{"id":1559,"date":"2011-02-21T12:19:26","date_gmt":"2011-02-21T12:19:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1559"},"modified":"2016-05-28T14:28:18","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:18","slug":"la-camara-oscura-em-busca-de-um-olhar-que-transcende-as-aparencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/la-camara-oscura-em-busca-de-um-olhar-que-transcende-as-aparencias\/","title":{"rendered":"&quot;La c\u00e1mara oscura&quot;, em busca de um olhar que transcende as apar\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p>Zapear a TV a cabo \u00e9 como a rotina de andar no meio da multid\u00e3o. Depois de um longo percurso, nenhuma marca, nenhuma hist\u00f3ria pra contar. At\u00e9 que um dia, quando a gente menos espera, \u00a0a gente dobra uma esquina e v\u00ea um rosto, uma express\u00e3o, um gesto, algo que nos surpreende e que \u00e9 capaz de produzir uma experi\u00eancia. \u00a0A TV e, claro, tamb\u00e9m a internet s\u00e3o as metr\u00f3poles dos flaneurs pregui\u00e7osos.<\/p>\n<p>###<\/p>\n<p>Num desses dias de sorte, pulando de canal em canal, dei de cara com um filme chamado <em>A c\u00e2mera escura<\/em>. Opa! Bom motivo pra largar o controle remoto. Filme argentino recente (<em>La camara oscura<\/em>, 2008), escrito e dirigido pela desconhecida Maria Victoria Menis, traz uma produ\u00e7\u00e3o simples, uma hist\u00f3ria delicada e, como o t\u00edtulo promete, uma presen\u00e7a forte da fotografia.<\/p>\n<p>Uma fam\u00edlia judia aporta na Argentina fugindo da persegui\u00e7\u00e3o dos pogroms na R\u00fassia, no final do s\u00e9culo XIX. A mulher, que chegou gr\u00e1vida ao pa\u00eds, d\u00e1 a luz ainda na rampa do navio a Gertrudis, uma menina que dizem ser muito feia. A fotografia aparece em alguns momentos de sua vida mas, sabendo-se feia, ela trata de sempre esconder o rosto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/m6Y4W3GksYE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Mesmo crescendo solit\u00e1ria e introspectiva, ela se casa e tem filhos com um colono, que a escolhe como esposa por uma raz\u00e3o inusitada (que n\u00e3o vou contar). Sua fam\u00edlia ocupa bem o seu tempo, mas n\u00e3o consegue livr\u00e1-la da solid\u00e3o.\u00a0Certo dia, um retratista franc\u00eas aparece no vilarejo e \u00e9 contratado para passar alguns dias na fazenda, fotografando a fam\u00edlia e o local. O fot\u00f3grafo, como ele mesmo explica, viveu experi\u00eancias tr\u00e1gicas mas aprendeu com o surrealismo a buscar uma dimens\u00e3o mais profunda e sutil da realidade. E \u00e9 assim que ele \u00e9 capaz de ver beleza em Gertrudis que, aos poucos, aprende a encarar a c\u00e2mera e tamb\u00e9m a si mesma. At\u00e9 encontr\u00e1-la, o fot\u00f3grafo amarga o fato de que, em seu ex\u00edlio de retratista ambulante, ningu\u00e9m est\u00e1 preparado para entender suas fotografias experimentais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um filme dif\u00edcil, intelectualizado, mas \u00e9 silencioso, contemplativo e alguns fatos s\u00e3o mais intu\u00eddos do que vistos. Exige-se do nosso olhar a mesma capacidade imaginativa que o fot\u00f3grafo reivindica.<\/p>\n<p>Em dois momentos, sem maiores explica\u00e7\u00f5es, a diretora pede licen\u00e7a para passear por imagens completamente descoladas da narrativa. Primeiro, uma anima\u00e7\u00e3o que traduz o universo introspectivo da pequena Gertrudis. Depois, num devaneio do fot\u00f3grafo, uma s\u00e9rie de imagens experimentais que associam elementos do filme com o cinema e a fotografia das vanguardas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/vtVVbemuu4E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>De quebra, o filme d\u00e1 forma a situa\u00e7\u00f5es que hoje s\u00f3 conseguimos imaginar a partir dos relatos hist\u00f3ricos. Os fot\u00f3grafos europeus que tentavam a vida na Am\u00e9rica e perambulavam pelas pequenas cidades e fazendas, fam\u00edlias de origem humilde que buscam no retrato uma confirma\u00e7\u00e3o de sua recente prosperidade, os \u201ccaixotes\u201d que come\u00e7am a conviver com as primeiras c\u00e2meras de pequeno formato, laborat\u00f3rios improvisados em celeiros. Tamb\u00e9m vemos ali, didaticamente, como se pode construir um mundo com a fotomont\u00e1gem, e como funciona uma <em>camara obscura<\/em>, que no filme se forma acidentalmente, de um modo mais po\u00e9tico do que convincente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/YBr-jofyY9g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar o filme. Passou muito r\u00e1pido pela programa\u00e7\u00e3o de um canal pouco interessante da TV a cabo, n\u00e3o me lembro de ter entrado em cartaz, e n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel em DVD nem mesmo na Argentina.<\/p>\n<p>Quem sabe, com um pouco de paci\u00eancia, conseguimos garimpar e rencontrar em meio \u00e0 multid\u00e3o aquele rosto que gostar\u00edamos de olhar mais detidamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zapear a TV a cabo \u00e9 como a rotina de andar no meio da multid\u00e3o. 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