{"id":11629,"date":"2017-03-22T17:19:22","date_gmt":"2017-03-22T17:19:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11629"},"modified":"2017-04-24T19:56:14","modified_gmt":"2017-04-24T19:56:14","slug":"avant-la-lettre-anedotas-sobre-anacronismos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/avant-la-lettre-anedotas-sobre-anacronismos\/","title":{"rendered":"Avant la lettre: anedotas sobre anacronismos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11631\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/RobidaSiecle6.jpg\" data-size=\"1600x1160\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11631\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11631\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/RobidaSiecle6-674x489.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"489\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/RobidaSiecle6-674x489.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/RobidaSiecle6-360x261.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/RobidaSiecle6-768x557.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/RobidaSiecle6.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11631\" class=\"wp-caption-text\">Albert Robida, 1883<\/p><\/div>\n<p>Deslumbrado com as promessas trazidas pela ideia de progresso, o ilustrador franc\u00eas Albert Robida tentou imaginar, no final do s\u00e9culo XIX, as conquistas que viriam com o s\u00e9culo que se iniciava. Numa sequ\u00eancia de tr\u00eas livros \u2013 <em>O s\u00e9culo XX<\/em> (1883), <em>A guerra no s\u00e9culo XX<\/em> (1887), <em>O s\u00e9culo XX: a vida el\u00e9trica<\/em> (1890) \u2013 Robida intuiu bem certas necessidades que j\u00e1 se esbo\u00e7avam em seu tempo, mas parece ter errado feio nas respostas que seriam dada a cada uma delas. Seu limite \u00e9 claro: ele s\u00f3 pode imaginar o futuro a partir de um repert\u00f3rio que estava dispon\u00edvel em seu tempo.<\/p>\n<p>O inverso tamb\u00e9m acontece: imaginamos o passado a partir do repert\u00f3rio do presente. Por exemplo, quando dizemos que \u201cCaravaggio (s\u00e9c. XVII) \u00e9 bastante fotogr\u00e1fico\u201d. Do ponto de vista hist\u00f3rico, trata-se desse pecado que os historiadores chamam de anacronismo. Do ponto de vista antropol\u00f3gico, esses equ\u00edvocos na interpreta\u00e7\u00e3o das formas s\u00e3o muito representativos do lugar a partir de onde se olha para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em 2014, fui convidado a participar de uma mesa que homenagearia a Shiyodi Imoto, fot\u00f3grafo de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos que ainda mant\u00e9m uma banca de servi\u00e7os fotogr\u00e1ficos no Mercado Municipal da cidade. Imoto teve um papel importante na cria\u00e7\u00e3o da \u201ccomiss\u00e3o de fotografia\u201d da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Cassiano Ricardo, onde trabalhei nos anos 90. Nessa celebra\u00e7\u00e3o, Imoto projetou para o p\u00fablico imagens antigas de seu acervo que registravam alguns eventos importantes e a transforma\u00e7\u00e3o da paisagem da cidade. Quando a conversa se abriu \u00e0 plateia, um adolescente cuja fam\u00edlia conhecia o fot\u00f3grafo desde muito tempo, fez uma das primeiras perguntas: \u201ccomo j\u00e1 era poss\u00edvel, naquele tempo, criar esse efeito que deixava as fotografias preto e branco?\u201d Muitos ali n\u00e3o entenderam a quest\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil entender que o rapaz cresceu num mundo em que as fotografias s\u00e3o \u2013 desde sempre! \u2013 coloridas, e que o efeito P&amp;B \u00e9 resultado de filtros como os do Instagram.<\/p>\n<p>Ali mesmo, lembrei de uma historia contada por um amigo fot\u00f3grafo, que achei \u00fatil compartilhar com a plateia: seu filho pequeno perguntou \u00e0 irm\u00e3 um pouco mais velha \u201co que era uma carta\u201d. A menina respondeu com toda convic\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 um e-mail que a gente p\u00f5e dentro de um envelope\u201d. Essa explica\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 engra\u00e7ada para a minha gera\u00e7\u00e3o porque, com o passar do tempo, ela se tornar\u00e1 cada vez mais precisa e natural.<\/p>\n<p>Por mais ing\u00eanuo que tenha sido o estranhamento que levou o garoto a pensar o P&amp;B da fotografia como um \u201cefeito\u201d, ele pressup\u00f5e uma desconfian\u00e7a que muitos te\u00f3ricos eruditos acabaram por reivindicar: muita coisa que consideramos \u201cnatural\u201d na imagem s\u00e3o \u201cconstru\u00e7\u00f5es\u201d impostas pela t\u00e9cnica. O P&amp;B, a perspectiva, a profundidade de campo s\u00e3o coisas que n\u00e3o existem na natureza, e n\u00e3o deixam de ser resultado de uma esp\u00e9cie de \u201ctratamento\u201d imposto pela t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Operada de forma mais consciente, o ato de percorrer a hist\u00f3ria no sentido inverso permite a muitos autores situar conceitos \u201cavant la letre\u201d (isto \u00e9, localizar um fato que pode ter existido \u201cantes da palavra\u201d que a nomeia). Por exemplo, v\u00e1rios autores, dentre eles Arlindo Machado (M\u00e1quina e Imagin\u00e1rio), viram na literatura de Mallarm\u00e9 (sobretudo no poema <em>Un coup de d\u00e9s<\/em>, e na obra inacabada <em>Le Livre<\/em>) uma obra <em>hipermedia<\/em> <em>avant la letre.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_11630\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Jamais_un_coup_de_de\u0301_nabolira_le_hasard.png\" data-size=\"1064x827\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11630\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11630\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Jamais_un_coup_de_de\u0301_nabolira_le_hasard-674x524.png\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"524\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Jamais_un_coup_de_de\u0301_nabolira_le_hasard-674x524.png 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Jamais_un_coup_de_de\u0301_nabolira_le_hasard-360x280.png 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Jamais_un_coup_de_de\u0301_nabolira_le_hasard-768x597.png 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Jamais_un_coup_de_de\u0301_nabolira_le_hasard.png 1064w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11630\" class=\"wp-caption-text\">Manuscrito de &#8220;Un coup de d\u00e9s&#8221;, 1897<\/p><\/div>\n<p>Marco Polo, grande contador de hist\u00f3rias, escreveu em seus relatos sobre a riqueza do oriente: &#8220;eles t\u00eam muitos elefantes e tamb\u00e9m unic\u00f3rnios selvagens, que n\u00e3o s\u00e3o menores do que os elefantes; eles t\u00eam a pele como a do bufalo e patas como as do elefante, com um chifre grande e preto no meio da testa (&#8230;) Sua cabe\u00e7a \u00e9 semelhante ao do javali (&#8230;) Eles s\u00e3o animais desagrad\u00e1veis e de apar\u00eancia horr\u00edvel\u201d. Depois, descobrimos que os tais unic\u00f3rnios eram, na verdade, rinocerontes, aniamais que Marco Polo via pela primeira vez. Tanto Enst Gomrbich (<em>Arte e Ilus\u00e3o<\/em>)\u00a0 quanto Umberto Eco (<em>Kant e o Ornitorrinco<\/em>) observaram, a partir desse relato, que s\u00f3 somos capazes de descrever o desconhecido a partir de formas que nos s\u00e3o familiares. Isso vale para as coisas de lugares distantes, assim como para coisas de tempos distantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deslumbrado com as promessas trazidas pela ideia de progresso, o ilustrador franc\u00eas Albert Robida tentou imaginar, no final do s\u00e9culo XIX, as conquistas que viriam com o s\u00e9culo que se iniciava. 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