{"id":11940,"date":"2018-01-22T17:09:56","date_gmt":"2018-01-22T17:09:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11940"},"modified":"2023-03-02T20:33:15","modified_gmt":"2023-03-02T20:33:15","slug":"artistas-geniais-nervosos-neuroticos-perversos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/artistas-geniais-nervosos-neuroticos-perversos\/","title":{"rendered":"Artistas geniais, nervosos, neur\u00f3ticos, perversos&#8230;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11941\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Woody-Allen-como-Virgil-Starkwell-em-Um-Assaltante-Bem-Trapalha\u0303o.jpg\" data-size=\"800x593\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11941\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11941\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Woody-Allen-como-Virgil-Starkwell-em-Um-Assaltante-Bem-Trapalha\u0303o-674x500.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Woody-Allen-como-Virgil-Starkwell-em-Um-Assaltante-Bem-Trapalha\u0303o-674x500.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Woody-Allen-como-Virgil-Starkwell-em-Um-Assaltante-Bem-Trapalha\u0303o-360x267.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Woody-Allen-como-Virgil-Starkwell-em-Um-Assaltante-Bem-Trapalha\u0303o-768x569.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Woody-Allen-como-Virgil-Starkwell-em-Um-Assaltante-Bem-Trapalha\u0303o.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11941\" class=\"wp-caption-text\">Woody Allen, em Take the Money and Run, 1969<\/p><\/div>\n<p>Aprendemos a ter posi\u00e7\u00f5es firmes a respeito de viol\u00eancias ofuscadas pela m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o dos direitos. Detectamos rapidamente o preconceito e o abuso em suas varia\u00e7\u00f5es mais sutis. E a sensibilidade que cultivamos, a mesma que nos faz gostar de arte, respeitar diversidades, cuidar do planeta, tamb\u00e9m nos cobra uma posi\u00e7\u00e3o firme contra o opressor. Mas, mesmo que o fascismo se prolifere como epidemia, mesmo que nos afete todos os dias, do ponto de vista \u00edntimo, do ponto de vista da gest\u00e3o de nossas emo\u00e7\u00f5es, a coisa \u00e9 simples: temos lugar e vocabul\u00e1rio bem definidos para cada ser escroto que encontramos pelo caminho. Variamos entre uma gama precisa de sentimentos, que vai do desprezo ao \u00f3dio, conforme a gravidade, a dist\u00e2ncia e a necessidade de sair a campo para lutar.<\/p>\n<p>Vez ou outra, essa certeza \u00e9 testada pelo afeto, mas nem velhos amigos, primos, irm\u00e3os ou pais s\u00e3o poupados quando dizem asneiras ou se omitem em quest\u00f5es cruciais. Mas temos sim um ponto fraco. Neste ponto, \u00e9 prudente falar apenas por mim. Tenho sim um ponto fraco: quando essa mesma sensibilidade exige sacrificar algo que ajudou a cultiv\u00e1-la, quando o autor de uma obra que admiramos ao longo da vida comete uma atrocidade&#8230; A\u00ed, a gest\u00e3o dos afetos deixa de ser simples, porque se trata justamente de algu\u00e9m\u00a0que nos ensinou que sentimentos podem ser muito complexos.<\/p>\n<p>Quantas vezes nos perguntamos: apesar de toda diverg\u00eancia ideol\u00f3gica, como a direita pode ignorar a genialidade de Chico Buarque?\u00a0Pode-se discordar do que ele pensa, mas ser\u00e1 que eles n\u00e3o s\u00e3o capazes de escutar a beleza e a intelig\u00eancia de sua m\u00fasica? Supomos que, sendo o que s\u00e3o, pensando como pensam, falte-lhes exatamente essa sensibilidade est\u00e9tica que nos \u00e9 t\u00e3o cara. S\u00f3 que, mais cedo ou mais tarde, chega nossa vez de odiar nossos g\u00eanios. Por exemplo: agora mesmo, e de novo, Woody Allen. A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave que aquela dirigida a Chico, n\u00e3o se trata apenas de uma diverg\u00eancia radical de opini\u00f5es. Mas o \u00f3dio, o meu ou o do outro, \u00e9 um sentimento que se infla de\u00a0gravidade e se tona absoluto. Ent\u00e3o, a perplexidade que se instaura n\u00e3o \u00e9 essencialmente diferente daquela que nos impede de entender como \u00e9 poss\u00edvel descartar as belas contribui\u00e7\u00f5es de Chico Buarque. S\u00f3 que essa d\u00favida, quando se volta para n\u00f3s mesmos, n\u00e3o aparece como pergunta bem formulada, mas como indigest\u00e3o, como n\u00f3 na garganta.<\/p>\n<p>A qualidade de uma obra n\u00e3o absolve ou torna menos relevantes as m\u00e1s condutas de seu autor. Supor isso seria criar um equivalente est\u00e9tico do \u201crouba (ou estupra, ou mata&#8230;) mas faz\u201d.