{"id":1774,"date":"2011-04-19T05:57:13","date_gmt":"2011-04-19T05:57:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1774"},"modified":"2016-05-28T14:27:46","modified_gmt":"2016-05-28T14:27:46","slug":"a-construcao-de-uma-geracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-construcao-de-uma-geracao\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Gera\u00e7\u00e3o 00<\/em> \u00e9 uma mostra que assume um grande desafio e, claro, alguns riscos: pensar a produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica de um per\u00edodo marcado pela liberdade de procedimentos, pela velocidade das mudan\u00e7as, uma d\u00e9cada sem um marco inicial e sem um desfecho evidente, vivida por artistas de forma\u00e7\u00f5es e idades muito distintas.<\/p>\n<p>Seria pretensioso propor o mapa de um territ\u00f3rio movedi\u00e7o que, se tem uma marca evidente, \u00e9 a despreocupa\u00e7\u00e3o com suas fronteiras (aquilo que distingue a fotografia de outras linguagens art\u00edsticas e, ainda, aquilo que define cada um de seus usos sociais). Mas Eder Chiodetto, curador da exposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 cuidadoso ao dizer que o que pretende \u00e9 sintetizar n\u00e3o propriamente essa produ\u00e7\u00e3o recente, mas suas principais \u201clinhas de for\u00e7a\u201d. Sendo assim, n\u00e3o cabe julgar o resultado pelos nomes individuais selecionados ou, sequer, por um ou outro tipo de fotografia que ficamos tentados a identificar como hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Podemos pensar em instala\u00e7\u00e3o, performance, v\u00eddeoarte, foto-filme, infografia, abstracionismo, fotografia constru\u00edda etc. De algum modo, essas experi\u00eancias est\u00e3o l\u00e1 devidamente representadas. Mas essas palavras que tentaram dar conta de um universo de experimenta\u00e7\u00f5es surgidas nos \u00faltimos trinta, quarenta anos, de um lado,\u00a0j\u00e1 revelaram seus limites e, de outro, j\u00e1 se institucionalizaram. Em vez de novas nomenclaturas e categorias unificantes, essa\u00a0s\u00edntese visa promover uma experi\u00eancia efetiva com a pluralidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_1780\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/GuilhermeMaranhao_pluracidades1-05_2006.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1780\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1780\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/GuilhermeMaranhao_pluracidades1-05_2006-487x673.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"673\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1780\" class=\"wp-caption-text\">Guilherme Maranh\u00e3o, da s\u00e9rie Pluracidades, 2006-2010.<\/p><\/div>\n<p>A \u00eanfase dada \u00e0s novas tecnologias poderia apontar para um tipo did\u00e1tico de transgress\u00e3o, ainda preocupado demais em expor uma &#8220;den\u00fancia&#8221; da tradi\u00e7\u00e3o. Mas est\u00e3o l\u00e1 as grandes e as pequenas experimenta\u00e7\u00f5es, da desmontagem mais evidente dos c\u00f3digos ao gesto sutil de encena\u00e7\u00e3o que perturba a confian\u00e7a na imagem. E, cabe dizer, tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1 a \u201cfotografia-fotografia\u201d, colocada na moldura, na parede, est\u00e3o l\u00e1 o documento, a mem\u00f3ria, o fotojornalismo, a pesquisa antropol\u00f3gica, velhas coisas que, num certo momento, a fotografia pareceu ter de negar para se afirmar contempor\u00e2nea. Exatamente pelo embate que prop\u00f5e entre a tradi\u00e7\u00e3o documental e a experimenta\u00e7\u00e3o, a leitura proposta pelo bloco \u201cDocumental Imagin\u00e1rio, Novo Fotojornalismo\u201d me pareceu a mais impactante.<\/p>\n<p>Se eu tivesse de apontar algo que distingue a produ\u00e7\u00e3o dessa d\u00e9cada, arriscaria o seguinte: agora, as liberdades conquistadas nas gera\u00e7\u00f5es anteriores podem ser praticadas sem a necessidade de uma bandeira, sem a elei\u00e7\u00e3o de um inimigo, sem rituais de auto-afirma\u00e7\u00e3o. Essa liberdade significa a \u201cpossibilidade\u201d e n\u00e3o a \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d da transgress\u00e3o. E \u00e9 isso que permite a reinven\u00e7\u00e3o do documental nesse campo de experimenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 isso tamb\u00e9m que sepulta a velha e prec\u00e1ria distin\u00e7\u00e3o entre fotojornalismo e fotografia art\u00edstica.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o acerta ao dosar bem suas pretens\u00f5es: n\u00e3o se trata de tentar definir \u2013 como tantas vezes se tentou &#8211; o que \u00e9 a fotografia contempor\u00e2nea, mas sim de apontar potencialidades (as \u201clinhas de for\u00e7a\u201d) que foram consolidadas nessa d\u00e9cada, mesmo que n\u00e3o necessariamente nela inauguradas. Estranhamos encontrar ali Cl\u00e1udia Andujar, com uma fotografia de 1976. O texto fala em homenagem, mas tamb\u00e9m podemos entender essa presen\u00e7a como uma esp\u00e9cie de relativiza\u00e7\u00e3o: o reconhecimento de que toda periodiza\u00e7\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria, de que a hist\u00f3ria \u00e9 feita sempre de di\u00e1logos, sobreposi\u00e7\u00f5es e retornos. Portanto, assim como Cl\u00e1udia Andujar soube se renovar nas d\u00e9cadas seguintes, todas as novidades propostas por essa nova gera\u00e7\u00e3o t\u00eam tamb\u00e9m