{"id":1696,"date":"2011-04-05T04:56:26","date_gmt":"2011-04-05T04:56:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1696"},"modified":"2017-03-01T12:41:00","modified_gmt":"2017-03-01T12:41:00","slug":"colecionador-de-olhares-desaparecidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/colecionador-de-olhares-desaparecidos\/","title":{"rendered":"Colecionador de Olhares Desaparecidos [parte 1]"},"content":{"rendered":"<p><strong>Primeiro Ato<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/casal-tradicional2.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1697 alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/casal-tradicional2.jpg\" width=\"350\" height=\"472\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>Em 2009, passeando pela Feira do Bixiga, em S\u00e3o Paulo, num domingo qualquer, me deparei com um estranho amontoado de fragmentos fotogr\u00e1ficos. Simplesmente uma cole\u00e7\u00e3o de recortes fotogr\u00e1ficos, ou melhor, dezenas de fotografias rasgadas aos peda\u00e7os. Sim, quem resolveu jogar fora as fotografias tamb\u00e9m decidiu rasg\u00e1-las como meio de tentar fazer desaparecer suas imagens do passado.<\/p>\n<p>Incomodou-me o fato de algu\u00e9m ter tido a coragem de descartar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, por pior que seja. Tudo me perturbou: as fotografias rasgadas, os japoneses retratados, aqueles rostos desconhecidos, as roupas, os textos ideogram\u00e1ticos, quase desenhos nos versos das imagens, enfim, um rico material descartado por algu\u00e9m sem a m\u00ednima sensibilidade nem qualquer perspectiva de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Indaguei um pouco sobre a origem do material. Teresa, minha fornecedora, me falou que tem alguns meninos que recolhem material descartado (ou seria lixo recicl\u00e1vel?) \u201ctreinados\u201d para de encontrar algo com algum diferencial. Ent\u00e3o, apesar de algu\u00e9m ter rasgado e jogado no lixo, aquele material foi, primeiramente, valorizado por um an\u00f4nimo garoto que percebeu algum potencial naqueles fragmentos. Teresa n\u00e3o queria ficar com o material, mas precisa da rede de meninos para abastecer o seu neg\u00f3cio, pois a qualquer momento poder\u00e1 encontrar algum diamante que mudar\u00e1 sua vida. Ela acabou me convencendo da necessidade de ficar com aqueles fragmentos, apesar de parcialmente destru\u00eddos.<\/p>\n<p>Aquelas fotografias rasgadas \u201cimploraram\u201d e acabaram em meu arquivo. Pensei em aproveitar algumas delas, raras de encontrar dispon\u00edvel por tratar-se de iconografia de um tempo passado e de uma situa\u00e7\u00e3o de intimidade familiar. O material ficou guardado por algumas semanas esperando oportunidade de ser remontado e resignificado.<\/p>\n<p><strong>Segundo Ato<\/strong><\/p>\n<p><strong><strong><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/familia-roxa1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/familia-roxa1.jpg\" width=\"350\" height=\"281\" \/><\/a><\/strong><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 incr\u00edvel como n\u00f3s, brasileiros de modo geral, n\u00e3o sabemos valorizar os pertences familiares. O que levou a pessoa a se desfazer do material e de maneira t\u00e3o violenta e destrutiva? Qual seria o percurso dessas imagens familiares ao longo da sua hist\u00f3ria? Ser\u00e1 que as fotografias que remetem ao in\u00edcio do s\u00e9culo pertencem \u00e0quela hist\u00f3ria familiar? Quem seriam estes japoneses retratados em tantas ocasi\u00f5es? Quantas fam\u00edlias est\u00e3o envolvidas nas fotografias? Ser\u00e1 que existe troca de fotografias entre os familiares do Jap\u00e3o e os daqui do Brasil? Qual ser\u00e1 o significado daqueles lindos ideogramas nos versos das fotografias? Quantas gera\u00e7\u00f5es estar\u00e3o presentes nestas imagens? Como elas migraram para S\u00e3o Paulo? Que caminhos percorreram?<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as perguntas e quase sempre sem respostas, mas estas d\u00favidas me estimularam e por isso mesmo acabei adquirindo as fotografias abandonadas na lata do lixo da hist\u00f3ria. As evid\u00eancias eram apenas aquelas deixadas na pr\u00f3pria fotografia, como o nome do fot\u00f3grafo, poucas datas, alguns est\u00fadios, as cidades envolvidas, os \u00edndices presentes na pr\u00f3pria imagem a partir do aculturamento do grupo. \u00c9 percept\u00edvel que o grupo era conservador pois as roupas e alguns gestos flagrados nos d\u00e3o evid\u00eancias que aconteceu um processo de mesti\u00e7agem cultural. Enquanto as primeiras imagens s\u00e3o nitidamente \u201cjaponesas\u201d, as mais recentes j\u00e1 mostram grupos miscigenados \u2013 ocidentais, negros e japoneses.