{"id":1725,"date":"2011-04-11T11:50:55","date_gmt":"2011-04-11T11:50:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1725"},"modified":"2017-03-01T12:41:48","modified_gmt":"2017-03-01T12:41:48","slug":"pequeno-tratado-sobre-a-destruicao-de-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/pequeno-tratado-sobre-a-destruicao-de-imagens\/","title":{"rendered":"Pequeno tratado sobre a destrui\u00e7\u00e3o de imagens"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1758\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/terceiro_ato_rubens_fernandes_jr_festfotopoa11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1758\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1758 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/terceiro_ato_rubens_fernandes_jr_festfotopoa1-487x318.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"254\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1758\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o &quot;Terceiro Ato&quot;, de Rubens Fernandes Junior. FestFotoPoa, 2011<\/p><\/div>\n<p>Fiquei pensando muito no que leva algu\u00e9m a rasgar fotografias, como aconteceu com as imagens que Rubens Fernandes encontrou e acolheu em sua cole\u00e7\u00e3o (quem chegou agora, <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1696\" target=\"_blank\">tem que ler o post anterior<\/a>). Uma maneira de responder seria pensar \u00e0s avessas o que leva algu\u00e9m a produzir imagens. Arbitrariamente, pensei em tr\u00eas possibilidades ligadas ao que poder\u00edamos chamar de \u201cpensamento m\u00e1gico\u201d, \u201cpensamento simb\u00f3lico\u201d e \u201cpensamento burocr\u00e1tico\u201d. Em cada um deles, e sucessivamente, existe um n\u00edvel menor de vinculo entre a representa\u00e7\u00e3o e o mundo, portanto, tamb\u00e9m um n\u00edvel menor de afetividade envolvida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1727\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1727\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1727\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/katia_avo1-280x203.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"203\" \/><p id=\"caption-attachment-1727\" class=\"wp-caption-text\">Arquivo pessoal.<\/p><\/div>\n<p>O pensamento m\u00e1gico \u00e9 uma categoria cl\u00e1ssica. Nele, existe uma sobreposi\u00e7\u00e3o entre a representa\u00e7\u00e3o e o mundo: pronuncia-se habilmente um nome e aprisiona-se o ser denominado; manipula-se uma pe\u00e7a de roupa ou um chuma\u00e7o de cabelo para afetar a vida de seu dono; espeta-se um boneco para ferir o corpo verdadeiro. Esse \u00e9 considerado um modo de pensamento primitivo, mas que se resgata em qualquer tempo a partir de rela\u00e7\u00f5es fetichizadas (enfeiti\u00e7adas) que podemos construir com as coisas: quem nunca nunca guardou carinhosamente a foto de algu\u00e9m que ama, como se cuidasse da pessoa fotografada? Aqui, \u00e9 f\u00e1cil imaginar o contr\u00e1rio: quantos j\u00e1 n\u00e3o picotaram essa mesma imagem porque essa pessoa n\u00e3o merecia o carinho que lhe era dedicado?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1753\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/2771698820_7659456088_z.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1753\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1753\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/2771698820_7659456088_z-280x210.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"210\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1753\" class=\"wp-caption-text\">Memento Park, Budapeste. Fragmento da estatua de Stalin, destru\u00edda em 1956. Atualmente, o parque acolhe as esculturas que foram imediatamente retiradas de todo o pa\u00eds, ap\u00f3s a queda do regime comunista em 1989.