{"id":1057,"date":"2010-09-07T17:17:32","date_gmt":"2010-09-07T17:17:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1057"},"modified":"2016-05-28T14:30:02","modified_gmt":"2016-05-28T14:30:02","slug":"a-fotografia-segundo-jesus-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-segundo-jesus-cristo\/","title":{"rendered":"A fotografia segundo Jesus Cristo"},"content":{"rendered":"<p>Nesse fim de semana, tivemos o Intercom em Caixas do Sul. Houve algumas aus\u00eancias,\u00a0 como Fernando de Tacca, Cl\u00e1udia Linhares e meu parceiro Rubens Fernandes Junior. Em compensa\u00e7\u00e3o, chegaram novos integrantes, como <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/queiroga\/\" target=\"_blank\">Eduardo Queiroga<\/a> e <a href=\"http:\/\/dobrasvisuais.wordpress.com\/\">L\u00edvia Aquino<\/a>.\u00a0O trabalho que apresentei nasceu de um post para o Ic\u00f4nica, que nunca foi publicado porque ficou grande (e talvez estranho) demais. A\u00ed vai um resumo:<\/p>\n<p><strong>Acheiropoiesis: <\/strong><strong>sobreviv\u00eancia do valor de culto na imagem t\u00e9cnica<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p>O cristianismo passou s\u00e9culos discutindo se era ou n\u00e3o leg\u00edtimo representar Deus por meio da imagem. Dentre toda a arte que produziu, um tipo de imagem-rel\u00edquia parecia mais competente do que as outras para essa tarefa, aquela que foi chamada de \u201cacheiropoietos\u201d (ou \u201cachiropita&#8221;, numa grafia italiana). Literalmente, essa palavra grega se refere a uma imagem que n\u00e3o foi feita pela m\u00e3o do homem (a=n\u00e3o; kheir=m\u00e3o; poiesis=fazer). Ou seja, trata-se a uma representa\u00e7\u00e3o que supostamente emana de Deus, impregnada de sua pr\u00f3pria subst\u00e2ncia.<\/p>\n<div id=\"attachment_1060\" style=\"width: 214px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1060\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1060  \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/Abgar-s\u00e9c.X-487x775.jpg\" alt=\"Representa\u00e7\u00e3o do rei Abgar recebendo um acheiropoietos de Cristo, pintura do s\u00e9c. X.\" width=\"204\" height=\"326\" \/><p id=\"caption-attachment-1060\" class=\"wp-caption-text\">Representa\u00e7\u00e3o do rei Abgar recebendo um acheiropoietos de Cristo, pintura do s\u00e9c. X.<\/p><\/div>\n<p>Algumas lendas crist\u00e3s apontam para essa situa\u00e7\u00e3o: at\u00e9 desaparecer no final do s\u00e9culo XVIII, cultuava-se na Europa uma imagem que Cristo teria feito aparecer num tecido para ser enviada ao Rei Abgar de Edessa, j\u00e1 que seu brilho ofuscava a vis\u00e3o do pintor que deveria retrat\u00e1-lo; pelo menos duas imagens na It\u00e1lia (uma no Vaticano e outra em Manoppello) s\u00e3o reivindicadas por alguns de seus devotos com sendo o pano que Ver\u00f4nica usou para enxugar o rosto de Cristo no Calv\u00e1rio (h\u00e1 a hip\u00f3tese de que o nome Ver\u00f4nica seja oriundo de \u201cVero Icon\u201d: verdadeira imagem); por fim, uma das mais comoventes rel\u00edquias do cristianimso, o Sud\u00e1rio de Turim, mortalha que teria envolvido Cristo em seu sepultamento, cuja imagem teria sido revelada com mais clareza, gra\u00e7as a uma fotografia do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil intuir a liga\u00e7\u00e3o entre a fotografia e esse tipo de imagem sagrada, pois h\u00e1 uma grande proximidade entre o que os te\u00f3logos medievais chamavam de \u201cimagem consubstancial\u201d e o que nossa semi\u00f3tica contempor\u00e2nea chama de \u201c\u00edndice\u201d. Barthes foi provavelmente o primeiro a explicitar essa rela\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A fotografia sempre me espanta, com um espanto que dura e se renova, inesgotavelmente. Talvez esse espanto, essa teimosia, mergulhe na subst\u00e2ncia religiosa de que sou forjado; nada a fazer: a Fotografia tem alguma coisa a ver com a ressurrei\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se pode dizer dela o que diziam os bizantinos da imagem do Cristo impregnada no Sud\u00e1rio, isto \u00e9, que ela n\u00e3o \u00e9 feita pela m\u00e3o do homem, <em>acheiropoietos<\/em>?&#8221; (<em>A c\u00e2mara clara<\/em>).<\/p><\/blockquote>\n<p>Com inspira\u00e7\u00e3o em Barthes, um pequeno e denso texto de Georges Didi-Huberman, \u201cO \u00edndice da chaga ausente. Monografia de uma mancha\u201d (<em><a href=\"http:\/\/http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/scripts\/cultura\/resenha\/resenha.asp?nitem=2284358&amp;sid=0187602151297753085865711&amp;k5=1D5263C8&amp;uid=\" target=\"_blank\">L\u2019image ouverte<\/a><\/em>), retoma a liga\u00e7\u00e3o entre o Sud\u00e1rio e a fotografia. A partir de Barthes e Didi-Huberman, Philippe Dubois tamb\u00e9m se aproxima desse tema no ensaio \u201cO corpo e seus Fantasmas\u201d(<em>O ato fotogr\u00e1fico<\/em>).