{"id":1798,"date":"2011-04-26T06:20:07","date_gmt":"2011-04-26T06:20:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1798"},"modified":"2016-05-28T14:27:38","modified_gmt":"2016-05-28T14:27:38","slug":"a-anestetica-dos-bancos-de-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-anestetica-dos-bancos-de-imagem\/","title":{"rendered":"A est\u00e9tica dos bancos de imagem"},"content":{"rendered":"<p>Esse \u00e9 um recado para meus alunos, mas que vale a pena compartilhar. O trabalho final que pe\u00e7o a eles envolve sempre a produ\u00e7\u00e3o de uma obra visual com t\u00e9cnica livre a partir um tema que varia a cada semestre. O objetivo \u00e9 avaliar a capacidade que eles tem de traduzir ou construir uma reflex\u00e3o por meio de imagens. \u00c9 sempre uma experi\u00eancia incr\u00edvel. Mas, nos \u00faltimos anos, os bancos de imagem tem facilitado tanto quanto atrapalhado a nossa vida, ali\u00e1s, atrapalham exatamente pelo modo como pretendem facilitar as coisas.<\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos, era raro, mas quando um aluno perguntava se poderia partir de imagens prontas, \u00a0tinha em mente Duchamp, Andy Warhol, e as possibilidades de ressignifica\u00e7\u00e3o implicadas no gesto de apropria\u00e7\u00e3o. Essa era a op\u00e7\u00e3o mais ousada e trabalhosa, significava geralmente um tanto de p\u00e1ginas a mais de reflex\u00e3o escrita. Hoje, a pergunta se tornou mais frequente, mas parte de um princ\u00edpio de economia (eufemismo para pregui\u00e7a). Parte tamb\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o de que tudo j\u00e1 est\u00e1 feito e disponibilizado na internet.<\/p>\n<p>Os grandes bancos de imagem poderiam ser importantes fornecedores de mat\u00e9ria-prima para os criadores. Mas o servi\u00e7o \u00e9 mais completo, e aqui mora o problema: eles t\u00eam a pretens\u00e3o de oferecer um cat\u00e1logo de pensamentos prontos j\u00e1 traduzidos em imagens. E \u00e9 assim que muitos, n\u00e3o s\u00f3 alunos, mas tamb\u00e9m professores, editores, jornalistas, publicit\u00e1rios tem a oportunidade de resolver qualquer quest\u00e3o com duas ou tr\u00eas palavras-chave nos mecanismos de busca desses servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Apenas pensamentos muito elementares se prestam a esse tipo de redu\u00e7\u00e3o, e apenas imagens estereotipadas podem garantir a legibilidade prometida. Prato cheio para palestras motivacionais, que traduzem racioc\u00ednios \u00f3bvios e conselhos moralistas em ilustra\u00e7\u00f5es que portam alguma dose de humor ou sentimentalismo. Vou poupar nossos olhares de ilustra\u00e7\u00f5es, mas acho que todos reconhecem esse tipo de imagem: s\u00e3o met\u00e1foras rasas, tipo \u201cum homem com uma l\u00e2mpada na cabe\u00e7a\u201d, \u201cum estudante numa corrida de obst\u00e1culos\u201d, \u201cum executivo com uma luva de boxe\u201d, \u201cum gadget mostrado como um canivete-sui\u00e7o\u201d, coisas assim. S\u00e3o imagens pobres, repetitivas, com mensagens did\u00e1ticas que sempre pressup\u00f5e a idiotice do p\u00fablico.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m fizer quest\u00e3o de exemplos, pode dar uma olhada numa <a href=\"http:\/\/www.buzzfeed.com\/mjs538\/60-completely-unusable-stock-photos\">compila\u00e7\u00e3o de sessenta fotos \u201ccompletamente inutiliz\u00e1veis\u201d<\/a> de bancos de imagem que circulou pela internet. Esses s\u00e3o casos extremos do que ocorre quando se tenta arrancar a for\u00e7a uma forma vis\u00edvel de um conjunto mal articulado de \u201cpalavras-chave\u201d. Podemos imaginar que \u00e9 a descontextualiza\u00e7\u00e3o que transforma em piada imagens desse tipo. Mas a aus\u00eancia de contexto \u00e9 o trunfo dessas imagens, elas pretendem ser vers\u00e1teis, globalizadas e gen\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Muitas vezes a arte almeja representar uma experi\u00eancia universal numa forma particular: um retrato deseja representar um drama humano, uma paisagem deseja representar a for\u00e7a da natureza\u00a0 Os grandes bancos, em contrapartida, substituem esse poder aleg\u00f3rico pela afirma\u00e7\u00e3o de \u201ctipos gen\u00e9ricos\u201d: o pai, a m\u00e3e, o filho, o estudante, o executivo, o chefe, a fam\u00edlia, a equipe de trabalho, a sociedade, sempre simplificando e limpando a imagem de toda experi\u00eancia. A representa\u00e7\u00e3o se torna abrangente n\u00e3o porque convida \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o com um outro, mas porque imp\u00f5e um estere\u00f3tipo que reduz todo mundo a uma coisa s\u00f3.