{"id":1468,"date":"2011-01-25T04:44:29","date_gmt":"2011-01-25T04:44:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1468"},"modified":"2016-05-28T14:28:37","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:37","slug":"joao-castilho-e-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/joao-castilho-e-mestre\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Castilho \u00e9 mestre"},"content":{"rendered":"<p>Em dezembro de 2010, eu postei no Twitter: \u201cJo\u00e3o Castilho \u00e9 mestre\u201d. V\u00e1rias pessoas concordaram e algumas acrescentaram outros adjetivos. Os elogios eram merecidos, Castilho j\u00e1 demonstrou seu talento como artista, mas minha afirma\u00e7\u00e3o era um pouco mais literal. Eu tinha acabado de participar de sua banca de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais, onde ele apresentou a disserta\u00e7\u00e3o &#8220;A fotografia entr\u00f3pica de Robert Smithson&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio encontrar um artista com voca\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o para a pesquisa acad\u00eamica. Ainda vemos bons programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o acolhendo artistas que n\u00e3o v\u00eaem nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre a universidade e o ateli\u00ea, e que acabam por eleger a si mesmos como tema, justificativa e m\u00e9todo de toda a pesquisa.<\/p>\n<p>Castilho bem que poderia, mas em seu mestrado n\u00e3o quis se deter em sua produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisaria, mas optou por debater um tema delicado e ainda mal assentado na hist\u00f3ria: a produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica pouco conhecida de Smithson, artista norte-americano consagrado por suas interven\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os naturais e urbanos, e que morreu aos 35 naos de idade, no auge de sua carreira. Para n\u00f3s, \u00e9 um tema pouco confort\u00e1vel porque em seus trabalhos mais conhecidos &#8211; como o Spiral Jetty &#8211; a fotografia parece ser um mero registro de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_1469\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Spiral-Jetty-de-1970-de-Robert-Smithson1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1469\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1469\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Spiral-Jetty-de-1970-de-Robert-Smithson-487x324.jpg\" alt=\"Spiral Jetty (1970), interven\u00e7\u00e3o de R. Smithson em Salt Lake, no est\" width=\"487\" height=\"324\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1469\" class=\"wp-caption-text\">R. Smithson, Spiral Jetty (1970).<\/p><\/div>\n<p>Pode nos parecer pouco, mas esse representa um momento importante de afirma\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo entre a fotografia e as outras linguagens que, nessas \u00faltimas d\u00e9cadas, passaram a conviver indistintamente dentro dentro dos espa\u00e7os dedicados \u00e0 arte. Como diz Jo\u00e3o Castilho:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSmithson se op\u00f4s, sistematicamente, \u00e0 ordem estabelecida da arte modernista e a todas as ortodoxias. Tinha como objetivo claro expandir o campo de sua atua\u00e7\u00e3o e implodir as fronteiras das diversas categorias de arte e dos limites de suas institui\u00e7\u00f5es. Nada mais natural que come\u00e7asse a usar a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Esse projeto de renova\u00e7\u00e3o art\u00edstica implicava, em um primeiro momento, um rompimento com a pr\u00e1tica dos c\u00e2nones da fotografia da \u00e9poca, e, depois, a conviv\u00eancia da fotografia com todos os outros meios dispon\u00edveis aos artistas daquele per\u00edodo. A fotografia deveria conviver com as outras formas art\u00edsticas, sem hierarquiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>De um lado, a pesquisa n\u00e3o se limita \u00e0s obras mais conhecidas de Smithson. De outro, tenta demonstrar que a fotografia n\u00e3o era para ele assim t\u00e3o assess\u00f3ria quanto pensamos. Para isso, Castilho mergulha em relatos biogr\u00e1ficos e depoimentos deixados pelo artista, recorrendo a uma bibliogr\u00e1fia quase desconhecida no Brasil. Foi uma surpresa descobrir como Smithson falava com profundidade sobre seu tempo e sua arte. E, mesmo que tenha optado por usar sempre uma c\u00e2mera amadora (uma Instamatic 400), n\u00e3o deixou de pensar com propriedade sobre o sentido hist\u00f3rico e cultural do meio a que recorria.