{"id":11952,"date":"2018-04-17T12:24:13","date_gmt":"2018-04-17T12:24:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11952"},"modified":"2018-06-12T17:28:06","modified_gmt":"2018-06-12T17:28:06","slug":"era-preciso-esperar-para-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/era-preciso-esperar-para-saber\/","title":{"rendered":"Era preciso esperar para saber"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11953\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS.jpg\" data-size=\"1134x1134\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11953\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-11953 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-674x674.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"674\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-674x674.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-360x360.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS.jpg 1134w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11953\" class=\"wp-caption-text\">Autoria desconhecida, c. 1980. Acervo MIS-SP.<\/p><\/div>\n<p>[texto curatorial]<\/p>\n<p>O espa\u00e7o de um acervo est\u00e1 dedicado \u00e0 guarda. Dentro dele, encontramos um ambiente solene, silencioso, operado por fisionomias pensativas e gestos met\u00f3dicos. Em sua parte mais protegida, ele pode soar um pouco hostil aos sentidos, pela clausura, pela baixa temperatura e pelos odores indecifr\u00e1veis que emanam dos materiais. Toda essa <em>reserva<\/em> \u2013 termo que nomeia seu espa\u00e7o mais t\u00e9cnico, mas tamb\u00e9m um pouco de sua personalidade \u2013 esconde sempre a expectativa de ser descoberto, adentrado, explorado. <em>Guardar <\/em>\u00e9 se colocar em estado de prontid\u00e3o, de vig\u00edlia. Mas \u00e9 tamb\u00e9m colocar-se em espera, em aguardo. Seu recato n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a postura de um corpo que, tendo conhecido perdas e traumas, e recusando-se \u00e0 espetaculariza\u00e7\u00e3o, aprendeu a esperar e exigir olhares mais dedicados, capazes de retribuir sua disponibilidade. O acervo \u00e9 rigoroso com rela\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 dentro, justamente porque \u00e9 desejante de algo que vem de fora: esse movimento ativo da vis\u00e3o que, como alguns idiomas latinos nos ensinam, \u00e9 justamente um dos sentidos da palavra <em>guardar<\/em> (<em>guardare,<\/em> <em>regarder<\/em>).<\/p>\n<p>Sua quietude tamb\u00e9m precisa ser decifrada: contr\u00e1rio do vazio e da mudez, esse sil\u00eancio \u00e9 o resultado de uma discursividade que se acumula e se multiplica, isto \u00e9, do universo gigantesco de narrativas que, ali, encontram-se em estado de pot\u00eancia, e que tamb\u00e9m aguardam pela oportunidade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo investimento arquiv\u00edstico resulta de uma posse, de uma autoridade e de uma vontade ordenadora. Deriva, portanto, de uma estrutura de poder a que todo o conhecimento est\u00e1 sujeito. Mas, as imagens renegociam entre si os seus sentidos, e trazem consigo a possibilidade de perturba\u00e7\u00e3o das certezas que o organizam. O poder totalit\u00e1rio tende sempre a fechar seus arquivos, assim como sua abertura e sua exposi\u00e7\u00e3o exigem uma disposi\u00e7\u00e3o para a cr\u00edtica, para a desestabiliza\u00e7\u00e3o, para um discreto e intenso gesto revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A perspectiva hist\u00f3rica que o arquivo instaura convida a pensar a imagem fotogr\u00e1fica a partir de sua origem: o que era aquilo, quem eram aqueles que estavam diante da c\u00e2mera? Quem a produziu? Que motiva\u00e7\u00f5es e impulsos determinaram a escolha de um ponto de vista e de um instante? A que prop\u00f3sitos ela serviu? Mas, justamente quando a cr\u00edtica e a incerteza se imp\u00f5em, a hist\u00f3ria nos devolve suas pr\u00f3prias perguntas, n\u00e3o mais sobre as origens, mas, desta vez, sobreo destino das imagens. Nesse lugar que est\u00e1 dedicado \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria segue se transformando e operando suas lat\u00eancias, e as imagens que entram n\u00e3o s\u00e3o necessariamente aquelas que os olhares reencontram. Consagrada ao tempo, as imagens exigem seu curso para se revelar.