{"id":1424,"date":"2010-12-16T11:20:34","date_gmt":"2010-12-16T11:20:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1424"},"modified":"2016-05-28T14:28:52","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:52","slug":"arqueologia-de-um-filme-de-godard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/arqueologia-de-um-filme-de-godard\/","title":{"rendered":"Arqueologia de um filme de Godard"},"content":{"rendered":"<p>O <a title=\"http:\/\/dobrasvisuais.wordpress.com\/\" href=\"http:\/\/\" target=\"_blank\">Dobras Visuais<\/a> lan\u00e7ou uma pergunta a uma s\u00e9rie de convidados: qual imagem chacoalhou voc\u00ea na 29<sup>a<\/sup> Bienal? <a href=\"http:\/\/dobrasvisuais.wordpress.com\/2010\/12\/16\/imagens-que-chacoalharam\/\" target=\"_blank\">Vale a pena conferir as respostas<\/a>.<\/p>\n<p>Escolhi <em>Je vous salue, Sarajevo<\/em>, de Jean-Luc Godard, filme de pouco mais de dois minutos em que Godard disseca uma fotografia feita durante a guerra nos Balc\u00e3s, na antiga Iugosl\u00e1via.\u00a0 Mandei para o Dobras um breve coment\u00e1rio. Aqui, deixo um relato sobre a aventura que foi mergulhar nesse pequeno filme.<\/p>\n<p>Pensar qualquer obra de um artista erudito implica fazer uma esp\u00e9cie de arqueologia. Voc\u00ea encontra coisas surpreendentes em lugares inesperados, e algumas pe\u00e7as\u00a0sempre ficam faltando.\u00a0Para come\u00e7ar, decidi fazer minha pr\u00f3pria tradu\u00e7\u00e3o do filme, pelo exerc\u00edcio de mergulhar nas palavras. Procurando o texto, descobri que ele j\u00e1 \u00e9 uma colagem de outros textos.<\/p>\n<p>O filme come\u00e7a com uma fala sobre o medo, extra\u00edda da pe\u00e7a <em>Dialogue des Carmelites<\/em>, \u00a0adaptada em 1949 por Georges Bernanos, escritor que viveu no Brasil durante a Segunda\u00a0Guerra: \u201cNum certo sentido, pa\u00fara \u00e9 filha de Deus (\u2026) Ela vela cada agonia, ela intercede pelos homens\u201d. Na pe\u00e7a de Bernanos, uma religiosa enclausurada reivindica a id\u00e9ia de que o medo, como fraqueza, n\u00e3o \u00e9 ofensiva a Deus, ao contr\u00e1rio, o medo a tornaria \u201cirm\u00e3 de Cristo em sua agonia\u201d.<\/p>\n<p>Ao final, a bela estrofe extra\u00edda de um poema de Luis Aragos (do livro <em>Le Cr\u00e8ve-C\u0153ur<\/em>, de 1941), que traz um pensamento sobre a morte: \u201cQuando for preciso fechar o livro, farei isso sem nada lamentar. Vi tanta gente viver t\u00e3o mal, e tanta gente morrer t\u00e3o bem\u201d.<\/p>\n<p>Essas duas falas, inserem o filme numa perspectiva tr\u00e1gica: o medo faz parte da vida, e a morte pode terminar como uma aliada.<\/p>\n<p>O filme destaca fragmentos de uma \u00fanica fotografia, que apenas ao final \u00e9 mostrada integralmente. Nessa imagem, vemos tr\u00eas soldados s\u00e9rvios, um deles prestes a chutar a cabe\u00e7a de uma mulher ca\u00edda no ch\u00e3o. Diz Godard: \u201ca cultura \u00e9 a regra, a arte \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o\u201d. A \u201cEuropa da cultura\u201d imp\u00f5em a sua regra, e mata a \u201carte de viver\u201d. N\u00e3o h\u00e1 o que celebrar nesse projeto de civiliza\u00e7\u00e3o que se desenvolve ao pre\u00e7o da intoler\u00e2ncia, como a imagem n\u00e3o cessa de mostrar.<\/p>\n<p>Isso me remeteu ao livro de Susan Sontag, <em>Diante da dor dos outros<\/em>. L\u00e1 reencontrei uma descri\u00e7\u00e3o da mesma imagem que est\u00e1 no filme (o que permitiu tamb\u00e9m identificar o autor). Diz Sontag sobre essa imagem:<\/p>\n<div id=\"attachment_1425\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Screen-shot-2010-12-15-at-18.29.431.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1425\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1425\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Screen-shot-2010-12-15-at-18.29.43-280x170.png\" alt=\"Foto de Ron Haviv, da s\u00e9rie &quot;Blood and Honey&quot; (Bijeljina, B\u00f3snia, 1992).