<\/p>\n<div id=\"attachment_1471\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Smithson-Photo-Markers-19681.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1471\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1471\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Smithson-Photo-Markers-1968-487x492.jpg\" alt=\"R. Smithson, Photo-Markers, 1968.\" width=\"487\" height=\"492\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1471\" class=\"wp-caption-text\">R. Smithson, Photo-Markers, 1968.<\/p><\/div>\n<p>A estrutura da disserta\u00e7\u00e3o de Castilho \u00e9 simples: come\u00e7a com uma contextualiza\u00e7\u00e3o ampla da produ\u00e7\u00e3o do artista e termina com uma an\u00e1lise em profundidade de algumas obras escolhidas. No meio disso, foi preciso abordar um conceito t\u00e3o dif\u00edcil quanto importante, <em>entropia<\/em>, que Smithson toma emprestado da f\u00edsica moderna para criar uma chave cr\u00edtica que permite pensar muitas das transforma\u00e7\u00f5es vividas pelo s\u00e9culo XX. \u00c9 dif\u00edcil e distante do nosso vocabul\u00e1rio, mas vale deixar um par\u00e1grafo sobre o tema.<\/p>\n<p>A primeira lei da termodin\u00e2mica diz que a energia n\u00e3o se perde, se transforma. No entanto, a segunda lei diz que o aproveitamento dessa energia depende de uma ordem que tende a se desfazer cont\u00ednua e irreversivelmente, conduzindo \u00e0 sua \u201cmorte t\u00e9rmica\u201d do sistema em quest\u00e3o. \u00a0Esse acr\u00e9scimo de desordem equivale ao aumento de entropia. Por exemplo, quando se coloca em contato por\u00e7\u00f5es de \u00e1gua quente e de \u00e1gua fria, a distin\u00e7\u00e3o de temperatura cria um fluxo ordenado de mol\u00e9culas que permite explorar a energia desse sistema. Ele se tornar\u00e1 \u201cmorto\u201d, atingir\u00e1 seu grau m\u00e1ximo de entropia quando esse contato resultar irreversivelmente em uma \u00fanica por\u00e7\u00e3o de agua morna. A desordem medida pela entropia tem a ver com um estado de indistin\u00e7\u00e3o de formas e de fluxos, de nivelamento, de esgotamento, de degrada\u00e7\u00e3o, de incapacidade de produ\u00e7\u00e3o de est\u00edmulos, tend\u00eancia espont\u00e2nea da natureza contra a qual o ser humano, com sua for\u00e7a construtiva, acreditou poder lutar.<\/p>\n<p>Smithson constata, no entanto, o fracasso desse esfor\u00e7o. Isso podia ser visto em Passaic, sua cidade natal no estado de Nova Jersey, que era naquele momento uma esp\u00e9cie de grande ru\u00edna gerada pelo pr\u00f3prio esfor\u00e7o organizador do progresso. Ele reencontrou ali uma paisagem em que tudo remetia \u00e0 no\u00e7\u00e3o de entropia, e realizou um importante trabalho que envolveu mapas, fotos e textos, resultados que ele chamou de &#8220;monumentos&#8221;, como explica Castilho:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOs monumentos de Passaic parecem, inicialmente, n\u00e3o ser monumentos. Onde j\u00e1 se viu tubos, canos, pontes, parquinhos serem monumentos? O que teriam essas constru\u00e7\u00f5es a ver com com as gloriosas edifica\u00e7\u00f5es em homenagem a tempos gloriosos? Os monumentos de Passaic est\u00e3o todos vazios, esvaziados de toda mem\u00f3ria. Nenhuma presen\u00e7a humana, nenhuma refer\u00eancia hist\u00f3rica. Em Passaic, a ordem e a irracionalidade da sociedade industrial fracassaram no caos e na cat\u00e1strofe. As estruturas sucumbiram na desintegra\u00e7\u00e3o. Estes seriam, ent\u00e3o, monumentos erigidos \u00e0 entropia\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1470\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Smithson-Monuments-of-Passaic-67-21.