{"id":1293,"date":"2010-11-15T17:29:11","date_gmt":"2010-11-15T17:29:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1293"},"modified":"2016-05-28T14:29:15","modified_gmt":"2016-05-28T14:29:15","slug":"chacal-vs-capitao-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/chacal-vs-capitao-nascimento\/","title":{"rendered":"Chacal vs Capit\u00e3o Nascimento"},"content":{"rendered":"<p>Na semana passada, fui ver <em><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1321865\/\" target=\"_blank\">Carlos<\/a> <\/em>(2010), filme de Olivier Assayas que se apresenta como \u201cfic\u00e7\u00e3o baseada em pesquisas jornal\u00edsticas\u201d, e que conta a hist\u00f3ria do legend\u00e1rio terrorista venezuelano conhecido como Chacal. Produzido como miniss\u00e9rie pelo \u201cCanal Plus\u201d, rede francesa de TV, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo, assim como em Cannes, em sess\u00f5es de quase seis horas de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na semana anterior, havia assistido tamb\u00e9m a <em><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1555149\/\">Tropa de Elite II<\/a> <\/em>(2010), de Jos\u00e9 Padilha, que dispensa apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ambos tratam da complexa rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica, corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. A hist\u00f3ria de Carlos se concentra nos anos 70 e 80, no bolo internacional que mistura a guerra fria, a quest\u00e3o palestina e o com\u00e9rcio de petr\u00f3leo. <em>Tropa de Elite<\/em> <em>II<\/em> exp\u00f5e a rela\u00e7\u00e3o dos poderes p\u00fablicos com as a\u00e7\u00f5es do crime organizado nos morros cariocas.<\/p>\n<p>O filme franc\u00eas me ajudou a situar algo que me incomodou em <em>Tropa de Elite<\/em>: o didatismo, aquela voz facilitadora do Capit\u00e3o Nascimento, sempre nos ajudando a fazer as conex\u00f5es entre os fatos e a julgar as a\u00e7\u00f5es dos personagens. Em <em>Carlos<\/em>, ningu\u00e9m explica nada. Temos que simplesmente detectar em cada momento as tens\u00f5es pol\u00edticas que, assim como em <em>Tropa de Elite<\/em>, se reconfiguram o tempo todo.<\/p>\n<p>Os personagens de <em>Tropa<\/em> s\u00e3o quase arquet\u00edpicos, por isso s\u00e3o f\u00e1ceis de apreender: o principal deles, o homem sem refinamento que se revela bom em sua rudeza, como s\u00e3o os pais, tios ou av\u00f3s de alguns de n\u00f3s, que desenvolveram uma s\u00f3lida no\u00e7\u00e3o de certo e errado sem precisar desenvolver teorias sobre o assunto (o discurso final do Capit\u00e3o Nascimento em <em>Tropa II <\/em>\u00e9 indignado, ing\u00eanuo e verdadeiro, como a opini\u00e3o pol\u00edtica dos nossos tios). Tem tamb\u00e9m o comunicador bonach\u00e3o, perform\u00e1tico que traveste de indigna\u00e7\u00e3o seu pensamento fascista; o professor universit\u00e1rio de esquerda, militante, sedutor e cheio de ret\u00f3rica; o governante inseguro e manipul\u00e1vel que, quando n\u00e3o chega, termina corrupto&#8230; Conhecemos uma d\u00fazia de cada um desses personagens.<\/p>\n<p>Em <em>Carlos<\/em>, os personagens s\u00e3o contingentes, aqueles que a hist\u00f3ria nos deu. E, n\u00e3o sendo exemplares de nada, s\u00e3o dif\u00edceis de apreender. Para saber do que estamos falando, temos que puxar pela mem\u00f3ria o que representam figuras como Kaddafi, Arafat, Sadat, Husseim, ou cidades como Damasco, Tripoli, Bagd\u00e1, Beirute, Cairo, ou organiza\u00e7\u00f5es como OPEP ou FPLP etc. Depois de quase seis horas de filme, ainda \u00e9 preciso gastar mais algum tempo na wikipedia.<\/p>\n<p>Em Carlos, nenhum personagem que tenha um nome \u00e9 inocente por muito tempo. S\u00f3 os figurantes s\u00e3o bons. O filme deixa claro que as alian\u00e7as s\u00e3o amorais e que, de um instante para o outro, ex-inimigos se juntam para eliminar seus ex-aliados. J\u00e1 aparece ali, por exemplo, a delicada coopera\u00e7\u00e3o entre os EUA e pa\u00edses e l\u00edderes ligados ao petr\u00f3leo que, depois, passariam a representar o mal.<\/p>\n<p>Se Capit\u00e3o Nascimento j\u00e1 come\u00e7a <em>Tropa II<\/em> na condi\u00e7\u00e3o de her\u00f3i, fica sob nossa responsabilidade saber exatamente em que momento Chacal deixou de ser o ide\u00f3logo marxista, vaidoso e atrapalhado em suas a\u00e7\u00f5es, para se tornar o mercen\u00e1rio frio, meticuloso e corrupto. Nesse sentido, o Capit\u00e3o Nascimento era mais complexo em <em>Tropa I<\/em>, porque restava ali alguma ambiguidade entre os meios desumanos que adotava e os fins nobres que almejava.