u00e9todo de suas atrocidades. A desgra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 em si sua afirma\u00e7\u00e3o, mas o fato de ter sido sorrateiramente colocada em pr\u00e1tica em nome de uma atitude moralizante: o resgate de uma verdade, de uma ordem, a constru\u00e7\u00e3o de uma evolu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nada a ver com o que faz Rodrigo Braga, que desvela a ilus\u00e3o ao mesmo tempo em que nos convence de seu poder de representa\u00e7\u00e3o: no come\u00e7o, o grito \u00e9 hesitante, porque seu corpo parece n\u00e3o encontrar motivo suficiente para se entregar. Mas alguma coisa acontece, ningu\u00e9m percebe exatamente quando. Em algum momento, o grito falha mas, desta vez, porque sua ang\u00fastia parece n\u00e3o encontrar um corpo com for\u00e7a suficiente para lhe dar express\u00e3o. Essa obra \u00e9 o registro de uma expedi\u00e7\u00e3o feita pelo artista, que o leva da civiliza\u00e7\u00e3o a um lugar distante e selvagem que \u00e9 tamb\u00e9m ele mesmo (uma varia\u00e7\u00e3o do que Nietzsche chamou de \u201cchegar a ser aquilo que se \u00e9\u201d). Sua \u201cmentira repetida\u201d se aproxima daquilo que observa Fernando Pessoa, quando diz em sua <em>autopsicografia<\/em> que \u201co poeta \u00e9 um fingidor\u201d (finge t\u00e3o completamente \/ que chega a fingir que \u00e9 dor \/ a dor que deveras sente).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada, Rodrigo Braga realizou uma palestra sobre seu trabalho em S\u00e3o Paulo. Uma fala calma, l\u00facida, em busca das palavras certas, que destoa da erup\u00e7\u00e3o de formas violentas que encontramos em seu trabalho. Isso foi uma surpresa? N\u00e3o propriamente, mas evidenciou certa ansiedade que sua presen\u00e7a desperta. 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