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1470\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1470\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Smithson-Monuments-of-Passaic-67-2-487x324.jpg\" alt=\"R. Smithson, Monumentos de Passaic, 1967.\" width=\"487\" height=\"324\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1470\" class=\"wp-caption-text\">R. Smithson, Monumentos de Passaic, 1967.<\/p><\/div>\n<p>Em sua conclus\u00e3o, de modo muito discreto, Castilho introduz seu pr\u00f3prio trabalho para mostrar algumas afinidades que descobriu e cultivou com Smithson. Antes mesmo de definir o tema de sua pesquisa, Castilho havia come\u00e7ado a s\u00e9rie denominada <em><a href=\"http:\/\/http:\/\/www.joaocastilho.net\/v2\/pt\/trabalhos\/aqui-tudo\/\" target=\"_blank\">Aqui tudo parece que \u00e9 ainda constru\u00e7\u00e3o e j\u00e1 \u00e9 ru\u00edna<\/a><\/em>, de 2007, t\u00edtulo que tamb\u00e9m aponta para a id\u00e9ia de um esgotamento precoce das paisagens.<\/p>\n<div id=\"attachment_1479\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a><img aria-describedby=\"caption-attachment-1479\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1479\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Jo\u00e3o-Castilho-Aqui-tudo-parece-que-ainda-\u00e9-cosntru\u00e7\u00e3o-mas-j\u00e1-\u00e9-ru\u00edna-2007-487x489.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Castilho, Aqui tudo parece que ainda \u00e9 cosntru\u00e7\u00e3o mas j\u00e1 \u00e9 ru\u00edna, 2007\" width=\"487\" height=\"489\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1479\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Castilho, Aqui tudo parece que ainda \u00e9 cosntru\u00e7\u00e3o mas j\u00e1 \u00e9 ru\u00edna, 2007<\/p><\/div>\n<p>Smithson parece ter oferecido a Castilho uma linha de pensamento cr\u00edtico que deu ainda mais consist\u00eancia ao seu trabalho. O debate em torno do conceito de entropia se tornou n\u00edtido em suas obras posteriores, como no v\u00eddeo <em>Abalo<\/em>, de 2010, e nas imagens que comp\u00f5e seu mais recente livro, <em>Peso Morto<\/em>, tamb\u00e9m de 2010, realizado em parceria com escritores convidados.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/vimeo.com\/12293050\">Jo\u00e3o Castilho, Abalo, 2010<\/a><\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o entre Castilho e Smithson n\u00e3o se resume ao tema &#8220;entropia&#8221;. Temos nessa pesquisa o feliz encontro de dois jovens artistas de gera\u00e7\u00f5es e lugares distintos, que se destacam n\u00e3o s\u00f3 por suas produ\u00e7\u00f5es pl\u00e1sticas mas tamb\u00e9m pela densidade de suas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de oferecer uma escrita clara, sem maneirismos, Castilho fez ainda uma apresenta\u00e7\u00e3o muito tranquila e segura para a banca, composta pela orientadora da pesquisa, Maria Ang\u00e9lica Melendi (UFMG), Eduardo de Jesus (PUC-MG) e eu. Todos destacaram o ineditismo da pesquisa e recomendaram que o trabalho fosse publicado. Vamos torcer para que isso aconte\u00e7a logo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dezembro de 2010, eu postei no Twitter: \u201cJo\u00e3o Castilho \u00e9 mestre\u201d. V\u00e1rias pessoas concordaram e algumas acrescentaram outros adjetivos. Os elogios eram merecidos, Castilho j\u00e1 demonstrou seu talento como artista, mas minha afirma\u00e7\u00e3o era um pouco mais literal. Eu tinha acabado de participar de sua banca de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais, onde ele apresentou a disserta\u00e7\u00e3o &#8220;A fotografia entr\u00f3pica de Robert Smithson&#8221;. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio encontrar um artista com voca\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o para a pesquisa acad\u00eamica. 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