{"id":11459,"date":"2017-02-04T13:56:51","date_gmt":"2017-02-04T13:56:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11459"},"modified":"2017-02-06T22:34:02","modified_gmt":"2017-02-06T22:34:02","slug":"a-experiencia-da-revista-bondinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-experiencia-da-revista-bondinho\/","title":{"rendered":"A experi\u00eancia da Revista Bondinho"},"content":{"rendered":"<p>Sou \u201crevisteiro\u201d assumido e j\u00e1 declarei minha paix\u00e3o pelas revistas, principalmente por aquelas que fizeram hist\u00f3ria e hoje est\u00e3o quase esquecidas pelas novas gera\u00e7\u00f5es. Gostaria de recuperar um t\u00edtulo pouco conhecido cuja experi\u00eancia \u00e9 importante para entendermos algumas das articula\u00e7\u00f5es desencadeadas nos anos 1970 para a sobreviv\u00eancia do jornalismo s\u00e9rio e competente em plena ditadura. Trata-se da revista <em>Bondinho<\/em>, de periodicidade quinzenal, editada\u00a0 por Arte &amp; Comunica\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m editava a <em>Grilo<\/em>, de quadrinhos, e a <em>Revista de Fotografia<\/em>. Inicialmente <em>Bondinho<\/em> foi patrocinada pelo Grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar que a distribu\u00eda gratuitamente em suas lojas e supermercados.<\/p>\n<p>Mais uma vez, busco incluir na hist\u00f3ria da fotografia experi\u00eancias que nem sempre s\u00e3o consideradas relevantes pelo <em>mainstream<\/em>. A revista <em>Bondinho<\/em> foi criada por um grupo de jornalistas e fot\u00f3grafos, em sua maioria desligados da revista <em>Realidade<\/em>, da editora Abril, que teve seu per\u00edodo \u00e1ureo entre 1966 e 1968. A primeira edi\u00e7\u00e3o foi em novembro de 1970 e, at\u00e9 dezembro de 1971, foi bancada pela rede de supermercados. Pelo trabalho desenvolvido nesse per\u00edodo, recebeu o Pr\u00eamio Esso de Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Imprensa.<\/p>\n<p>A equipe era das mais brilhantes: Woille Guimar\u00e3es, Narciso Kalili, Roberto Freire, Mylton Severiano da Silva, S\u00e9rgio de Souza, Hamilton Almeida, Odil\u00e9a Toscano (editora de ilustra\u00e7\u00e3o), George Love e Cl\u00e1udia Andujar (editores de fotografia), Carlito Maia (Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas), entre muitos outros. A tiragem inicial foi de cem mil exemplares e sua equipe, incr\u00edvel e fora do comum, fazia uma revista tendo como refer\u00eancia o <em>new journalism<\/em> com textos liter\u00e1rios e reportagens baseadas na viv\u00eancia dos fatos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/libertacao_gay.jpg\" data-size=\"1000x1307\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-11475\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/libertacao_gay-360x471.jpg\" alt=\"\" width=\"303\" height=\"414\" \/><\/a>Com George Love e Cl\u00e1udia Andujar como editores de fotografia fica percept\u00edvel a presen\u00e7a qualitativa de fot\u00f3grafos experientes e de alguns jovens que come\u00e7avam a se destacar no mundo das imagens. Entre eles, Djalma Batista, que assina a pol\u00eamica capa e a mat\u00e9ria da primeira quinzena de dezembro de 1971 \u2013 \u201cMovimento de Liberta\u00e7\u00e3o Gay\u201d, tema pouco debatido naquele cen\u00e1rio imposto e controlado pela ditadura militar.<\/p>\n<p>Em julho de 1971, a revista produziu uma capa com o jovem \u00eddolo Roberto Carlos. A novidade fotogr\u00e1fica \u00e9 o conjunto de retratos do rei do ie-ie-ie feitos por ele mesmo, estimulado que foi por George Love. Ou seja, s\u00e3o autorretratos (<em>selfies)<\/em> realizados pelo cantor e compositor acompanhado de um belo texto assinado pelo psicanalista Roberto Freire. No p\u00e9 da p\u00e1gina pode-se ler \u201cDistribu\u00eddo exclusivamente nas lojas P\u00e3o de A\u00e7\u00facar \u2013 sirva-se\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Roberto-Carlos.jpg\" data-size=\"1200x528\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-11476\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Roberto-Carlos-674x297.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Roberto-Carlos-674x297.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Roberto-Carlos-360x158.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Roberto-Carlos-768x338.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Roberto-Carlos.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A id\u00e9ia desta mat\u00e9ria era publicar uma s\u00e9rie de cartas das f\u00e3s de Roberto Carlos. N\u00e3o falar propriamente sobre a pessoa ou\u00a0sobre o cantor, e sim da imagem que as admiradoras tinham dele. Diante disso, George Love convenceu o cantor a ficar diante de um espelho e clicar sua imagem. Depois de dois rolos de filme, ele ficou sozinho numa sala e, \u00e0 vontade, fez um terceiro filme buscando express\u00f5es bem diferentes daquelas que normalmente jornais e revistas publicavam. Roberto Freire registrou na <em>Revista de Fotografia<\/em> numero 3, de agosto de 1971, que neste terceiro rolo \u201cmudamos a t\u00e1tica e a posi\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, sugerindo-lhe que passasse a brincar consigo mesmo, at\u00e9 fazendo caretas se quisesse. Comentamos, inclusive, a famosa foto de Einstein que virou p\u00f4ster; o genial cientista com a l\u00edngua de fora. Foi a mais r\u00e1pida das sess\u00f5es. Roberto Carlos divertiu-se muito e pudemos perceber que algumas das caretas ele usava para brincar com o filho.