{"id":1339,"date":"2010-11-29T03:48:13","date_gmt":"2010-11-29T03:48:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1339"},"modified":"2016-05-28T13:47:59","modified_gmt":"2016-05-28T13:47:59","slug":"formas-puras-e-abstracoes-pertinentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/formas-puras-e-abstracoes-pertinentes\/","title":{"rendered":"Formas puras e abstra\u00e7\u00f5es pertinentes"},"content":{"rendered":"<p>Fragmento do texto de apresenta\u00e7\u00e3o do livro <strong>Bonito \u2013 Confins do Novo Mundo<\/strong>, fotografias de Valdir Cruz. A exposi\u00e7\u00e3o com 25 fotografias encontra-se na <em>Galeria Lourdina Jean Rabieh<\/em>, Avenida Gabriel Monteiro da Silva, 147, telefone 3062-7173.<\/p>\n<p><em>\u201cO que \u00e9 real \u00e9 a mudan\u00e7a cont\u00ednua da forma:<br \/>\na\u00a0 forma \u00e9 apenas uma vis\u00e3o instant\u00e2nea da transi\u00e7\u00e3o\u201d<br \/>\nHenri Bergson<\/em><\/p>\n<p>A fotografia \u00e9 a primeira manifesta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na hist\u00f3ria das artes visuais e tamb\u00e9m \u00e9 a linguagem que mais se reinventou nos \u00faltimos 170 anos. Um olhar retrospectivo nos possibilita entender que desde o princ\u00edpio, os suportes e as tecnologias foram sucessivamente se modificando a fim de propiciar um resultado imag\u00e9tico cada vez mais convincente, verdadeiro e renovador. E a cada novo paradigma, temos a oportunidade de perceber o quanto o homem se esmerou em criar um registro t\u00e9cnico que tamb\u00e9m provocasse nossa imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso das fotografias de Valdir Cruz publicadas nesta exposi\u00e7\u00e3o (e no livro), que documentam a regi\u00e3o de Bonito, Mato Grosso do Sul, conhecida como uma das mais belas do pa\u00eds. Um trabalho exaustivo, que exigiu muitas viagens e um mergulho na hist\u00f3ria e nas peculiaridades daquelas belezas naturais. Tamb\u00e9m imp\u00f4s a necessidade de elaborar uma leitura pr\u00f3pria das diferentes luzes tropicais do centro-oeste brasileiro, para conceber um ensaio que pudesse dar conta de algumas das singularidades visuais de Bonito com as caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas que definem o seu trabalho fotogr\u00e1fico.<\/p>\n<div id=\"attachment_1347\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Valdir-Cruz-Nascente-do-Rio-Bonito-20091.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1347\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1347\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Valdir-Cruz-Nascente-do-Rio-Bonito-2009-487x380.jpg\" alt=\"Valdir Cruz, Nascente do Rio Bonito, 2009\" width=\"487\" height=\"380\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1347\" class=\"wp-caption-text\">Valdir Cruz, Nascente do Rio Bonito, 2009<\/p><\/div>\n<p>Valdir Cruz tem uma trajet\u00f3ria bastante espec\u00edfica na fotografia brasileira. Iniciou sua forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e est\u00e9tica nos Estados Unidos, sob orienta\u00e7\u00e3o do mestre George Tice<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, que lhe deu uma s\u00f3lida base para a compreens\u00e3o de todo o processo fotogr\u00e1fico e possibilitou sua aproxima\u00e7\u00e3o das matrizes de E. Steichen e, mais tarde, de Horst P. Horst, Mappelthorpe, entre outros. Para Valdir, \u00e9 dif\u00edcil pensar sua produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica sem a c\u00e2mera de grande formato, sem a longa exposi\u00e7\u00e3o que garante profundidade de campo e informa\u00e7\u00f5es distintas nas diversas zonas de luz e sombra, sem uma revela\u00e7\u00e3o e impress\u00e3o que lhe ofere\u00e7am quase todos os detalhes pr\u00e9-visualizados. Dificilmente ele admite algum imprevisto ao longo da sua opera\u00e7\u00e3o sequencial e cl\u00e1ssica da fotografia.