{"id":11537,"date":"2017-03-06T21:03:55","date_gmt":"2017-03-06T21:03:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11537"},"modified":"2025-05-07T13:43:09","modified_gmt":"2025-05-07T13:43:09","slug":"pichacao-como-cicatriz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/pichacao-como-cicatriz\/","title":{"rendered":"Picha\u00e7\u00e3o como cicatriz"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<div id=\"attachment_11626\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FullSizeRender.jpg\" data-size=\"1280x884\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11626\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-11626 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FullSizeRender-674x465.jpg\" width=\"674\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FullSizeRender-674x465.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FullSizeRender-360x249.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FullSizeRender-768x530.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FullSizeRender.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11626\" class=\"wp-caption-text\">3N\u00f3s3, 1979. Muro das Insd\u00fastrias Matarazzo, 1h da manh\u00e3. Publicado na Revista M\u00f3dulo (contribui\u00e7\u00e3o de Rubens Fernandes Junior).<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_11624\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1.jpg\" data-size=\"800x533\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11624\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11624\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1-674x449.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1-674x449.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1-360x240.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1-90x60.jpg 90w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/17201121_1923942561182483_5404646452333286607_n-1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11624\" class=\"wp-caption-text\">Maria Di Andrea Hagge, Pixo, 2015 (Coletivo Avesso)<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_11621\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/PIXO020.jpg\" data-size=\"2464x1648\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11621\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-11621 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/PIXO020-674x451.jpg\" width=\"674\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/PIXO020-674x451.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/PIXO020-360x241.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/PIXO020-768x514.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/PIXO020-90x60.jpg 90w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11621\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Wainer, 2004 &#8211; Viaduto na Radial Leste<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o sou apreciador da picha\u00e7\u00e3o. Simplesmente n\u00e3o gosto, como tamb\u00e9m n\u00e3o gosto de boa parte dos edif\u00edcios e viadutos que comp\u00f5em a paisagem de S\u00e3o Paulo. Mas picha\u00e7\u00e3o, pr\u00e9dios e viadutos s\u00e3o fen\u00f4menos inerentes ao crescimento urbano. Gostando ou n\u00e3o, o melhor que posso fazer \u00e9 usufruir deles: optei por morar num pr\u00e9dio porque acho mais seguro, passo por viadutos quase todos os dias e me esfor\u00e7o para entender o sentido da picha\u00e7\u00e3o. Tento n\u00e3o cair em algumas fal\u00e1cias de quem n\u00e3o gosta: <em>tem que proibir pr\u00e9dios<\/em>, <em>tem que derrubar viadutos<\/em>, <em>tem que prender pichadores<\/em>. A op\u00e7\u00e3o de viver numa cidade como S\u00e3o Paulo exige toler\u00e2ncia. Este texto \u00e9 parte desse exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Temos ouvido duas perguntas sobre a picha\u00e7\u00e3o: <em>a picha\u00e7\u00e3o deve ser legalizada? Picha\u00e7\u00e3o \u00e9 arte?