{"id":1453,"date":"2011-01-19T03:59:20","date_gmt":"2011-01-19T03:59:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1453"},"modified":"2016-05-28T14:28:44","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:44","slug":"o-olhar-tragico-atraves-da-lente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-olhar-tragico-atraves-da-lente\/","title":{"rendered":"O olhar tr\u00e1gico atrav\u00e9s da lente"},"content":{"rendered":"<p>Os pensadores chamados tr\u00e1gicos &#8211; como Nietzsche &#8211; sugerem que n\u00e3o h\u00e1 no mundo nenhuma for\u00e7a que conspire espontaneamente a nosso favor. O nitzscheano Cl\u00e9ment Rosset\u00a0 (A l\u00f3gica do pior, 1971) vai um pouco mais longe. Ele diz que, vez ou outra, quando menos esperamos, esse mesmo mundo nos brinda com certa ironia, fazendo com que o tr\u00e1gico beire o c\u00f4mico. \u00c9 o que ele chama de \u201criso exterminador\u201d.<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste ano, acompanhamos a not\u00edcia sobre um vereador filipino, Reynaldo Dagsa, que, ao fazer uma foto de sua fam\u00edlia na comemora\u00e7\u00e3o do ano novo, registrou tamb\u00e9m um homem que lhe apontava uma arma. Ele foi baleado ali mesmo e morreu logo em seguida.<\/p>\n<div id=\"attachment_1452\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Michael-Gonzales1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1452\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1452\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Michael-Gonzales-487x324.jpg\" alt=\"Familia de Dagsa. \u00c0 esquerda, apontando a arma, o homem que foi identificado como Michael Gonzales.\" width=\"487\" height=\"324\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1452\" class=\"wp-caption-text\">Familia de Reynaldo Dagsa. \u00c0 esquerda, apontando a arma, o homem que foi identificado como Michael Gonzales.<\/p><\/div>\n<p>Dagsa era um amador, queria apenas celebrar um ano bom com sua fam\u00edlia. Para ele, o acaso surgiu como uma esp\u00e9cie de fantasma que a c\u00e2mera foi capaz de tornar vis\u00edvel, num gesto t\u00e3o fora de lugar quanto definitivo. Esse \u00e9 o tipo de ironia de que fala Clement Rosset (em seu exemplo, ele remete aos que embracaram na primeira classe do Titanic para celebrar o progresso, que havia permitido construir um navio \u201cinafund\u00e1vel\u201d, conforme dizia o folheto publicit\u00e1rio).<\/p>\n<p>Amadores ou profissionais, a c\u00e2mera sempre mant\u00e9m alguma independ\u00eacia de nossa consci\u00eancia. N\u00e3o raramente, o acaso nos envia esse recado e descobrimos em nossas fotos coisas que nos surpreendem. Mesmo que essas presen\u00e7as tenham sempre algo de assombroso, esse \u00e9 um dos prazeres da fotografia.<\/p>\n<p>Contra tal ironia, muitos que trabalham com imagens assumem essa perspectiva tr\u00e1gica e aceitamos seus riscos. Se for o caso, olham a morte de frente quando a encontram. \u00c9 o que acontece com Emilio, fot\u00f3grafo e cinegrafista do belo filme <em>La puta y la ballena<\/em> (Luis Puenzo, 2004),\u00a0 que filma sua pr\u00f3pria morte na Guerra Civil Espanhola.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/3rSHhkNsyKU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Por mais que pare\u00e7a inveross\u00edmil, a realidade tamb\u00e9m sabe jogar com as improbabilidades. Talvez a inspira\u00e7\u00e3o do personagem de Puenzo seja o cinegrafista argentino Leonardo Henrichsen, que buscou com sua zoom aqueles que ele certamente intuiu que seriam seus assassinos. Ele cobria no Chile o levante militar de junho de 1973 que ficou conhecido como <em>Tanquetazo<\/em>, e que j\u00e1 dava o tom daquela que viria a ser uma das mais violentas ditaduras da Am\u00e9rica Latina, iniciada alguns meses depois.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/lkVDHtSIfOk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Para o olhar verdadeiramente tr\u00e1gico, esses acasos permanecem imprevis\u00edveis, mas j\u00e1 se anunciam como expectativa.\u00a0 Todo fot\u00f3grafo que aceita se confrontar com a realidade cultiva em alguma medida esse olhar e tende a fazer da exce\u00e7\u00e3o a regra que move sua arte, sejam os pequenos acidentes que se revelam l\u00fadicos, sejam as injusti\u00e7as que se tornam catastr\u00f3ficas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pensadores chamados tr\u00e1gicos &#8211; como Nietzsche &#8211; sugerem que n\u00e3o h\u00e1 no mundo nenhuma for\u00e7a que conspire espontaneamente a nosso favor. 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