{"id":1241,"date":"2010-10-25T07:03:32","date_gmt":"2010-10-25T07:03:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1241"},"modified":"2016-05-28T13:48:16","modified_gmt":"2016-05-28T13:48:16","slug":"claudia-andujar-claudine-haas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/claudia-andujar-claudine-haas\/","title":{"rendered":"CLAUDIA ANDUJAR \u2013 CLAUDINE HAAS"},"content":{"rendered":"<p>Este texto foi escrito para por ocasi\u00e3o do II F\u00f3rum Latino-Americano de Fotografia de S\u00e3o Paulo, realizado no Ita\u00fa Cultural, em que tive a oportunidade de entrevistar a artista Claudine Haas, ou melhor, Claudia Andujar. Acompanho o trabalho de Cl\u00e1udia e sua trajet\u00f3ria desde os anos sessenta e setenta como leitor da revista <em>Realidade<\/em>. Mais tarde, tive a oportunidade de estar com ela em diversas ocasi\u00f5es. A \u00fanica certeza era que o tema do F\u00f3rum \u2013 <em>Fora de Casa, Fora do Eixo, Ex\u00edlios e Migra\u00e7\u00f5es na Fotografia<\/em> \u2013 tinha fortes conex\u00f5es com sua experi\u00eancia de vida.<\/p>\n<div id=\"attachment_1242\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/claudiandujar041.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1242\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1242\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/claudiandujar04-487x324.jpg\" alt=\"Claudia Andujar no Palco do II F\u00f3rum - Foto: Olga Lislov\" width=\"487\" height=\"324\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1242\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Andujar no Palco do II F\u00f3rum - Foto: Olga Lislov, F\u00f3rum Virtual<\/p><\/div>\n<p>Claudia nasceu na Sui\u00e7a, passou a inf\u00e2ncia na Hungria, na cidade de Transilv\u00e2nia, que fica na divisa com a Rom\u00eania. Durante a Segunda Guerra Mundial sua cidade foi anexada \u00e0 Hungria. Como refugiada foi para a Sui\u00e7a e posteriormente para os Estados Unidos. L\u00e1 teve sua educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o cultural e tornou-se artista pl\u00e1stica. Com vinte anos, em 1955, veio ao Brasil pela primeira vez, por raz\u00f5es familiares e logo se sentiu em casa. N\u00e3o sabe explicar o porqu\u00ea, mas o contato humano foi t\u00e3o emocionante e intenso, que logo se apaixonou pelo pa\u00eds. Encontrou aqui um calor humano que n\u00e3o havia encontrado nos lugares por onde havia passado anteriormente.<\/p>\n<p>Mas, Claudia gosta de enfatizar que toda sua trajet\u00f3ria de vida, inclusive com a fotografia, est\u00e1 muito ligada aos seus primeiros vinte anos, ocasi\u00e3o em que teve a oportunidade de viver em diferentes lugares, presenciar o horror da guerra e a destrui\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os humanos e familiares.<\/p>\n<p>Para conhecer mais e melhor o povo brasileiro, viu que somente a pintura, que havia estudado nos Estados Unidos, n\u00e3o dava conta de suas necessidades expressivas. Foi ent\u00e3o que surgiu em sua vida a fotografia. Atrav\u00e9s dela pode conhecer melhor o povo brasileiro \u2013 aquele que vive no interior deste pa\u00eds t\u00e3o generoso e t\u00e3o diverso e grandioso geograficamente. Seu interesse sempre foi e continua sendo tentar entender porque as pessoas fazem o que fazem. Tem consci\u00eancia de que o comportamento humano tem raiz na cultura, mas, tamb\u00e9m sofre influ\u00eancias de ordem psicol\u00f3gica.<\/p>\n<div id=\"attachment_1250\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/claudia-andujar-yanomami1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1250\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1250\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/claudia-andujar-yanomami-487x347.jpg\" alt=\"Claudia Andujar, Yanomami\" width=\"487\" height=\"347\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1250\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Andujar, Yanomami<\/p><\/div>\n<p>Essa sua necessidade de compreender o Outro, sempre incluiu, necessariamente, um tempo de conviv\u00eancia alongado, o suficiente para tornar-se invis\u00edvel diante desse Outro para obter imagens mais pr\u00f3ximas poss\u00edvel da realidade. \u00c9 complemente avessa \u00e0 id\u00e9ia fotografar apressadamente, sem o m\u00ednimo conhecimento do homem e do seu entorno espacial. Para ela, o fot\u00f3grafo que tem esse tipo de comportamento n\u00e3o valoriza minimamente as rela\u00e7\u00f5es humanas de cumplicidade e intimidade que envolve o ato fotogr\u00e1fico.