{"id":12061,"date":"2018-09-04T17:55:43","date_gmt":"2018-09-04T17:55:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=12061"},"modified":"2023-03-02T20:32:01","modified_gmt":"2023-03-02T20:32:01","slug":"porque-as-imagens-ardem-museus-queimam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/porque-as-imagens-ardem-museus-queimam\/","title":{"rendered":"Porque as imagens ardem, museus queimam"},"content":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o se pode falar do contato entre a imagem e o real sem falar de uma esp\u00e9cie de inc\u00eandio\u201d, disse Didi-Huberman. Trata-se de um desses momentos em que a teoria, para dar conta da imagem, precisa recorrer \u00e0 poesia. \u00c9 estranho retornar a <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/search?q=quando+as+imagens+tocam+o+real&amp;oq=quando+as+i&amp;aqs=chrome.0.69i59j69i57j69i60l2j0l2.1786j0j7&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8\">esse texto<\/a> agora. Quando ele dizia que \u201cas imagens ardem\u201d, mesmo que tenha nos alertado sobre o risco, n\u00e3o poder\u00edamos imaginar que sua met\u00e1fora se confrontaria com uma literalidade t\u00e3o est\u00fapida.<\/p>\n<p>O <em>real<\/em> a que ele se refere \u00e9, de certo modo, o oposto disso que chamamos vulgarmente de <em>realidade<\/em> (essa \u201cnossa realidade\u201d que, entre outras coisas, permite que um museu chegue ao ponto de incendiar-se), um estado de exce\u00e7\u00e3o que tende a se conservar, uma condi\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nos habituamos, que tomamos como dada porque j\u00e1 n\u00e3o acreditamos poder transform\u00e1-la. Enquanto nossa realidade \u00e9 evidentemente opressora, o real a que Didi-Huberman se refere \u00e9 algo de uma ordem sempre inconformista, \u00e9 a parte rebelde da cultura n\u00e3o se aceita como mera domestica\u00e7\u00e3o da natureza. \u00c9 uma dimens\u00e3o da hist\u00f3ria em que as tens\u00f5es do passado permanecem vivas e perturbam a linha do tempo em que os fatos se sucedem. O real \u00e9 o lugar que revela sem cessar as fissuras do processo civilizat\u00f3rio e que faz retornar tudo aquilo que ele recalca.<\/p>\n<p>Por sua vez, a imagem \u00e9 a pr\u00f3pria inflama\u00e7\u00e3o que surge na carne desse real que n\u00e3o se deixa codificar. Ela \u00e9 mais do que um discurso sobre o mundo, ela \u00e9 o seu sintoma. Chamuscada pelos acontecimentos, algo da imagem surge \u00e0 nossa revelia, assim como as cicatrizes. Dizemos muitas coisas por meio dela, mas ela segue dizendo por si mesma o que para n\u00f3s se torna interdito. Mesmo que operada por uma t\u00e9cnica, algo na imagem permanece como transbordamento de puls\u00f5es que as gram\u00e1ticas n\u00e3o conseguem organizar. Por sua vez, ela \u00e9 capaz de nos tocar com o mesmo fervor. Nem tudo nela pode ser decifrado pelas metodologias de que o olhar se mune. As imagens falam a um olhar que \u00e9 corpo, que \u00e9 desejo, que \u00e9 selvagem. Da\u00ed, elas ardem em n\u00f3s.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es implicadas nessa rela\u00e7\u00e3o intensa com a imagem n\u00e3o poderiam ser mais avessas \u00e0quelas que permitem o inc\u00eandio de um museu. \u00c9 porque as imagens queimam, ou melhor, \u00e9 para que sejam impedidas de queimar que as imagens s\u00e3o deixadas sob o risco da literalidade do fogo. J\u00e1 n\u00e3o se trata do fogo da paix\u00e3o (do pathos). \u00c9 s\u00f3 o fogo fr\u00edgido do fio descascado, das fa\u00edscas dos motores, dos produtos inflam\u00e1veis, da bituca de cigarro, aquele ignorado pelos or\u00e7amentos e bem mapeado pelas ap\u00f3lices de seguro.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do jogo de palavras, o texto de Didi-Huberman nos ajuda a pensar o que aconteceu. \u00c9 bem evidente que as sensibilidades cultivadas pela imagem emperram as decis\u00f5es pragm\u00e1ticas que \u201cnossa realidade\u201d exige. A arte sempre instaura perguntas no momento em que a autoridade quer impor respostas imediatas. As imagens s\u00e3o cr\u00edticas, elas exigem e exp\u00f5e os crit\u00e9rios, instauram crises. A raz\u00e3o pragm\u00e1tica n\u00e3o suporta esse estado patol\u00f3gico de d\u00favida. \u00c9 preciso agir, buscar uma solu\u00e7\u00e3o. A incinera\u00e7\u00e3o literal \u00e9 justamente aquilo que os fascismos oferecem de forma recorrente como resposta definitiva para as diferen\u00e7as que n\u00e3o toleram (os nazistas se referiam \u00e0s pr\u00e1ticas nos campos de exterm\u00ednio justamente como \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d).<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de fantasiar um inc\u00eandio arquitetado. Mas sim, ele tem uma arquitetura (da qual o MBL berrando na porta dos museus \u00e9 apenas sua fachada mais tosca e f\u00e1cil de enfrentar). Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 que nos querem ignorantes. Mais sutil que isso, nos querem ponderados, razo\u00e1veis, eficientes, at\u00e9 mesmo instru\u00eddos, dotados de aptid\u00f5es que respondam n\u00e3o necessariamente \u00e0s urg\u00eancias (\u00e0s feridas), mas \u00e0s prioridades pactuadas (emprego, pol\u00edcia, asfalto, at\u00e9 mesmo mais escolas, com mais aulas de ci\u00eancia e matem\u00e1tica e menos de filosofia e arte).<\/p>\n<p>Ranci\u00e8re observou que a arte tem sempre uma voca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica porque \u00e9 capaz de intervir no modo como se partilha o que \u00e9 \u201ccomum\u201d, a linguagem, a percep\u00e7\u00e3o, o tempo, o sens\u00edvel, essas coisas todas que est\u00e3o a\u00ed para todos, mas que tendem a ser distribu\u00eddas de forma desigual. Se o inc\u00eandio revela um projeto, n\u00e3o \u00e9 tanto o de impedir a instru\u00e7\u00e3o, mas o de modular e conter as sensibilidades, inclusive entre as elites bem formadas, que passeiam pelos museus do mundo, mas que passam longe dele quando voltam \u00e0s prioridades de suas vidas produtivas. Essa \u201cpartilha do insens\u00edvel\u201d, se assim podemos dizer, n\u00e3o cria propriamente consenso, mas consentimento. Na verdade, apatia! Quando as imagens deixam de arder, quando ficamos anestesiados, quando a arte e a cultura se confundem com a hora do recreio que se op\u00f5e \u00e0 prioridade do trabalho, museus pegam fogo.<\/p>\n<p>Didi-Huberman n\u00e3o ignorou essa possibilidade: \u201cfrequentemente, as lacunas s\u00e3o resultado de censuras deliberadas ou inconscientes, de destrui\u00e7\u00f5es, de agress\u00f5es, de autos de f\u00e9. O arquivo \u00e9 cinza, n\u00e3o s\u00f3 pelo tempo que passa, como pelas cinzas de tudo aquilo que o rodeava e que ardeu. \u00c9 ao descobrir a mem\u00f3ria do fogo em cada folha que n\u00e3o ardeu, onde temos a experi\u00eancia \u2014 t\u00e3o bem descrita por Walter Benjamin, cujo texto mais querido, o que estava escrevendo quando se suicidou, sem d\u00favida foi queimado por alguns fascistas \u2014 de uma barb\u00e1rie documentada em cada documento da cultura\u201d. O fogo literal almeja apagar o fogo po\u00e9tico. Mas acaba por revel\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O Museu Nacional resistiu o quanto p\u00f4de n\u00e3o tanto pela erudi\u00e7\u00e3o nele investida, mas gra\u00e7as aos corpos que, apesar de tudo, ainda ardiam pela imagem. \u00c9 apenas por uma condi\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica que insistimos em devotar nossas vidas ao estudo das imagens e \u00e0 pr\u00e1tica da arte. Ou, como vimos nesse epis\u00f3dio, foi pela paix\u00e3o \u2013 n\u00e3o pela renova\u00e7\u00e3o da bolsa Capes ou por mais um t\u00f3pico no Curr\u00edculo Lattes \u2013 que pesquisadores arrombaram portas para resgatar alguns artefatos. Ali, era o fogo resistindo ao fogo.<\/p>\n<p>Resta como esperan\u00e7a a voca\u00e7\u00e3o que a imagem tem para a sobreviv\u00eancia. Ela se expressa tamb\u00e9m nas cinzas, e ainda mais intensamente. Se, como sugeriu Benjamin, todo monumento da cultura \u00e9 tamb\u00e9m um monumento da barb\u00e1rie, as ru\u00ednas deixadas pela barb\u00e1rie exp\u00f5em os sintomas da cultura. J\u00e1 n\u00e3o se pode esconder com artif\u00edcios burocr\u00e1ticos o tamanho da dor a\u00ed implicada, como se cultura, arte e mem\u00f3ria fossem penduricalhos que n\u00e3o fazem falta quando quebram. O Museu Nacional \u00e9 agora uma ferida aberta e dolorida que n\u00e3o se pode mais esconder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o se pode falar do contato entre a imagem e o real sem falar de uma esp\u00e9cie de inc\u00eandio\u201d, disse Didi-Huberman. Trata-se de um desses momentos em que a teoria, para dar conta da imagem, precisa recorrer \u00e0 poesia. \u00c9 estranho retornar a esse texto agora. Quando ele dizia que \u201cas imagens ardem\u201d, mesmo que tenha nos alertado sobre o risco, n\u00e3o poder\u00edamos imaginar que sua met\u00e1fora se confrontaria com uma literalidade t\u00e3o est\u00fapida. O real a que ele se refere \u00e9, de certo modo, o oposto disso que chamamos vulgarmente de realidade (essa \u201cnossa realidade\u201d que, entre outras coisas, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12062,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[835],"tags":[1208,553,1207,634,1209],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12061"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12061"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12061\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12070,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12061\/revisions\/12070"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}