{"id":1049,"date":"2010-08-29T21:01:26","date_gmt":"2010-08-29T21:01:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1049"},"modified":"2016-05-28T14:30:13","modified_gmt":"2016-05-28T14:30:13","slug":"invisibilidades-recalques-e-revelacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/invisibilidades-recalques-e-revelacoes\/","title":{"rendered":"Invisibilidades, recalques e revela\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Na semana passada, tivemos no Senac Consola\u00e7\u00e3o o evento <em>Est\u00e9tica do (In)vis\u00edvel<\/em>, com a presen\u00e7a de Evgen Bavcar. Ele realizou uma palestra e integrou a exposi\u00e7\u00e3o do projeto Alfabetiza\u00e7\u00e3o Visual, coordenado por Jo\u00e3o Kulcs\u00e1r, que envolve deficientes visuais num trabalho de arte-educa\u00e7\u00e3o com fotografia. Participei tamb\u00e9m da programa\u00e7\u00e3o num debate com Fernando Fogliano. A provoca\u00e7\u00e3o era falar do \u201cinvis\u00edvel na fotografia\u201d,\u00a0 a\u00ed vai (mais ou menos) o que foi a minha fala.<\/p>\n<div id=\"attachment_1051\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1051\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1051\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Jo\u00e3o-Maia-Passado-e-Presente-487x322.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Maia, Passado e Presente\" width=\"487\" height=\"322\" \/><p id=\"caption-attachment-1051\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Maia, Passado e Presente<\/p><\/div>\n<p><strong><br \/>\nO acaso como espa\u00e7o de descoberta de um olhar descentralizado<\/strong><\/p>\n<p>A fotografia est\u00e1 marcada por um potencial com o qual sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria lida um tanto mal: aperta-se um bot\u00e3o e uma imagem simplesmente \u201cacontece\u201d. Isso parece fazer da fotografia uma arte menor. Se eventualmente uma \u201ca imagem acontece\u201d \u00e9 exatamente por sua complexidade: al\u00e9m das inten\u00e7\u00f5es de um indiv\u00edduo, um universo de outras determina\u00e7\u00f5es participam dessa experi\u00eancia. Mas \u00e9 dif\u00edcil enxerg\u00e1-las, porque foram recalcadas pelo desejo de afirmar na fotografia uma no\u00e7\u00e3o um tanto egoc\u00eantrica de autoria. Como isso ocorreu?<\/p>\n<p>A primeira propaganda da fotografia, de fato, abusou ao prometer uma imagem feita exclusivamente pela natureza. Aqui, o pr\u00f3prio ser humano se tornou um aspecto invis\u00edvel da t\u00e9cnica. Para compensar o estrago feito por esse discurso, partimos para um caminho radicalmente oposto: tentamos afirmar a total submiss\u00e3o da imagem \u00e0 autoridade do olhar. Quando reivindicamos essa autoridade para o indiv\u00edduo, tornamos invis\u00edveis os movimentos da natureza e o pensamento da coletividade que participam da t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>N\u00e3o comecei a pensar sobre isso por causa de fotografias feitas por cegos, mas por causa de algumas imagens minhas. Muitas vezes me perguntavam sobre a raz\u00e3o que guiava algumas decis\u00f5es no momento da tomada, e eu simplesmente n\u00e3o tinha o que dizer. Meu problema n\u00e3o era ent\u00e3o a cegueira, mas a mudez que eu assumia diante dessas perguntas. Isso virou o meu mestrado, \u201cA fotografia e o acaso\u201d. E o que chamo de acaso \u00e9 o pr\u00f3prio universo de determina\u00e7\u00f5es que cruzam as decis\u00f5es de qualquer artista, situa\u00e7\u00e3o particularmente desconfort\u00e1vel no caso da fotografia, por conta de seus traumas hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Vale pontuar alguns desses aspectos recalcados na fotografia:<\/p>\n<p><strong>A natureza:<\/strong> por arrog\u00e2ncia, definimos a t\u00e9cnica como submiss\u00e3o da natureza, cujas for\u00e7as seriam colocadas a servi\u00e7o do homem. Apesar dos riscos assumidos pelos primeiros discursos sobre a fotografia, a natureza ainda t\u00eam seu papel na constru\u00e7\u00e3o da imagem. A fotografia n\u00e3o \u00e9 feita apesar das propriedades dos materiais (da luz, da lente, da prata ou das c\u00e9lulas sens\u00edveis&#8230;). A fotografia \u00e9 feita com eles. Nenhuma mat\u00e9ria \u00e9 neutra ou amorfa. Em qualquer arte, a pesquisa de materiais envolve uma esp\u00e9cie de jogo de perguntas e respostas feito com a natureza, para descobrir o que \u00e9 poss\u00edvel inventar por meio das qualidades que ela nos empresta.<\/p>\n<p><strong>O mundo diante da c\u00e2mera:<\/strong> mesmo para a mais constru\u00edda das fotografias, o mundo que se coloca diante da c\u00e2mera tamb\u00e9m n\u00e3o uma massa disforme que aguarda a manipula\u00e7\u00e3o do artista para ganhar algum sentido. Em particular, a fotografia lida com coisas que, antes da tomada, tem seu pr\u00f3prios movimentos e suas hist\u00f3rias, al\u00e9m daquelas que a fotografia lhes acrescenta. Nesse sentido, o fotografo \u00e9 uma esp\u00e9cie de <em>bricoleur<\/em> que faz convergir sua inten\u00e7\u00e3o com inten\u00e7\u00f5es preexistentes, que se apropria em seu discurso de sentidos j\u00e1 constru\u00eddos no mundo.<\/p>\n<p><strong>A cultura:<\/strong> a forma e o modo de funcionamento de um objeto t\u00e9cnico (seja a c\u00e2mera, o pincel, o arco e flecha) s\u00e3o moldados por expectativas e gestos dados ao longo de toda uma hist\u00f3ria. Se, quando apertamos o bot\u00e3o, uma imagem acontece \u00e9 exatamente porque as possibilidades do aparelho foram orientadas para a produ\u00e7\u00e3o dessa ordem. Nesse sentido, por mais que a decis\u00e3o final perten\u00e7a a um indiv\u00edduo, a coletividade sempre fala atrav\u00e9s de seu gesto. Curioso o tom de den\u00fancia que assumimos quando se trata de lembrar que a fotografia \u00e9 culturalmente codificada, como se fosse poss\u00edvel uma arte livre de par\u00e2metros.<\/p>\n<p>Particularmente, a obra de Bavcar ainda faz pensar em outras determina\u00e7\u00f5es que participam da fotografia:<\/p>\n<p><strong>O corpo:<\/strong> em grego, <em>aesthesis<\/em> diz \u00e9 conhecimento permitido pelos sentidos do corpo, qualquer um deles, ou todos eles. A primazia do olhar, sentido que melhor responde \u00e0 nosso desejo de racionaliza\u00e7\u00e3o, parece almejar uma <em>anestesia<\/em> (anula\u00e7\u00e3o da <em>aesthesis<\/em>) dos outros sentidos. Mesmo a pintura pode ser pensada como uma arte mais que visual (W. Mitchell: <a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=UN-mROr-XPwC&amp;pg=PA17&amp;lpg=PA17&amp;dq=%22No+existen+los+medios+visuales%22&amp;source=bl&amp;ots=X5XDseQ_St&amp;sig=ow4Wd1sHCykFuDEeDXPhZcAxa34&amp;hl=pt-BR&amp;ei=llF1TJ3GNsuOnwet0qWwBw&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=1&amp;ved=0CBUQ6AEwAA#v=onepage&amp;q=%22No%20existen%20los%20medios%20visuales%22&amp;f=false\">No existen m\u00e9dios visuales<\/a>). A <em>action painting<\/em> sublinhou o car\u00e1ter t\u00e1til e perform\u00e1tico que toda pintura talvez tenha; Duchamp rompeu com uma tradi\u00e7\u00e3o da arte que chamou de olfativa (pelo cheiro da terebentina que os pintores usam). Parte desse dialogo que um autor tem com os materiais, com a cultura, com o mundo \u00e9 mediado por sentidos que um pouco arbitrariamente s\u00e3o resumidos sob o nome de olhar (o que Bavcar chamou de <em>oculocentrismo<\/em>).