{"id":1612,"date":"2011-03-21T04:47:47","date_gmt":"2011-03-21T04:47:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1612"},"modified":"2016-05-28T14:28:01","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:01","slug":"inhotim-espaco-e-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/inhotim-espaco-e-experiencia\/","title":{"rendered":"Inhotim: espa\u00e7o e experi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Neste carnaval, fui conhecer Inhotim. Eu sabia que encontraria obras importantes de grandes artistas, algumas delas j\u00e1 vistas em outras montagens. A surpresa n\u00e3o \u00e9 a qualidade das obras, mas a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Ali circulam artistas, cr\u00edticos, estudantes, turistas, gente perdida, de tudo um pouco. Vez ou outra, uns estranham os comportamentos dos outros, mas o espa\u00e7o \u00e9 capaz de satisfazer igualmente a todos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/maps.google.com\/?ie=UTF8&amp;t=k&amp;ecpose=-20.12591093,-44.21941115,1377.48,-31.834,10.434,0&amp;source=embed&amp;ll=-20.124196,-44.218823&amp;spn=0.003526,0.005364&amp;z=17\">Inhotim: GoogleMaps<\/a><\/p>\n<p>Assimilamos a ideia de que a arte \u00e9 uma atividade dotada de autonomia, que se justifica por si mesma. Mas a defesa dessa especificidade tem como efeito colateral um distanciamento entre arte e vida cotidiana. Os estudiosos v\u00eaem na arte um objeto que exige uma forma pr\u00f3pria de conhecimento, os amadores, uma atividade que exige um tanto de solenidade. Uns como outros sempre chegam armados diante das obras, os primeiros com seus m\u00e9todos, os segundos, com certa mistifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o igualmente duas formas de preconceito.<\/p>\n<p>Para quem tem boa-vontade, Inhotim oferece a oportunidade rara de se desarmar. Antes e al\u00e9m das obras, encontramos a paisagem, os jardins, as edifica\u00e7\u00f5es. Claro, jardins e edifica\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m s\u00e3o obras de arte assinadas por nomes importantes, mas que est\u00e3o integradas ao espa\u00e7o, que s\u00e3o o pr\u00f3prio espa\u00e7o, e n\u00e3o est\u00e3o separadas dele por uma moldura, por um pedestal. S\u00e3o obras de arte que podem ser vistas enquanto se perambula, que n\u00e3o tem o peso dessa \u201cespecificidade\u201d e, portanto, que n\u00e3o ativam de imediato o olhar anal\u00edtico ou o olhar deslumbrado que se carrega quando se abandona a rotina para entrar num museu.<\/p>\n<p>Inhotim tem o m\u00e9rito de permitir um pouco de vida em torno das obras, algo que talvez n\u00e3o tenha sido planejado desde o in\u00edcio. Parece ser o desdobramento natural de sua origem: um investidor que gosta de arte, bem assessorado e bem acompanhado por gente que entende do assunto, decide colocar obras consagradas no jardim de casa para deleite pr\u00f3prio e de seus convidados. N\u00e3o chega a ser uma estrat\u00e9gia curatorial, mas talvez combine os ingredientes necess\u00e1rios para tocar o grande p\u00fablico.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia que produz \u00e9 o contr\u00e1rio da imers\u00e3o, que pressup\u00f5e abandonar um meio para acomodar-se a outro. As bienais exigem imers\u00e3o: passa-se dias vendo, pensando, respirando arte. L\u00e1, n\u00e3o. Os mais sistem\u00e1ticos, que t\u00eam em Inhotim muito material para pesquisa, tamb\u00e9m se perdem um pouco em coisas banais como um recorte da paisagem, a vegeta\u00e7\u00e3o, os animais, um bom caf\u00e9 e, mais cedo ou mais tarde, deixam escapar adjetivos nada especializados. Em contrapartida, os mais perdidos, que tinham Inhotim inclu\u00eddo no pacote, certamente aprendem muita coisa quase sem perceber.<\/p>\n<p>O ambiente que oferece \u00e9 o oposto do \u201ccubo branco\u201d, ideal de espa\u00e7o que pretende se neutro em torno da obra. Mesmo quando n\u00e3o se exige, tudo parece ser tratado como \u201csite specific\u201d. O espa\u00e7o sempre aparece, ou porque foi desenhado para a obra, ou porque a obra foi concebida para aquele lugar, ou porque espa\u00e7o e obra s\u00e3o indistintos.<\/p>\n<p>A disponibilidade de espa\u00e7o \u00e9 tamanha, as galerias s\u00e3o t\u00e3o generosas que quase despertam certo moralismo: \u201ctanto museu improvisando seus puxadinhos, tanta obra sem um peda\u00e7o de parede pra ser pendurada&#8230;!\u201d. Mas \u00e9 interessante perceber como essa amplitude muda nossa rela\u00e7\u00e3o como a obra: a possibilidade de chegar perto, de se afatar, circular, atravessar a obra; se for o caso, tamb\u00e9m de olhar para onde a obra n\u00e3o est\u00e1, vivenciar o ambiente, a arquitetura, para logo depois ser fisgado novamente pela obra. Um exemplo pr\u00f3ximo de n\u00f3s: mesmo que pare\u00e7a que j\u00e1 vimos o bastante, \u00e9 incr\u00edvel entrar literalmente em alguns trabalhos de Miguel Rio Branco.<\/p>\n<div id=\"attachment_1642\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/miguel-rio-branco1.