<\/p>\n<p>Esta exposi\u00e7\u00e3o mostra trabalhos que partiram de experi\u00eancias com arquivos (e outros reposit\u00f3rios de imagens), ou que j\u00e1 nasceram como documentos destinados a habit\u00e1-los. Por meio de quatro recortes, explora o modo como a passagem do tempo tensiona certas palavras-chave da pesquisa hist\u00f3rica, confrontando-as com seu avesso: era preciso esperar para saber que o que os riscos de <strong><em>antes<\/em><\/strong>, quando ignorados, ressurgem <strong><em>mais adiante<\/em><\/strong>; que o <strong><em>sujeito<\/em><\/strong>, quando representado, desdobra-se sempre num <strong><em>personagem<\/em><\/strong>; que, <strong><em>mostrar<\/em><\/strong> em demasia, equivale a <strong><em>ofuscar<\/em><\/strong> o olhar; e que, em compensa\u00e7\u00e3o, toda <strong><em>perda<\/em><\/strong> opera a possibilidade de uma <strong><em>transfigura\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Em meio a esses c\u00e2mbios, \u00e9 inevit\u00e1vel notar que aquilo que chamamos de fotografia tamb\u00e9m se modifica. O acervo do MIS tem uma particularidade: ele n\u00e3o \u00e9 apenas constitu\u00eddo de documentos, imagens e registros sonoros sobre um recorte tem\u00e1tico qualquer; ele est\u00e1 tamb\u00e9m dedicado \u00e0 mem\u00f3ria das pr\u00f3prias linguagens audiovisuais. Aqui elas s\u00e3o instrumento de pesquisa e, ao mesmo tempo, objeto de conhecimento. E, nessa condi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua, elas se sobrep\u00f5em e se desdobram de muitas outras formas. Ao olhar para a hist\u00f3ria desse artefato que chamamos de fotografia, nos deparamos com uma experi\u00eancia que se atualiza em outras materialidades. Encontramos fotografias que, de modos bastante distintos, ganham movimento. Outras que demandam n\u00e3o apenas o olhar, mas tamb\u00e9m uma escuta. Em contrapartida, descobrimos os tantos retratos e as paisagens constru\u00eddas por depoimentos e registros sonoros. H\u00e1, por fim, as imagens que s\u00f3 se tornam vis\u00edveis quando fechamos os olhos e que nos fazem perceber que, tamb\u00e9m n\u00f3s, nos tornamos acervo.<\/p>\n<div id=\"attachment_11954\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2.jpg\" data-size=\"1134x765\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11954\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11954\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2-674x455.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2-674x455.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2-360x243.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2-768x518.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2-90x60.jpg 90w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/MIS-2.jpg 1134w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11954\" class=\"wp-caption-text\">Autoria desconhecida, c. 1980. Acervo MIS-SP.<\/p><\/div>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p><strong>Era preciso esperar para saber<br \/>\n<\/strong><strong><br \/>\n<\/strong>MAIO FOTOGRAFIA | MIS-SP<br \/>\n21\/04 a 17\/06\/2018<br \/>\nAv. Europa, 158, Jd. Europa &#8211; S. Paulo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O acervo \u00e9 rigoroso com rela\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 dentro, justamente porque \u00e9 desejante de algo que vem de fora: esse movimento ativo da vis\u00e3o que, como alguns idiomas latinos nos ensinam, \u00e9 justamente um dos sentidos da palavra guardar (guardare, regarder).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11953,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[833],"tags":[1192,1195,1193,1196,1194,634],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11952"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11952"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11964,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11952\/revisions\/11964"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}