<\/p>\n<div id=\"attachment_1247\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/realidade1-andujar1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1247\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1247\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/realidade1-andujar-280x388.jpg\" alt=\"Capa da Revista Realidade\" width=\"280\" height=\"388\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1247\" class=\"wp-caption-text\">Capa da Revista Realidade<\/p><\/div>\n<p>Desenvolveu seu not\u00e1vel trabalho de foto-rep\u00f3rter <em>free lancer<\/em>, entre 1958 e 1971. De 1959 a 1961 publicou nas revistas <em>Life<\/em>, <em>Look<\/em>, <em>Aperture<\/em>, entre outras. Na Editora Abril, trabalhou para as revistas <em>Realidade<\/em>, <em>Quatro Rodas<\/em>, <em>Cl\u00e1udia<\/em> e <em>Setenta<\/em>. A partir de 1972 passou a se dedicar exclusivamente \u00e0 causa Yanomami, que conheceu no in\u00edcio dos anos setenta, ocasi\u00e3o em que participou de uma grande reportagem sobre a Amaz\u00f4nia para a revista <em>Realidade<\/em>. Para iniciar este novo momento em seu trabalho com a fotografia, deixou sua atividade como <em>free-lancer<\/em> e conseguiu uma Bolsa da Funda\u00e7\u00e3o Guggenheim (em 1972 e 1974) para realizar a documenta\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica sobre os Yanomami. Mais tarde, outra bolsa da Fapesp \u2013 Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo. Foi o come\u00e7o de uma nova vida ligada \u00e0 defesa dos Direitos Humanos daquele povo, do seu territ\u00f3rio e \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de sua cultura.<\/p>\n<p>Durante 14 meses apenas conviveu e observou o cotidiano daquela comunidade ind\u00edgena a fim de estabelecer os processos de confian\u00e7a m\u00fatua. S\u00f3 ap\u00f3s esse conhecimento m\u00ednimo \u00e9 que ela come\u00e7ou a fotograf\u00e1-los. Cl\u00e1udia costuma afirmar que sua rela\u00e7\u00e3o com os \u00edndios Yanomami, fio condutor de sua trajet\u00f3ria na fotografia e na vida, \u00e9 essencialmente afetiva. Mais tarde, Cl\u00e1udia agregou \u00e0 sua atividade art\u00edstica a milit\u00e2ncia pol\u00edtica. Sua a\u00e7\u00e3o como cidad\u00e3 e artista se politizou. Seu engajamento \u00e9tico e sua sensibilidade est\u00e9tica transformaram radicalmente sua vida. Atrav\u00e9s da ONG Comiss\u00e3o Pr\u00f3-Yanomami atuou fortemente na demarca\u00e7\u00e3o das suas terras, conquistada somente nos anos noventa.<\/p>\n<div id=\"attachment_1243\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/CLAUDIA-ANDUJAR-400px_CP0394_08_111.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1243\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1243\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/CLAUDIA-ANDUJAR-400px_CP0394_08_11-280x191.jpg\" alt=\"Claudia Andujar, Yanomami\" width=\"280\" height=\"191\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1243\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Andujar, Yanomami<\/p><\/div>\n<p>Suas fotografias sobre os \u00edndios Yanomami s\u00e3o instauradoras de um mundo de incr\u00edvel coer\u00eancia centrado no aspecto humano e na confian\u00e7a m\u00fatua. \u00c9 um trabalho bastante espiritualizado, pois ambos \u2013 os \u00edndios Yanomami e Cl\u00e1udia est\u00e3o concentrados na conex\u00e3o poss\u00edvel entre a fotografia, a sinceridade e o que h\u00e1 de divino naquele momento m\u00e1gico em que os \u00edndios se abra\u00e7am e se enla\u00e7am; se pintam \u2013 gestos cotidianos que na sua fotografia se transfiguram de modo inquietante e c\u00f3smico. S\u00e3o imagens profundas, diretas, de profundo respeito, sem artif\u00edcios de embelezamento, que evidenciam a condi\u00e7\u00e3o humana, motiva\u00e7\u00e3o presente em toda a sua obra.