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que pensar a fotografia como \u201cimagem n\u00e3o feita pela m\u00e3o do homem\u201d significa retomar um equ\u00edvoco propagado desde o s\u00e9culo XIX. N\u00e3o \u00e9 preciso voltar a isso. A quest\u00e3o que coloco \u00e9: quando buscamos sentir na fotografia a presen\u00e7a de uma \u201csubst\u00e2ncia\u201d emanada do objeto representado, n\u00e3o repetimos as mesmas expectativas que os crist\u00e3os depositam no acheiropoietos? Em outras palavras, ser\u00e1 que n\u00e3o sobrevivem nos rituais que praticamos diante das imagens t\u00e9cnicas res\u00edduos de um olhar m\u00edstico aparentemente sepultado pela modernidade?<\/p>\n<p>O que buscamos n\u00e3o \u00e9 tanto um \u201csignificado\u201d presente na fotografia, mas aquilo que Didi-Huberman chamou de \u201csintoma\u201d, uma fissura que surge na imagem e que escapa \u00e0s determina\u00e7\u00f5es culturais que normalmente o historiador da arte busca. No final das contas, alguns gestos s\u00e3o reafirmados pela pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o que visava neg\u00e1-los: com todas as rupturas trazidas pelo Renascimento, a perspectiva ainda traz para a pintura as expectativas de que a natureza ofere\u00e7a um m\u00e9todo para sua pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o. Ou seja, o que se deseja ainda \u00e9 uma imagem espont\u00e2nea, e a fotografia (o \u201cL\u00e1pis da Natureza\u201d) \u00e9 o \u00e1pice dessa busca, uma esp\u00e9cie de acheiropoiesis racionalizada.<\/p>\n<p>Esse res\u00edduo m\u00edstico na fotografia sugere a sobreviv\u00eancia de um valor de culto exatamente nessa imagem que, conforme Benjamin, parecia super\u00e1-lo. Mas \u00e9 ele pr\u00f3prio quem nos fala da resist\u00eancia da uma \u201caura&#8221; na fotografia, sobretudo em certos retratos, cujo car\u00e1ter m\u00e1gico nem mesmo a pintura \u00e9 capaz de superar.<\/p>\n<p>O Sud\u00e1rio de Turim \u00e9 um lugar de encontro de uma pot\u00eancia religioso e uma pot\u00eancia cient\u00edfica. Mesmo para os mais devotos, as manchas trazidas por esse tecido nunca mostraram exatamente uma figura\u00e7\u00e3o de Cristo. Foi preciso aguardar que ele fosse fotografado por Secondo Pia, em 1898, para que se pudesse ver no negativo a imagem que hoje conhecemos do corpo de Cristo. Trata-se de uma dupla revela\u00e7\u00e3o, no sentido religioso e t\u00e9cnico ao mesmo tempo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1065\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1065\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1065\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/Screen-shot-2010-09-07-at-20.48.13-487x395.png\" alt=\"Negativo fotogr\u00e1fico do Sud\u00e1rio de Turim (1898), e autorretrato de Secondo Pia (1890).\" width=\"487\" height=\"395\" \/><p id=\"caption-attachment-1065\" class=\"wp-caption-text\">Negativo fotogr\u00e1fico do Sud\u00e1rio de Turim (1898), e autorretrato de Secondo Pia (1890).<\/p><\/div>\n<p>Nada disso explica o que \u00e9 a fotografia. Mas talvez ajude a entender o desejo de \u201cressurrei\u00e7\u00e3o\u201d que ainda depositamos em algumas imagens que mobilizam nossos afetos.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Em breve, devo publicar o texto completo na forma de artigo. Mas os trabalhos apresentados no Intercom 2010 podem ser encontrados no <a href=\"http:\/\/www.intercom.org.br\/papers\/nacionais\/2010\/lista_area_DT4-FO.htm\">site do evento<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse fim de semana, tivemos o Intercom em Caixas do Sul. Houve algumas aus\u00eancias,\u00a0 como Fernando de Tacca, Cl\u00e1udia Linhares e meu parceiro Rubens Fernandes Junior. Em compensa\u00e7\u00e3o, chegaram novos integrantes, como Eduardo Queiroga e L\u00edvia Aquino.\u00a0O trabalho que apresentei nasceu de um post para o Ic\u00f4nica, que nunca foi publicado porque ficou grande (e talvez estranho) demais. A\u00ed vai um resumo: Acheiropoiesis: sobreviv\u00eancia do valor de culto na imagem t\u00e9cnica O cristianismo passou s\u00e9culos discutindo se era ou n\u00e3o leg\u00edtimo representar Deus por meio da imagem. 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