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1642\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/miguel-rio-branco-487x303.png\" alt=\"Galeria Miguel Rio Branco\" width=\"487\" height=\"303\" class=\"size-large wp-image-1642\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1642\" class=\"wp-caption-text\">Pavilh\u00e3o Miguel Rio Branco<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o devemos tratar essa amplitude luxuosa como um ideal de espa\u00e7o que deveria substituir o \u201ccubo branco\u201d. Se temos ali um bom laborat\u00f3rio de como a arte pode ser vivenciada por um olhar menos tenso, Inhotim continua sendo um espa\u00e7o distante, excepcional, nada cotidiano. Fica a experi\u00eancia, mas resta saber como ela poderia ser constru\u00edda tamb\u00e9m em outros centros culturais, nos espa\u00e7os p\u00fablicos, nas ruas das cidades.<\/p>\n<p>Dentro e fora das galerias, h\u00e1 uma legi\u00e3o de monitores que integram um belo projeto de forma\u00e7\u00e3o que inclui muitos moradores da modesta cidade de Brumadinho. N\u00e3o se pode esperar deles que saibam discutir as obras e os artistas, \u00e9 natural que precisem de mais tempo. Mesmo assim, \u00e9 muito bom ouvi-los falar sobre o que aprenderam ali. S\u00e3o algumas falas mais institucionais que incomodam. Quando perguntados sobre a hist\u00f3ria do lugar, eles t\u00eam na ponta da l\u00edngua um discurso sobre \u201ca doa\u00e7\u00e3o daquele patrim\u00f4nio \u00e0 socieade\u201d. N\u00e3o que seja fundamental, mas algumas informa\u00e7\u00f5es sobre as personalidades envolvidas no projeto s\u00e3o tratadas como tabus para eles. Quando provocados, a resposta vem num estilo <em>atendimento ao consumidor<\/em>: \u201cn\u00e3o tenho essa informa\u00e7\u00e3o, senhor\u201d. Isso apenas ajuda a alimentar algumas fantasias junto ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Ao lado das obras, sempre encontramos um pequeno texto. Algo necess\u00e1rio, mas \u00e9 preciso ter cuidado com o que se pode fazer com dois par\u00e1grafos. Depois de uma apresenta\u00e7\u00e3o do artista, um pouco propagand\u00edstica \u00e0s vezes, sempre vem uma explica\u00e7\u00e3o suscinta sobre a obra. Tentando dar conta do aspecto conceitual da arte contempor\u00e2nea, esse texto sempre corre o risco de antecipar \u201co que a obra quer dizer\u201d, impondo um jogo po\u00e9tico de palavras, mas sem necessariamente alcan\u00e7ar uma conex\u00e3o com o que se v\u00ea.<\/p>\n<div id=\"attachment_1630\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/Cildo-Meireles.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1630\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1630\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/Cildo-Meireles-487x330.jpg\" alt=\"Cildo Meireles, Desvio para o vermelho I, 1967-84 (foto: Pedro Motta)\" width=\"487\" height=\"330\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1630\" class=\"wp-caption-text\">Cildo Meireles, Desvio para o vermelho, 1967-84 (foto: Pedro Motta)<\/p><\/div>\n<p>Em Inhotim, essa cole\u00e7\u00e3o formada entre o prazer privado e o conhecimento t\u00e9cnico tem o m\u00e9rito de resultar num conjunto denso e amig\u00e1vel ao mesmo tempo. Encontramos alguns cl\u00e1ssicos da arte contempor\u00e2nea, obras que podem render um bom papo-cabe\u00e7a, mas que tamb\u00e9m enchem os olhos: s\u00e3o pl\u00e1sticas, monumentais, interativas, l\u00fadicas, revelam hist\u00f3rias curiosas em seus materiais, em sua montagem, em seu modo de funcionamento. N\u00e3o vemos ali uma fra\u00e7\u00e3o da arte contempor\u00e2nea que se pretende desmaterialziada, anti-est\u00e9tica, avessa a qualquer forma de contempla\u00e7\u00e3o, e que exige mais esfor\u00e7o para fazer sentido. Inhotim n\u00e3o tem nenhuma obrigra\u00e7\u00e3o de mapear todas possibilidades da arte contempor\u00e2nea mas, como um pr\u00f3ximo desafio, seria interessante testar esse espa\u00e7o amplo e bem cuidado diante de produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas menos espetaculares e mais arriscadas. Isso significaria dedicar esse investimento n\u00e3o apenas \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma arte contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Feitas essas pondera\u00e7\u00f5es, o que fica \u00e9 uma experi\u00eancia incr\u00edvel. H\u00e1 boas li\u00e7\u00f5es pra se tirar dali. Tem que ir. E como ainda se trata de um espa\u00e7o em constru\u00e7\u00e3o, tem que voltar de vez em quando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste carnaval, fui conhecer Inhotim. Eu sabia que encontraria obras importantes de grandes artistas, algumas delas j\u00e1 vistas em outras montagens. A surpresa n\u00e3o \u00e9 a qualidade das obras, mas a experi\u00eancia. Ali circulam artistas, cr\u00edticos, estudantes, turistas, gente perdida, de tudo um pouco. Vez ou outra, uns estranham os comportamentos dos outros, mas o espa\u00e7o \u00e9 capaz de satisfazer igualmente a todos. 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