\u00a0 Mesmo assim, n\u00e3o creio que caiba opinar sobre o lugar em que cada um ir\u00e1 colocar a obra de um artista ou intelectual que cometeu uma atrocidade. Quem est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de regular o modo como funciona a sensibilidade alheia? \u00c9 leg\u00edtimo que o olhar se afaste quando a antipatia \u2013 ou a empatia com a v\u00edtima \u2013 se imp\u00f5e como \u00fanico filtro poss\u00edvel. Mas localizar numa rela\u00e7\u00e3o desse tipo as for\u00e7as amb\u00edguas que nos atraem e nos repelem pode ser um gesto igualmente cr\u00edtico, auto-anal\u00edtico inclusive, mais produtivo do que a mera ades\u00e3o ao sentimento m\u00e9dio da bolha a que se pertence. Essa hesita\u00e7\u00e3o \u00e9 legitima, e \u00e9 o \u00f4nus dessa\u00a0sensibilidade que cultivamos.<\/p>\n<p>Enfim, fui ver o \u00faltimo o Woody Allen. Inevit\u00e1vel que essa meton\u00edmia cobre agora seu pre\u00e7o e imponha tomar \u201co autor pela obra\u201d. O filme est\u00e1\u00a0bem longe de seus melhores trabalhos e, ainda assim, \u00e9 muito bom. Antes e depois do filme, e algumas vezes durante, \u00e9 inevit\u00e1vel perguntar qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do Woody Allen que vejo nas telas com aquele que leio no depoimento de sua filha. Diante de suas obras primas, a ang\u00fastia s\u00f3 aumenta: a cena inicial de Annie Hall (1977) tem a for\u00e7a de um tratado sobre a dubiedade humana e, por isso mesmo,\u00a0soa agora como\u00a0um coment\u00e1rio ir\u00f4nico e perverso sobre as hip\u00f3teses que vir\u00edamos a conhecer. N\u00e3o saberia descrever melhor esse desconforto, nem tirar mais consequ\u00eancias do problema do que fez a escritora Claire Dederer, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/08\/cultura\/1515416335_689166.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">num longo artigo publicado no El Pa\u00eds<\/a>\u00a0que me chegou por v\u00e1rias fontes, mas que li por insist\u00eancia de Pio Figueiroa.\u00a0Tamb\u00e9m n\u00e3o posso falar como ela do ponto de vista do artista que, \u00e0s vezes, se admite monstro. N\u00e3o porque\u00a0nunca tenha sido monstro, mas porque n\u00e3o sou artista.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Woody Allen em &quot;Noivo neur\u00f3tico, noiva nervosa&quot;\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2Cvx-IMFKjQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Woody Allen est\u00e1 cada vez mais longe daquela pessoa que tantas vezes eu desejei ser quando crescer. Mas a express\u00e3o de minha decep\u00e7\u00e3o esbarra nos limites de alguns valores. N\u00e3o atiraria ovos numa palestra dele mas, se eu pudesse ter a palavra, me esfor\u00e7aria para fazer a pergunta mais contundente que conseguisse elaborar. N\u00e3o picharia o muro da casa dele, nem o xingaria num restaurante ou num avi\u00e3o, mas ficaria feliz se ele fosse julgado por quem compete (isso vale para Woody Allen, Bolsonaro, os Nardoni ou Jack, o Estripador). N\u00e3o trabalharia com ele, n\u00e3o o quereria como amigo e nem como professor, mas estudaria sua obra, talvez agora mais do que antes, e me debateria um tanto com as palavras para encontrar o tom e o modo de falar sobre ele.<\/p>\n<p>Mesmo sem a mesma capacidade de an\u00e1lise, me identifico com o impulso de Dederer: a perplexidade, a decep\u00e7\u00e3o e o repudio, em contraste com a admira\u00e7\u00e3o que cultivamos a vida toda, tornam-se combust\u00edvel para querer rever e pensar o trabalho do cineasta. Enquanto tento calcular o vetor que resulta desses sentimentos amb\u00edguos, a lista de autores que tem obras admir\u00e1veis e biografias repugnantes come\u00e7a a ficar infinita. \u00c9 preciso o tempo de enfrent\u00e1-los caso a caso. Antes e independentemente desses julgamentos, compartilho algumas constata\u00e7\u00f5es que atravessam o problema.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<ul>\n<li>Desde a obra fundadora de Vasari (<em>Le vite de pi\u00f9 eccellenti pittori, scultori e architettori<\/em>, de 1550), a hist\u00f3ria da arte tem sido feita, em boa medida, de biografias elogiosas. Pressup\u00f5e-se que o g\u00eanio art\u00edstico derive de um g\u00eanio moral, sendo aceit\u00e1veis pela posteridade apenas desvios justificados como inaptid\u00e3o para as conven\u00e7\u00f5es sociais, subvers\u00e3o pol\u00edtica ou como \u201cmoral \u00e0 frente de seu tempo\u201d. Parte da decep\u00e7\u00e3o que sentimos cada vez que nos deparamos com o car\u00e1ter fal\u00edvel do artista \u00e9 proporcional \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dessa figura.