{"id":11415,"date":"2017-01-07T02:02:42","date_gmt":"2017-01-07T02:02:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/site\/?p=11415"},"modified":"2025-05-07T13:45:43","modified_gmt":"2025-05-07T13:45:43","slug":"morreu-john-berger","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/morreu-john-berger\/","title":{"rendered":"Morreu John Berger"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11423\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655.jpg\" data-size=\"1170x655\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11423\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-11423\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655-674x377.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655-674x377.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655-360x202.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655-768x430.jpg 768w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655-679x380.jpg 679w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/John-Berger-e1444651811558-1170x655.jpg 1170w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11423\" class=\"wp-caption-text\">John Berger por Jean Mohr<\/p><\/div>\n<p>Foi no primeiro dia \u00fatil do ano, 2 de janeiro, em Paris, aos 91 anos de idade. Dia \u00fatil por que? Dia \u00fatil para qu\u00ea? Para se contar uma hist\u00f3ria \u2012 essa provavelmente seria sua resposta \u2012, pois toda hist\u00f3ria come\u00e7a pelo fim (ou porque h\u00e1 um fim). E o fim \u00e9 sempre algu\u00e9m que morre, pois \u201cprecisamos dos mortos para reconhecer a n\u00f3s mesmos\u201d.\u00a0 Em um di\u00e1logo memor\u00e1vel com, Susan Sontag , ambos concordam que \u201ca morte de algu\u00e9m\u201d, de fato, \u201c\u00e9 sempre pretexto para se contar uma hist\u00f3ria.\u201d A conversa com Susan Sontag aconteceu em 1983. \u00c9 sobre literatura, mais precisamente sobre narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"John Berger and Susan Sontag   To Tell A Story 1983\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MoHCR8nshe8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Eles discordam sobre praticamente tudo, exceto sobre a necessidade de ouvir e compreender um ao outro.\u00a0 Os livros de John Berger (<i>Modos de Ver<\/i>), Susan Sontag (<i>Sobre a Fotografia)<\/i> e Roland Barthes <i>(A C\u00e2mara Clara) <\/i>foram traduzidos para o portugu\u00eas na mesma \u00e9poca. De uma hora para outra descobr\u00edamos que a fotografia podia ser pensada.<\/p>\n<p>John Berger era \u00fanico remanescente dessa gera\u00e7\u00e3o de pensadores da imagem que provinha da literatura, sem postos nas universidades, sem t\u00edtulos e carreiras disciplinares. Ele estudou pintura, mas trocou os pinc\u00e9is pela escrita porque sentia uma urg\u00eancia de dizer certas coisas. Escreveu ensaios, principalmente sobre arte, fic\u00e7\u00e3o e poesia. Criou programas para TV e roteiros para cinema. Sua obra-prima (isto \u00e9, aquilo que o tornou mundialmente conhecido) foi a s\u00e9rie de 4 epis\u00f3dios para BBC\u00a0<i>Ways of Seeing<\/i>. Foi em 1972, no tempo em que n\u00e3o havia internet ou canais a cabo. Tudo o que viemos a saber de Berger era de ler ou ouvir dizer. Hoje, \u00e9 s\u00f3 fazer uma busca no Youtube e est\u00e3o todos l\u00e1, desde o epis\u00f3dio 1.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"John Berger \/ Ways of Seeing , Episode 1 (1972)\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0pDE4VX_9Kk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Nunca tinha havido um programa de TV sobre arte como esse. E todos que foram feitos depois tinham de medir-se com ele. H\u00e1 frases nesse programa que jamais esqueci e \u00e9 curioso v\u00ea-las agora reproduzidas em alguns dos obitu\u00e1rios que foram publicados. Uma dessas frases \u201cOs Homens agem; as mulheres aparecem\u201d (no epis\u00f3dio 2) alimentou os debates em torno do tema do olhar masculino na arte a partir dos anos 1970 e 1980 <i>(\u201cHow we see women?\u201d<\/i>).\u00a0 Havia sempre uma intui\u00e7\u00e3o brilhante nos textos de Berger. Acontecia de repente, sem prepara\u00e7\u00e3o anterior, sem a lenta constru\u00e7\u00e3o dos argumentos. Em <i>\u201cWhy look at animals?