{"id":1589,"date":"2011-02-28T03:22:43","date_gmt":"2011-02-28T03:22:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1589"},"modified":"2016-05-28T14:28:10","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:10","slug":"seducao-da-ausencia-os-descaminhos-de-um-tema-de-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/seducao-da-ausencia-os-descaminhos-de-um-tema-de-pesquisa\/","title":{"rendered":"Sedu\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia: os descaminhos de um tema de pesquisa"},"content":{"rendered":"<p>Na minha pesquisa de p\u00f3s-doc, discuti os trabalhos de Christian Boltanski e Sophie Calle a partir da seguinte hip\u00f3tese: muitas vezes, a fotografia seduz n\u00e3o tanto pelo que ela mostra, mas pelo que esconde, pela hist\u00f3ria que\u00a0 supomos existir e que ela n\u00e3o \u00e9 capaz de contar. Essa pesquisa virou um <a href=\"http:\/\/www.eca.usp.br\/cap\/ars8\/entler.pdf\" target=\"_blank\">artigo<\/a>, mas n\u00e3o foi oportuno contar ali uma das origens dessa intui\u00e7\u00e3o. Esses dias, uma ex-aluna me escreveu pedindo para relembrar o epis\u00f3dio. Decidi compartilhar.<\/p>\n<div id=\"attachment_1591\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Boltanski-Reserve-19891.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1591\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1591\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Boltanski-Reserve-1989-487x291.png\" alt=\"Christian Boltanski, Lic\u00e9e Chases, 1986-7.\" width=\"487\" height=\"291\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1591\" class=\"wp-caption-text\">Christian Boltanski, Lic\u00e9e Chases, 1986-7.<\/p><\/div>\n<p>Em 2000, caminhando na regi\u00e3o da Av. Paulista, eu achei uma carta escrita a m\u00e3o numa folha de caderno: uma mulher respondia a um an\u00fancio de um homem que procurava por sexo sem compromisso. Apesar do assunto, a linguagem era formal, nada erotizada. Ela explicava que morava desde a adolesc\u00eancia com uma fam\u00edlia para quem trabalhava. Considerava essas pessoas sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, mas dava a entender que toda sua rotina girava em torno das necessidades deles, e que ela n\u00e3o tinha uma vida social pr\u00f3pria. Pr\u00f3xima dos 40 anos, ela dizia ter certas curiosidades e, por isso, respondia ao an\u00fancio. Ela falava da fisionomia e do corpo de forma quase contratual, e assumia n\u00e3o haver ali nenhuma outra expectativa. Ao final, um nome e um telefone.<\/p>\n<p>Essa carta ficou cerca de dois meses pregada numa parede em frente a minha mesa de trabalho. J\u00e1 n\u00e3o havia mais o que reler, mas eu continuava olhando para ela como uma imagem. Como acontece quando lemos um romance, acabei inventando um rosto para aquela personagem, e desenhei a continua\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria de todos os jeitos: rolou, n\u00e3o rolou. Foi s\u00f3 aquilo, foi mais que aquilo. Ela desistiu de mandar a carta e jogou fora. O homem recebeu a carta e jogou fora. Considerei at\u00e9 a possibilidade daquilo ser parte da performance de algum artista que inventa e deixa cartas pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p>E aquele n\u00famero de telefone? Cheguei a ensaiar algumas estrat\u00e9gias de abordagem. Mas tive um surto de bom-senso. Quantas vezes alguma coisa n\u00e3o nos pareceu melhor enquanto exisita como promessa, como fantasia, como utopia? \u00a0Qual hist\u00f3ria seria capaz de mobilizar em mim o mesmo n\u00edvel de imagina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Uma analogia: quem j\u00e1 n\u00e3o se viu cativado por uma foto que encontrou em algum lugar, an\u00f4nima, sem nenhuma informa\u00e7\u00e3o ou legenda? Ao contr\u00e1rio, quem j\u00e1 n\u00e3o morreu de t\u00e9dio diante dos relatos eloquentes que acompanham o &#8220;slide show&#8221; da viagem que um parente compartilha conosco em seu &#8220;home theater&#8221;?<\/p>\n<p>Algo assim permite entender a diferen\u00e7a entre a pornografia e o erotismo. A pornografia resolve o desejo e o esgota ao revelar tudo.\u00a0 Por isso sempre deixa certa frustra\u00e7\u00e3o. O erotismo alimenta o desejo ao sugerir que h\u00e1 mais para ser visto.<\/p>\n<p>O valor est\u00e1 no que se v\u00ea, mas tamb\u00e9m no que se esconde, no devir.\u00a0O devir, uma esp\u00e9cie de futuro do pret\u00e9rito contido naquela carta, era muito melhor do que qualquer desfecho que a hist\u00f3ria pudesse ter. Em vez da resposta certa, preferi guardar as perguntas. Joguei a carta no lixo.<\/p>\n<p>Com o tempo, isso me ajudou a entender um valor que algumas fotografias possuem: uma justa medida entre o fato que apresentam e a hist\u00f3ria que n\u00e3o contam,\u00a0 entre seu poder de refer\u00eancia e seu sil\u00eancio, entre seu realismo e a abertura que deixam para o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Gostava muito do trabalho de Christian Boltanski e de Sophie Calle, e passei a v\u00ea-los como artistas que sabem jogar com essa medida. Numa noite de ins\u00f4nia, esse epis\u00f3dio, esses artistas e algumas leituras se cruzaram, e nasceu o projeto de P\u00f3s-Doc que apresentei \u00e0 Unicamp, chamado provisoriamente de \u201cSedu\u00e7\u00e3o da Aus\u00eancia\u201d. Mas a\u00ed come\u00e7a a hist\u00f3ria oficial.<\/p>\n<p>Em geral, uma pesquisa acad\u00eamica nasce de escolhas e justificativas bastante met\u00f3dicas. Mas, uma vez ou outra, eu tive a sorte de ser escolhido por um tema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha pesquisa de p\u00f3s-doc, discuti os trabalhos de Christian Boltanski e Sophie Calle a partir da seguinte hip\u00f3tese: muitas vezes, a fotografia seduz n\u00e3o tanto pelo que ela mostra, mas pelo que esconde, pela hist\u00f3ria que\u00a0 supomos existir e que ela n\u00e3o \u00e9 capaz de contar. Essa pesquisa virou um artigo, mas n\u00e3o foi oportuno contar ali uma das origens dessa intui\u00e7\u00e3o. Esses dias, uma ex-aluna me escreveu pedindo para relembrar o epis\u00f3dio. Decidi compartilhar. Em 2000, caminhando na regi\u00e3o da Av. 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