{"id":1255,"date":"2010-11-03T04:44:33","date_gmt":"2010-11-03T04:44:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1255"},"modified":"2016-05-28T14:29:24","modified_gmt":"2016-05-28T14:29:24","slug":"manual-de-primeiros-socorros-para-conceitos-mutilados-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/manual-de-primeiros-socorros-para-conceitos-mutilados-parte-iii\/","title":{"rendered":"Manual de primeiros socorros para conceitos mutilados \u2013 Parte III"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1261\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/metropolis-1-machine-woman1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1261\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1261\" alt=\"Cena de Metr\u00f3polis, de Fritz Lang, 1927.\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/metropolis-1-machine-woman-280x168.jpg\" width=\"280\" height=\"168\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1261\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Metr\u00f3polis, de Fritz Lang, 1927.<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 natural que id\u00e9ias sejam deturpadas por quem as menospreza, mas o conceito de <em>virtual<\/em> foi \u00e0s vezes mutilado pelo fogo amigo: \u00e9 o fato de estar na moda que dificulta sua compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o \u00faltimo de uma s\u00e9rie de tr\u00eas posts. No primeiro, discuti os conceitos de <em><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=887\" target=\"_blank\">realidade<\/a><\/em><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=887\" target=\"_blank\">, <em>representa\u00e7\u00e3o da realidade<\/em> e <em>realismo<\/em><\/a>, no segundo, <em><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1005\" target=\"_blank\">analogia<\/a><\/em><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1005\" target=\"_blank\">, <em>mimesis<\/em>, <em>verossimilhan\u00e7a<\/em> e <em>objetividade<\/em><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Virtual<\/strong><\/p>\n<p>Temos chamado de virtual tudo aquilo que est\u00e1 associado \u00e0s novas tecnologias, sobretudo \u00e0s redes. Constru\u00edmos assim a impress\u00e3o de que esta palavra surge para dar conta de uma novidade. Mas \u00e9 preciso saber que estamos diante de uma no\u00e7\u00e3o que \u00e9, pelo menos, uns vinte e cinco s\u00e9culos mais velha que os computadores.<\/p>\n<p>No campo da fotografia, temos chamado de virtual a realidade inventada pelos artistas, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0quela realidade que a c\u00e2mera encontra ordinariamente e que os fot\u00f3grafos documentaristas se esfor\u00e7am por reproduzir. Aqui, realidade virtual se torna o vi\u00e9s criativo e bem intensionado do que poder\u00edamos chamar simplesmente de falsa realidade.<\/p>\n<p>Mas virtual n\u00e3o \u00e9 aquilo que se op\u00f5e ao real, \u00e9 uma dimens\u00e3o da realidade. A metaf\u00edsica sempre se interrogou sobre o \u201cser\u201d das coisas (aquilo que chamamos corriqueiramente de ess\u00eancia). Nessa perspectiva, Arist\u00f3teles dizia que esse ser pode existir em \u201cato\u201d, aquilo que j\u00e1 est\u00e1 manifesto (que \u00e9 \u201catual\u201d), ou pode existir em \u201cpot\u00eancia\u201d, aquilo que tem a capacidade de \u201cvir a ser\u201d (Metaf\u00edsica, livro V). Virtual \u00e9 essa dimens\u00e3o potencial e dispon\u00edvel da exist\u00eancia, que j\u00e1 est\u00e1 inscrita no ser como possibilidade, que pode ser intu\u00edda, mas que ainda n\u00e3o se tornou presente. Por exemplo, um negativo fotogr\u00e1fico exposto e ainda n\u00e3o revelado \u00e9 virtualmente uma imagem, as a\u00e7\u00f5es da bolsa s\u00e3o virtualmente dinheiro, ou uma semente \u00e9 virtualmente uma \u00e1rvore (este \u00faltimo exemplo \u00e9 de Pierre L\u00e9vy).<\/p>\n<p>Sugere-se a\u00ed a possibilidade de compreender o devir, portanto, de projetar o conhecimento para uma temporalidade mais complexa, que considera o movimento das coisas.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles gostava da arte exatamente porque enxergava nela essa compet\u00eancia de abordar o mundo em suas potencialidades. Ao contr\u00e1rio do historiador, que narra o acontecido, o poeta narra o que poderia acontecer (Po\u00e9tica, cap. IX).