<\/em> H\u00e1 perguntas que, trazendo o debate para um campo estranho ao fen\u00f4meno em quest\u00e3o, j\u00e1 se tornam uma forma de controle e anula\u00e7\u00e3o. Por exemplo, quando os jesu\u00edtas se perguntavam\u00a0se o \u00edndio poderia ser educado como um bom crist\u00e3o, o debate j\u00e1 estava perdido: ou o \u00edndio demonstra sua capacidade de assumir uma identidade que n\u00e3o \u00e9 a sua ou justifica seu exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobre a legalidade da picha\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um debate sobre a descriminaliza\u00e7\u00e3o da maconha, sobre autoriza\u00e7\u00e3o do nudismo, sobre a regulamenta\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o como profiss\u00e3o. Essas s\u00e3o reivindica\u00e7\u00f5es que est\u00e3o colocadas pelos sujeitos implicados ou engajados nesses universos. N\u00e3o podemos discutir a legalidade da picha\u00e7\u00e3o como se essa fosse uma reivindica\u00e7\u00e3o dos pichadores.<\/p>\n<p>A picha\u00e7\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o invasiva, transgressora, arriscada, \u00e9 uma apropria\u00e7\u00e3o que desafia as regras assumidas pela cidade. Por sua pr\u00f3pria natureza, est\u00e1 fora do campo das legalidades institu\u00eddas. \u00c9 subversiva? Esse \u00e9 um termo que havia se tornado anacr\u00f4nico, mas que, nestes tempos moralizantes, volta a fazer sentido. Esse \u00e9 o problema da pol\u00edtica de endurecimento: se \u00e9 verdade que uma parte dos pichadores n\u00e3o sabem exatamente pelo que lutam, por si s\u00f3, essa pol\u00edtica j\u00e1 lhes confere uma causa.<\/p>\n<p>A ilegalidade da picha\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o e n\u00e3o precisa estar. \u00c9 o rigor\u00a0da puni\u00e7\u00e3o que deve ser debatido. Andar com o bra\u00e7o para fora da janela do carro, fumar dentro do campus, buzinar na porta do hospital, xerocar um livro tamb\u00e9m s\u00e3o coisas proibidas. Dependendo do contexto e da interpreta\u00e7\u00e3o, falar palavr\u00e3o e mostrar o umbigo tamb\u00e9m pode ser. O fato de ningu\u00e9m ser processado ou preso por isso, n\u00e3o significa defender a legaliza\u00e7\u00e3o desses atos. Significa, de um lado, adotar certo n\u00edvel de toler\u00e2ncia a movimentos que est\u00e3o dados dentro da cultura e que n\u00e3o causam danos irrepar\u00e1veis. De outro, significa que h\u00e1 coisas mais importantes com que se ocupar.<\/p>\n<p>E quando se pode demonstrar que o preju\u00edzo contabilizado j\u00e1 \u00e9 grande? E quando h\u00e1 ind\u00edcios de que, vez ou outra, a pequena ilegalidade vem acompanhada de viol\u00eancias maiores? Essas hip\u00f3teses que justificam o endurecimento contra os pichadores s\u00e3o as mesmas que, em diversos pa\u00edses, t\u00eam motivado o fechamento das fronteiras e a expuls\u00e3o de imigrantes: \u201cos imigrantes tiram empregos dos cidad\u00e3os\u201d, \u201ca toler\u00e2ncia \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o facilita o terrorismo\u201d. Construir muros e expulsar refugiados sem se perguntar a raz\u00e3o desses deslocamentos \u00e9 aumentar a temperatura dessa panela de press\u00e3o que se tornou o mundo. Declarar guerra aos\u00a0pichadores e aos\u00a0imigrantes s\u00e3o fen\u00f4menos muito distintos. O que importa aqui \u00e9 perceber que esse gozo legalista pode justificar todo o tipo de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desejar\u00a0erradicar a\u00a0picha\u00e7\u00e3o em nome da propriedade privada e do patrim\u00f4nio p\u00fablico exigiria, antes, considerar o modo como essa manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9, ela pr\u00f3pria, uma resposta mais ou menos espont\u00e2nea \u00e0 priva\u00e7\u00e3o da paisagem e \u00e0 patrimonializa\u00e7\u00e3o dos bens p\u00fablicos. Um monumento \u00e9 importante pela mem\u00f3ria que agencia e n\u00e3o apenas pelo investimento que foi feito. Por isso, t\u00e3o importante quanto proteg\u00ea-lo \u00e9 garantir que essa mem\u00f3ria permane\u00e7a leg\u00edvel e fa\u00e7a sentido para as pessoas. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 natural que o Duque de Caxias se torne banheiro p\u00fablico, como insinuou <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/80anos\/tempos_cruciais-02a.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a cr\u00f4nica que levou Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria \u00e0 pris\u00e3o<\/a>, nos tempos da ditadura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobre a picha\u00e7\u00e3o como arte<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO pixo n\u00e3o \u00e9 Arte. A Arte \u00e9 sublime, pertence ao Olimpo social cuja popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica n\u00e3o possui ticket de entrada. O pixo \u00e9 uma contra-arte, contra-est\u00e9tica, contra-cosm\u00e9tica social, n\u00e3o \u00e9 feito para ser agrad\u00e1vel\u201d, <a href=\"http:\/\/paragrafo2.com.br\/2017\/01\/19\/a-pixacao-nao-e-arte-e-nao-e-para-ser\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" class=\"broken_link\">escreveu recentemente a pesquisadora Andy Jankowski<\/a>.<\/p>\n<p>A picha\u00e7\u00e3o pode estar permeada de valores est\u00e9ticos, mas n\u00e3o \u00e9 arte no sentido estrito do termo. S\u00f3 pode ser arte dentro de uma perspectiva alargada desse conceito que permite chamar de arte um jarro usado para transportar \u00f3leo, a imagem de um santo numa igreja, os movimentos de um atleta, a fala de um professor.<\/p>\n<p>O grafite foi assimilado como arte a partir do esfor\u00e7o de alguns grafiteiros, assim como das institui\u00e7\u00f5es de arte, aproveitando-se de uma identifica\u00e7\u00e3o que essa produ\u00e7\u00e3o mant\u00e9m com a tradi\u00e7\u00e3o da pintura. Isso deu ao grafite uma especificidade com rela\u00e7\u00e3o ao &#8220;pixo&#8221; que n\u00e3o existe\u00a0claramente em outros pa\u00edses do mundo. Mesmo assim, o\u00a0grafite p\u00f4de ser assimilado pelo museu, assim como embalagens de produtos ou cartazes pol\u00edticos tamb\u00e9m puderam aparecer em suas paredes. Tamb\u00e9m pode existir grafite feito especialmente para a galeria, do mesmo modo que\u00a0um artista pode produzir esculturas que tem forma de jarros. Mas grafites, embalagens e jarros devem continuar cumprindo seus pap\u00e9is no mundo antes e al\u00e9m de serem tratados como arte. Caso contr\u00e1rio, ser\u00e3o reduzidos a algum g\u00eanero e a uma tradi\u00e7\u00e3o da arte pouco comprometida com a raz\u00e3o de sua exist\u00eancia no mundo.<\/p>\n<p>Menos do que desmerecer o grafite ou a picha\u00e7\u00e3o, isso significa apenas reconhecer os limites da arte. \u00c9 curioso que produtores de coisas v\u00e1rias reivindicam sua entrada nos museus, na mesma medida em que muitos artistas passam a considerar as paredes dos espa\u00e7os expositivos insuficientes para os sentidos que suas a\u00e7\u00f5es almejam. Os espa\u00e7os e as linguagens da arte n\u00e3o resolvem todos os problemas do mundo, nem mesmo os problemas de ordem est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Quando um museu ou galeria acolhe o grafite ou a picha\u00e7\u00e3o, ela pode estar respondendo \u00e0 pergunta \u2013 sobre ser ou n\u00e3o ser arte \u2013 com o poder de sua ben\u00e7\u00e3o ou, ao contr\u00e1rio, pode estar repensando sua voca\u00e7\u00e3o, abrindo suas narrativas a outras disciplinas al\u00e9m da hist\u00f3ria da arte, tornando-se mais perme\u00e1vel ao mundo exterior, despindo-se de sua autoridade, desmontando a solenidade de seus espa\u00e7os e de sua abordagem. Mesmo assim, esse di\u00e1logo responde mais aos problemas do museu do que aos dos pichadores.