\u201d,<\/i> a pergunta sobre as mudan\u00e7as nos modos como olhamos\u00a0 os animais ajudou a definir os contornos daquilo que, desde fins dos anos 1990, ganhou o nome de \u201cestudos animais\u201d ou a \u201cquest\u00e3o animal\u201d na arte, na literatura e na filosofia. Mas ser um vision\u00e1rio n\u00e3o lhe custava esfor\u00e7o. N\u00e3o era o resultado de um c\u00e1lculo, mas do exerc\u00edcio do olhar. Era uma \u201cclarivid\u00eancia\u201d cujo frescor buscava o olhar do outro (da crian\u00e7a, do campon\u00eas) para elaborar a partir da\u00ed uma cr\u00edtica que nada tinha de ing\u00eanua.<\/p>\n<p>Berger saiu da Inglaterra que considerava intoler\u00e1vel e foi viver em uma pequena vila no interior da Fran\u00e7a. L\u00e1 escreveu e criou hist\u00f3rias impressionantes \u2012 algumas com amigos fot\u00f3grafos, como o su\u00ed\u00e7o Jean Mohr \u2012, t\u00e3o distantes da reportagem quanto pr\u00f3ximas da verdade, como <i>A Seventh Man<\/i>, de 1976, sobre imigra\u00e7\u00e3o. Mas se algum de voc\u00eas quiser dedicar a Berger apenas uma hora, h\u00e1 esse document\u00e1rio de Cherie Dvor\u00e1k, feito no ano passado, logo ap\u00f3s o escritor ter sido operado de catarata: <i>The Art of Looking.<\/i><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_IeBcecwcQw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Aqui ele conta um sonho sobre a vis\u00e3o. Nesse sonho podia entrar dentro das coisas que via, mas depois que acordava, n\u00e3o sabia mais como entrar dentro das coisas. O que resta, ent\u00e3o, desse despertar, desse despertar em que habitam tanto ele como a coisa vista e seu leitor?\u00a0 Uma cumplicidade, talvez. Acredito que poucos artistas e pouqu\u00edssimos cr\u00edticos (e John Berger era ambos) tenham confiado tanto na cumplicidade, tenham operado tantas formas de coopera\u00e7\u00e3o na TV, no Cinema, na Literatura, na fotografia e no desenho (que ele nunca abandonou). Escrever para ele (e tudo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, era para Berger uma escrita) era participar de uma \u201cconspira\u00e7\u00e3o\u201d \u2012 \u201cuma conspira\u00e7\u00e3o entre \u00f3rf\u00e3os que trocam piscadelas\u201d.<\/p>\n<p>Na conversa com Susan Sontag que mencionei acima, Berger come\u00e7a dizendo que contar uma hist\u00f3ria \u00e9 \u201cabrir um espa\u00e7o\u201d (a famosa roda de conversa) e \u201cdar abrigo\u201d. Uma de suas \u00faltimas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas foi uma confer\u00eancia na Biblioteca Brit\u00e2nica, em fins de 2015. O tema era seu livro, de 1975, <i>A Seventh Man. <\/i>Algu\u00e9m da plateia perguntou sua opini\u00e3o sobre esse \u201cgrande movimento de pessoas pelo mundo\u201d. Ele levou as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a, refletiu um pouco, e disse: \u201cTenho pensado na responsabilidade do narrador ser hospitaleiro.\u201d\u00a0 Esse escritor que j\u00e1 havia sido ridicularizado por supostamente ser o \u00faltimo intelectual marxista do Reino Unido, havia escolhido muito bem suas palavras. Ele conclu\u00edra h\u00e1 muito tempo que n\u00e3o podia haver nada mais revolucion\u00e1rio, nem mais corajoso em nossos dias\u00a0do que ser hospitaleiro. Uma hospitalidade que n\u00e3o diria respeito apenas aos personagens e aos objetos da narrativa, mas deveria necessariamente incluir o leitor.<\/p>\n<p>Que tremendo desafio para a fotografia e para os fot\u00f3grafos que passaram tanto tempo aprendendo a ser incisivos, argutos, agudos, imediatos, provocativos. Pode nossa fotografia, uma fotografia, ser \u201chospitaleira\u201d? Na medida em que pensamos, por um minuto que seja, na responsabilidade que essa pergunta encerra, reverenciamos John Berger.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no primeiro dia \u00fatil do ano, 2 de janeiro, em Paris, aos 91 anos de idade. Dia \u00fatil por que? Dia \u00fatil para qu\u00ea? Para se contar uma hist\u00f3ria \u2012 essa provavelmente seria sua resposta \u2012, pois toda hist\u00f3ria come\u00e7a pelo fim (ou porque h\u00e1 um fim). 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