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udia rompe com maestria o limite entre a fotografia documental e a abstra\u00e7\u00e3o, e viabiliza um universo po\u00e9tico intenso e de rara beleza. Nisso reside sua pot\u00eancia de artista: trazer a fragilidade humana, seu cosmos e suas cren\u00e7as para a esfera do vis\u00edvel. Por ocasi\u00e3o de sua exposi\u00e7\u00e3o em 2005 na Pinacoteca do Estado e lan\u00e7amento do seu livro <em>A Vulnerabilidade do Ser<\/em>, pela editora Cosac Naify, ela afirmou ao rever o seu arquivo: \u201co que chamou a aten\u00e7\u00e3o ao rever meu trabalho \u00e9 que em todos os momentos eu sempre procuro no Outro a beleza que vem desse amor que tenho pela Humanidade\u201d.<\/p>\n<p>Para finalizar quero lembrar que Cl\u00e1udia tamb\u00e9m publicou nas revistas <em>Bondinho<\/em> e <em>Fotografia<\/em>, que tinham como editor de fotografia, George Love, seu companheiro. Juntos eles organizaram em setembro de 1974, no Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, a<strong> I Semana Internacional de Fotografia<\/strong>, ocasi\u00e3o em que tiveram a oportunidade de fazer a aquisi\u00e7\u00e3o de muitas fotografias de consagrados autores internacionais. Cl\u00e1udia publicou muitos livros, entre eles: <em>Yanomami<\/em>, em 1978, e <em>Amaz\u00f4nia<\/em>, ambos pela editora Praxis; <em>Yanomami<\/em>, em 1998, por ocasi\u00e3o da 2\u00ba Bienal Internacional de Fotografia Cidade de Curitiba; <em>A vulnerabilidade do Ser<\/em>, em 2005 e <em>Marcados<\/em>, em 2009, ambos pela Cosac Naify. Possui fotografias nas cole\u00e7\u00f5es dos principais museus do mundo.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Dentre as v\u00e1rias quest\u00f5es que preparei para Cl\u00e1udia Andujar, a primeira visava expor um fato importante muitas vezes ignorado, tamb\u00e9m pelos estudos estrangeiros que tem sido dedicados aos livros de fotografia brasileira:\u00a0pedi a ela que discorresse sobre a a\u00e7\u00e3o da ditadura militar que censurou seus dois primeiros livros. Os textos, de Darcy Ribeiro e do poeta Thiago de Mello respectivamente, tiveram que ser retirados dos livros para garantir sua distribui\u00e7\u00e3o. Cl\u00e1udia nos brindou com respostas precisas e com informa\u00e7\u00f5es preciosas que se tornaram p\u00fablicas para grande maioria da plat\u00e9ia. Muitos vieram me agradecer por tomar conhecimento, pela primeira vez, de informa\u00e7\u00f5es que requerem, al\u00e9m de pesquisa, rela\u00e7\u00f5es de proximidade e intimidade. Do mesmo modo que Cl\u00e1udia realiza seu trabalho.<\/p>\n<p>Seu discurso foi coerente, engajado politicamente, evidenciando a rela\u00e7\u00e3o de amor, respeito e toler\u00e2ncia com os Yanomami. Ap\u00f3s o debate, quando perguntei o que ela realmente sentiu quando se deparou com esses \u00edndios pela primeira vez, ela simplesmente respondeu: \u201ceu fiquei t\u00e3o emocionada que percebi logo que apenas estava retornando a um mundo ao qual um dia eu tamb\u00e9m pertenci. Foi uma descoberta da minha ancestralidade. Me senti voltando para casa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi escrito para por ocasi\u00e3o do II F\u00f3rum Latino-Americano de Fotografia de S\u00e3o Paulo, realizado no Ita\u00fa Cultural, em que tive a oportunidade de entrevistar a artista Claudine Haas, ou melhor, Claudia Andujar. Acompanho o trabalho de Cl\u00e1udia e sua trajet\u00f3ria desde os anos sessenta e setenta como leitor da revista Realidade. Mais tarde, tive a oportunidade de estar com ela em diversas ocasi\u00f5es. A \u00fanica certeza era que o tema do F\u00f3rum \u2013 Fora de Casa, Fora do Eixo, Ex\u00edlios e Migra\u00e7\u00f5es na Fotografia \u2013 tinha fortes conex\u00f5es com sua experi\u00eancia de vida. 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