<\/p>\n<p>Fotografar para Valdir Cruz \u00e9 um ato que exige disciplina e rigor, \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica sofisticada que requer concentra\u00e7\u00e3o e conhecimento profundo das vari\u00e1veis que envolvem o processo. Ele sabe que s\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel registrar uma imagem que tenha alguma ess\u00eancia transformadora, que traga alguma centelha que seja capaz de revesti-la com magia. Essa disciplina aprendida \u00e9 que permitiu este ensaio desenvolvido com mais naturalidade e despojamento. Um conjunto de fotografias em que prevalece uma leveza e uma liberdade incomum, que se diferencia bastante dos seus trabalhos anteriores.<\/p>\n<p>Em <strong>Bonito \u2013 Confins do Novo Mundo<\/strong> podemos conferir sua maturidade como artista, pois mesmo mantendo uma forte rela\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o da fotografia paisagista em preto e branco, ele soube incorporar \u00e0 sua fotografia uma atmosfera po\u00e9tica que parece guiar com clareza as id\u00e9ias que desenvolveu para este ensaio. Id\u00e9ias que refletem uma consci\u00eancia aguda do seu processo criativo.<\/p>\n<p>Ele assumiu o encanto e o frescor das sensa\u00e7\u00f5es fugazes. Sua composi\u00e7\u00e3o \u00e9 elegante e imaginativa. Nada escapa ao seu olhar atento que elabora um universo visual a partir de um mapa de procedimentos que revela formas puras e abstra\u00e7\u00f5es impertinentes, com estranhas e pulsantes luzes. Sua matriz de grande formato registra uma natureza exuberante, quase intoc\u00e1vel. \u00c9 poss\u00edvel perceber tamb\u00e9m que Valdir esperou pacientemente o momento em que toda a improv\u00e1vel ordem natural do cotidiano entra em revolu\u00e7\u00e3o e explode na beleza da sua fotografia. Ele descobre certas estruturas vis\u00edveis e cria uma conex\u00e3o entre elas; concentra na imagem uma for\u00e7a desconcertante que excita nossos sentidos.<\/p>\n<p>Claro que o car\u00e1ter documental que permeia sua obra n\u00e3o se constitui aqui um obst\u00e1culo \u00e0 express\u00e3o de sentimentos e emo\u00e7\u00f5es, mas o deslocamento provocado pelo ambiente <em>in natura <\/em>de Bonito parece que exigiu uma preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pl\u00e1stica diferenciada dos seus trabalhos anteriores. Estas fotografias de Valdir Cruz tem o poder de nos conduzir a um novo patamar de percep\u00e7\u00e3o, distribu\u00eddo em diferentes camadas, a partir de uma superf\u00edcie, a \u00e1gua, que reflete e refrata a luz.<\/p>\n<div id=\"attachment_1344\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Valdir-Cruz-Encontro-de-Exus-200811.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1344\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1344\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Valdir-Cruz-Encontro-de-Exus-20081-280x353.jpg\" alt=\"Valdir Cruz, Encontro de Exus, 2008\" width=\"280\" height=\"353\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1344\" class=\"wp-caption-text\">Valdir Cruz, Encontro de Exus, 2008<\/p><\/div>\n<p>Diante de algumas fotografias, como por exemplo, a surpreendente <em>Encontro de Exus<\/em>, temos uma sucess\u00e3o de eventos amalgamados em simultaneidade. A primeira impress\u00e3o \u00e9 de estranhamento, pois \u00e9 uma imagem ruidosa e com ricos detalhes. O resultado fotogr\u00e1fico exige concentra\u00e7\u00e3o para entender a imprecis\u00e3o dos contornos, os diferentes tempos reunidos no mesmo espa\u00e7o, ou as diferentes paisagens que integram a mesma fotografia.<\/p>\n<p>Valdir Cruz n\u00e3o esqueceu o legado dos grandes mestres da fotografia, e realizou um ensaio que sintetiza uma experi\u00eancia imersiva puramente visual. Um perfeito equil\u00edbrio entre intui\u00e7\u00e3o e intelecto. <strong>Bonito<\/strong> <strong>\u2013 Confins do Novo Mundo<\/strong> \u00e9 um ensaio inovador, resultado de d\u00e9cadas de trabalho lapidado e testado em diferentes tem\u00e1ticas. Se \u201ca t\u00e9cnica \u00e9 o exerc\u00edcio da sinceridade\u201d como defendeu o poeta Ezra Pound, Valdir Cruz trouxe para este trabalho toda sua experi\u00eancia. Potencializou com sua compet\u00eancia t\u00e9cnica e seu olhar sens\u00edvel, a for\u00e7a invis\u00edvel que organiza e alinha os diferentes objetos \u2013 pedras, folhas, seixos, galhos, peixes, entre outros \u2013 que ao serem fotografados parecem conduzir ao devaneio nosso olhar de espectador.