<\/p>\n<p>V\u00e1rios autores \u2013 Regis Debray, Hans Belting, Didi-Huberman e Arthur Danto \u2013 sugerem que a Hist\u00f3ria da Arte acaba por distorcer o sentido de uma parte significativa dos objetos que foram parar dentro de suas narrativas e tamb\u00e9m dentro dos museus de arte. E essa disciplina, assim como essa institui\u00e7\u00e3o, segue sem dar conta de boa parte das imagens produzidas na contemporaneidade. Para Belting, a hist\u00f3ria da arte n\u00e3o \u00e9 mais que um cap\u00edtulo de uma hist\u00f3ria mais ampla das imagens, que diz respeito a um objeto de estudo que passou a existir em algum momento da era moderna e que j\u00e1 come\u00e7a a perder de novo seu contorno. A picha\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das formas de express\u00e3o que pertence \u00e0 cultura das imagens, deve merecer uma abordagem antropol\u00f3gica como fen\u00f4meno da cultura contempor\u00e2nea. Ela n\u00e3o precisa ser um subcap\u00edtulo desse cap\u00edtulo que \u00e9 a hist\u00f3ria da arte. A palavra \u201ccultura\u201d n\u00e3o se refere aqui \u00e0s pr\u00e1ticas eruditas, mas \u00e0 teia de sentidos que uma sociedade projeta nas coisas. Dizer que que picha\u00e7\u00e3o \u00e9 cultura n\u00e3o \u00e9 reivindicar para ela um lugar entre as coisas solenes da vida: jogos de azar, briga de moleques na rua, soltar bal\u00e3o nas festas juninas podem fazer parte de uma cultura, o que n\u00e3o significa que esses h\u00e1bitos devam ser cultuados como arte.<\/p>\n<p>Alguns ignoram a picha\u00e7\u00e3o, ou veem nela rabiscos aleat\u00f3rios e sem sentido, ou simplesmente a odeiam porque a consideram uma forma de vandalismo. N\u00e3o \u00e9 por isso que ela n\u00e3o ser\u00e1 arte. Outros dedicam a ela certa aten\u00e7\u00e3o, gostam, encontram nela gestos habilidosos e expressivos, e estudam seus c\u00f3digos. N\u00e3o \u00e9 por isso que deveria ser arte. Nesse debate, a arte se torna uma selo de qualidade fornecido por um terceiro a partir de crit\u00e9rios um tanto distantes da experi\u00eancia que est\u00e1 em quest\u00e3o (tipo o InMetro certificando um escorregador sem precisar saber que \u00e9 o frio na barriga que faz dele um sucesso entre as crian\u00e7as).<\/p>\n<p>Como disse, n\u00e3o sou nem estudioso, nem apreciador\u00a0das picha\u00e7\u00f5es. Posso at\u00e9 mesmo supor que preferiria uma cidade sem elas, do mesmo modo ing\u00eanuo que preferiria um corpo sem dores e sem cicatrizes. Quando surge uma erup\u00e7\u00e3o na pele, \u00e9 preciso olhar para o corpo, muitas vezes para o corpo todo, para o lado de dentro, para saber de onde vieram. Se elas persistirem e se tornam cicatrizes, ser\u00e1 melhor pens\u00e1-las como parte de nossa hist\u00f3ria e de nossa identidade. Uma cicatriz bem resolvida vem sempre acompanhada do relato de uma experi\u00eancia que se teve. N\u00e3o de maquiagem.<\/p>\n<p>Picha\u00e7\u00e3o \u00e9 sintoma. S\u00f3 uma parte dela pode ser decodificada ou institucionalizada, porque ela n\u00e3o se resume sequer \u00e0quilo que o pichador \u201cquer dizer\u201d. Ela \u00e9 express\u00e3o de movimentos internos da pr\u00f3pria cidade e n\u00e3o pertence apenas aos sujeitos com os quais se possa negociar ou a quem se queira punir. O sintoma nunca \u00e9 em si o problema, \u00e9 a forma poss\u00edvel de gerir e comunicar uma tens\u00e3o ignorada pelas regras de um organismo, ou causada justamente por elas. A quest\u00e3o \u00e9: para onde vai um sintoma quando \u00e9 simplesmente recalcado? Normalmente, ele retorna mais doloroso, por vias menos compreens\u00edveis.<\/p>\n<div id=\"attachment_11615\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cinza.jpg\" data-size=\"1000x600\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11615\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11615\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cinza-674x404.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cinza-674x404.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cinza-360x216.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cinza-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cinza.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11615\" class=\"wp-caption-text\">Procura-se uma interven\u00e7\u00e3o para este post<\/p><\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Temos ouvido duas perguntas sobre a picha\u00e7\u00e3o: a picha\u00e7\u00e3o deve ser legalizada? 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