<\/p><\/div>\n<p>No pensamento simb\u00f3lico, guarda-se alguma diferen\u00e7a entre a representa\u00e7\u00e3o e o mundo, a primeira \u00e9 uma via de express\u00e3o sobre o segundo. Os crist\u00e3os, para n\u00e3o se confundirem com as comunidades pag\u00e3s (marcadas pelo pensamento m\u00e1gico), se esfor\u00e7aram para afirmar a distin\u00e7\u00e3o entre a imagem de Deus que cultuavam e o pr\u00f3prio Deus que, a\u00ed sim, adoravam. Mas aqui est\u00e1 situado um amplo universo de possibilidades, com a implica\u00e7\u00e3o de n\u00edveis diversos de afetividade: a alian\u00e7a no dedo que afirma o compromisso com algu\u00e9m, o monumento que lembra um epis\u00f3dio ou personagem da hist\u00f3ria de um pa\u00eds, a roupa que sugere o pertencimento a uma gera\u00e7\u00e3o. S\u00e3o rituais da cultura que garantem a constru\u00e7\u00e3o das identidades individuais e coletivas. Podemos imaginar que, \u00e0s vezes, essa constru\u00e7\u00e3o exija algumas destrui\u00e7\u00f5es, uma nega\u00e7\u00e3o que \u00e9 em si simb\u00f3lica: sumir com a alian\u00e7a de um casamento fracassado, recusar um emblema patri\u00f3tico associado \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica, doar solenemente a roupa que ligava algu\u00e9m a uma idade que se deseja superar. Mesmo o cristianismo teve que destruir \u00e0s vezes suas imagens para demarcar sua nega\u00e7\u00e3o ao paganismo id\u00f3latra. N\u00e3o que seja \u00f3bvio, mas podemos pensar que as mesmas imagens que participam de um ritual de mem\u00f3ria podem ser convocadas para participar de um ritual de esquecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1729\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/burning_book_berlim.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1729\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1729\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/burning_book_berlim-280x222.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"222\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1729\" class=\"wp-caption-text\">Queima de livros &quot;anti-germ\u00e2nicos&quot;, Berlim, 10\/05\/1933<\/p><\/div>\n<p>No pensamento burocr\u00e1tico, as representa\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligadas a seus objetos pela simples for\u00e7a de um poder, sem qualque tra\u00e7o afetivo. \u00c9 assim que o n\u00famero do PIS representa o trabalhador, um uniforme representa uma escola, um carimbo representa certo direito do cidad\u00e3o. Signos como esses podem ser descartados sem qualquer solenidade, porque est\u00e3o muito fracamente ligados ao que representam: ningu\u00e9m sofreria se abolissem o PIS. Mas vejam, para o poder fascista tudo pode ser tratado como quest\u00e3o burocr\u00e1tica, a arte, o conhecimento, at\u00e9 mesmo a vida pode ser descartada quando n\u00e3o demonstram\u00a0utilidade e\u00a0adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia imposta, a \u00fanica realidade que reconhece. Algumas imagens s\u00e3o usualmente tratadas de modo burocr\u00e1tico: a que o seguro fez do seu carro amassado, aquela em que voc\u00ea aparece no casamento da filha da prima que voc\u00ea nem chegou a conhecer, ou todas as fotos que v\u00e3o pro lixo com o obsoleto jornal de ontem. Essas imagens s\u00e3o destru\u00eddas sem qualquer solenidade, culpa ou explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir desse racioc\u00ednio, podemos tentar inventar uma hist\u00f3ria para as fotos rasgadas da cole\u00e7\u00e3o do Rubens.<\/p>\n<p>Elas podem ter sido destru\u00eddas num surto de f\u00faria, t\u00edpico de quando um la\u00e7o afetivo profundo \u00e9 rompido: por exemplo, quando algu\u00e9m se sente tra\u00eddo pelo melhor amigo, quando uma \u201cCapuleto\u201d se casa com um \u201cMontechio\u201d, quando uma esposa \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia f\u00edsica ou moral por parte do marido. Aqui, o \u00f3dio que move a destrui\u00e7\u00e3o das imagens \u00e9 um sentimento t\u00e3o verdadeiro quanto o amor que garantiria sua produ\u00e7\u00e3o e sua preserva\u00e7\u00e3o. H\u00e1 portanto um sentido. Mas n\u00e3o parece ser esse o caso. Uma a\u00e7\u00e3o passional desse tipo est\u00e1 normalmente associada a um ou outro indiv\u00edduo espec\u00edfico, n\u00e3o a toda uma comunidade, e levaria \u00e0 sua exclus\u00e3o abrupta, a uma destrui\u00e7\u00e3o violenta, n\u00e3o ao gesto quase sistem\u00e1tico de rasgar as imagens como vemos aqui.