{"id":1434,"date":"2010-12-21T18:25:38","date_gmt":"2010-12-21T18:25:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1434"},"modified":"2016-05-28T13:47:49","modified_gmt":"2016-05-28T13:47:49","slug":"o-tempo-que-passa-ou-a-inquietacao-dos-sentidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-tempo-que-passa-ou-a-inquietacao-dos-sentidos\/","title":{"rendered":"O tempo que passa ou a inquieta\u00e7\u00e3o dos sentidos"},"content":{"rendered":"<p>Acompanhei de perto as publica\u00e7\u00f5es sobre os 30 anos da morte de John Lennon. Invariavelmente, lembrei-me de uma frase dele que diz mais ou menos assim: \u201cenquanto voc\u00ea sonha com o futuro, sua vida acontece\u201d. Para n\u00f3s, o tempo passou rapidamente, mas para ele o tempo foi interrompido. Ou parou? Parece incr\u00edvel! Conhecemos muitas fotografias do Beatle mais talentoso e rebelde, mas fico chocado com a imut\u00e1vel juventude fixada nas imagens. Claro, mito morre cedo e jamais envelhece. E minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 perdeu John Lennon, como tamb\u00e9m Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morinson. Todos muito jovens.<\/p>\n<p>Fico impressionado cada vez que me deparo com suas fotografias. Tempo congelado e mem\u00f3ria afetiva. Inquieta\u00e7\u00e3o dos sentidos. O tempo \u00e9 cruel apenas com aqueles que ficam por aqui, insistindo na dura\u00e7\u00e3o e na perman\u00eancia. Vil\u00e9m Flusser em suas reflex\u00f5es deixa claro que n\u00f3s, humanos, criamos a comunica\u00e7\u00e3o, um artif\u00edcio que dribla o medo que temos da solid\u00e3o e da morte. Por isso mesmo tamb\u00e9m criamos e desenvolvemos tecnologias que registram imagens e sons para que as futuras gera\u00e7\u00f5es possam nelas se reconhecer. Na verdade, as fotografias permitem expandir nossa exist\u00eancia na vida dos outros. As novas gera\u00e7\u00f5es com certeza conhecem o som revolucion\u00e1rio do final dos anos sessenta e as fotografias que permaneceram para todo o sempre. Este \u00e9 o poder imag\u00e9tico que se revela, quase sempre nos interst\u00edcios entre presen\u00e7a e aus\u00eancia, passado e presente.<\/p>\n<p>No dia 8 de dezembro de 2010, exatamente no dia do assassinato de John Lennon, a Globo News Document exibiu uma bela mat\u00e9ria conduzida pelo rep\u00f3rter Sidney Rezende entrevistando o fot\u00f3grafo brasileiro Luiz Garrido, que conviveu com John Lennon e Yoko Ono no ano de 1969. \u00c9 comum afirmarmos que a hist\u00f3ria da fotografia \u00e9, metaforicamente, um imenso iceberg, do qual apenas uma min\u00fascula ponta \u00e9 conhecida. Com exce\u00e7\u00e3o de algumas fotografias publicadas na saudosa revista IrisFoto, em 1974 (Garrido n\u00e3o se recorda precisamente do ano da publica\u00e7\u00e3o) era quase desconhecida a rela\u00e7\u00e3o casual entre Luiz Garrido e o casal mais famoso dos anos setenta.<\/p>\n<p>Embalado pelo movimento estudantil de 1968 em Paris, Garrido cursou e abandonou a Faculdade de Economia (os professores eram Celso Furtado, Josu\u00e9 de Castro, entre outros) e foi viver a experi\u00eancia Blow Up, t\u00edpica daqueles que entenderam que o momento era viver a intensidade e o glamour proporcionado pelo poder da imagem. Frequentou a Escola Nacional de Fotografia Francesa, cuja orienta\u00e7\u00e3o era uma boa forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica sob a coordena\u00e7\u00e3o dos engenheiros da Kodak Path\u00e9 (associa\u00e7\u00e3o empresarial de muitos anos na Fran\u00e7a). Como isso n\u00e3o bastava, foi trabalhar como free lancer para publica\u00e7\u00f5es brasileiras.<\/p>\n<p>Silvio Silveira, ent\u00e3o Diretor Comercial da antiga revista Manchete, lhe fez um provocatico desafio: \u201co John Lennon est\u00e1 em lua de mel aqui em Paris e vai encontrar o Salvador Dali no Hotel Plaza Athen\u00e9e. Porque voc\u00eas n\u00e3o tentam fazer uma mat\u00e9ria?