{"id":1312,"date":"2010-11-21T07:13:42","date_gmt":"2010-11-21T07:13:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1312"},"modified":"2017-03-01T12:28:11","modified_gmt":"2017-03-01T12:28:11","slug":"quando-a-verdade-nao-importa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/quando-a-verdade-nao-importa\/","title":{"rendered":"Quando a verdade n\u00e3o importa"},"content":{"rendered":"<p>Por causa de uma reportagem sobre a autobiografia de Robert Capa, retornei \u00e0s suas imagens e me detive sobre a pol\u00eamica fotografia do miliciano, na Guerra Civil Espanhola.<\/p>\n<div id=\"attachment_1313\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/beijo-19501.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1313\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1313\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/beijo-1950-360x285.jpg\" alt=\"Robert Doisneau. O Beijo do Hotel de Ville, 1950\" width=\"674\" height=\"534\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1313\" class=\"wp-caption-text\">Robert Doisneau. O Beijo do Hotel de Ville, 1950<\/p><\/div>\n<p>Senti quando o beijo de Doisneau foi desmascarado, e torci para que a tese da encena\u00e7\u00e3o na foto de Capa fosse apenas especula\u00e7\u00e3o. Mas os c\u00e9ticos \u2013 para quem realidade e fotografia s\u00e3o coisas sempre avessas \u2013 tinham raz\u00e3o, e nos olharam com um ar de \u201ceu avisei!\u201d.<\/p>\n<p>Por voca\u00e7\u00e3o ou por obriga\u00e7\u00e3o, quase todos n\u00f3s aprendemos a desconfiar das imagens. Dominamos seus c\u00f3digos, suas armadilhas ret\u00f3ricas, suas estrat\u00e9gias de sedu\u00e7\u00e3o.\u00a0 Com a devida autoridade, temos passado tamb\u00e9m essa li\u00e7\u00e3o aos nossos alunos.<\/p>\n<div id=\"attachment_1322\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Robert-Capa-La-muerte-de-un-miliciano1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1322\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1322 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Robert-Capa-La-muerte-de-un-miliciano-674x443.jpg\" alt=\"Robert Capa. Morte de um miliciano, 1936.\" width=\"674\" height=\"443\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1322\" class=\"wp-caption-text\">Robert Capa. Morte de um miliciano, 1936.<\/p><\/div>\n<p>Mas voltei \u00e0 fotografia do miliciano e percebi algo curioso: porque uma ponta de f\u00e9 ainda persiste? Porque ainda sinto nessa imagem a mesma for\u00e7a? Por que ainda vejo aquilo que sei n\u00e3o ser verdadeiro? Ainda vejo um homem que corria na dire\u00e7\u00e3o do inimigo como se quisesse impedir sozinho a entrada dos fascistas naquele vasto territ\u00f3rio. O tiro cujo impacto interrompe seu movimento e o lan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. O instante da morte, quando a express\u00e3o de dor ainda n\u00e3o se desfez, quando a m\u00e3o j\u00e1 deixa escapar a arma, mas ainda n\u00e3o o idealismo. O corpo que, tombando para tr\u00e1s, se projeta para o futuro e, ainda hoje, nos convoca para a sua luta. Nada disso \u00e9 verdade, mas est\u00e1 tudo l\u00e1.<\/p>\n<p>O que sustenta a imagem n\u00e3o \u00e9 tal no\u00e7\u00e3o de verdade. Ela interessa \u00e0 grande ci\u00eancia que busca compreender realidades imut\u00e1veis: Newton descobriu a verdade sobre a atra\u00e7\u00e3o dos corpos. Interessa tamb\u00e9m \u00e0 pequena moral: a pol\u00edcia descobriu a verdade sobre certo assassinato que comove o p\u00fablico. Uma coisa \u00e9 t\u00e3o est\u00e1vel que n\u00e3o precisa ser lembrada, a outra \u00e9 t\u00e3o insignificante que logo ser\u00e1 esquecida.<\/p>\n<p>As imagens operam no dom\u00ednio da mem\u00f3ria, que n\u00e3o \u00e9 nem t\u00e3o definitiva quanto a gravidade e nem t\u00e3o ef\u00eamera quanto um fato televisivo. Ela persiste, sempre em movimento. As mem\u00f3rias mais intensas n\u00e3o almejam a verdade, caso contr\u00e1rio elas se esgotariam diante de uma prova. Elas est\u00e3o a\u00ed para serem vividas em sua incompletude, repetidamente, e aquilo que lhes falta \u00e9 exatamente o que permite a ela tocar o presente. Como diz Chris Marker, \u201cuma\u00a0mem\u00f3ria\u00a0total \u00e9 uma\u00a0mem\u00f3ria anestesiada\u201d (Sem Sol, 1983).<\/p>\n<p>A foto de Capa n\u00e3o \u00e9 intensa porque mostra exatamente o que ocorreu, mas porque mant\u00e9m viva uma realidade, porque a torna memor\u00e1vel. Ela opera como os mitos.<\/p>\n<p>Curioso que \u201cmito\u201d tenha se tornado para n\u00f3s sin\u00f4nimo de \u201cmentira\u201d (o<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WqCbOrBN-Sk\" target=\"_blank\"> document\u00e1rio que denuncia a foto de Capa<\/a> tem a mesma linguagem cientificista de um programa do tipo &#8220;mythbusters&#8221;, territ\u00f3rio de verdades in\u00fateis e ef\u00eameras). Uma narrativa n\u00e3o se torna m\u00edtica por ser verdadeira ou falsa, mas por ser o modo mais efetivo de fazer o passado atuar na busca de um sentido para o presente. Nunca foi importante saber se a Guerra de Tr\u00f3ia aconteceu tal e qual descrito na Il\u00edada. \u00c9 parte da mitologia de nossos ancestrais, mas suas inven\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o consistentes que, ainda hoje, recorremos a ela para pensar o que somos. Em contrapartida, quantas imagens mais verdadeiras a gente n\u00e3o esquece todos os dias?<\/p>\n<p>Algumas imagens constituem uma esp\u00e9cie de mitologia, s\u00e3o aquelas que parecem deixar o tempo em suspens\u00e3o. Ainda temos pela frente a luta que est\u00e1 prestes a ser perdida na foto de Capa. Mas temos tamb\u00e9m o amor que nunca cessa na foto de Doisneau.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por causa de uma reportagem sobre a autobiografia de Robert Capa, retornei \u00e0s suas imagens e me detive sobre a pol\u00eamica fotografia do miliciano, na Guerra Civil Espanhola. Senti quando o beijo de Doisneau foi desmascarado, e torci para que a tese da encena\u00e7\u00e3o na foto de Capa fosse apenas especula\u00e7\u00e3o. Mas os c\u00e9ticos \u2013 para quem realidade e fotografia s\u00e3o coisas sempre avessas \u2013 tinham raz\u00e3o, e nos olharam com um ar de \u201ceu avisei!\u201d. Por voca\u00e7\u00e3o ou por obriga\u00e7\u00e3o, quase todos n\u00f3s aprendemos a desconfiar das imagens. 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