{"id":1100,"date":"2010-09-19T16:30:21","date_gmt":"2010-09-19T16:30:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1100"},"modified":"2016-05-28T14:29:54","modified_gmt":"2016-05-28T14:29:54","slug":"muita-fotografia-e-video-na-bienal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/muita-fotografia-e-video-na-bienal\/","title":{"rendered":"Muita fotografia e v\u00eddeo na Bienal"},"content":{"rendered":"<p>Fui procurar saber o que haveria de fotografia na 29a Bienal de S\u00e3o Paulo:  Guy Veloso, Jonathas de Andrade, Rochelle Costi, Rosangela Renn\u00f3, Miguel Rio Branco, Alice Miceli, Alfredo Jaar, Nan Goldin s\u00e3o nomes que consigo identificar na <a href=\"http:\/\/www.fbsp.org.br\/29_bienal_participantes.html\" target=\"_blank\">lista oficial de participantes<\/a>. Certamente, h\u00e1 outros fot\u00f3grafos que n\u00e3o conhe\u00e7o, e artistas menos \u00f3bvios que eventualmente podem se aproximar dessa linguagem.<\/p>\n<div id=\"attachment_1126\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1126\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1126\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/guyveloso001-487x215.jpg\" alt=\"Guy Veloso. Da s\u00e9ire &quot;Penitentes&quot;, que ser\u00e1 mostrada na Bienal.\" width=\"487\" height=\"215\" \/><p id=\"caption-attachment-1126\" class=\"wp-caption-text\">Guy Veloso. Da s\u00e9ire &quot;Penitentes&quot;, que ser\u00e1 mostrada na Bienal.<\/p><\/div>\n<p>J\u00e1 se insinuou que a intensa presen\u00e7a da fotografia e do v\u00eddeo nas Bienais coincidia com a escassez de obras consagradas e com o fim dos \u201cn\u00facleos hist\u00f3ricos\u201d, sintomas de um empobrecimento do evento. Mas \u00e9 f\u00e1cil constatar que essas linguagens conquistaram seu lugar nos espa\u00e7os e debates dedicados \u00e0 arte contempor\u00e2nea em todo o mundo.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos investir no argumento de que foram superados os preconceitos hist\u00f3ricos que emperravam o reconhecimento da fotografia como forma leg\u00edtima de arte. Mas vale a pena refletir sobre o que pode haver de verdadeiro por tr\u00e1s desse suposto \u201cempobrecimento\u201d. De verdadeiro, e n\u00e3o necessariamente de negativo.<\/p>\n<p>Acredito que essa presen\u00e7a da fotografia tenha sim algo a ver com o desejo dos artistas e principalmente dos curadores de dialogar com a cultura de massa, de aproximar a arte de express\u00f5es que s\u00e3o familiares ao p\u00fablico, de oferecer alternativas para a ideia arcaica de \u201cg\u00eanio\u201d, de deslocar o valor do objeto para o conceito. Essas s\u00e3o v\u00e1rias formas de falar da mesma coisa:  o embate que arte contempor\u00e2nea estabelece com tudo aquilo \u201cauratiza\u201d a obra. Como percebeu Benjamin, coube exatamente \u00e0 fotografia e ao cinema a tarefa de confrontar pela primeira vez a arte com essa quest\u00e3o, que foi tamb\u00e9m colocada por outros fen\u00f4menos tipicos do s\u00e9culo XX, os <em>ready mades<\/em>, as tend\u00eancias <em>pop<\/em>, a <em>arte desmaterializada<\/em>. Natural que a fotografia esteja presente no momento em que os artistas e curadores decidem aprofundar esse debate.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.bresserpereira.org.br\/Terceiros\/2010\/10.03.A pouca realidade.pdf\" target=\"_blank\">Ferreira Gullar publicou h\u00e1 alguns meses em sua coluna, na Folha de S. Paulo<\/a> (&#8220;A pouca realidade&#8221;, 07\/03\/2010), uma cr\u00edtica que aponta outra forma de empobrecimento, n\u00e3o do objeto art\u00edstico em si, mas do sentido que ele \u00e9 capaz de produzir. O vil\u00e3o \u00e9 um tipo de fotografia, de cinema e de v\u00eddeo que ele imagina invadir o espa\u00e7o da Bienal. Diz ele:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Leio que a pr\u00f3xima Bienal de S\u00e3o Paulo ser\u00e1 tomada por filmes, fotografias e videoinstala\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o ser\u00e3o filmes de fic\u00e7\u00e3o, mas filmes que tratam da realidade pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social. Essa not\u00edcia veio ajustar-se a uma leitura que tenho feito do rumo tomado pelas artes pl\u00e1sticas, segundo a qual tudo o que nelas era fantasia foi substitu\u00eddo pela realidade. (\u2026) Ao substituir as significa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas pela exposi\u00e7\u00e3o pura e simples dos fen\u00f4menos reais, abre-se m\u00e3o da capacidade humana de criar um universo imagin\u00e1rio que, durante mil\u00eanios, contribuiu para fazer de n\u00f3s seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se \u00e0 experi\u00eancia do mundo material.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Ele parte provalvelmente a uma <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ilustrada\/ult90u684237.shtml\">reportagem de Silas Marti<\/a>, publicada no mesmo jornal (25\/01). Gullar retomou a discuss\u00e3o (&#8220;A pouca realidade 2&#8221;,\u00a021\/03), respondendo a uma manifesta\u00e7\u00e3o da curadoria da Bienal que, segundo ele, concordava com sua \u201ctese de que a arte existe porque a realidade n\u00e3o nos basta\u201d. Mas a limita\u00e7\u00e3o de algumas linguagens lhe parece incontorn\u00e1vel:  \u201cSe \u00e9 assim, tanto melhor. Mas por que faz\u00ea-lo por meio do cinema se a Bienal \u00e9 de artes pl\u00e1sticas?