<\/p>\n<p><strong>Terceiro Ato<\/strong><\/p>\n<p><strong><strong><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/escola-vertical1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/escola-vertical1.jpg\" width=\"350\" height=\"431\" \/><\/a><\/strong><\/strong><\/p>\n<p>Como sou um colecionador de olhares desaparecidos, senti o potencial existente naquela mala abandonada com fotografias rasgadas. Comecei a unir os fragmentos no terceiro ato, como se estivesse numa trama dram\u00e1tica de mem\u00f3ria e esquecimento. Por enquanto, s\u00e3o imagens quase an\u00f4nimas encontradas no lixo por um catador de papel, que as repassou para uma vendedora da Feira do Bixiga, chegando ent\u00e3o \u00e0s minhas m\u00e3os. Tudo ainda muito insuficiente para ganhar relev\u00e2ncia. De qualquer maneira, o fato de ter percorrido esse estranho caminho \u2013 o objetivo inicial do descarte era simplesmente o esquecimento e o apagamento \u2013 e ter ca\u00eddo em minhas m\u00e3os \u00e9 uma surpreendente coincid\u00eancia. Um material perdido resignificado poder\u00e1 ganhar contornos inimagin\u00e1veis. Como se apresentou para mim e n\u00e3o por acaso, ap\u00f3s alguma pesquisa e reflex\u00e3o, busquei reencontrar os fios que tecem esta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Montei aproximadamente 40 fotografias, entre as quais selecionei algumas para a exposi\u00e7\u00e3o<strong> Terceiro Ato<\/strong>, agora apresentada no 5\u00ba FestFotoPOA<strong> <\/strong>\u2013 Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre. Passei um tempo montando este quebra-cabe\u00e7a, sem fazer emendas definitivas, mas conectando os peda\u00e7os para tentar entender o conjunto. Estas fotografias contam uma hist\u00f3ria que perdeu os seus elos ao longo do caminho e fez algu\u00e9m descart\u00e1-las. Claro, antes disso, precisava desfigur\u00e1-las, destrui-las. Mas, perguntas ainda ressoam em minha cabe\u00e7a: fotografias rasgadas continuam fotografias? Porque tornar novamente vis\u00edvel aquilo que foi violentamente descartado?<\/p>\n<p>Bem, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado parcial dessas inquieta\u00e7\u00f5es. Resignificadas, as fotografias continuam rasgadas s\u00f3 que agora s\u00e3o vistas em outro circuito. Assumi a cor e os desenhos entre os peda\u00e7os que n\u00e3o querem se juntar, mas se transformar em outros ideogramas que clamam por novos significados<strong> <\/strong>e por uma nova exist\u00eancia. Que buscam dar evid\u00eancias de sua import\u00e2ncia do ponto de vista t\u00e9cnico e hist\u00f3rico. Vamos compreender esta exposi\u00e7\u00e3o como uma tentativa de recuperar o prest\u00edgio destas fotografias abandonadas e como uma colabora\u00e7\u00e3o que busca reconstruir uma mem\u00f3ria an\u00f4nima t\u00e3o importante quanto qualquer mem\u00f3ria oficial. Isso \u00e9 parte de um projeto pessoal mais amplo que \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da fotografia produzida por fot\u00f3grafos desconhecidos e por fot\u00f3grafos amadores Brasil afora, que n\u00e3o foram contemplados, muito menos valorizados ao longo destes 170 anos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><script type='text\/javascript' src='https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/hana-flv-player\/flowplayer\/html\/flashembed2.min.js'><\/script>\n<div >\n<div id='hana_flv_flow_1' style='display:block;width:620px;height:385px;background-color:#555555;color:#ffffff;padding:0'>\n<div class='inactive_message'><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n<script type='text\/javascript'>\nif (typeof g_hanaFlash !== 'undefined' && !g_hanaFlash){\n    jQuery('#hana_flv_flow_1').css( 'padding', '5px' );\n\tjQuery('#hana_flv_flow_1 .inactive_message').html('Sorry, your browser does not support Flash Video Player');\n}else{\n    flashembed2('hana_flv_flow_1',\n      { src:'https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/hana-flv-player\/flowplayer\/FlowPlayerDark.swf', wmode: 'transparent', width: 620,  height: 385 },\n      { config: { videoFile: 'http:\/\/www.iconica.com.br\/videos\/terceiro_ato_rubens_fernandes.flv', autoPlay: false ,loop: false, autoRewind: true, autoBuffering: true,\n\t\t\t initialScale: 'scale' ,controlsOverVideo: 'ease'\n\n\t    }}\n    );\n}\n<\/script><br \/>\n&#8220;Terceiro Ato&#8221;. V\u00eddeo feito por Cia de Foto e Galeria Experi\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2009, passeando pela Feira do Bixiga, em S\u00e3o Paulo, num domingo qualquer, me deparei com um estranho amontoado de fragmentos fotogr\u00e1ficos. Simplesmente uma cole\u00e7\u00e3o de recortes fotogr\u00e1ficos, ou melhor, dezenas de fotografias rasgadas aos peda\u00e7os. 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