<\/p>\n<p><strong>Novas tecnologias<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, as discuss\u00f5es sobre tecnologia n\u00e3o s\u00e3o as mais empolgantes. Podemos passar rapidamente por elas, j\u00e1 assumindo que o que mais interessa vir\u00e1 no pr\u00f3ximo t\u00f3pico.<\/p>\n<p>Tudo o que est\u00e1 no computador ou na internet \u00e9 virtual em certo sentido. N\u00e3o existe ali uma imagem, um texto, uma m\u00fasica, pelo menos, n\u00e3o o tempo todo. Existem apenas dados, mas que s\u00e3o potencialmente imagem, texto, m\u00fasica, ou seja, que est\u00e3o dispon\u00edveis para serem \u201catualizados\u201d nessas formas. Mais ou menos como a \u201cimagem virtual\u201d que existe no negativo n\u00e3o revelado mas, enquanto a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo definitivo, a imagem digital permanece sendo essencialmente dados, e sua atualiza\u00e7\u00e3o numa manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel \u00e9 sempre provis\u00f3ria.<\/p>\n<p>Num sentido mais complexo, podemos dizer que as imagens de s\u00edntese num\u00e9rica, isto \u00e9, geradas diretamente no computador, produzem realidades virtuais. Elas n\u00e3o s\u00e3o c\u00f3pias de um fato ocorrido, s\u00e3o encena\u00e7\u00f5es \u201cmodeladas\u201d a partir de conceitos abstra\u00eddos da realidade. N\u00e3o s\u00e3o simplesmente fic\u00e7\u00f5es, pois ainda podem corresponder \u00e0s potencialidades do real. Sem d\u00favida, elas est\u00e3o aptas a simular tamb\u00e9m\u00a0realidades imposs\u00edveis mas, uma vez que responde a um modelo, a imagem n\u00e3o deixa de mostrar potenciais coerentes com as condi\u00e7\u00f5es estabelecidas. Se n\u00e3o reproduz uma natureza id\u00eantica \u00e0 nossa, constr\u00f3i uma natureza com uma coer\u00eancia similar. A realidade virtual constru\u00edda por meio de simula\u00e7\u00e3o n\u00e3o prova nada, nem prev\u00ea nada, apenas diz que, dadas tais condi\u00e7\u00f5es, tais coisas poderiam acontecer. Por isso mesmo, ainda tem valor de conhecimento em certos conhecimentos. Mas cabe dizer que isso n\u00e3o \u00e9 exclusividade das experi\u00eancias mediadas pelas novas tecnologias. Sem d\u00favida, isso \u00e9 v\u00e1lido para a simula\u00e7\u00e3o de um terremoto calculada por um super computador, mas tamb\u00e9m para a tradicional simula\u00e7\u00e3o de inc\u00eandio feita num edif\u00edcio.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou entrar nesse assunto mas, h\u00e1 alguns meses, publiquei no blog de um amigo <a href=\"http:\/\/ecode.messa.com.br\/2010\/05\/o-virtual-como-uma-dimensao-do-real.html\">um artigo sobre a &#8220;virtualiza\u00e7\u00e3o das identidades&#8221; nas redes sociais<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Fotografia<\/strong><\/p>\n<p>Com novas ou velhas tecnologias, a quest\u00e3o do virtual tem atravessado muitas discuss\u00f5es sobre a fotografia. Isso est\u00e1 claramente colocado em duas diferentes perspectivas (e talvez em mais uma terceira, que apresento como pura especula\u00e7\u00e3o):<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> A fotografia contemor\u00e2nea investe muitas vezes na encena\u00e7\u00e3o como forma de romper com a tradi\u00e7\u00e3o documental, de desvincular a imagem de um instante dado no passado, o \u201cisso foi\u201d de Barthes, para faz\u00ea-la apontar para um tempo indefinido, que \u00e9 o das potencialidades. Como j\u00e1 disse no come\u00e7o deste post, aqui estamos diante do virtual. Mas \u00e9 abusivo confundir simplesmente virtual com ficcional, sobretudo se tomarmos o ficcional como o avesso do real (esta \u00faltima, no\u00e7\u00e3o que a fotografia contempor\u00e2nea tamb\u00e9m renega). Faz sentido falar em virtual se reconhecemos na fic\u00e7\u00e3o o exerc\u00edcio de um entendimento que se descola dos fatos observados para operar no plano dos conceitos e, a partir deles, testar as possibilidades de reconfigura\u00e7\u00e3o dessa realidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_1256\" style=\"width: 284px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/CINDY-SHERMAN1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1256\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1256  \" alt=\"Cindy Sherman, 1977.