<\/p>\n<p><strong>A vida pr\u00f3pria das imagens:<\/strong> assim como o mundo diante da c\u00e2mera tem uma hist\u00f3ria, a imagem que ela produz ter\u00e1 a sua. Se um artista dominasse totalmente sua imagem, uma vez pronta, ele n\u00e3o precisaria retornar a ela. Incomoda pensar como um fotografo cego v\u00ea suas imagens? Podemos inverter o problema:\u00a0 ser\u00e1 que algum artista viu um dia a totalidade de suas imagens? Uma obra sempre estar\u00e1 em dialogo com outros tantos discursos que a envolvem. \u00c9 s\u00f3 por isso que uma imagem ainda pode provocar surpresa, mesmo quando j\u00e1 foi vista tantas vezes, mesmo para aquele que a produziu.<\/p>\n<p>Quando se trata de pensar a fotografia feita por um cego, algumas quest\u00f5es s\u00e3o recorrentes: como ele pode ter o controle sobre a imagem que produz? Mais ainda, como ele pode checar se a imagem produzida coincide com suas intui\u00e7\u00f5es? Em sua fala, Bavcar deixou claro que seu trabalho \u00e9 mais o exerc\u00edcio de uma descoberta do que de uma certeza. E quando perguntado se a imagem que lhe descreviam coincidia com a que ele havia imaginado, a resposta foi curta:\u00a0 jamais! \u00c9 uma quest\u00e3o menor saber como um cego pode alcan\u00e7ar em seu trabalho o mesmo n\u00edvel de controle que tem um fotografo vidente. A grande quest\u00e3o \u00e9 como qualquer fotografo tem a\u00ed uma oportunidade de reaprender algo sobre as tantas determina\u00e7\u00f5es que s\u00e3o recalcadas pelo pretenso controle sobre suas imagens.<\/p>\n<div id=\"attachment_1050\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1050\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1050\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/bavcar-487x322.jpg\" alt=\"Evgen Bavcar, Imagem Quebrada.\" width=\"487\" height=\"322\" \/><p id=\"caption-attachment-1050\" class=\"wp-caption-text\">Evgen Bavcar, Imagem Quebrada.<\/p><\/div>\n<p>***<\/p>\n<p>Para quem ainda n\u00e3o passou por l\u00e1, sugiro uma visita ao <a href=\"http:\/\/dobrasvisuais.wordpress.com\/2010\/08\/20\/a-metafora-do-ver\/\">Dobras Visuais<\/a>, onde L\u00edvia Aquino traz tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o sobre o trabalho de Bavcar.<\/p>\n<p>No blog do <a href=\"http:\/\/www.forumfoto.org.br\/pt\/2010\/08\/fotografia-alem-da-arte-visual\/\">F\u00f3rum Latinoamericano de Fotografia<\/a>, comentamos TCC da mexicana Carolina Sep\u00falveda, que discute a fotografia feita por deficientes visuais.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Est\u00e9tica do (in)vis\u00edvel&#8221; segue at\u00e9 o dia 17\/09\/10, no Senac Lapa-Scipi\u00e3o (R. Scipi\u00e3o, 67 \u2013 Lapa).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada, tivemos no Senac Consola\u00e7\u00e3o o evento Est\u00e9tica do (In)vis\u00edvel, com a presen\u00e7a de Evgen Bavcar. Ele realizou uma palestra e integrou a exposi\u00e7\u00e3o do projeto Alfabetiza\u00e7\u00e3o Visual, coordenado por Jo\u00e3o Kulcs\u00e1r, que envolve deficientes visuais num trabalho de arte-educa\u00e7\u00e3o com fotografia. Participei tamb\u00e9m da programa\u00e7\u00e3o num debate com Fernando Fogliano. A provoca\u00e7\u00e3o era falar do \u201cinvis\u00edvel na fotografia\u201d,\u00a0 a\u00ed vai (mais ou menos) o que foi a minha fala. 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