{"id":1570,"date":"2011-02-13T16:09:38","date_gmt":"2011-02-13T16:09:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1570"},"modified":"2016-05-28T14:28:29","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:29","slug":"a-imagem-do-ano-do-world-press-photo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-imagem-do-ano-do-world-press-photo\/","title":{"rendered":"A imagem do ano do World Press Photo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1571\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/101208-aisha-afghan-1a.grid-5x21.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1571\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1571\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/101208-aisha-afghan-1a.grid-5x2-280x370.jpg\" alt=\"Revista Time, 19\/07\/2010\" width=\"280\" height=\"370\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1571\" class=\"wp-caption-text\">Revista Time, 19\/07\/2010<\/p><\/div>\n<p>Fiquei surpreso com a foto escolhida como \u201cimagem do ano de 2010\u201d pelo World Press Photo: o retrado feito pela sulafricana Jodi Bieber da jovem afeg\u00e3 Aisha, que teve seu nariz e orelhas decepados pelo marido, com o apoio do Taleban.<\/p>\n<p>Lembro bem de quando a imagem circulou pelo mundo no ano passado depois de ser publicada na capa da revista Time. \u00c9 desse tipo de cena que voc\u00ea olha com o est\u00f4mago e s\u00f3 consegue responder com o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Foi uma experi\u00eancia forte, sem d\u00favida, mas em momento algum senti que estava diante de uma grande fotografia. Ela \u00e9 boa talvez no sentido de demandar credibilidade e de dar express\u00e3o \u00e0 gravidade do fato. Mas nada muito al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Vamos ent\u00e3o refletir um pouco mais sobre essa imagem, sobre sua publica\u00e7\u00e3o pela Time, sobre o pr\u00eamio recebido. N\u00e3o tenho clareza do que penso. Acreditem, vou tentar entender enquanto escrevo.<\/p>\n<p>&#8211; A imagem exp\u00f5e o resultado da viol\u00eancia sem nenhum pudor. Sensacionalismo? A imagem \u00e9 sem d\u00favida \u201capelativa\u201d, no duplo sentido do termo: \u00e9 um clamor e uma superexposi\u00e7\u00e3o. Dif\u00edcil saber se uma coisa justifica a outra, isto \u00e9, se a necessidade de trazer algo \u00e0 nossa consci\u00eancia justifica a carga excessiva colocada sobre nosso olhar. Mas essas duas coisas est\u00e3o l\u00e1, tanto pior se fosse apenas a segunda.\u00a0<a href=\"http:\/\/http\/\/www.time.com\/time\/world\/article\/0,8599,2007269,00.html%22%20%5Ct%20%22_blank\">Como assume o editor<\/a>, \u201cnossa imagem de capa desta semana \u00e9 forte, impactante e perturbadora\u201d. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Sem nenhuma ingenuidade, eles est\u00e3o bancando ali uma quase <em>propaganda<\/em> (de guerra): \u201co que acontece se deixarmos o Afeganist\u00e3o\u201d, diz a chamada, referindo-se \u00e0 discuss\u00e3o sobre o fim da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar dos EUA no pa\u00eds do oriente-m\u00e9dio. A imagem \u00e9 a resposta.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 apenas a viol\u00eancia que nos perturba. \u00c9 sua proximidade. O Afeganist\u00e3o continua longe e, em princ\u00edpio, ainda estamos \u201cdiante da dor dos outros\u201d \u00e0 qual normalmente reagimos com um misto de repulsa e curiosidade. Mas, nesse caso, h\u00e1 algo diferente, um v\u00ednculo forte com o ocidente. N\u00e3o s\u00f3 porque os EUA est\u00e3o no Afegaist\u00e3o (esse \u00e9 o tema da reportagem da Time), ou porque a garota j\u00e1 estava sob a prote\u00e7\u00e3o das tropas americanas, antes de seguir para os EUA. A quest\u00e3o \u00e9 que temos ali uma beleza que tamb\u00e9m \u00e9 a nossa, uma mulher que poderia ter qualquer nacionalidade, um rosto que, se n\u00e3o estivesse mutilado, n\u00e3o apenas despertaria nossa compaix\u00e3o, mas tamb\u00e9m nos seduziria. H\u00e1 um potencial ocidental nesse rosto que impede sua abordagem como ex\u00f3tico. Diferente de pensar \u201cpobre das mulheres daqueles homens\u201d, \u00e9 como se a viol\u00eancia tivesse agora atingido uma das nossas. Portanto, o pr\u00f3prio fato envolve uma quest\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o com uma imagem.<\/p>\n<p>&#8211; A foto parece ser pouco elaborada, um retrato numa capa como tantas outras que j\u00e1 vimos. N\u00e3o h\u00e1 uma composi\u00e7\u00e3o que se destaca, um enquadramento peculiar, um instante decisivo.