{"id":11640,"date":"2017-04-24T19:54:45","date_gmt":"2017-04-24T19:54:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11640"},"modified":"2017-08-23T23:42:54","modified_gmt":"2017-08-23T23:42:54","slug":"improvavel-sobre-a-dupla-distancia-das-imagens-de-mario-ramiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/improvavel-sobre-a-dupla-distancia-das-imagens-de-mario-ramiro\/","title":{"rendered":"Improv\u00e1vel* &#8211; Sobre a dupla dist\u00e2ncia das imagens de Mario Ramiro"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11641\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Ra\u0301dio-Dante-2014-2.jpg\" data-size=\"1795x2362\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11641\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-11641\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Ra\u0301dio-Dante-2014-2-360x474.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"474\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Ra\u0301dio-Dante-2014-2-360x474.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Ra\u0301dio-Dante-2014-2-768x1011.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Ra\u0301dio-Dante-2014-2-674x887.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Ra\u0301dio-Dante-2014-2.jpg 1795w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11641\" class=\"wp-caption-text\">Mario Ramiro &#8211; Ra\u0301dio Dante, 2014<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 suficiente \u00e0s vezes pensar a arte como express\u00e3o de um contexto hist\u00f3rico ou, pelo menos, de um modelo de pensamento, uma ideologia, a vis\u00e3o de mundo de um sujeito. Isso projeta sobre as obras uma legibilidade apaziguadora. As coisas se complicam quando a imagem \u00e9 tomada como um instrumento de explora\u00e7\u00e3o que se contamina da mat\u00e9ria que investiga. Ela assume uma exist\u00eancia impura, impregnada das alteridades que encontra pelo caminho. Aqui, n\u00e3o ser\u00e1 suficiente pensar em arte-tecnologia, arte conceitual ou arte transcendental. N\u00e3o se nomear\u00e1 t\u00e3o facilmente os engajamentos e as cren\u00e7as de Mario Ramiro, quando ele mesmo toma a imagem como espa\u00e7o de embate entre o que est\u00e1 pr\u00f3ximo e o que est\u00e1 distante.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil situar o que seria o lugar pr\u00f3prio de cada coisa: das antigas \u201cnovas tecnologias\u201d que continuam se reinventando e provocando surpresa, do ectoplasma que d\u00e1 contorno claro aos esp\u00edritos, dessas m\u00e3os que tateiam os ambientes escuros \u2013 seja o da caverna, seja o da caixa preta das tecnologias \u2013 sen\u00e3o para desvend\u00e1-los, ao menos, para colocar-se como sujeito de seus mist\u00e9rios. O tempo destas imagens tamb\u00e9m \u00e9 inst\u00e1vel. Tudo aqui trata de um processo de supera\u00e7\u00e3o (o aufhebung da dial\u00e9tica hegeliana), no\u00e7\u00e3o que aponta tanto para a morte quanto para a ressurrei\u00e7\u00e3o das coisas, para aquilo que, ao deixar de existir, realiza mais plenamente suas pot\u00eancias transformando-se em algo outro.<\/p>\n<div id=\"attachment_11642\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Mario-Ramiro-xerografia-Prisioneiro-2-1979.jpg\" data-size=\"1107x1417\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11642\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-11642\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Mario-Ramiro-xerografia-Prisioneiro-2-1979-360x461.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Mario-Ramiro-xerografia-Prisioneiro-2-1979-360x461.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Mario-Ramiro-xerografia-Prisioneiro-2-1979-768x983.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Mario-Ramiro-xerografia-Prisioneiro-2-1979-674x863.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Mario-Ramiro-xerografia-Prisioneiro-2-1979.jpg 1107w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11642\" class=\"wp-caption-text\">Mario Ramiro, Prisioneiro 2, 1979<\/p><\/div>\n<p>O pr\u00f3ximo e o distante est\u00e3o tamb\u00e9m na conjun\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas banais e temas transcendentes. Convivem, portanto, um movimento de sagra\u00e7\u00e3o e outro de profana\u00e7\u00e3o. Nessa rela\u00e7\u00e3o, as imagens ret\u00eam o que resta de pensamento m\u00edtico na arte, mas desviam-se dos artif\u00edcios que visariam sua pr\u00f3pria mistifica\u00e7\u00e3o. Trata-se de n\u00e3o confundir a magia, que est\u00e1 na origem de nossa rela\u00e7\u00e3o com \u00e0s imagens, e o fetiche do objeto art\u00edstico. Essa foi justamente a opera\u00e7\u00e3o complexa realizada pelo pensamento de Walter Benjamin, que torna dif\u00edcil decidir em que medida ele celebra ou lamenta a dissolu\u00e7\u00e3o da aura art\u00edstica pelas imagens t\u00e9cnicas. Quando o acesso a uma imagem \u00fanica e privada se converte numa credencial que quer conservar a distin\u00e7\u00e3o entre a elite que as possui e as massas que n\u00e3o a merecem, a reprodutibilidade da fotografia e do cinema pode se converter num instrumento fundamental para a revolu\u00e7\u00e3o. Mas uma aura aut\u00eantica, manifesta\u00e7\u00e3o rara que permite ao olhar ser tocado pelo tempo, essa \u201capari\u00e7\u00e3o \u00fanica de algo distante, por mais pr\u00f3ximo que esteja\u201d, \u00e9 algo que Benjamin continua a procurar nas imagens.