<\/p>\n<p>Tanto <em>Carlos<\/em> quanto <em>Tropa<\/em> deixam a ang\u00fastia de n\u00e3o saber como nomear o verdadeiro culpado.\u00a0 O primeiro se limita a exibir, sempre como pano de fundo, o ponto de vista que se converter\u00e1 na causa de Chacal, e que redefinir\u00e1 seu alvo, a cabe\u00e7a que est\u00e1 a pr\u00eamio. O segundo ainda tenta coordenar as coisas numa intrincada rela\u00e7\u00e3o de causas e efeitos (e que sempre exige a interven\u00e7\u00e3o da voz em <em>off<\/em> do Capit\u00e3o Nascimento).<\/p>\n<p>Para demostrar que n\u00e3o h\u00e1 simplesmente um vil\u00e3o, <em>Tropa de Elite II<\/em> apela para a no\u00e7\u00e3o de \u201csistema\u201d. Mas, sem querer enfrentar a complexidade desse conceito, o filme quase o transforma num personagem oculto, ou seja, novamente num vil\u00e3o. \u00c9 interessante demonstrar ao p\u00fablico que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 sist\u00eamica, isto \u00e9, enraizada de modo insconsciente em a\u00e7\u00f5es muito distintas, alimentada por um conjunto complexo movimentos e de rela\u00e7\u00f5es, mais do que por um centro de decis\u00f5es. Desse modo, o poder \u00e9 algo que circula de modo coordenado nas pr\u00e1ticas cotidianas, aquilo que Foucault chamou de \u201cmicrof\u00edsica do poder\u201d.<\/p>\n<p>Mas perceber um poder como sistema deveria ser uma forma de enfrent\u00e1-lo em suas sutilezas, n\u00e3o uma explica\u00e7\u00e3o sobre a impossibilidade de combat\u00ea-lo. O sistema, a estrutura, o organismo \u00e9 algo mais abstrato, mas que ainda pode ser aprrendido por um conhecimento ajustado \u00e0 sua complexidade. Mas Capit\u00e3o Nascimento, esse her\u00f3i rude, s\u00f3 consegue dizer \u201ca culpa \u00e9 do sistema\u201d do mesmo jeito que se dizia \u201cfoi Deus quem quis assim\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que o filme estimule a pensar nesse fantasma que \u00e9 o sistema, acho mais convincente o que parece se depreender do filme <em>Carlos<\/em>, quando ele evita grandes explica\u00e7\u00f5es: a id\u00e9ia de que o poder \u00e9 amoral, de que os movimentos da hist\u00f3ria t\u00eam algo de aleat\u00f3rio, de que as motiva\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s das alian\u00e7as s\u00e3o sempre de imediatas, de que a ilus\u00e3o de paz s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada no breve instante de in\u00e9rcia em que todos tem uma arma apontada para suas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>No final das contas, s\u00e3o dois filmes muito bem feitos, com escolhas est\u00e9ticas diferentes. <em>Tropa de Elite<\/em> \u00e9 sofisticado em sua linguagem. Equipara-se \u00e0s boas produ\u00e7\u00f5es norte-americanas no uso dos recursos t\u00e9cnicos e narrativos do cinema, algo que a maior parte dos filmes nacionais fica devendo. <em>Carlos<\/em> \u00e9 simples, est\u00e1 longe de ser experimental, continua sendo um filme de a\u00e7\u00e3o feito para a TV. Equivale ao olhar atento que dedicamos ao jornal todas as manh\u00e3s, enquanto nosso pensamento n\u00e3o cessa de formular discretamente quest\u00f5es sobre um mundo que jamais chegamos a compreender.<\/p>\n<p>&#8211; &#8211; &#8211;<\/p>\n<p><em>Carlos<\/em> deve chegar como s\u00e9rie em algum canal brasileiro de TV ou, pelo menos, nos cinemas, numa vers\u00e3o de cerca de tr\u00eas horas prometia pelo diretor. Ouvi tamb\u00e9m not\u00edcias de que \u00e9 poss\u00edvel baixar pela internet, com legendas em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A trilha do filme\u00a0\u00e9 incr\u00edvel (Brian Eno, New Order, Wire, The Feelies,\u00a0Chico Buarque &amp; Pablo Milanez), mas n\u00e3o encontrei nem na Amazon. Se algu\u00e9m souber de algo, avise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada, fui ver Carlos (2010), filme de Olivier Assayas que se apresenta como \u201cfic\u00e7\u00e3o baseada em pesquisas jornal\u00edsticas\u201d, e que conta a hist\u00f3ria do legend\u00e1rio terrorista venezuelano conhecido como Chacal. Produzido como miniss\u00e9rie pelo \u201cCanal Plus\u201d, rede francesa de TV, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo, assim como em Cannes, em sess\u00f5es de quase seis horas de dura\u00e7\u00e3o. Na semana anterior, havia assistido tamb\u00e9m a Tropa de Elite II (2010), de Jos\u00e9 Padilha, que dispensa apresenta\u00e7\u00f5es. 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