\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/CINDY-SHERMAN1.jpg\" width=\"274\" height=\"204\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1256\" class=\"wp-caption-text\">Cindy Sherman, 1977.<\/p><\/div>\n<p>Assim \u00e9, por exemplo, uma personagem de Cindy Sherman. Podemos reconhecer nela a representa\u00e7\u00e3o de algo virtual n\u00e3o porque n\u00e3o exista. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 virtual porque, mesmo como inven\u00e7\u00e3o, mesmo sem se referir \u00e0 pessoa que esteve diante da c\u00e2mera, exp\u00f5e um modelo de mulher que pode ser identificada com algu\u00e9m pr\u00f3ximo, algu\u00e9m distante, algu\u00e9m poss\u00edvel, talvez, consigo mesma&#8230;<\/p>\n<p>A chamada &#8220;fotografia constru\u00edda&#8221; teve o m\u00e9rito de expor as possibilidades de di\u00e1logo da imagem fotogr\u00e1fica com essa dimens\u00e3o virtual. Mas, talvez por esse esfo\u00e7o pioneiro, creio que \u00e0s vezes\u00a0tenha feito isso com certo didatismo.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> Autores como Vil\u00e9m Flusser e Arlindo Machado nos lembram que a fotografia n\u00e3o lida diretamente com o real, ela o transforma segundo c\u00f3digos ou modelos conceituais forjados pela cultura. Desse modo, a imagem representa o mundo segundo um universo de possibilidades previstas nesses c\u00f3digos. Para simplificar essa id\u00e9ia: uma pessoa diante da c\u00e2mera sempre flexibiliza sua identidade para encenar um personagem, aquele que \u00e9 poss\u00edvel de ser captado pela c\u00e2mera, aquele que nos esfor\u00e7amos para construir quando queremos ser fotog\u00eanicos, aquele que os rituais sociais exigem (o casamento, a formatura, mas tamb\u00e9m a guerra, a cat\u00e1strofe&#8230;). Enfim, quando vemos uma foto, acreditamos estar diante de \u201cfulano&#8221;.\u00a0Mas, em boa medida, o que a imagem nos d\u00e1 aver \u00e9 um modelo: um trabalhador, um pai, uma noiva, um burgu\u00eas, um \u00edndio, uma v\u00edtima&#8230; Mesmo uma fotografia documental sempre ter\u00e1 algo de virtual, na medida em que n\u00e3o aponta apenas para o instante do passado, isto \u00e9, a pessoa ou o fato que foi resgistrado, mas para uma situa\u00e7\u00e3o abstrata na qual projetamos uma grande amplitude de fen\u00f4menos.<\/p>\n<div id=\"attachment_1257\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Schmid1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1257\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1257\" alt=\"Joachim Schmid, Photogenetic Drafts, 1991.\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Schmid-280x192.jpg\" width=\"280\" height=\"192\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1257\" class=\"wp-caption-text\">Joachim Schmid, Photogenetic Drafts, 1991.<\/p><\/div>\n<p>Essa id\u00e9ia aparece \u00e0s vezes no trabalho de muitos artistas com certa ironia, ou em tom de den\u00fancia. Quando Joachim Schmid picota retratos e sobrep\u00f5e uns aos outros, ele demonstra que o que temos ali n\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma pessoa singular, \u00e9 apenas uma pose, uma conduta diante da c\u00e2mera, que se repete em lugares e tempos distintos. Sua conclus\u00e3o, alardeada de modo quase perform\u00e1tico, \u00e9 a de que n\u00e3o precisamos mais fotografar, pois o retrato que algu\u00e9m faria de mim certamente j\u00e1 foi feito milhares de outras vezes.<\/p>\n<div id=\"attachment_1258\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/lange1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1258\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1258\" alt=\"Dorothe Lange, Migrant Mother, 1936.\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/lange-280x356.jpg\" width=\"280\" height=\"356\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1258\" class=\"wp-caption-text\">Dorothea Lange, Migrant Mother, 1936.