<\/p>\n<p>Essa mesma tens\u00e3o entre o pr\u00f3ximo e o distante explica a sensa\u00e7\u00e3o de que esta exposi\u00e7\u00e3o traz algo j\u00e1 hist\u00f3rico, mas que sentimos profundamente como contempor\u00e2neo. A no\u00e7\u00e3o de \u201chist\u00f3ria da arte\u201d aponta para dois sentidos bem distintos. Um mais disciplinar, referente \u00e0s narrativas acad\u00eamicas que buscam situar cada fen\u00f4meno art\u00edstico em seu devido lugar do passado. Outro mais insolente, que diz respeito ao modo imprevis\u00edvel como uma imagem atravessa os tempos. No primeiro caso, o tempo \u00e9 algo homog\u00eaneo e estabilizado: o que aconteceu est\u00e1 dado e dispon\u00edvel \u00e0 disseca\u00e7\u00e3o. No segundo, o tempo \u00e9 a pr\u00f3pria mudan\u00e7a. Em um, a hist\u00f3ria \u00e9 lugar de constru\u00e7\u00e3o de uma erudi\u00e7\u00e3o e, eventualmente, de alguma nostalgia. Em outro, a hist\u00f3ria \u00e9 o caminho pelo qual um gesto arcaico se faz vivo no presente.<\/p>\n<div id=\"attachment_11643\" style=\"width: 341px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Gabinete-Fluidificado-montagem-de-2013-no-CCSP-foto-Sosso-Parma.jpg\" data-size=\"939x1417\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11643\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-11643\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Gabinete-Fluidificado-montagem-de-2013-no-CCSP-foto-Sosso-Parma-331x500.jpg\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Gabinete-Fluidificado-montagem-de-2013-no-CCSP-foto-Sosso-Parma-331x500.jpg 331w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Gabinete-Fluidificado-montagem-de-2013-no-CCSP-foto-Sosso-Parma-768x1159.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Gabinete-Fluidificado-montagem-de-2013-no-CCSP-foto-Sosso-Parma-596x900.jpg 596w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Gabinete-Fluidificado-montagem-de-2013-no-CCSP-foto-Sosso-Parma.jpg 939w\" sizes=\"(max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11643\" class=\"wp-caption-text\">Mario Ramiro, Gabinete Fluidificado (montagem no CCSP, em 2013)<\/p><\/div>\n<p>Esse tempo inst\u00e1vel aparece aqui de modos diversos. Primeiro, parte desta exposi\u00e7\u00e3o aponta para algum momento da d\u00e9cada de 1980, mas que n\u00e3o encontrou uma narrativa historiogr\u00e1fica satisfat\u00f3ria e, por isso mesmo, provoca no olhar a surpresa pr\u00f3pria dos fatos ainda n\u00e3o nomeados. Segundo, pensando numa temporalidade mais ampla, o trabalho do artista concilia a raz\u00e3o linear da ci\u00eancia com o pensamento circular das sociedades antigas, uma conjun\u00e7\u00e3o que \u00e9 pr\u00f3pria da era \u201cp\u00f3s-hist\u00f3rica\u201d denominada por Vil\u00e9m Flusser, autor com o qual Mario Ramiro tem grande familiaridade. \u00c9 isso que permite aos fantasmas reaparecer justamente dentro de uma racionalidade moderna que parecia t\u00ea-los exorcizado. As imagens t\u00e9cnicas j\u00e1 s\u00e3o amb\u00edguas por si mesmas: antes de serem t\u00e9cnicas, ainda s\u00e3o imagens. Portanto, assombradas pelo pathos que as fez surgir em nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com uma trajet\u00f3ria que dura quase quatro d\u00e9cadas, Ramiro n\u00e3o reivindica para si a condi\u00e7\u00e3o de artista a ser celebrado. Tendo integrado um dos primeiros coletivos de artistas do pa\u00eds, o 3N\u00f3s3, prefere ainda os espa\u00e7os que podem ser compartilhados. Seu reconhecimento se d\u00e1 n\u00e3o tanto pela musealiza\u00e7\u00e3o de suas interven\u00e7\u00f5es pioneiras, mas pelo modo como suas pesquisas cont\u00ednuas reverberam no trabalho de uma nova gera\u00e7\u00e3o de artistas que tem ajudado a formar. Como na atividade medi\u00fanica, o gesto do artista pesquisador \u00e9 sempre potencialmente coletivo: encarna um tempo que n\u00e3o \u00e9 apenas o seu, e se desdobra nos corpos que atravessaram seu caminho.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>* Texto feito para a exposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>Improv\u00e1vel<\/strong>, de Mario Ramiro<\/p>\n<p>Zipper Galeria<br \/>\nRua Estados Unidos, 1494 &#8211; Jardins &#8211; S\u00e3o Paulo<br \/>\n2a a 6a, das 10 \u00e0s 19h; s\u00e1bados, das 11 \u00e0s 17h<br \/>\nDe 11 de abril a 13 de maio de 2017<\/p>\n<h2 class=\"title-1\"><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 suficiente \u00e0s vezes pensar a arte como express\u00e3o de um contexto hist\u00f3rico ou, pelo menos, de um modelo de pensamento, uma ideologia, a vis\u00e3o de mundo de um sujeito. Isso projeta sobre as obras uma legibilidade apaziguadora. 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