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jodibieber.com\/\">No site de Jodi Bieber<\/a>, h\u00e1 v\u00e1rios ensaios que demonstram melhor sua compet\u00eancia. H\u00e1 coisas realmente boas por l\u00e1. Mas e a foto desta capa? N\u00e3o podemos ser ing\u00eanuos: essa simplicidade n\u00e3o deixa de ser uma constru\u00e7\u00e3o. A fotografia de aberra\u00e7\u00f5es (pessoas doentes, deformadas, mutiladas&#8230;) \u00e9 quase um g\u00eanero hist\u00f3rico que possui sua pr\u00f3pria linguagem. \u00a0Mas n\u00e3o \u00e9 o caso. Temos ali um retrato com um leve toque publicit\u00e1rio: um sombreado ao fundo, um torso precisamente colocado entre a frontalidade e o perfil, um olhar de canto de olho mas que enfrenta a c\u00e2mera,\u00a0 um vestu\u00e1rio oriental soft. E claro, aquele rosto que tinha tudo para ser belo. Poderia ser a foto de uma campanha publicit\u00e1ria, de um book de modelo, ou de uma personalidade qualquer que aparece em capas de revista. Nossa perturba\u00e7\u00e3o aumenta exatamente porque essa imagem coloca um conte\u00fado numa forma que parece n\u00e3o lhe pertencer. \u00c9 uma estrat\u00e9gia forte e precisa que tem antecedentes: August Sanders, Diane Arbus, Joel-Peter Witkin&#8230; Acho que a Time teve consci\u00eancia desse deslocamento, de que mostravam algu\u00e9m que passou por uma experi\u00eancia limite de viol\u00eancia do mesmo modo que mostrariam o ganhador do Oscar ou o investidor do ano. Mas duvido um pouco de que os jurados do pr\u00eamio tenham passado por quest\u00f5es dessa ordem. Por sua vez,\u00a0a fot\u00f3grafa diz algo que quase segue nessa dire\u00e7\u00e3o, mas de um modo mais po\u00e9tico: &#8220;quis mostrar sua beleza, n\u00e3o quis mostr\u00e1-la como uma v\u00edtima&#8221;. Mas n\u00e3o podemos ser hip\u00f3critas: aos nossos olhos,\u00a0sua beleza apenas agrava sua condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, escancara aquilo que foi perdido.<\/p>\n<p>&#8211; Mesmo que haja grandes trabalhos premiados, sinto que o World Press n\u00e3o se preocupa tanto com a originalidade autoral. J\u00e1 vimos por l\u00e1 bichinhos, paisagens, tamb\u00e9m j\u00e1 vimos acidentes e cat\u00e1strofes, tudo isso em fotos que s\u00e3o, no m\u00e1ximo, interessantes e corretas. Isso significa que o pr\u00eamio valoriza n\u00e3o tanto &#8211; ou n\u00e3o apenas &#8211; a obra, mas a beleza do fato, a import\u00e2ncia do fato, a gravidade do fato, e a capacidade do fot\u00f3grafo de estar ali quando as coisas acontecem. \u00c9 uma concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de fotojornalismo, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a minha preferida, mas tem l\u00e1 sua legitimidade. Neste caso, n\u00e3o parece ser diferente: o pr\u00eamio n\u00e3o considera apenas a foto, mas tamb\u00e9m a import\u00e2ncia do contexto que ela revela e do qual participa. Mas, mesmo os bichinhos e as cat\u00e1strofes costumam aparecer no World Press com composi\u00e7\u00f5es mais sofisticadas que essa. \u00a0Normalmente, o p\u00fablico ainda diria: \u201cnossa, que foto!\u201d. Aqui, seria: \u201cnossa, que coisa, que desgra\u00e7a, que maldade!\u201d Talvez, simplesmente: nossa!\u201d.\u00a0 Os par\u00e2metros n\u00e3o parecem est\u00e9ticos, imagino que um dos principais ingredientes dessa escolha seja a como\u00e7\u00e3o. Vale explicar. Por como\u00e7\u00e3o, podemos entender um \u201cmovimento coletivo\u201d, o desejo de considerar o afeto do p\u00fablico como um componente da comunica\u00e7\u00e3o de massa (como fazem explicitamente os roteiristas de novela quando conduzem a trama em fun\u00e7\u00e3o de uma vontade m\u00e9dia). Mas claro, essa como\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00fatil, ao contr\u00e1rio, considera a import\u00e2ncia do tema, \u00e9 politizada no sentido de destacar o papel que a fotografia teve para esse p\u00fablico na compreens\u00e3o de uma realidade e na afirma\u00e7\u00e3o de uma causa. De todo modo, se esta hip\u00f3tese faz sentido, isso significa trocar um papel \u201cformador\u201d que um evento cultural poderia ter por um papel simplesmente \u201cconsagrador\u201d.<\/p>\n<p>Por um instante, eu mesmo achei que poderia chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que o pr\u00eamio foi justo ou injusto. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso trazer o debate para o campo moral. Se estranhamos a escolha, temos que tentar tirar um sentido disso. Construir um olhar cr\u00edtico sobre as imagens \u00e9 muito mais produtivo do que reivindicar uma pretensa objetividade das fotografias, das exposi\u00e7\u00f5es, dos concursos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei surpreso com a foto escolhida como \u201cimagem do ano de 2010\u201d pelo World Press Photo: o retrado feito pela sulafricana Jodi Bieber da jovem afeg\u00e3 Aisha, que teve seu nariz e orelhas decepados pelo marido, com o apoio do Taleban. Lembro bem de quando a imagem circulou pelo mundo no ano passado depois de ser publicada na capa da revista Time. \u00c9 desse tipo de cena que voc\u00ea olha com o est\u00f4mago e s\u00f3 consegue responder com o sil\u00eancio. Foi uma experi\u00eancia forte, sem d\u00favida, mas em momento algum senti que estava diante de uma grande fotografia. 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