\u201d Na ocasi\u00e3o, o jornalista que acompanhava Luiz Garrido era o Carlos Freire, hoje um dos mais importantes nomes da fotografia brasileira em atividade do exterior. Ap\u00f3s dois dias de espera do lado de fora do hotel, ao lado de centenas de outros jornalistas, Garrido escreveu um bilhete para John Lennon e desenhou uma flor. Foi exatamente esta mensagem que cativou o ainda Beatle que o convidou a subir no apartamento e acompanh\u00e1-lo por algum tempo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1448\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/John11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1448\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1448\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/John1-280x182.jpg\" alt=\"John e Yoko, por Luiz Garrido\" width=\"280\" height=\"182\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1448\" class=\"wp-caption-text\">John e Yoko, por Luiz Garrido<\/p><\/div>\n<p>Depois disso, foi \u00e0 Amsterd\u00e3 a convite do casal que lan\u00e7ava o movimento Bed and Peace, e quando encerrou a entrevista coletiva John Lennon publicamente enfatizou: \u201cvoc\u00ea fica\u201d. Uma nova oportunidade e passaram a tarde juntos trocando id\u00e9ias. Depois disso, uma semana em Londres convivendo com eles \u2013 conversando, comendo juntos e fumando um. Garrido percebeu que a inicia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Lennon, vinha atrav\u00e9s das id\u00e9ias de Yoko que o provocava para aproveitar sua imagem de \u00eddolo globalizado para potencializar alguma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram ao Canad\u00e1, pois os EUA proibiram sua entrada no pa\u00eds, e o movimento pela paz cresceu. Quando voltaram para Londres, novamente Garrido estava ao lado de Lennon que, naquele per\u00edodo, fazia pequenas altera\u00e7\u00f5es na letra e mixava a m\u00fasica Give Peace a Chance e recebia a visita de Ringo Star, Mick Jagger e Keith Richard. Na \u00e9poca, Garrido era apenas um jovem que estava vivendo a raridade do instante. Hoje, as mais de 300 fotografias em preto e branco, realizadas entre mar\u00e7o e setembro de 1969, s\u00e3o o registro de uma \u00e9poca e, simultaneamente, o documento de um momento hist\u00f3rico para o Rock and Roll.<\/p>\n<p>Depois desses meses de conviv\u00eancia, Garrido e Freire venderam a mat\u00e9ria para a Manchete e foram finalmente contratados pela revista. Sem no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do que documentara, Garrido conservou os negativos, e agora, assediado pela imprensa internacional, procura a melhor oportunidade para compartilhar suas fotografias. Hoje, neste mundinho em que qualquer celebridade vira-lata tem um ex\u00e9rcito de seguran\u00e7as, o jovem fot\u00f3grafo dificilmente poder\u00e1 ter alguma experi\u00eancia parecida com a de Garrido. <a href=\"http:\/\/video.globo.com\/Videos\/Player\/Noticias\/0,,GIM1389947-7823-REGISTROS+INEDITOS+DE+JOHN+LENNON+MOSTRAM+OS+BASTIDORES+DO+MOVIMENTO+PELA+PAZ,00.html\">Vale a pena clicar no link<\/a> e conhecer um pouco mais desta aventura incomum de um fot\u00f3grafo que se tornou uma refer\u00eancia da fotografia brasileira, particularmente no g\u00eanero retrato, um g\u00eanero que o consagrou ao longo de sua trajet\u00f3ria art\u00edstica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhei de perto as publica\u00e7\u00f5es sobre os 30 anos da morte de John Lennon. Invariavelmente, lembrei-me de uma frase dele que diz mais ou menos assim: \u201cenquanto voc\u00ea sonha com o futuro, sua vida acontece\u201d. 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