{"id":1353,"date":"2010-12-06T04:02:03","date_gmt":"2010-12-06T04:02:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1353"},"modified":"2016-05-28T14:28:59","modified_gmt":"2016-05-28T14:28:59","slug":"jonathas-de-andrade-tensao-critica-entre-a-palavra-e-a-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/jonathas-de-andrade-tensao-critica-entre-a-palavra-e-a-imagem\/","title":{"rendered":"A tens\u00e3o cr\u00edtica entre a palavra e a imagem"},"content":{"rendered":"<p>No trabalho que levou \u00e0 Bienal, Jonathas de Andrade\u00a0toma como refer\u00eancia uma s\u00e9rie de cartazes propostos pelo educador Paulo Freire para a alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos, e estabelece rela\u00e7\u00f5es entre novas imagens e palavras a partir de conversas que manteve com um grupo de mulheres analfabetas (<a href=\"http:\/\/cargocollective.com\/jonathasdeandrade#564374\/educa-o-para-adultos\" target=\"_blank\">vejam mais informa\u00e7\u00f5es no site do artista<\/a>).<\/p>\n<div id=\"attachment_1401\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/IMG_6619_6101.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1401\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1401\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/IMG_6619_610-487x322.jpg\" alt=\"IMG_6619_610\" width=\"487\" height=\"322\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1401\" class=\"wp-caption-text\">Jonathas de Andrade, Educa\u00e7\u00e3o para Adultos, 2010.<\/p><\/div>\n<p>Barthes disse uma vez que a l\u00edngua \u00e9 fascista, n\u00e3o porque impede de dizer, mas porque obriga a dizer (Barthes, <em>A aula<\/em>).\u00a0 Usar uma palavra \u00e9 filiar-se a uma estrutura cuja tradi\u00e7\u00e3o espera impor um sentido. Cabe ao artista atuar em suas brechas, arrancar dela as ambiguidades e os contrassensos poss\u00edveis. N\u00e3o s\u00f3 a poesia, mas tamb\u00e9m as artes pl\u00e1sticas conseguem \u00e0s vezes explorar essa potencialidade da palavra.<\/p>\n<p>Marcel Duchamp recorre \u00e0 linguagem verbal de modo &#8220;sistematicamente irrespons\u00e1vel&#8221;. Ali onde se espera que a palavra apare arestas do discurso e ofere\u00e7a maior precis\u00e3o, os t\u00edtulos, legendas e coment\u00e1rios de Duchamp fazem da obra um mecanismo repleto de folgas e solavancos. Um t\u00edtulo como &#8220;A noiva despida por seus celibat\u00e1rios, mesmo&#8221; \u00a0(obra apelidada de &#8220;Grande Vidro&#8221;), tem sido objeto de debates inesgot\u00e1veis, mesmo depois de quase um s\u00e9culo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1391\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/duchamp_grande_vidro_caixa_verde1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1391\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1391\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/duchamp_grande_vidro_caixa_verde-487x232.jpg\" alt=\"La Mari\u00e9e mise \u00e0 nu par ses c\u00e9libataires, m\u00eame (A noiva despida por seus celibat\u00e1rios, mesmo), 1915-23| La Bo\u00eete verte&lt;\/em&gt; (&lt;em&gt;Caixa Verde), 1934, com desenhos e notas sobre a obra A noiva...&quot;.. width=\" width=\"487\" height=\"232\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1391\" class=\"wp-caption-text\">La Mari\u00e9e mise \u00e0 nu par ses c\u00e9libataires, m\u00eame (A noiva despida por seus celibat\u00e1rios, mesmo), 1915-23; La Bo\u00eete verte (Caixa Verde), 1934, com desenhos e notas sobre a obra &quot;A noiva...&quot;.<\/p><\/div>\n<p>Como diz Octavio Paz comentando a obra de Duchamp:\u00a0\u201co jogo de palavras \u00e9 um mecanismo maravilhoso porque em uma mesma frase exaltamos os poderes de significa\u00e7\u00e3o da linguagem s\u00f3 para, um instante depois, aboli-los completamente\u201d (O. Paz, <em>Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza<\/em>).<\/p>\n<div id=\"attachment_1357\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/magrutte-pipe.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1357\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1357  \" src=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/magrutte-pipe.jpeg\" alt=\"Magritte, A trai\u00e7\u00e3o das imagens (Isto n\u00e3o \u00e9 um cachimbo), 1928-29.\" width=\"280\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/magrutte-pipe.jpeg 269w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/magrutte-pipe-768x533.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1357\" class=\"wp-caption-text\">Magritte, A trai\u00e7\u00e3o das imagens (Isto n\u00e3o \u00e9 um cachimbo), 1928-29.<\/p><\/div>\n<p>Ren\u00e9 Magritte mergulha na filosofia da linguagem, e exp\u00f5e suas artimanhas de um modo t\u00e3o simples quanto certeiro.<\/p>\n<p>Num s\u00f3 gesto, Magritte desfere um duplo golpe: de um lado, ele nos lembra que o cachimbo \u00e9 ali apenas uma imagem. Parece \u00f3bvio, mas o poder opressor da imagem reside na dificuldade que temos de perceb\u00ea-la como tal, como representa\u00e7\u00e3o.\u00a0 De outro lado, como lembra Foucault, essa obra retira a linguagem do automatismo que parece tornar seu sentido natural, e demonstra que a palavra tem o poder de \u201cdizer o que quer\u201d,\u00a0 apontando \u201csua pr\u00f3pria autonomia diante daquilo que ele nomeia\u201d (Foucault, <em>Isto n\u00e3o \u00e9 um cachimbo<\/em>).