seu devido di\u00e1logo com a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o possui dois blocos: \u201cLimites, Metalinguagem\u201d e \u201cDocumental Imagin\u00e1rio, Novo Fotojornalismo\u201d. Honestamente, eu preferia que n\u00e3o houesse esse salto, mas imagino que havia ali limita\u00e7\u00f5es impostas pelo espa\u00e7o. Tamb\u00e9m reconhe\u00e7o que essa separa\u00e7\u00e3o ajuda a identificar dois efeitos produzido pela s\u00edntese proposta: mesmo que n\u00e3o haja homogeneidade, enxergamos dentro dos blocos certas \u201cconcentra\u00e7\u00f5es de for\u00e7a\u201d (alguns modos peculiares de se debater com o meio), e mesmo que n\u00e3o haja contradi\u00e7\u00f5es, a passagem entre os blocos sugere a presen\u00e7a de \u201ctens\u00f5es de for\u00e7as\u201d (entre uma imagem que quer pensar a si mesma e outra que ainda tenta dar conta do mundo diante da c\u00e2mera).<\/p>\n<div id=\"attachment_1781\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/S\u00e3o-Jo\u00e3o-e-os-sapatos-CAPA.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1781\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1781\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/S\u00e3o-Jo\u00e3o-e-os-sapatos-CAPA-487x201.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"201\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1781\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Sequeira, da s\u00e9rie Meu Mundo Teu, 2007<\/p><\/div>\n<p>Vi que essa exposi\u00e7\u00e3o gerou d\u00favidas que, creio, a pr\u00f3pria fotografia pode ajudar a responder.<\/p>\n<p>Essa curadoria produz um retrato fiel dessa gera\u00e7\u00e3o? N\u00e3o. Mas e a fotografia, ela pr\u00f3pria, produz um retrato fiel de alguma coisa? A curadoria tamb\u00e9m \u00e9 um recorte que, como tal, assume seus limites, exclui, mas tamb\u00e9m permite a leitura de um extraquadro. Seria estranho supor que uma obra est\u00e1 ali representando outras de sua categoria. A pr\u00f3pria exposi\u00e7\u00e3o nos convida a duvidar da ideia de categorias representativas, e esperamos ter outras oportunidades para ver aquilo de bom ou de ruim que ficou de fora. Mas \u00e9 preciso reconhecer que a reflex\u00e3o que se desprende da exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 sim bastante inclusiva: demarca e estimula a sensibilidade ampla que a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea exige. Assim, essa experi\u00eancia certamente nos ajuda a pensar outros tantos artistas dessa mesma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foram mostrados. Ali\u00e1s, muitos deles estavam l\u00e1 na abertura da exposi\u00e7\u00e3o refor\u00e7ando o debate sobre uma experi\u00eancia que ajudaram a construir.<\/p>\n<p>Mais do que identificar, essa curadoria n\u00e3o constr\u00f3i uma id\u00e9ia de gera\u00e7\u00e3o? Sim. Mas e a fotografia, n\u00e3o \u00e9 ela tamb\u00e9m uma constru\u00e7\u00e3o? Ao tentar identificar um fen\u00f4meno, uma investida conceitual desse porte certamente lhe imp\u00f5e um modo de exist\u00eancia. \u00c9 ao mesmo tempo uma leitura e uma a\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, uma curadoria \u00e9 o sinalizador e o motor dos processos que apresenta. Na pr\u00e1tica, Chiodetto j\u00e1 teve um papel importante na proje\u00e7\u00e3o de alguns daqueles nomes e na afirma\u00e7\u00e3o de seus trabalhos. E \u00e9 evidente que uma exposi\u00e7\u00e3o como essa pode fazer o mesmo com outros artistas menos consagrados. N\u00e3o \u00e9 preciso ver isso com moralismo, temos hoje plena consci\u00eancia de que o cr\u00edtico, o curador e o colecionador s\u00e3o coautores dos sentidos que, depois, com algumas d\u00e9cadas ou s\u00e9culos de distanciamento, os historiadores tentar\u00e3o alinhavar. Se isso soa algo perigoso, Eder Chiodetto parece ter a devida consci\u00eancia de que, al\u00e9m das quest\u00f5es est\u00e9ticas obviamente implicadas, esse gesto de poder tamb\u00e9m exige uma \u00e9tica. Se as escolhas feitas por um curador s\u00e3o sempre arbitr\u00e1rias, tem sido exemplar o modo como ele se abre ao di\u00e1logo, como exp\u00f5e seus crit\u00e9rios, como discute suas decis\u00f5es nos textos, palestras, aulas, nas visitas guiadas e nas conversas informais.<\/p>\n<p>Qualquer um que passar por l\u00e1 vai lembrar de uma d\u00fazia de nomes que gostaria de ver inclu\u00eddos. Tamb\u00e9m pode estranhar uma ou outra presen\u00e7a. Mas \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer a for\u00e7a do conjunto apresentado. Aguardaremos outras leituras, mas esta gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 se revelou privilegiada, pelo que produziu, mas tamb\u00e9m por merecer uma exposi\u00e7\u00e3o como esta.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><em>Gera\u00e7\u00e3o 00<\/em> fica em cartaz no Sesc Belenzinho, em S\u00e3o Paulo, at\u00e9 o dia 12\/06.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gera\u00e7\u00e3o 00 \u00e9 uma mostra que assume um grande desafio e, claro, alguns riscos: pensar a produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica de um per\u00edodo marcado pela liberdade de procedimentos, pela velocidade das mudan\u00e7as, uma d\u00e9cada sem um marco inicial e sem um desfecho evidente, vivida por artistas de forma\u00e7\u00f5es e idades muito distintas. 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