\u201d<\/p>\n<p>Interessante como o artigo de Gullar tem afinidades com a famosa <a href=\"http:\/\/www.entler.com.br\/textos\/baudelaire2.html\" target=\"_blank\">cr\u00edtica de Baudelaire ao Salon de 1859<\/a>. Alguns trechos mais violentos contra a fotografia j\u00e1 s\u00e3o bem conhecidos, vejamos apenas o par\u00e1grafo final do texto:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Dia a dia, a arte perde o respeito por si mesma, se prosterna diante da realidade exterior, e o pintor se torna cada vez mais inclinado a pintar, n\u00e3o o que sonha, mas o que v\u00ea. Entretanto, \u00e9 uma felicidade sonhar, \u00e9 uma gl\u00f3ria exprimir o que se sonha, mas o que direi? Voc\u00ea ainda conhece essa felicidade? Afirmar\u00e1 o observador de boa f\u00e9 que a invas\u00e3o da fotografia e a grande loucura industrial n\u00e3o estejam ligadas a esse resultado deplor\u00e1vel? Ser\u00e1 poss\u00edvel supor que um povo, cujos olhos se habituaram a considerar os resultados de uma ci\u00eancia material como produtos do belo, n\u00e3o ter\u00e1, ao largo de certo tempo, particularmente diminu\u00edda sua faculdade de julgar e de sentir o que h\u00e1 de mais et\u00e9reo e de mais imaterial?&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Esses s\u00e3o dois cr\u00edticos e poetas respeit\u00e1veis, n\u00e3o podemos simplesmente desqualificar suas opini\u00f5es. O temor que manifestam tem fundamento: realidade e arte s\u00e3o coisas distintas. O que cabe \u00e9 perguntar a que exatamente se dirigem suas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Que fotografia \u00e9 essa que pode ser entendida como \u201cexposi\u00e7\u00e3o pura e simples dos fen\u00f4menos reais\u201d? Esse sim foi um \u201csonho\u201d que a ci\u00eancia positivista produziu, e que a primeira propaganda da fotografia ingenuamente replicou.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 muito mais um discurso equivocado sobre a fotografia do que uma escolha feita pelos artistas. A diferen\u00e7a \u00e9 que, na \u00e9poca de Baudelaire, esse discurso era hegem\u00f4nico, na de Gullar, se ainda sobrevive (ele d\u00e1 exemplos no segundo texto), j\u00e1 n\u00e3o deveria ser levado t\u00e3o a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Se de fato a fotografia, o cinema e o video se fazem cada vez mais presentes nos espa\u00e7os de arte \u00e9 exatamente porque j\u00e1 se constatou o fracasso dessas linguagens como \u201creprodu\u00e7\u00e3o do real\u201d. J\u00e1 n\u00e3o precisamos da ret\u00f3rica did\u00e1tica da \u201cfotografia constru\u00edda\u201d para perceber que a mais documental das imagens n\u00e3o escapa da condi\u00e7\u00e3o de \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontramos em textos posteriores de Baudelaire manifesta\u00e7\u00f5es contra a fotografia como essa de 1859. Ao contr\u00e1rio, sabemos da admira\u00e7\u00e3o e respeito que cultivou pelo trabalho de fot\u00f3grafos como Etienne Carjat e Nadar, que se tornaram seus amigos. Isso leva a crer que Baudelaire teve a oportunidade de vencer seus temores e de compreender melhor os potenciais da fotografia. \u00c9 surpreendente ter que voltar ao assunto um s\u00e9culo e meio depois.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem a obriga\u00e7\u00e3o de gostar da fotografia. Mas se \u00e9 para question\u00e1-la, que seja por aquilo que ela pode efetivamente ser. N\u00e3o pela sua suposta coincid\u00eancia com a realidade, coisa que, por mais que se tenha tentado, ela jamais alcan\u00e7ar\u00e1.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Textos na \u00edntegra:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.bresserpereira.org.br\/Terceiros\/2010\/10.03.A%20pouca%20realidade.pdf\" target=\"_blank\">A pouca realidade 1 e 2, de Ferreira Gullar<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.entler.com.br\/textos\/baudelaire2.html\" target=\"_blank\">O p\u00fablico moderno e a fotografia, de Charles Baudelaire<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui procurar saber o que haveria de fotografia na 29a Bienal de S\u00e3o Paulo: Guy Veloso, Jonathas de Andrade, Rochelle Costi, Rosangela Renn\u00f3, Miguel Rio Branco, Alice Miceli, Alfredo Jaar, Nan Goldin s\u00e3o nomes que consigo identificar na lista oficial de participantes. Certamente, h\u00e1 outros fot\u00f3grafos que n\u00e3o conhe\u00e7o, e artistas menos \u00f3bvios que eventualmente podem se aproximar dessa linguagem. J\u00e1 se insinuou que a intensa presen\u00e7a da fotografia e do v\u00eddeo nas Bienais coincidia com a escassez de obras consagradas e com o fim dos \u201cn\u00facleos hist\u00f3ricos\u201d, sintomas de um empobrecimento do evento. 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