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/JT-Bondinho.jpg\" data-size=\"1000x1304\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-11473\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/JT-Bondinho-360x469.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/JT-Bondinho-360x469.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/JT-Bondinho-768x1001.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/JT-Bondinho-674x879.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/JT-Bondinho.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A cada edi\u00e7\u00e3o a revista inovava. Outra experi\u00eancia in\u00e9dita na imprensa brasileira foi a invas\u00e3o de doze rep\u00f3rteres da revista <em>Bondinho<\/em> na reda\u00e7\u00e3o do <em>jornal da tarde<\/em> (tudo em caixa baixa pois tratava-se do \u201cfilho rebelde\u201d do jornal conservador <em>O Estado de S. Paulo<\/em>) em setembro de 1971. A capa, desenhada pelo saudoso e talentoso Murilo Felisberto, redator-chefe do <em>jornal da tarde<\/em>, mostra uma iniciativa incomum na imprensa brasileira \u2013 uma revista independente permanece 20 horas em outra reda\u00e7\u00e3o para descrever o processo de trabalho do emblem\u00e1tico jornal paulistano que circulou entre 1966 e 2012. Uma pauta quase impens\u00e1vel para os dias de hoje.<\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o do <em>Bondinho<\/em> chegou a ser frequentada por aproximadamente 80 pessoas que se encontravam temporariamente afastadas das reda\u00e7\u00f5es da grande imprensa, por uma s\u00e9rie de motivos pol\u00edticos. <em>Bondinho<\/em> sem nenhuma d\u00favida criou um novo espa\u00e7o para a esquerda brasileira associada \u00e0 contracultura n\u00e3o alienada. Sua tiragem alcan\u00e7ou 400 mil exemplares e isso levou a revista \u00e0s bancas, j\u00e1 sem o seu patrocinador principal. Em maio de 1972, ap\u00f3s treze edi\u00e7\u00f5es independentes, fechou suas portas porque n\u00e3o aguentou a a\u00e7\u00e3o da censura e a falta de anunciantes que poderiam ter patrocinado parcialmente a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, mesmo com a falta de investimento publicit\u00e1rio, suas edi\u00e7\u00f5es s\u00e3o memor\u00e1veis. Al\u00e9m de uma pagina\u00e7\u00e3o arrojada e pequenos ensaios fotogr\u00e1ficos a cada mat\u00e9ria, temos tamb\u00e9m a publica\u00e7\u00e3o de entrevistas que fizeram hist\u00f3ria no jornalismo do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Claro que temos que destacar o papel de George Love e Cl\u00e1udia Andujar que, sem d\u00favida, desempenharam com intelig\u00eancia e leveza a fun\u00e7\u00e3o de editores de fotografia do <em>Bondinho<\/em> e tamb\u00e9m da <em>Revista de Fotografia<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil.jpg\" data-size=\"1200x781\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-11474\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil-674x439.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil-674x439.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil-360x234.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil-768x500.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil-90x60.jpg 90w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/caetano_gil.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a>Recentemente, a Azougue Editorial publicou o livro \u201cEntrevistas da Bondinho\u201d, organizado por Sergio Cohn e Miguel Jost, que traz 34 destas entrevistas.\u00a0 Capas como a do Gilberto Gil (mat\u00e9ria assinada por David Zingg, entre outros) e a do Caetano Veloso (assinada por Walter Firmo) mostram a for\u00e7a da tem\u00e1tica independente e da imagem fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Foram 42 edi\u00e7\u00f5es entre novembro de 1970 e maio de 1972. A presen\u00e7a da fotografia na revista \u00e9 forte e merece nossa aten\u00e7\u00e3o. Afinal, o momento era de efervesc\u00eancia pol\u00edtica e cultural. A fotografia assume um papel relevante dentro desse cen\u00e1rio, j\u00e1 que as imagens veiculadas pela televis\u00e3o estavam amparadas e asseguradas mediante censura pr\u00e9via e cabia ao jornalismo impresso alternativo a explora\u00e7\u00e3o de um discurso visual mais contundente e provocativo.<\/p>\n<p>Por tudo isso torna-se necess\u00e1rio revisitar algumas publica\u00e7\u00f5es desse per\u00edodo, o <em>Bondinho<\/em> em particular, com um olhar mais cr\u00edtico para trazer \u00e0 superf\u00edcie a for\u00e7a e a autenticidade dessas experi\u00eancias que floresceram \u00e0 sombra da ditadura. Analisar os ensaios fotogr\u00e1ficos com todo seu poder contestat\u00f3rio, de inova\u00e7\u00e3o visual e inconformismo pol\u00edtico \u00e9 um saud\u00e1vel exerc\u00edcio de plena liberdade editorial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou \u201crevisteiro\u201d assumido e j\u00e1 declarei minha paix\u00e3o pelas revistas, principalmente por aquelas que fizeram hist\u00f3ria e hoje est\u00e3o quase esquecidas pelas novas gera\u00e7\u00f5es. Gostaria de recuperar um t\u00edtulo pouco conhecido cuja experi\u00eancia \u00e9 importante para entendermos algumas das articula\u00e7\u00f5es desencadeadas nos anos 1970 para a sobreviv\u00eancia do jornalismo s\u00e9rio e competente em plena ditadura. Trata-se da revista Bondinho, de periodicidade quinzenal, editada\u00a0 por Arte &amp; Comunica\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m editava a Grilo, de quadrinhos, e a Revista de Fotografia. 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