<\/p>\n<p>Como far\u00e1 Jonathas de Andrade, Magritte tamb\u00e9m jogou com a forma das cartilhas de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1369\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Ren\u00e9-MagritteThe-Key-to-Dreams-193011.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1369\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1369 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Ren\u00e9-MagritteThe-Key-to-Dreams-193011.jpg\" alt=\"Ren\u00e9 Magritte, La clef des songes, 1930\" width=\"490\" height=\"665\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1369\" class=\"wp-caption-text\">Ren\u00e9 Magritte, La clef des songes (&quot;A chave dos sonhos&quot;: a ac\u00e1cia, a lua, a neve, o teto, a tempestade, o deserto), 1930<\/p><\/div>\n<p>Ao mesmo tempo em que nos convida a imaginar que um objeto poderia ser chamado por outro nome, ele nos lembra &#8211; flertando tamb\u00e9m com o surrealismo &#8211; que o insconsciente \u00e9 um lugar em que as liga\u00e7\u00f5es entre signos e coisas podem ser t\u00e3o livres quanto poderosas.<\/p>\n<p>O jogo entre imagem e palavra que Jonathas de Andrade cria em \u201cEduca\u00e7\u00e3o de Adultos\u201d \u00e9 bastante sutil, est\u00e1 longe do aparente nonsense que muitas vezes faz as obras de Duchamp ou Magritte parecerem herm\u00e9ticas.\u00a0 Aqui, n\u00e3o chega a haver contradi\u00e7\u00e3o: os objetos sugeridos pelas palavras est\u00e3o tamb\u00e9m ali,  visivelmente referenciados pela imagem.<\/p>\n<div id=\"attachment_1375\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Jonathas-de-Andrade31.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1375\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1375\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Jonathas-de-Andrade3-487x324.jpg\" alt=\"Jonathas de Andrade, Alfabetiza\u00e7\u00e3o para Adultos, 2010\" width=\"487\" height=\"324\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1375\" class=\"wp-caption-text\">Jonathas de Andrade, Alfabetiza\u00e7\u00e3o para Adultos, 2010<\/p><\/div>\n<p>Levando adiante o m\u00e9todo emprestado de Paulo Freire, Jonathas de Andrade espera ir al\u00e9m do contrato &#8211; a rela\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria das palavras &#8211; que as cartilhas estabelecem. Exige-se das linguagens que elas sejam usadas num embate mais efetivo com a realidade.<\/p>\n<p>Desse modo, palavras e imagens deixam de ser representa\u00e7\u00f5es abstratas, tornam-se apropria\u00e7\u00f5es de fragmentos de experi\u00eancias, apontadas por conversas que o artista mant\u00e9m com o grupo de mulheres.<\/p>\n<p>Algumas das rela\u00e7\u00f5es que vemos parecem \u00f3bvias, mas basta dar alguns passos para tr\u00e1s, ampliar o enquadramento que fazemos da obra, situar como fundo n\u00e3o a parede da Bienal, mas a hist\u00f3ria recente do pa\u00eds, e veremos o poder cr\u00edtico desse trabalho. Essa contamina\u00e7\u00e3o com a realidade multiplica irreversivelmente os sentidos da obra, e nos convida a extrapolar as rela\u00e7\u00f5es propostas em cada cartaz. Ao se tornar &#8220;l\u00fadico&#8221;, o trabalho se torna tamb\u00e9m &#8220;pol\u00edtico&#8221;, duas qualidades que a pedagogia sempre valoriza, mas que raramente consegue conciliar.<\/p>\n<p>Se a linguagem pode ser fascista, \u00e9 preciso saber que nem toda alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 libert\u00e1ria. Em princ\u00edpio, ela visa garantir a compreens\u00e3o e o cumprimento de uma ordem. Para ser libert\u00e1ria, a alfabetiza\u00e7\u00e3o deve estimular no uso da linguagem algum n\u00edvel de abertura.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 Barthes: \u201cs\u00f3 resta, por assim dizer, trapacear com a l\u00edngua, trapacear a l\u00edngua. Essa trapa\u00e7a salutar, essa esquiva, esse\u00a0logro\u00a0magn\u00edfico que permite ouvir a l\u00edngua fora do poder, no esplendor de uma revolu\u00e7\u00e3o permanente da linguagem\u201d (<em>A Aula<\/em>).<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\nA s\u00e9rie &#8220;Educa\u00e7\u00e3o para adultos&#8221; pode ser vista na Bienal de S. Paulo, em cartaz at\u00e9 o pr\u00f3ximo fim de semana (12\/12). Vale ver\u00a0tamb\u00e9m a <a href=\"http:\/\/www.olhave.com.br\/blog\/?p=5613\" target=\"_blank\">entrevista que Jonathas de Andrade concedeu ao Olhav\u00ea<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No trabalho que levou \u00e0 Bienal, Jonathas de Andrade\u00a0toma como refer\u00eancia uma s\u00e9rie de cartazes propostos pelo educador Paulo Freire para a alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos, e estabelece rela\u00e7\u00f5es entre novas imagens e palavras a partir de conversas que manteve com um grupo de mulheres analfabetas (vejam mais informa\u00e7\u00f5es no site do artista). Barthes disse uma vez que a l\u00edngua \u00e9 fascista, n\u00e3o porque impede de dizer, mas porque obriga a dizer (Barthes, A aula).\u00a0 Usar uma palavra \u00e9 filiar-se a uma estrutura cuja tradi\u00e7\u00e3o espera impor um sentido. 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