<\/p>\n<p>A indexa\u00e7\u00e3o das imagens por meio metadados \u2013 chaves de interpreta\u00e7\u00e3o que podem ser traduzidas em dados quantific\u00e1veis \u2013 constituem uma ci\u00eancia peculiar, com um p\u00e9 na est\u00e9tica e outro na matem\u00e1tica. Sua miss\u00e3o nesse caso \u00e9 permitir a navega\u00e7\u00e3o por um oceano de imagens que tende \u00e0 entropia (a dissolu\u00e7\u00e3o de toda diferen\u00e7a e, assim, de toda possibilidade de sentido). Mas a pregui\u00e7a d\u00e1 a essa ci\u00eancia um papel maior do que ela deveria ter: os metadados, que deveriam ser simplifica\u00e7\u00f5es de interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, passam a ditar os crit\u00e9rios para a produ\u00e7\u00e3o das imagens. Como ilustra\u00e7\u00f5es de \u201cpalavras-chave\u201d, essas fotografias j\u00e1 nascem indexadas, j\u00e1 nascem simplificadas. E assim,\u00a0a imagem que deveria ser est\u00e9tica, se torna anest\u00e9sica, anula a sensibilidade do olhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 novidade nesse processo, \u00e9 a l\u00f3gica da cultura de massa. A hist\u00f3ria da cultura moderna est\u00e1 invariavelmente marcada por uma tens\u00e3o entre \u201cacesso\u201d e \u201cmassifica\u00e7\u00e3o\u201d. O que isso significa? Algo simples: a circula\u00e7\u00e3o exige padroniza\u00e7\u00e3o. Isso tem, em princ\u00edpio, um sentido t\u00e9cnico: a expans\u00e3o das redes de informa\u00e7\u00e3o exige a escolha de um protocolo de comunica\u00e7\u00e3o (assim como a expans\u00e3o da malha ferrovi\u00e1ria exigia a escolha de um tipo \u00fanico de bitola para os trilhos). Isso parece uma quest\u00e3o burocr\u00e1tica, que n\u00e3o afeta nossas experi\u00eancias, nossas viagens. O problema \u00e9 que a l\u00f3gica da padrozina\u00e7\u00e3o se torna um dado da cultura: age sobre uma dimens\u00e3o t\u00e9cnica, mas tamb\u00e9m sobre uma dimens\u00e3o est\u00e9tica. O que circula e se expande sob esse protocolo deve fazer algum sentido para todos. A maneira corajosa de enfrentar isso \u00e9 assumir o ganho que, num m\u00e9dio prazo, pode surgir do conflito cultural e do estranhamento. Esse \u00e9 um belo aprendizado. N\u00e3o temos encontrado esse tempo. A maneira mais f\u00e1cil \u00e9 estabelecer uma m\u00e9dia daquilo que circula. Mas a m\u00e9dia, infelizmente, nunca est\u00e1 no meio, est\u00e1 abaixo, esp\u00e9cie de m\u00ednimo denominador comum.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 um discurso contra a forma de comercializa\u00e7\u00e3o estabelecida pelos bancos de imagem, mas contra a pretens\u00e3o de construir um mercado global por meio de uma linguagem visual m\u00e9dia. A arma contra isso \u00e9 justamente o pequeno banco de imagem, as cooperativas, os coletivos, os artistas independentes com seus fotologs, experi\u00eancias que garantem a diversidade e o estranhamento necess\u00e1rios ao exerc\u00edcio efetivo do olhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse \u00e9 um recado para meus alunos, mas que vale a pena compartilhar. O trabalho final que pe\u00e7o a eles envolve sempre a produ\u00e7\u00e3o de uma obra visual com t\u00e9cnica livre a partir um tema que varia a cada semestre. O objetivo \u00e9 avaliar a capacidade que eles tem de traduzir ou construir uma reflex\u00e3o por meio de imagens. \u00c9 sempre uma experi\u00eancia incr\u00edvel. Mas, nos \u00faltimos anos, os bancos de imagem tem facilitado tanto quanto atrapalhado a nossa vida, ali\u00e1s, atrapalham exatamente pelo modo como pretendem facilitar as coisas. 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