<\/li>\n<li>As obras nunca estiveram imunes ao julgamento que recai sobre a pessoa do artista, mas esse julgamento \u00e9 feito com a moral vigente em cada \u00e9poca, em cada lugar ou em cada bolha. Artistas \u2013 e suas obras \u2013 foram execrados por serem pervertidos, o que poderia, a depender do contexto, significar que eram anarquistas, homossexuais, viciados em drogas, frequentadores de bord\u00e9is ou estupradores. Vivemos hoje o drama de lutar contra os comportamentos intoler\u00e2ntes e contra os comportamentos intoler\u00e1veis, mesmo sabendo que, muitas vezes, a defini\u00e7\u00e3o do segundo seja motivada pelo primeiro (como\u00a0algu\u00e9m <em>cool<\/em>\u00a0que prop\u00f5e o linchamento dos defensores da pena de morte, que bem poderia ser um personagem de Woody Allen).<\/li>\n<li>A no\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo, que pressup\u00f5e um sujeito com contornos bem definidos, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Invariavelmente, revelamo-nos m\u00faltiplos, cindidos, com um abismo enorme entre as v\u00e1rias coisas que somos ao mesmo tempo. Somos bons e maus, ignorantes e inteligentes, virtuosos e corruptos. Dessa cis\u00e3o n\u00e3o escapa nem o artista, nem o espectador. E n\u00e3o escapa a rela\u00e7\u00e3o entre eles, porque \u00e9 muitas vezes pelo olhar \u2013 pelo mecanismo que Freud chamou de puls\u00e3o esc\u00f3pica \u2013 que a repulsa se revela uma das faces do desejo que almeja sepultar.<\/li>\n<li>Uma obra inventa seu criador, tanto quanto o contr\u00e1rio. As leis fazem coincidir essa pessoa e um sujeito civil para, de um lado, situar responsabilidades pelo que \u00e9 dito e, de outro, estabelecer as condi\u00e7\u00f5es que fazem da obra uma propriedade (Foucault, <em>O que \u00e9 um autor<\/em>). Como uma sombra que se rebela do corpo, mas que n\u00e3o existe sem ele, h\u00e1 um ser que se produz entre as obras, que \u00e9 por si mesmo inst\u00e1vel, e que nem sempre est\u00e1 no mesmo lugar desse benefici\u00e1rio dos direitos e das responsabilidades autorais.<\/li>\n<li>\u00c9 arriscado querer entender por uma obra, ou mesmo pelo conjunto das obras, as raz\u00f5es ou desraz\u00f5es que movem o artista nas coisas boas ou m\u00e1s que faz em sua vida. Porque buscar r\u00e1pido demais na representa\u00e7\u00e3o sua por\u00e7\u00e3o de realidade implica em equ\u00edvocos semelhantes \u00e0queles que permitem enxergar pedofilia numa pintura ou no corpo nu de uma performance. \u00c9 mais prov\u00e1vel que a obra se ligue \u00e0 realidade como sintoma, o que significa tamb\u00e9m que ela n\u00e3o ser\u00e1 simplesmente sua imita\u00e7\u00e3o, seu equivalente ou sua explica\u00e7\u00e3o, mas mais\u00a0tamb\u00e9m seu subterf\u00fagio, sua denega\u00e7\u00e3o, seu modo de despist\u00e1-la, como a crian\u00e7a que, num jogo de cobra-cega, diz \u201ceu t\u00f4 aqui\u201d, desejando ser perseguida mas nunca encontrada. Por isso, n\u00e3o \u00e9 suficiente colocar a obra no div\u00e3\u00a0em lugar do autor, ou buscar nela o erro que queremos punir.<\/li>\n<li>A autonomia do objeto art\u00edstico que funda a nossa no\u00e7\u00e3o de est\u00e9tica parece incompat\u00edvel com as expectativas e responsabilidades que depositamos hoje sobre esse fazer. O objeto n\u00e3o se basta: os engajamentos de que parte e que gera s\u00e3o reivindicados como elementos que pesam sobre seu julgamento. A aten\u00e7\u00e3o aos \u201cprocessos\u201d faz a frui\u00e7\u00e3o transbordar para fora dos limites desse objeto. Inevit\u00e1vel que o pensamento e o comportamento do artista seja um desses lados de fora trazidos para dentro da frui\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que o artista, por sua vez, tamb\u00e9m \u00e9 processo e nunca est\u00e1 totalmente dentro dos contornos do sujeito que visamos quando estamos diante de uma obra ou\u00a0de uma not\u00edcia sobre ele.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprendemos a ter posi\u00e7\u00f5es firmes a respeito de viol\u00eancias ofuscadas pela m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o dos direitos. Detectamos rapidamente o preconceito e o abuso em suas varia\u00e7\u00f5es mais sutis. E a sensibilidade que cultivamos, a mesma que nos faz gostar de arte, respeitar diversidades, cuidar do planeta, tamb\u00e9m nos cobra uma posi\u00e7\u00e3o firme contra o opressor. 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