{"id":12030,"date":"2018-06-12T17:07:05","date_gmt":"2018-06-12T17:07:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=12030"},"modified":"2018-09-04T17:56:38","modified_gmt":"2018-09-04T17:56:38","slug":"a-primeira-camera-de-vigilancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-primeira-camera-de-vigilancia\/","title":{"rendered":"A primeira c\u00e2mera de vigil\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Opener_Bank-Robber-700.jpg\" data-size=\"700x639\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-12032 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Opener_Bank-Robber-700.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"639\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Opener_Bank-Robber-700.jpg 700w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Opener_Bank-Robber-700-360x329.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Opener_Bank-Robber-700-674x615.jpg 674w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sob o t\u00edtulo &#8220;Cuidado com o Daguerreotypo&#8221;, o jornal portugu\u00eas <em>O Recreio<\/em>\u00a0trouxe, em 1841, o relato de um evento ocorrido supostamente na Fran\u00e7a em que um assaltante foi identificado de forma um tanto inusitada, gra\u00e7as \u00e0 fotografia. O texto \u00e9 representativo de uma percep\u00e7\u00e3o muito rapidamente disseminada no s\u00e9culo XIX: primeiro, de que a fotografia \u00e9 uma imagem que n\u00e3o depende da interven\u00e7\u00e3o humana; segundo, de que, por isso mesmo, ela constitui um testemunho irrefut\u00e1vel. Mas esse texto, que ilustra em tom ir\u00f4nico o compromisso da fotografia com a verdade, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. <em>Fake news avant la lettre<\/em>! Ou, no m\u00ednimo, algu\u00e9m se divertindo com o deslumbrado dos leitores diante da nova t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Conhecendo um pouco o processo do daguerre\u00f3tipo, n\u00e3o h\u00e1 como supor veross\u00edmil esse registro acidental que teria culminado na pris\u00e3o do invasor. At\u00e9 o nome da v\u00edtima do assalto (&#8220;Beaux&#8221; \u00e9 o plural de belo, em franc\u00eas) tem algo de caricatural.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser uma cr\u00f4nica graciosa. Enganosa quanto ao fato, mas muito fiel ao imagin\u00e1rio constitu\u00eddo em torno da fotografia. Mais do que isso, precisa na intui\u00e7\u00e3o de que, mais cedo ou mais tarde, as c\u00e2meras iriam, por conta pr\u00f3pria, zelar por nossa seguran\u00e7a.<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Cuidado com o Daguerreotypo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Carlos Beaux \u00e9 uma das pessoas que sabe servir-se do Daguerreotypo com mais conhecimento de causa, e por isso tem a todo o momento prompta aquella maquina para tirar as vistas das lindas e innumeras paizagens que se descobrem das janellas da sua casa de campo. Um dia que elle estava todo entregue ao seu divertimento favorito, eis-que um negocio imprevisto e de summa importancia o obriga a ausentar-se de casa com toda a sua familia, e a demorar-se por f\u00f3ra quasi dois dias. \u2013 No entanto houve um individuo que teve a curiosidade de visitar o seu quarto de cama, para o que lhe foi necessario escalar a parede que dava sobre o jardim e arrombar a vidra\u00e7a. \u2013 Quando o dono da casa voltou, achou as gavetas abertas, e 3:200 francos de menos; mas como n\u00e3o tinha o menor indicio por onde pudesse conhecer o ladr\u00e3o, for\u00e7oso lhe foi soffrer a cousa com paci\u00eancia. \u2013 Para conseguir alguma distrac\u00e7\u00e3o, nada havia mais proprio do que a execu\u00e7\u00e3o de alguns desenhos por meio do Daguerreotypo. \u2013 Mette pois m\u00e3os \u00e1 obra: o instrumento havia ficado preparado \u00e1 sua partida, e a lamina ja collocada no foco da Camara obscura. \u2013 Mas \u00f3 surpreza! O desenho acha-se conclu\u00eddo, antes de come\u00e7ado, e o objecto que representa \u00e9 inteiramente extravagante! Um homem vestido com uma blouse est\u00e1 com uma torquez na m\u00e3o em ac\u00e7\u00e3o de arrombar a gaveta aonde estava o dinheiro: os trastes que cerc\u00e3o a commoda a que pertencia a gaveta s\u00e3os os mesmo do quarto de Mr. Beaux; a figura do homem de blouse \u00e9 a mesm\u00edssima do seu jardineiro. \u2013 O incauto curioso, que certamente n\u00e3o pensava que o Daguerreotypo o atrai\u00e7oasse, havia penetrado no quarto no momento em que um raio do sol passava precisamente defronte da maquina que ja estava prompta para operar. \u2013 A fidelidade com que o p\u00e9rfido Daguerreotypo representou esta scena, tirou ao ladr\u00e3o todos os meios de defeza perante o Delegado do Procurador R\u00e9gio, a quem foi apresentada a lamina reveladora, como testemunha do roubo.<\/em><\/p>\n<p><em>[O Recreio, n.\u00ba 2, Fev. 1841]<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>***<\/p>\n<h5>A not\u00edcia aparece na compila\u00e7\u00e3o de textos que acompanha a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado <em>A retrat\u00edstica em Portugal e a introdu\u00e7\u00e3o da daguerreotipia (1830-1845)<\/em>, apresentada por Catarina Miranda Basso Marques, na Universidade do Porto, em 2006.<\/h5>\n<h5>A imagem &#8211; ilustra\u00e7\u00e3o totalmente anacr\u00f4nica &#8211; que abre o post mostra um assalto registrado pela c\u00e2mera de seguran\u00e7a de um banco de Cleveland, em 1975. Integrou a exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Crime Stories: Photography and Foul Play<\/em>, no Museu Metropolitan de NY, em 2016.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob o t\u00edtulo &#8220;Cuidado com o Daguerreotypo&#8221;, o jornal portugu\u00eas O Recreio\u00a0trouxe, em 1841, o relato de um evento ocorrido supostamente na Fran\u00e7a em que um assaltante foi identificado de forma um tanto inusitada, gra\u00e7as \u00e0 fotografia. O texto \u00e9 representativo de uma percep\u00e7\u00e3o muito rapidamente disseminada no s\u00e9culo XIX: primeiro, de que a fotografia \u00e9 uma imagem que n\u00e3o depende da interven\u00e7\u00e3o humana; segundo, de que, por isso mesmo, ela constitui um testemunho irrefut\u00e1vel. Mas esse texto, que ilustra em tom ir\u00f4nico o compromisso da fotografia com a verdade, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. Fake news avant la lettre! 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