<\/p><\/div>\n<p>Essa ironia funciona como uma esp\u00e9cie de terapia de choque para os olhares mais alienados ou resistentes, que s\u00e3o incapazes de enxergar os c\u00f3digos que orientam a imagem fotogr\u00e1fica. Superado isso, podemos reconhecer nessa virtualidade um valor mesmo da fotografia documental. Um exemplo: eu n\u00e3o me comovo muito com a depress\u00e3o norte-americana que sucedeu a crise de 1929. Mas reconhe\u00e7o na imagem de Dorothea Lange o sofrimento de uma m\u00e3e, potencialmente a minha, a sua, qualquer m\u00e3e que n\u00e3o pudesse resgatar seus filhos de uma situa\u00e7\u00e3o de indignade. A for\u00e7a da fotografia documental \u00e9 de falar de algu\u00e9m que esteve diante da c\u00e2mera ao mesmo tempo em que fala de todos n\u00f3s, em outras palavras, de construir com fragmentos do passado alegorias sobre o futuro. Mesmo Barthes, acusado de limitar a fotografia ao \u201cisso foi\u201d, parecia ter compreendido isso, por exemplo, quando diz sobre Lewis Payne, condenado a morte: \u201cele est\u00e1 morto e vai morrer\u201d. Trata-se de algu\u00e9m que que j\u00e1 morreu e que pouco deve importar a Barthes, mas trata-se tamb\u00e9m da imin\u00eancia da morte, ang\u00fastia que atormenta qualquer ser humano.<\/p>\n<p>Essa virtualidade n\u00e3o est\u00e1 apenas nas imagens dos grandes mestres. Quantas vezes, diante de uma fotografia an\u00f4nima que encontramos perdida em algum lugar, n\u00e3o ficamos tentados a desdobrar aquele instante que a imagem nos mostra, projetando sobre seus personagens hist\u00f3rias que, no final das contas, s\u00e3o sempre as nossas.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria e virtualidade<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>Acabei de sugerir que mesmo a fotografia documental penetra o campo da virtualidade quando se liberta do passado que a gerou. Essa imagem nos oferece um relato aberto, enquanto a hist\u00f3ria est\u00e1 limitada e constrangida pelos fatos ocorridos. Essa parece ser a perspectiva de Arist\u00f3teles, quando prefere o trabalho do poeta ao do historiador.<\/p>\n<p>Mas Walter Benjamin prop\u00f5e uma vis\u00e3o muito distinta da hist\u00f3ria, avessa \u00e0s abordagens que se contentam em resolver o passado estabelecendo a cronologia dos fatos, articulados num tempo homog\u00eaneo, que sempre avan\u00e7a numa dire\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, a do progressso (Sobre o conceito de hist\u00f3ria).<\/p>\n<p>Para ele, considerar o passado como algo resolvido \u00e9 legitimar o poder que narra a hist\u00f3ria sob a perspectiva dos vencedores. \u00c9 como pisar nos corpos insepultos dos vencidos, negando um sentido \u00e0s suas mortes.<\/p>\n<p>Ele convida ent\u00e3o o historiador a \u201cescovar a hist\u00f3ria a contrapelo\u201d, a escutar nas vozes que ouvimos tamb\u00e9m \u201cas vozes que emudeceram\u201d, a n\u00e3o dar essas batalhas por encerradas, porque \u00e9 o nosso futuro que est\u00e1 em jogo na abordagem que fazemos desse passado. Ou seja, n\u00e3o se trata de saber como o passado determinou o presente, mas de se perguntar sobre as potencialidades nele existentes e ainda n\u00e3o realizadas, pelas quais vale a pena lutar.<\/p>\n<p>H\u00e1 talvez aqui mais um caminho para pensar o virtual nessas imagens que servem \u00e0 mem\u00f3ria (inspirado nas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pos.eco.ufrj.br\/docentes\/publicacoes\/mlissovsky_2.pdf\" target=\"_blank\">leituras de Maur\u00edcio Lissovsky<\/a>): n\u00e3o \u00e9 preciso \u00e0 fotografia romper com a hist\u00f3ria e menos ainda com a realidade para encontrar nela uma virtualidade. Porque o passado para o qual a imagem aponta permanece pulsante, colocando em causa nosso pr\u00f3prio devir. \u00c9 por isso que, nas palavras de Benjamin, \u201co observador sente a necessidade irresist\u00edvel de procurar nessa imagem a pequena centelha do acaso, do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem, de procurar o lugar impercept\u00edvel em que o futuro se aninha ainda hoje em minutos \u00fanicos, h\u00e1 muito extintos\u201d (Pequena hist\u00f3ria da fotografia).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 natural que id\u00e9ias sejam deturpadas por quem as menospreza, mas o conceito de virtual foi \u00e0s vezes mutilado pelo fogo amigo: \u00e9 o fato de estar na moda que dificulta sua compreens\u00e3o. Temos chamado de virtual tudo aquilo que est\u00e1 associado \u00e0s novas tecnologias, sobretudo \u00e0s redes. Constru\u00edmos assim a impress\u00e3o de que esta palavra surge para dar conta de uma novidade. 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