<\/p>\n<div id=\"attachment_1345\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Valdir-Cruz-Rio-da-Prata-20081.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1345\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1345\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Valdir-Cruz-Rio-da-Prata-2008-280x353.jpg\" alt=\"Valdir Cruz, Rio da Prata, 2008\" width=\"280\" height=\"353\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1345\" class=\"wp-caption-text\">Valdir Cruz, Rio da Prata, 2008<\/p><\/div>\n<p>Forma, tempo e movimento. Estas s\u00e3o algumas das vari\u00e1veis que Valdir Cruz combina com maestria neste ensaio e \u00e9 isso que torna sua fotografia diferente e estranhamente harmoniosa. A verdade \u00e9 que ele conseguiu com seu inesgot\u00e1vel repert\u00f3rio de formas, enquadradas num tempo alongado, instaurar uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada com o sagrado. Uma esp\u00e9cie de exatid\u00e3o e beleza. Uma trama delicada e, ao mesmo tempo, densa e leve, desorganizada e equilibrada. Por exemplo, essa \u00e1gua que se torna espelho \u2013 <em>Rio da Prata<\/em> \u2013, que reflete o c\u00e9u e as nuvens, a floresta e a mata, tamb\u00e9m viabiliza ver suas profundezas atrav\u00e9s da transpar\u00eancia. Quantas culturas est\u00e3o impregnadas nestas fotografias? Que esp\u00e9cie de palimpsesto ele conseguiu inscrever nestas fotografias?<\/p>\n<p>A natureza \u00e9 extremamente complexa e a de Bonito registrada neste ensaio em particular, torna-se imagem \u00e0 qual n\u00f3s podemos entender melhor o seu sentido e sua for\u00e7a espiritual. Esse movimento natural que a cada instante transforma o mundo vis\u00edvel \u00e9 que interessa ser registrado. Na verdade, o lapso entre momentos singulares que por um acaso qualquer, faz tudo movimentar e gerar uma imagem que desperta o interesse do artista.<\/p>\n<p>De modo geral, o ensaio produz um efeito paralisante que nos deixa at\u00f4nitos porque as fotografias parecem enigmas imobilizados diante dos nossos olhos. Da\u00ed, nossa admira\u00e7\u00e3o confessa, pois a esfera on\u00edrica \u00e9 evocada. Marcel Proust escreveu que \u201ca verdadeira viagem de descoberta consiste n\u00e3o em procurar novas paisagens, mas em possuir novos olhos\u201d. E foi exatamente isso que moveu Valdir Cruz neste trabalho pois ao mesmo tempo que evitou a imagem apressada e vulgarizada do mundo contempor\u00e2neo, buscou registros que impressionam pela densidade temporal, pela desintegra\u00e7\u00e3o das formas, pela provoca\u00e7\u00e3o do espanto e do fant\u00e1stico quase inesperado naquela paisagem ancestral.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"#_ftnref\">[1]<\/a> George Tice (1938, Newark, New Jersey), fot\u00f3grafo norte-americano, professor da Maine Photographic Workshops, desde 1977.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragmento do texto de apresenta\u00e7\u00e3o do livro Bonito \u2013 Confins do Novo Mundo, fotografias de Valdir Cruz. A exposi\u00e7\u00e3o com 25 fotografias encontra-se na Galeria Lourdina Jean Rabieh, Avenida Gabriel Monteiro da Silva, 147, telefone 3062-7173. \u201cO que \u00e9 real \u00e9 a mudan\u00e7a cont\u00ednua da forma: a\u00a0 forma \u00e9 apenas uma vis\u00e3o instant\u00e2nea da transi\u00e7\u00e3o\u201d Henri Bergson A fotografia \u00e9 a primeira manifesta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na hist\u00f3ria das artes visuais e tamb\u00e9m \u00e9 a linguagem que mais se reinventou nos \u00faltimos 170 anos. 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