\" width=\"280\" height=\"170\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1425\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Ron Haviv, da s\u00e9rie &quot;Blood and Honey&quot; (Bijeljina, B\u00f3snia, 1992).<\/p><\/div>\n<p>\u201cNarrativas podem nos levar a compreender. Fotos fazem outra coisa: nos perseguem. (\u2026) vemos um miliciano s\u00e9rvio uniformizado, um jovem com \u00f3culos escuros no alto da cabe\u00e7a, um cigarro entre os dedos m\u00e9dio e anelar da m\u00e3o esquerda levantada, um rifle que pende da m\u00e3o direita,\u00a0 a perna direita em posi\u00e7\u00e3o de chutar o rosto da mulher deitada, de cara para baixo, sobre a cal\u00e7ada, entre dois corpos. (\u2026) Na verdade, a foto nos revela muito pouco \u2013 exceto que a guerra \u00e9 um inferno e que rapazes bonitos armados s\u00e3o capazes de chutar a cabe\u00e7a de mulheres velhas e gordas que jazem indefesas, ou j\u00e1 mortas\u201d (Sontag, <em>Diante da dor dos outros<\/em>, 2003).<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o de Sontag n\u00e3o vem acompanhada da imagem, mas quase parece comentar a sequ\u00e2ncia de fragmentos que vemos no filme. Por sua vez, Godard, que disseca a fotografia, opta por um texto descolado da imagem. Sua estrat\u00e9gia \u00e9 a montagem num sentido primordial, que aproxima detalhes da foto, textos e um trecho da m\u00fasica\u00a0<em>Silouans Song<\/em> (1991), de Arvo P\u00e4rt.<\/p>\n<div id=\"attachment_1426\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/4jb01.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1426\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1426\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/4jb0-280x210.jpg\" alt=\"Imagem final de &quot;Je vous salue, Sarajevo&quot;\" width=\"280\" height=\"210\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1426\" class=\"wp-caption-text\">Imagem final de &quot;Je vous salue, Sarajevo&quot;<\/p><\/div>\n<p>Em todo precurso arqueol\u00f3gico restam lacunas. H\u00e1 uma segunda imagem que encerra o filme, sobre a qual n\u00e3o encontrei nenhuma refer\u00eancia<span style=\"color: #0000ff\">*<\/span>: uma pessoa que se curva sobre um objeto que tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos identificar, uma esp\u00e9cie de bloco que segura com certa tens\u00e3o sobre o colo. Pouco se pode dizer sobre essa imagem. Fica apenas certa sensa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia, de clausura, o recolhimento de algu\u00e9m que renuncia \u00e0 vida. Essa imagem desaparece como um olho que se fecha.<\/p>\n<p>As descobertas sobre o filme v\u00e3o se encaixando. Mesmo assim, aquela cena de viol\u00eancia jamais far\u00e1 sentido. Ela sugere que a hist\u00f3ria da cultura nos conduz a um beco sem sa\u00edda. Restam a arte e a morte.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">* Nos coment\u00e1rios a esse post, Paulo Miyada nos d\u00e1 informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre esta \u00faltima imagem (23\/05\/11)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dobras Visuais lan\u00e7ou uma pergunta a uma s\u00e9rie de convidados: qual imagem chacoalhou voc\u00ea na 29a Bienal? Vale a pena conferir as respostas. Escolhi Je vous salue, Sarajevo, de Jean-Luc Godard, filme de pouco mais de dois minutos em que Godard disseca uma fotografia feita durante a guerra nos Balc\u00e3s, na antiga Iugosl\u00e1via.\u00a0 Mandei para o Dobras um breve coment\u00e1rio. Aqui, deixo um relato sobre a aventura que foi mergulhar nesse pequeno filme. Pensar qualquer obra de um artista erudito implica fazer uma esp\u00e9cie de arqueologia. 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