<\/p>\n<p>Elas podem ter sido destru\u00eddas num ritual \u00edntimo de liberta\u00e7\u00e3o: algu\u00e9m que, em devo\u00e7\u00e3o ao novo amor decide romper todos os v\u00ednculos com os amores antigos; algu\u00e9m que, tendo cumprido o luto pela morte de um ente querido, deseja smplesmente seguir em frente; algu\u00e9m que assume definitivamente as ra\u00edzes com um novo pa\u00eds que n\u00e3o aquele em que nasceu. Aqui, o ritual de esquecimento tem um \u00f4nus, mas tamb\u00e9m um ganho afetivo, perde-se algo para se conquistar algo. Portanto, tamb\u00e9m tem algum sentido. Como o gesto parece visar toda uma fam\u00edlia, ou mais, a toda uma comunidade, poder\u00edamos pensar: ser\u00e1 ent\u00e3o que algu\u00e9m da quarta ou quinta gera\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia japonesa teria desejado se libertar dessas ra\u00edzes para se tornar brasileiro? Dif\u00edcil imaginar algo assim. Isso s\u00f3 faz sentido quando a hist\u00f3ria imp\u00f5e algum antagonismo: pode haver motivos para um judeu n\u00e3o reconhecer sua origem alem\u00e3; para um africano ou latino-americano n\u00e3o se identificar com a hist\u00f3ria ligada \u00e0 viol\u00eancia de seus antepassados colonizadores, para um ucraniano n\u00e3o se sentir parte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, coisas assim. Mas a hist\u00f3ria do Brasil est\u00e1 profundamente vinculada \u00e0 presen\u00e7a de seus imigrantes. Reconhecer a origem estrangeira apenas afirmaria uma hist\u00f3ria tipicamente brasileira. E, como disse o Rubens, aquelas imagens s\u00e3o representativas dessa passagem cultural.<\/p>\n<p>Tristemente, o que resta \u00e9 uma raz\u00e3o burocr\u00e1tica para o descarte. Os rasgos sistem\u00e1ticos parecem produzidos por um gesto quase mec\u00e2nico exercido sobre algo j\u00e1 desprovido de sentido. Como um escrit\u00f3rio que coloca \u201cvelhos pap\u00e9is\u201d na picotadora antes de mandar para reciclagem. Ali, j\u00e1 n\u00e3o se reconhecia uma mem\u00f3ria, n\u00e3o havia uma causa contra a qual lutar ou uma origem da qual se libertar. J\u00e1 n\u00e3o havia sequer uma imagem. N\u00e3o h\u00e1 pessoas, apenas formas que comp\u00f5em uma id\u00e9ia vaga e abstrata de fam\u00edlia, mais ou menos como a imagem de uma planta representa sua categoria vegetal num livro escolar. O \u00fanico aspecto ritual que existe na a\u00e7\u00e3o de rasgar deste modo os documentos \u2013 sejam os pap\u00e9is do escrit\u00f3rio ou estas fotografias \u2013 parece ser a afirma\u00e7\u00e3o da propriedade privada (a privacidade): n\u00e3o se d\u00e1 a terceiros o direito de buscar sentidos naquilo que seu propriet\u00e1rio decretou como insignificante. Portanto, rasgar essas fotos era uma maneira de evitar qualquer outro interesse poss\u00edvel sobre as imagens, evitar que pudessem pertencer a uma cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1759\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/terceiro_ato_rubens_fernandes_jr_festfotopoa21.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1759\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1759 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/terceiro_ato_rubens_fernandes_jr_festfotopoa2-487x498.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"398\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1759\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o &quot;Terceiro Ato&quot;, de Rubens Fernandes Junior. FestFotoPoa, 2011<\/p><\/div>\n<p>Mas a mem\u00f3ria tem sua reden\u00e7\u00e3o nesse gesto de reapropria\u00e7\u00e3o afetiva de imagens de pessoas an\u00f4nimas, feito por este \u201ccolecionador de olhares desconhecidos\u201d. \u00a0Contra este gesto afetivo, o gesto de destrui\u00e7\u00e3o das imagens se mostra impotente, porque o que motiva a cole\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com a possibilidade de ser o novo propriet\u00e1rio de uma antiguidade bem preservada. Tem a ver com um olhar que aprendeu a se alimentar t\u00e3o espont\u00e2neamente de mem\u00f3rias que o valor material do objeto se torna secund\u00e1rio. \u00a0Sob essa perspectiva, o gesto burocr\u00e1tico e destrutivo apenas torna essas imagens ainda mais carregada de um sentido potencial, porque \u00e9 uma mem\u00f3ria sobrevivente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei pensando muito no que leva algu\u00e9m a rasgar fotografias, como aconteceu com as imagens que Rubens Fernandes encontrou e acolheu em sua cole\u00e7\u00e3o (quem chegou agora, tem que ler o post anterior). Uma maneira de responder seria pensar \u00e0s avessas o que leva algu\u00e9m a produzir imagens. Arbitrariamente, pensei em tr\u00eas possibilidades ligadas ao que poder\u00edamos chamar de \u201cpensamento m\u00e1gico\u201d, \u201cpensamento simb\u00f3lico\u201d e \u201cpensamento burocr\u00e1tico\u201d. 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